18 de maio de 2010

Não gosto de mariquices, mas promulgo por causa da crise



Assim se pode resumir a declaração que o Presidente da República fez ontem à noite ao País.
Cavaco Silva deixou claro que não aprova a lei, que não gostou nada do processo que conduziu à sua aprovação, que também não ficou nada satisfeito com a resposta que recebeu do Tribunal Constitucional, que não gosta nada dos parlamentares e governantes que andam distraídos a tratar de modernices em vez de pensarem em défices, e crises, e depressões, e essas coisas todas que são realmente importantes.
Mas, uma vez que "eles" são assim, ele, que é um tipo responsável, promulga a lei para "eles" não perderem mais tempo com miudezas e se concentrarem a corrigir os disparates que fizeram.
Porque não seguiram os conselhos dele, sublinhe-se.
Porque, se tivessem seguido esses conselhos, até haveria espaço e tempo para discussões sobre mariquices e tudo!
Mas agora não há.
E, como não há, o Presidente promulga a lei que o obrigou a falar antes de jantar para não ter problemas de digestão.
Mas promulga com o estado de espírito que a frase final do seu discurso, absolutamente espantosa, deixa perceber - «A ética das responsabilidade tem de estar acima das convicções pessoais».
Cavaco Silva sabe que a promulgação da lei não lhe retirará votos junto do eleitorado que tradicionalmente o apoia porque esse eleitorado percebe que Cavaco foi obrigado a promulgar a lei para que não houvesse mais perda de tempo no tratamento das grandes questões.
Por via das dúvidas, Cavaco deixou bem claro que era disso mesmo que se tratava no seu discurso.
Mais, Cavaco espera que a promulgação da lei lhe permita ir buscar alguns votos a um eleitorado que não é tradicionalmente o seu.
Não se perde nada por tentar....
Pessoalmente, parece-me que há dois factos muito importantes a reter na declaração do Presidente da República:
- Em primeiro lugar, se o Presidente da República aproveita o horário nobre das televisões para criticar, ainda que veladamente, o Governo, isto num cenário pré-eleitoral, o que acontecerá no segundo mandato de Cavaco se Sócrates ainda for Primeiro-Ministro? As presidências abertas de Soares vão parecer brincadeira de meninos ao pé do que Cavaco vai fazer a Sócrates!
- Em segundo lugar, nunca pensei ouvir um Presidente da República, perante o País, dizer que não se importa de colocar as suas convicções na gaveta.
Presumivelmente, a favor de valores mais importantes (mais importantes que as próprias convicções? Que filosofia de vida mais estranha!).
Mas, em boa verdade, a favor de pura estratégia eleitoral.
Se ainda havia dúvidas que o Cavaco Silva que detestava política já não existe (terá existido alguma vez?!), essas terão ficado dissipadas de uma vez por todas ontem à noite.

2 comentários:

  1. Nem sei que lhe diga!
    Este país está uma verdadeira caixinha de surpresas. Das más, claro!

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  2. Cavaco Silva, que dizia odiar politiquices, está a revelar-se um mestre nessa arte, Isabel.

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