28 de setembro de 2018

O diário dela e o diário dele




BOM FIM-DE-SEMANA!

(Alargado aqui em Macau porque segunda e terça se comemora o Dia Nacional da China e o dia seguinte. O blogue volta ao vosso convívio na quarta-feira)

27 de setembro de 2018

Coisas que não entendo


O avançar da idade, as vivências acumuladas, iriam presumivelmente dando resposta a muitas das nossas questões e dúvidas.
Não é isso que sinto está a acontecer comigo.
À medida que envelheço parece que crescem as dúvidas, as incertezas, o espanto com coisas que vejo e não consigo entender.
É o caso do célebre Acórdão do Tribunal da Relação do Porto que considera de “ilicitude mediana”, resultante de “sedução mútua”, um caso de violação (sedução e violação não são conceitos que mutuamente se excluem como nos ensinaram Jonhatan Kaplan e Jodie Foster em The Accused??) de uma jovem que estava inconsciente numa casa de banho de uma discoteca.
Todos tinham bebido muito (quem é que nunca passou por isso?) e a jovem em causa, devido ao muito álcool que tinha ingerido, acabou por desfalecer.
Foi então violada por dois funcionários da discoteca em causa que se aproveitaram do seu estado de debilidade, da sua incapacidade de resistir, para a violarem cobardemente.
A minha formação humanista e jurídica ofendem-se ao ler a conclusão do Tribunal.
Ilicitude mediana? Quando a pessoa está incapaz de resistir? Não é exactamente ao contrário?
Até a lógica, que o meu mestre de Introdução ao Estudo do Direito (Prof. Castanheira Neves) nos ensinou que tem que estar sempre presente no Direito (é lógico que não se pode matar, roubar, violar,…), nos faz perceber que é especialmente agravada a ilicitude quando o ofendido é/está incapaz de reagir.
A jovem que foi violada, que vai ficar com este trauma para toda a vida, se tivesse possibilidade de resistir, pelo menos teria podido defender-se, pontapear os violadores em su sitio.
No estado em que estava foi pouco mais que uma boneca insuflável que os dois bandalhos que a violaram utilizaram.
E isto é que constitui “ilicitude mediana”??
Está visto que há mesmo coisas que não entendo.
Por muito que a idade avance e presumivelmente a sabedoria acumule.

Intemporais (134)

Um dos mais antigos instrumentos musicais electrónicos
Muita gente acreditava quer era uma voz que produzia aquele solo.
Ennio Morricone, "Once Upon a Time in the West"(solo de theremin, interpretado por Katica Illenyi).
O theremin é um dos mais antigos instrumentos musicais electrónicos, inventado em 1919 pelo russo Lev Sergeyevich Termen, consistindo de uma caixa electrónica com duas antenas, o instrumento tem a distinção de produzir música sem ser tocado. 
Na sua versão mais comum, o lado direito controla o tom da nota, variando a sua distância da antena vertical. A antena horizontal, em forma de laço, é usada para variar o volume de acordo com a sua distância a partir do lado esquerdo.


26 de setembro de 2018

NIMBY (Not In My BackYard)



A expressão NIMBY significa Not In My BackYard e é uma criação do genial George Carlin.
Com esta expressão George Carlin chamava a atenção para o egoísmo das pessoas que por tudo protestam mas em nada se dispõem a ajudar.
Se George Carlin fosse vivo, e vivesse uns dias em Macau, perceberia que, também por aqui, o fenómeno NIMBY se verifica muitas vezes.
Basta lembrar os recentes episódios com o depósito de matérias perigosas e com os galgos do Canídromo.
As matérias perigosas, os resíduos, não podem ser enviados para fora de Macau, não podem ficar a céu aberto, nas ruas, têm que ser armazenados em condições de segurança.
Até aqui todos de acordo, mas NIMBY (Not In My BackYard).
O mesmo com os galgos que ainda permanecem nas instalações do Canídromo.
Não podem ali ficar, têm que sair, tem que se desocupar o espaço, tem que se deixar os animais em boas condições de higiene e em segurança.
Mas NIMBY (Not in My Backyard).
A vida em sociedade exige-nos alguns sacrifícios, exige que abdiquemos de um pouco do nosso bem-estar pessoal a favor do bem-estar comum.
Gostaria de ter materiais perigosos armazenados ao lado de minha casa?
Não, obviamente que não.
Dezenas de animais a viver ao lado de minha casa?
Pois, provavelmente também não.
Mas tenho que perceber que um dos grandes problemas de Macau é a falta de espaço e que se calhar terei que fazer alguns sacrifícios pessoais para que o bem comum seja protegido.
George Carlin colocou a questão há muitos anos nos Estados Unidos.
Eu trago-a agora para Macau – vamos tentar moderar a mentalidade NIMBY, está bem?

"Likai-vos" uns aos outros (Anselmo Borges)


Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Vou constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação. Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...

Na era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso, ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro, esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a solidão.

Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá estudante. Havia uma salle d'accueil (sala de acolhimento), onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família... sempre com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: "Só lhe peço o favor de me ouvir e que me não interrompa", o que eu fiz. No fim de uma hora e tal, ele acabou e disse-me: "Não sabe quanto me ajudou, nunca o esquecerei." E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro dele.

A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e insultos e fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...

A questão é, a um dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real. Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola, Bailar con la Soledad, a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo, vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, dos vizinhos e dos conhecidos. Mesmo assim, tinha uma vida activa e popular no Facebook, onde contava com 3544 amigos e 361 seguidores, dando opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de Tenerife, a 1677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, tinha prevenido com razão: "Parece que o sucesso fundamental da proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as relações. "Estar conectado" é mais económico do que "estar relacionado", mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua conservação".

Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de likes e seguidores.., com as consequentes ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.

Há pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um dos artistas com mais êxito dos últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas que não o conheciam mas o odiavam. "Um só comentário é suficiente para me estragar o dia." Comenta o jesuíta: "A pressão amor-ódio nas redes é demasiado exigente para muitos, inclusive para quem é maioritariamente aceite."

No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena O'Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos, no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada para a aprovação, para que chovessem os likes... O preço, chegou a dizer, é "a tua vida e a tua autoestima".

A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida influencer - assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade, uma enorme quantidade de pessoas - suicidou-se. Chamava-se Celia Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular, com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à vida? O jesuíta resume: "A ficção de uma vida ideal enquanto na vida real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida construída apenas para aparentar. "Tudo é mentira", foram as últimas palavras da jovem no seu WhatsApp.

Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista Philosophie Magazine: "Likai-vos uns aos outros", ponde muitos likes (gostos) uns aos outros. Mas tende cuidado!
Padre e professor de Filosofia
in DN, 22 Setembro 2018

24 de setembro de 2018

Saber perdoar



Ninguém vai pra' frente se não abdicar do orgulho.
Aprendam com este exemplo:
'Ao aproximar-se do balcão da recepção de um hotel, um homem tem a sua atenção atraída por um barulho e, ao virar-se, esbarra com o cotovelo no seio de uma linda mulher.
Meio sem graça, meio envergonhado ele diz:
- Mil desculpas. Se o seu coração for tão macio como o seu seio, tenho a certeza de que me perdoará.
A mulher lisonjeada responde:
- E se tudo em você for duro como o seu cotovelo, o meu apartamento é o 114.'

ISTO É QUE É PERDÃO!


BOA SEMANA!
(Amanhã, feriado em Macau, Festa da Lua, não há blogue)

20 de setembro de 2018

Aluados


O Dicionário Priberam define aluado como “aquele que é influenciado pela Lua, lunático”.
Não era bem este o significado que era popularmente associado à palavra.
E essa vertente mais popular foi também acolhida no Dicionário Priberam (“que anda com o cio”).
Não sei se a segunda parte da definição se aplica a Yusaku Maezawa, o excêntrico bilionário japonês que será o primeiro turista espacial e que dará formalmente início à visão de Elon Musk quando criou a SpaceX.
Yusaku Maezawa, que fez fortuna com a venda de álbuns de música, primeiro, e depois com a venda de roupa online, quer agora viajar à Lua e levar consigo alguns artistas, que o próprio escolherá, de entre as várias formas de expressão e de entre os muitos que pessoalmente admira.
Elon Musk e Yusaku Maezawa acreditam firmemente que o turismo espacial é um dos negócios do futuro.
Será assim?
Se recuarmos alguns anos, veremos que muitos dos gadgets que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia (computador, telemóvel, iPad, ecrã táctil) apareceram em filmes ou séries de ficção científica sem que lhes prestássemos à época grande atenção.
Nada nos garante que os lunáticos, no duplo sentido de influenciados pela Lua e de excêntricos, Elon Musk e Yusaku Maezawa, não estejam realmente a abrir um novo capítulo na exploração espacial.
Uma exploração já não eminentemente com finalidade científica, mas sim com finalidade turística, de pura diversão.
Um divertimento à partida muito caro e que poderá fazer Elon Musk e Yusaku Maezawa passar de aluados, lunáticos, excêntricos, para visionários.

Intemporais (133)

19 de setembro de 2018

Hoje soube-me a pouco


Volto a Sérgio Godinho (nunca cansa!) para avaliar o outro Sérgio (Conceição) e a prestação do Futebol Clube do Porto (Porto) em Gelsenkirchen no primeiro jogo da equipa nesta edição da Liga dos Campeões  - não fiquei com um brilhozinho nos olhos, soube-me a pouco, mas ainda não estou a ficar louco.
Começar a Liga dos Campeões com um empate no campo do vice-campeão alemão, em teoria, até é um bom resultado.
Na prática, depois do jogo, fica-se pelo não é mau, sabe a pouco, não deixa um brilhozinho nos olhos.
O Porto foi em tudo superior, como afirmou Sérgio Conceição no final do jogo, menos no que era mais importante que fosse - o resultado final.
Ter mais posse de bola, mais remates, de pouco serve quando não se ganha.
Desperdiçar uma grande penalidade (o Porto tem que treinar mais estes lances porque já passou por alguns dissabores com desperdício de grandes penalidades), sofrer um golo de forma algo patética, inadmissível numa prova como a Liga dos Campeões, para acabar a empatar o jogo na conversão de nova grande penalidade, não é o suficiente para deixar o adepto louco, mas insisto que sabe a pouco e também não deixa o adepto com um brilhozinho nos olhos.
Com a vitória do Galatasaray no jogo com o Lokomotiv de Moscovo (3-0), reforça-se a ideia de um Grupo que, longe de ser dos teoricamente mais fortes, vai ser quase de certeza um dos mais equilibrados.
Mais uma razão para o empate do Porto saber a pouco, não deixar um brilhozinho nos olhos (a exibição do Porto também esteve longe de ser brilhante), mas ainda não deixar nenhum adepto quase a ficar louco.

Quantos Presidentes dura uma Rainha?

No dia em que o blogue ultrapassa os dois milhões de visualizações.
Muito obrigado a todos os que aqui passam todos os dias.

TRUMP

OBAMA

BUSH (filho)

CLINTON

BUSH (pai)

REAGAN

CARTER

FORD
NIXON

KENNEDY

EISENHOWER

TRUMAN

18 de setembro de 2018

No rescaldo do tufão Mangkhut


O tufão Mangkhut açoitou Macau com fúria, como já se antecipava há vários dias.
E esta foi a grande diferença para que não se repetisse o cenário de destruição visto há cerca de um ano com o tufão Hato.
O Mangkhut foi um super-tufão, que obrigou ao içar do sinal 10 (o máximo) de tempestade tropical durante nove longas horas (algo que não acontecia desde 1968, salvo erro), ao sinal negro (o máximo) de Storm Surge durante longas horas também.
Violento, assustador, mas a deixar sempre a sensação que estava tudo sob controlo por parte da Protecção Civil.
Protecção Civil cujo trabalho terá que ser enaltecido, desde a coordenação até aos incansáveis operacionais que arriscaram a própria vida para proteger outras vidas.
No rescaldo de mais um violento tufão ficam algumas notas a reter:
- Pela primeira vez em Macau os casinos fecharam procurando proteger a integridade física dos trabalhadores que correriam riscos desnecessários se se vissem obrigados a deslocar-se para o local de trabalho debaixo daquele temporal (chapelada para as operadoras de Jogo que já tinham disponibilizado milhares de lugares de estacionamento gratuito durante vários dias);
- A preparação antecipada do que se previa ser uma tempestade muito violenta permitiu reduzir os danos, humanos e materiais, a um mínimo possível;
- Os maiores danos para a cidade acabaram por ser as brutais inundações, um fenómeno que sempre acontece quando há tempestades ou alterações das marés, e que parece não ter fim nem solução à vista;
- Depois do elogio à Protecção Civil, o outro lado da moeda, as ovelhas negras que sempre aparecem nestas situações:
  • taxistas, sempre os taxistas (quando é que se começa a cancelar as licenças a estes bandidos??);
  • os loucos irresponsáveis que arriscam as suas vidas e obrigam a que outros arrisquem também as suas vidas para os socorrerem (os idiotas que resolveram passar a Ponte Nobre de Carvalho a pé com sinal 10 hasteado, as pessoas que num primeiro momento recusaram ser evacuadas para depois pedirem para ser socorridas);
  • os cretinos que se divertiram a publicar imagens e vídeos de outras tempestades sem qualquer critério e que apenas serviram para alarmar quem as via em Macau e sobretudo fora.
Comparar o que aconteceu com o Mangkhut com o que aconteceu com o Hato, comparação inevitável, conduz-nos inevitavelmente à impreparação absoluta no Hato e à prevenção e preparação atempadas no Mangkhut.
Que resultaram num balanço trágico e num trauma que nunca mais abandonará Macau no Hato e numa relativa acalmia no fortíssimo Manghkut.

Do livro da terceira classe do meu pai


Em tempo:
Fica o poema completo.
Que me foi enviado pela minha prima, que já aqui referi várias vezes, a minha irmã de coração, que me acolheu aqui em Macau e cujo aniversário deixei passar em claro este ano.

Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha
Os ternos pombos arrulham
Geme a rola inocentinha

Muge a vaca, berra o touro
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovellha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra em pobre rima
As vozes dos principais.

Fonte
In Elementos para um tratado de fonética portuguesa, de Rodrigo de Sá Nogueira (Imprensa Nacional de Lisboa, 1938).

13 de setembro de 2018

Formação no exterior – vantagem competitiva ou bajulação parola?



Confesso que começo a ficar cansado e farto de tanta bajulação dirigida a quem se apresenta em público com a hipotética certificação de qualidade “formação no exterior”.
Um conceito tão aberto e tão vago que nele cabe quase tudo sem que em concreto nada diga.
A vantagem de ter mundo no século XXI é indesmentível e diria até essencial em muitas profissões.
Mas ter mundo não é só sair das fronteiras do país, da região, em que se nasceu e cresceu.
Há quem saia muito mas não aprenda nada, não absorva nada, mantenha a mesma mentalidade tacanha de quem nunca saiu do seu cantinho de conforto.
Quando assim é, e é assim muita vez, estamos perante pura bajulação parola.
Dizer que a pessoa tem formação no exterior só porque obteve um qualquer diploma para além das fronteiras do local onde nasceu e cresceu é claramente uma falácia.
Pode ter o diploma, mas formação, pensamento abrangente, mundano, muitas vezes não tem nem um pouco.
Sobretudo quando essa designada formação se consegue em áreas que nada têm a ver com as funções profissionais que a pessoa exerce.
Convém ser mais concreto, mais específico, quando se apresenta a tal formação no exterior de alguém para justificar a sua capacidade profissional.
Formação em quê, obtida onde, no mínimo.
Porque há diplomas que certificam que a pessoa frequentou determinado estabelecimento de ensino e nada mais que isso.
Formação, capacitação, qualidade, são coisas bem diferentes.


Intemporais (132)

12 de setembro de 2018

Trauma de infância?



Os cinéfilos e os melómanos terão sempre na memória o filme Easy Rider e a banda sonora do mesmo.
Especialmente esse estrondoso sucesso, que se tornou hino de várias gerações, Born To Be Wild, originalmente interpretado por Steppenwolf, e que conheceu incontáveis versões desde o ano de 1969 quando foi originalmente lançado no mercado discográfico.
Quem parece não fazer ideia do que é born to be wild, nem nada que se assemelhe a isso, é o deputado Lam Lon Wai.
Lam Lon Wai, nascido poucos anos depois do lançamento do filme e da banda sonora, deve ter tido uma infância muito infeliz.
Porque só assim se poderá explicar que fique indignado por ver os jovens que se divertem, que correm atrás uns dos outros, berram, dizem palavrões, fumam, trocam carícias nos bancos de madeira (outro afectado pela troca de carícias entre jovens) na zona Norte da cidade.
Numa época em que os pais procuram cada vez mais que os seus filhos saiam de casa, façam amigos, socializem, tudo para não se tornarem couch potatoes viciados na tão célebre realidade virtual, Lam Lon Wai prefere ver os jovens trancados em casa, longe das tentações mundanas (olhe que as tentações na realidade virtual são muitas e muito perigosas, senhor deputado...).
E dá conta dessa sua preocupação junto do Parlamento local.
Como se tudo isto não fosse já suficientemente demente, as autoridades administrativas respondem à interpelação do deputado e afirmam que as polícias estão atentas e a acompanhar o caso.
As polícias?? A acompanhar o caso?? Qual caso??!!!
Esta gente ou ensandeceu ou sofreu traumas na infância dos quais não se consegue libertar.
Só assim se poderá explicar este comportamento.
Tarefa que deixo para profissionais devidamente habilitados a lidar com tais desvios comportamentais.
Porque eu sinceramente só me sinto muito desiludido e cansado com o rumo que Macau está a seguir.

FEIRA DA FODA


E PORQUÊ O NOME "FODA À MONÇÃO"? 

A CONFECÇÃO DO CORDEIRO À MONÇÃO EM ALGUIDAR LEVADO AO FORNO DE LENHA NÃO SÓ RECUPERA O SABER DOS NOSSOS ANTEPASSADOS COMO LHE ADICIONA UM POUCO DE ARTE, CARINHO E PROFISSIONALISMO DAS ACTUAIS COZINHEIRAS. 
O NOME ARTÍSTICO, DIGAMOS ASSIM, REFLECTE BEM O CARÁCTER AFÁVEL E BEM-DISPOSTO DOS MONÇANENSES.

REZA A HISTÓRIA QUE:

“OS HABITANTES DO BURGO, QUE NÃO POSSUÍAM REBANHOS, DIRIGIAM-SE ÀS FEIRAS PARA COMPRAR O REIXELO. 
E, COMO EM TODAS AS FEIRAS, HAVIA DE TUDO, BONS E MAUS. 
A VERDADE É QUE OS PRODUTORES DE GADO, QUANDO O  LEVAVAM PARA A FEIRA QUERIAM VENDÊ-LO PELO MELHOR PREÇO E, PARA QUE 
OS REIXELOS PARECESSEM GORDOS, PUNHAM-LHES SAL NA FORRAGEM, O QUE OS OBRIGAVA A BEBER MUITA ÁGUA.

 NA FEIRA, APARECIAM COM UMA BARRIGA CHEIA DE ÁGUA E PESADOS,  PARECENDO REALMENTE GORDOS. 
OS INCAUTOS QUE NÃO SABIAM DA MANHA  COMPRAVAM AQUELES AUTÊNTICOS “SACOS DE ÁGUA” E, QUANDO SE APERCEBIAM DO LOGRO, EXCLAMAVAM À BOA MANEIRA DO MINHO: 
QUE FODA!

O TERMO TANTO SE VULGARIZOU QUE O PRATO PASSOU A DESIGNAR-SE, LOCALMENTE, POR FODA. DE TAL MODO QUE é FREQUENTE, PELAS ALTURAS 
FESTIVAS (PÁSCOA, CORPO DE DEUS, SENHORA DAS DORES E NATAL OU FIM DE ANO) OUVIR AS MULHERES: 
"Ó MARIA, JÁ METESTE A FODA?"

11 de setembro de 2018

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Sérgio Godinho incluiu no vocabulário corrente português a expressão "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida" quando a cantou na balada "O Primeiro Dia".
O mesmo Sérgio Godinho que nos habituou a procurar encarar a vida "Com Um Brilhozinho Nos Olhos".
E foi com um brilhozinho nos olhos que a Selecção Nacional de futebol se estreou ontem na Liga das Nações, naquele que terá sido o primeiro dia do resto da sua vida.
Uma vida pós-Ronaldo, uma vida sem um verdadeiro fora-de-série, uma vida em que o conjunto tem que funcionar ainda melhor que até aqui, uma vida em que a grande referência dos últimos anos vai gradualmente desaparecendo.
Havia a expectativa para ver como funcionaria a equipa no primeiro jogo oficial sem Ronaldo, que coincidia com o primeiro jogo oficial após a medíocre prestação no Mundial.
Funcionou bem, longe de ser entusiasmante ou espectacular, mas suficientemente sólida para levar de vencida um seleccionado italiano ainda à procura da glória perdida.
Seleccionado italiano que tem vindo a perder referências, que tem vindo a perder qualidade, e que é neste momento uma equipa pouco mais que vulgar.
É neste contexto que se tem que analisar a vitória (1-0) de ontem.
Histórica?
Só se quisermos focar-nos apenas no facto de, nos encontros oficiais entre as duas selecções, Portugal não vencer a Itália há já sessenta anos.
Porque, em boa verdade, no restante, essa adjectivação faz pouco ou nenhum sentido.
A Liga das Nações é uma prova sem qualquer prestígio (alguma vez o terá??), a equipa nacional italiana uma espécie de fidalgo arruinado que vive de glórias passadas, uma quase Norma Desmond em Sunset Boulevard, deslumbrada com a admiração que os Alfred do mundo do futebol ainda lhe transmitem.
O golo de André Silva, que traduziu no resultado o que se passou em campo (os italianos foram virtualmente inofensivos e os portugueses até podiam ter marcado mais um ou dois golos), não nos deve fazer automaticamente pensar em amanhãs cantantes para esta nova versão da Selecção Nacional.
Se antes do jogo havia a expectativa para ver como funcionaria a Selecção sem Ronaldo, agora fica a dúvida como irá jogar, em que modelo, quando Ronaldo estiver presente.
Entrada com o pé direito na Liga das Nações, satisfação, sensação de dever cumprido, com um brilhozinho nos olhos, naquele que foi só o primeiro dia do resto da vida da Selecção Nacional.

Os inimigos do Papa Francisco (crónica do Padre Anselmo Borges)


1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas." Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: "Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar."

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem "a peste da Igreja", sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é "a lepra do papado". Neste contexto, Francisco associa "abusos sexuais, de poder e consciência". Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: "Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial."

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como "duras, corajosas, clarividentes", pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto "problema estrutural", portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: "concentração do poder nas mãos da clerezia", poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: "a obediência e/ou a hipocrisia"; "uma concepção e prática dualista e maniqueia" concretamente em relação à sexualidade; "sobrevalorização do celibatário", considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é "uma imposição legal" para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de "comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...".

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: "Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros." Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: "Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar."

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma Igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é "o lóbi gay", diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez. Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo - Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum -, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm que ver com o trans-humanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...
Padre e professor de Filosofia
in DN 08.09.2018

10 de setembro de 2018

Voltaire e os dois tipos de ladrões


 Na vida, existem 2 tipos de ladrões;

1-O ladrão comum: 
É aquele que rouba o seu dinheiro, sua carteira, relógio, telefone, etc.

2-O ladrão político: 
É aquele que rouba o seu futuro, seus sonhos, seu conhecimento, seu salário, sua educação, sua saúde, sua força, seu sorriso, etc.

Uma grande diferença entre estes dois tipos de ladrões, é que o ladrão comum escolhe-o para roubar os seus bens enquanto o ladrão político é você que o escolhe para ele o roubar. 

E a outra grande diferença, não menos importante, é que o ladrão comum é procurado pela polícia enquanto o ladrão político é geralmente protegido por um comboio policial. 

Pense bem antes de escolher o seu ladrão, da próxima vez ...

Para completar, o génio de George Carlin:


BOA SEMANA!

6 de setembro de 2018

Crença e ganância



Repetem-se incessantemente os casos conhecidos de burlas que aproveitam a crença e a ganância de pessoas ingénuas para conseguir que estas entreguem verdadeiras fortunas a esquemas sem o mínimo de credibilidade.
Há já alguns anos, um daqueles amigos para a vida, dotado de grande inteligência e de um sentido de humor apurado e verrinoso, ilustre advogado, respondia a um cliente prestes a ser preso por ter o “vício” de passar cheques sem cobertura, quando este lhe perguntou se conhecia algum negócio que pudesse garantir ganhos avultados em pouco espaço de tempo, que sim, que conhecia – traficar droga.
Consta que serão quatrocentos por cento de lucro liquido, acrescentou.
Mas com algumas desvantagens – forte possibilidade de ser preso, pouca ou nenhuma segurança no emprego (literalmente!!), uma dor de cabeça constante.
Dá vontade de explicar às vítimas dos esquemas que se vão conhecendo com uma cadência cada vez maior que, para ganhar muito dinheiro em muito pouco tempo, só mesmo a traficar droga ou com o Jogo.
Com a particularidade de o Jogo, com capital mundial em Macau, render muito dinheiro aos concessionários.
Aos jogadores parece que não é bem assim...
De uma vez por todas deixem de acreditar nos novos vendedores de banha de cobra, sigam a sabedoria popular e deixem de ir com muita sede ao pote para evitar serem os próximos a ficar engasgados. 

Intemporais (131)

5 de setembro de 2018

Décimo quinto aniversário da minha filha Mariana


A minha filha Mariana faz hoje quinze anos.
Quinze anos de felicidade constante, de uma energia inesgotável, de uma alegria que só a Mariana tem e sabe transmitir.
Tenho tentado cumprir o que lhe prometi - tratá-la como a  adolescente de quinze anos que é e não como a minha eterna bebé.
Mas confesso que tenho falhado muitas vezes.
E que tem sido difícil aceitar que ela cresceu, que já não é bebé nem nada que se pareça com isso.
Vou continuar a tentar cumprir essa promessa, que ela tantas vezes me relembra, mas acredito que volte a falhar muitas vezes.
Porque é o coração e não a mente a comandar, o sentimento e não a razão a ditar regras.
Também já sei que ela vai ralhar comigo por causa da fotografia que escolhi (nunca acerto com as que ela gosta).
Nem preciso de lhe dizer que a adoro (a ela e à irmã) e que daria a vida por qualquer delas sem hesitar nem fazer qualquer pergunta.
Hoje, no seu décimo quinto aniversário, só lhe peço que vá tendo paciência comigo, quando falho nessa promessa de a tratar como adolescente e quando sou rabugento.
E, sobretudo, que seja sempre a pessoa alegre, feliz, adorável, que é.

Vejam e não fiquem indiferentes

4 de setembro de 2018

Vais prá tropa, pá



A geração dos “entas” deverá lembrar-se da paródia “Vais prá tropa, pá”, uma tradução livre e bem humorada da banda Onda Choc do êxito dos Status Quo “In the Army Now”.
Uma paródia que foi utilizada para moer a paciência aos que tinham o azar de ser seleccionados para cumprir o serviço militar obrigatório no Portugal dos anos mil novecentos e oitenta.
Outros tempos, outra mentalidade (havia até aqueles que só passavam a ser homens de verdade depois da aprovação nas “sortes” seguida de uma visita ao prostíbulo mais próximo, ambos documentados com as respectivas fitas).
Memórias que revivi na sequência da controvérsia gerada pela possibilidade de os residentes de Macau, Hong Kong e Taiwan poderem servir o País no Exército Popular de Libertação.
Confesso que não consigo perceber as razões para essa controvérsia, para tanta desconfiança.
Já todos percebemos que estamos a assistir a uma tentativa de aceleração do processo de integração do segundo sistema no primeiro.
Ventos do Norte que não são contrariados (muitas vezes até são levados a extremos…) nas regiões administrativas especiais.
Não é o caso desta possibilidade de prestar serviço militar no exército Popular de Libertação.
Uma possibilidade, ainda não passa disso, e que, a concretizar-se, na prática passará pelo regime de voluntariado (o que, de resto, já acontece na China).
Assim sendo, e sendo as regiões administrativas especiais parte integrante da China, qual é o problema?
Quem quer servir (o voluntariado é que é essencial) é livre de o fazer.
E o oposto também é verdade.
Até poderá ser uma forma, ainda que indirecta, de se perceber que não são necessárias leis, comissões, direcções de serviços, para dar lições de patriotismo à força aos residentes das regiões administrativas especiais (Taiwan é outra conversa…).

Duzentos anos de História perdidos para o fogo