26 de junho de 2019

25 de junho de 2019

It’s the economy, stupid


A campanha presidencial americana de 1992 ficou para sempre marcada pelo mantra da campanha do então candidato Bill Clinton – it’s the economy, stupid.
Com poucas variantes esta ideia subsiste um pouco por todo o Planeta actualmente.
O último exemplo veio do conjunto de países responsável por cerca de 40% do PIB mundial.
A Parceria Económica Regional, que junta às economias dos países que compõem a ASEAN as economias da China, Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia, é isso mesmo, economia pura e dura.
Quase metade do PIB do Planeta, quase metade da população mundial, um bloco brutal para fazer frente ao proteccionismo americano e à incerteza política na União Europeia.
Não há discussão política, não há políticas de segurança comuns, desígnios há muito supostamente perseguidos pela ASEAN, há apenas a procura do domínio económico à escala global.
Tão simples quanto o poster que estava sempre presente nos gabinetes de campanha de Bill Clinton para lhe lembrar o que era realmente importante – it’s the economy, stupid!

HÁ BOAS NOTÍCIAS (Frei Bento Domingues, O.P.)


1. Na última quinta-feira, a Igreja católica celebrou a festa do Corpo de Deus, feriado nacional. As origens desta festa estão envolvidas em histórias de muita fantasia. A chamada Lenda Rigaldina (séc. XIV) é a mais divertida. Estava Santo António a pregar, em Toulouse, sobre a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, quando um ateu, chamado Bonillo, o enfrentou com um desafio: só acreditaria no que acabava de ouvir se a sua mula se ajoelhasse diante do ostensório eucarístico. Frei António aceitou e ampliou o desafio. Mandou que deixassem o animal sem comer três dias e, no final, lhe fosse apresentado um monte de erva e, ao lado, o ostensório.
No fim do terceiro dia, a mula esfomeada foi solta e, passando por um monte de feno e aveia, foi ajoelhar-se em frente da Custódia. Esta lenda deu origem a outra: uma freira agostiniana, Juliana de Mont Carnillon, terá conhecido ecos da pregação do Santo e teve visões de que era o próprio Cristo a manifestar-lhe o desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com mais solenidade. Terá revelado esse desejo ao futuro Urbano IV. Entretanto, na cidade de Bolsena, perto de Orvieto, residência do Papa, aconteceu um espantoso milagre: um padre, ao celebrar a Eucaristia e ao partir a Hóstia consagrada, viu cair sobre a toalha gotas de sangue!
O Papa determinou que fossem levados para Orvieto, em grande procissão, os objectos envolvidos nesse prodígio, o que aconteceu a 19 de Junho de 1264. Terá sido esta a primeira procissão da festa Corpus Christi promulgada por Urbano IV.
De vários textos em concurso para a celebração da festa, foi preferido o de S. Tomás de Aquino. É uma grande peça poética e teológica de que faz parte oTantum Ergo Sacramentum cantado até aos nossos dias.
A insistência na chamada presença real tornou-se um problema, sobretudo a partir do séc. XI, em resposta às negações do teólogo Berengário de Tours. História longa e complexa. Quando não se entende que não existe oposição entre presença simbólica e presença real, todos os equívocos são possíveis.
As narrativas sobre a Eucaristia evocam todas a Quinta-Feira Santa, que só a partir do séc. IV foi solenizada. São todas festas do Corpo de Deus, do Deus connosco, do Deus humanado.
O excesso de ritualização, no cristianismo, tende a esquecer o verdadeiro alcance dos seus símbolos fundadores. É o que passamos a procurar.
2. Este ano, os textos escolhidos para a celebração do Corpo de Deus, são dos mais antigos e dos mais provocadores para a nossa contemporaneidade, a nível local e global: a persistência das escandalosas desigualdades sociais e da fome, cuja erradicação é sempre anunciada para continuar sempre adiada. Que pode a missa contra isto?
Pelos vistos, é uma questão com a qual S. Paulo, no texto mais antigo sobre a Eucaristia, se viu confrontado. Observou divisões sociais inaceitáveis na comunidade cristã de Corinto. Alguns serviam-se da própria reunião eucarística para exibir a sua superioridade económica e social. Levavam consigo boa comida e boa bebida que não partilhavam. S. Paulo fica indignado: será que não tendes casas para comer e beber ou vindes desprezar a Igreja de Deus e envergonhar aqueles que nada têm? Não esperem o meu louvor.
Vale sempre a pena regressar a um texto que ele próprio recebeu do Senhor e que, ainda hoje, é norma em todas as celebrações. Quando Jesus diz Isto é o meu corpo, evoca o sentido que deu a toda a sua vida e que deve ser o sentido da vida dos discípulos, de cada cristão: gastar suas energias para que todos tenham vida e vida em abundância. Nós, ao comungarmos, recebemos essa missão. Cada um tem de se examinar sobre o que pode fazer pelo bem dos mais marginalizados e marginalizadas.
Quando acrescenta: este cálice é a nova aliança no meu sangue, todas as vezes que o beberdes fazei-o em memória de mim, Jesus não estava a erguer um monumento à sua memória, como se tivesse receio de ser esquecido. O que ele procura é que o Evangelho seja continuado, que o seu percurso, pelo qual foi morto, não seja esquecido. A nova Aliança é o compromisso de Deus com as populações mais pobres, que não pode ser adulterado. Ao insistir, em memória de mim, é para não esquecermos a vida perigosa em que Jesus se envolveu: o caminho da fidelidade cristã, ao longo dos séculos, nas situações mais imprevisíveis.
Quem vai às celebrações eucarísticas sem este compromisso está a iludir-se: come e bebe a sua própria condenação. Uma Eucaristia é uma convocatória para alterar o rumo do mundo desumanizado e responsabilizar as Igrejas: como é possível missa após missa, rito após rito, continuar tudo na mesma?
O texto do Evangelho escolhido para essa celebração é uma parábola provocatória: os discípulos imaginam Jesus distraído. Falou e falou muito, mas fez-se tarde e parecia que Jesus não se apercebia da situação real. O melhor era que desse por encerrada a sessão e que cada um procurasse onde poderia ir comer. Tentaram descartar-se. Jesus intima-os: dai-lhes vós mesmos de comer. Tinham pouco: 5 pães e 2 peixes para cinco mil pessoas? Jesus mostra uma lei universal. O que existe no mundo ou pode ser produzido, se for bem repartido, dá para todos e ainda sobra: é o sentido da parábola da multiplicação dos pães e dos peixes.
Não se pode pensar em partilha dos bens quando está tudo organizado para que os que têm, tenham cada vez mais e os que não têm fiquem ainda mais longe da mesa que deveria ser comum, o destino universal dos bens. Como diz o Papa Francisco, cada vez há menos ricos, menos ricos com a maioria da fortuna do mundo. E cada vez há mais pobres com menos do mínimo para viver.
Quando celebramos a Eucaristia, a grande preocupação não pode ser, apenas, a de não faltarem hóstias para os fregueses. A pergunta é outra: desta Eucaristia vai sair gente empenhada em que a ninguém falte o pão, a casa e o trabalho? Quando Jesus diz isto é o meu corpo é também a esse corpo social que se refere.
3. Há duas boas notícias sobre a Eucaristia. No documento de trabalho para o Sínodo da Amazónia, está aberta a discussão sobre a ordenação de homens casados e a revisão dos ministérios das mulheres na Igreja. Este tabu acabou. Os sinos tocaram na Ribeira Seca e ela floriu. Não creio que Jesus Cristo estivesse de acordo com a suspensão a divinis, há 40 anos, do padre Martins Junior. Parece que o novo Bispo também não acreditou nisso.
   in Público 23.06.2019

24 de junho de 2019

Email de filha para o pai


Querido pai, estou apaixonada por um rapaz que vive longe de mim. 
Como sabes, eu estou na Austrália oriental e ele vive em Nova Iorque. 
Conhecemo-nos num chatroom e fizemos amizade no Facebook. 
Conversamos largas horas no Whatsapp, propôs- me em 
casamento pelo Skype e temos dois meses de relação através do Viber. 
Paizinho, preciso que me dês a tua Bênção. " 

Resposta do pai: 

"Wow, isto realmente é incrível! ! 
Então, casa-te pelo Twitter, divirtam-se pelo Tango, mandem vir os vossos filhos pelo Amazon e paguem com o Paypal. 
Assegurem -se de terem bons Androids e ampliem o Wi -Fi para que a comunicação seja boa. 
E se em algum momento te fartares do teu marido, vende-o no Ebay! 

BOA SEMANA! 

21 de junho de 2019

20 de junho de 2019

Investir na esperança?


Ainda não há confirmação oficial da anunciada transferência de João Félix para o Atlético de Madrid.
A confirmar-se, e pelos valores anunciados (120 milhões de euros), estará a ser dado um passo muito perigoso no universo do futebol.
Se chegarmos realmente a pagar estes valores absurdos por passes de jogadores que ainda são só uma esperança o futebol passará ainda mais a ser dominado por quem tem os bolsos recheados.
O fair play, nomeadamente o fair play financeiro, é cada vez mais uma treta sem sentido.
João Félix fez meia época a grande nível no campeonato português, tem muito pouca experiência e currículo a nível internacional, e o seu passe vale 120 milhões de euros??
Se se investem estas quantias em esperanças, qual é valor de mercado das certezas, daqueles jogadores que se tem a certeza que farão a diferença, que são titulares ainda antes de treinarem?
Recordo as palavras do então Papa João Paulo II aquando da transferência de Roberto Baggio para a Juventus.
João Paulo II dizia então que o valor (um milhão de contos, cinco milhões de euros) era ofensivo.
E já chegámos ao ponto de pagar 120 milhões de euros pelo passe de uma esperança?

Intemporais (170)

19 de junho de 2019

Crónica de um Chefe do Executivo anunciado


Um ilustre macaense dizia que os chineses nunca davam início a um processo eleitoral, a uma eleição, sem antes saber quem ia ganhar.
Foi o que se viu ontem com a apresentação oficial da candidatura de Ho Iat Seng ao cargo de próximo Chefe do Executivo.
Ho Iat Seng vai ser o próximo Chefe do Executivo, todos sabemos isso.
E ontem explicou publicamente porque é que vai ser o próximo Chefe do Executivo.
Não é porque tenha uma ideia para Macau porque há outras pessoas para terem ideias para Macau.
O Chefe do Executivo é a cara do Executivo, o interlocutor de Pequim, aquele com quem Pequim fala.
E o próximo com quem Pequim vai falar directamente é Ho Iat Seng.
Que ontem veio publicamente explicar os temas fundamentais das conversas nos próximos anos - integração regional e boa governança acima de todos os outros.
Outros que são os já conhecidos centro internacional de turismo e lazer, ligação lusófona, preservação e difusão dos valores nacionais.
As respostas evasivas, os silêncios, são normais quando mais que um processo eleitoral está em causa apenas uma crónica de um Chefe do Executivo anunciado.

Revolta das couves

A Rua das Couves

Em Várzea de Meruge, Seia, Serra da Estrela, a população cansou-se de pedir ao presidente da Junta que reparasse o piso de uma rua.
Vai daí, decidiu plantar couves nos buracos... e agradecer ao presidente e ao seu padrinho em S. Bento.
Nunca a frase «atirou com o carro para as couves» fez tanto sentido...
Vale a pena ver as imagens. 
É ainda curto, mas é um sinal de que o povo está aí.







18 de junho de 2019

Pequim não deixará cair Carrie Lam


É óbvio que a contestação em Hong Kong vai muito para além do processo legislativo entretanto suspenso.
A população nas ruas quer mais, muito mais.
Quer o abandono total e incondicional desse processo, quer a cabeça de Carrie Lam, Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial.
Com os olhos e os ouvidos do Mundo postos em Hong Kong (demasiado importante estrategicamente e financeiramente para ser só “assunto interno da China”) confesso que não sei como irá Pequim reagir à contestação no que diz especificamente respeito ao processo legislativo.
Mas acredito que a mesma Pequim, que poderá ter dúvidas acerca do que fazer com a tão contestada legislação, não deixará cair Carrie Lam.
Depois de Tung- Chee Wah ter sido um fracasso total, de Donald Tsang se ver desacreditado e condenado judicialmente, Pequim não irá compactuar com novo fracasso, com nova perda de face.
As lágrimas de Carrie Lam pareceram-me acima de tudo um forte sinal de uma mulher à beira de um ataque de nervos, espremida que se encontra entre a tenaz de Pequim que a quer manter à força e das ruas de Hong Kong que a querem ver sair imediatamente.

BERARDO E A FLORESTA (João Marcelino)


O ‘caso Berardo’ confirma uma evidência: o regime de Sócrates fez um assalto aos bancos para dar ao seu comandante o poder supremo de decidir que empresas poderiam ter acesso ao crédito.

Passei grande parte dos últimos anos angustiado e a interrogar-me: se esta gente é assim como pode Portugal ter futuro? Este pensamento tinha a ver com os ’empresários’ e políticos que ia conhecendo, e com quem, por via da minha profissão de jornalista, tinha de trabalhar directamente ou de contactar com assiduidade.

E tenho, por isso, uma notícia desagradável a dar: não se pense que José Berardo é o pior exemplo daquilo que a sociedade portuguesa pode apresentar. Há pior, muito pior, nesse campeonato do descaramento, da incultura, da boçalidade, da irresponsabilidade social e de uma criminosa maneira de viver a vida à conta do erário público e dos bancos.

A colecção de capatazes que não sabem, não se lembram, não viram, não possuem, não fizeram, cuja agenda só marca almoço, jantar e traficar, e que até são capazes de sacudir um último pingo de dignidade para salvarem o dinheiro que escondem em offshores é bastante mais vasta, não se esgota na miserável novela que tem decorrido no Parlamento a propósito dos roubos públicos perpetrados nos últimos anos. Berardo, insisto, apenas abusou da sorte porque sempre viveu a vida com este descaro que agora todos os portugueses já conhecem e da maneira mais chocante.

O ‘caso Berardo’ confirma ainda uma evidência: o regime de Sócrates fez um assalto aos bancos para dar ao seu comandante o poder supremo de decidir que empresas poderiam ter acesso ao crédito. A lógica era simples: Ricardo Salgado estava sempre com o governo de turno a Caixa era nossa e o BCP como maior banco privado, era a peça que faltava. 
Esse foi o racional do processo que movimentou Carlos Santos Ferreira e Armando Vara da CGD, em comissão de serviço, para o BCP, ou Francisco Bandeira, elemento da comissão da CGD que avalizou o empréstimo a Berardo sem as devidas garantias, se que foi colocado no BPN depois da derrocada cavaquista ou até Celeste Cardona, que fez parte da mesma irmandade com Maldonado Gonelha.

Tivemos em Portugal a versão europeia do que se passou no Brasil com Lula e na Venezuela com Chávez ou Maduro. O pernil de porco, as casas pré-fabricadas, como antes o mensalão, a troca da participação da Vivo pela da Oi, a defesa da PT da OPA da Sonae e outros negócios que se podiam pensar entre a tenda do defunto Khadafi e os palácios da América Latina são episódios desse pesadelo nacional de que só acordámos, a partir de 2009, pelo lado bom da trágica crise imobiliária “made in USA”.

Os deputados portugueses podem dar as voltas que quiserem mas não deviam fingir que não sabiam, ensaiando, na série Berardo, aqueles rostos dignos de uma produção de Hollywood. Por maioria de razões, não tenho apreço pelas reacções de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa.
Eles sabem, sempre souberam, do papel que Berardo e os outros desempenharam e desempenham na sociedade portuguesa.

Claro que seria justo que Berardo, nesta versão de um sem-abrigo, perdesse os quadros da colecção que ainda leva o seu nome. Aquela interpretação do ainda comendador produz asco. Mas há uma conclusão evidente deste processo: os 969 milhões concedidos a Berardo para comprar acções do BCP não foram emprestados por incompetência. Saíram, naquela altura, da troika de bancos (CGD, BES, agora Novo Banco, e do próprio BCP) por decisão política, conluio criminoso e objectivo bem 
definido. E de toda essa gente só Armando Vara está preso e não por motivos directamente relacionados. Os outros responsáveis por uma destruição de valor ainda incalculável continuam à solta.

17 de junho de 2019

Piadas curtas



Qual o electrodoméstico mais usado pelo vulcão?
– A máquina de lava.

Como se chama um cachorro sem perna?
– Não se preocupe ele não vem.

Qual o cúmulo da velocidade?
– Correr em volta de um poste tentando alcançar a bunda.

A quanto está saindo o quilo da carne?
– Acém reais.

Como o Batman dorme?
– De Bruce.

Walkman falou para a Walkwoman:
– Querida não podemos ter filhos.
– Porquê?
– Porque o meu som é estéreo.

Porque a loira escalou a parede de vidro?
– Para ver o que havia do outro lado.

O que acontecerá se o Papai Noel morrer?
– Ele não estará mais em trenós.

Porque a loja de canivete faliu?
– Porque só vendia afiado.

Sabes quando é que dois mais dois não dá quatro?
– Quando a conta estiver errada.

Qual o cúmulo da força?
– Entortar uma esquina.

Qual o pior nome para a sogra ter?
– Esperança, pois a esperança é a ultima a morrer.

Dois cachorros entram numa igreja porque não saíram mais?
– Se entraram só dois como iam sair mais?

Qual a panela que está sempre triste?
– A panela depressão.

BOA SEMANA!

13 de junho de 2019

Companhias fiéis que nunca conheceremos pessoalmente


Há pessoas que entram na nossa vida e passam a fazer parte dela ainda que nunca as venhamos a conhecer pessoalmente e que tenhamos ideais políticos muito diferentes.
Há muitas assim na minha vida, algumas já desaparecidas, mas que deixaram marca.
O Ruben de Carvalho era uma dessas pessoas.
Homem culto, inteligente, de fortes convicções, o Ruben de Carvalho era uma companhia indispensável ao fim-de-semana.
Com o seu bom gosto a nível musical, muito ecléctico e enciclopédico, nas “Crónicas da Idade Mídia” e com a sua enorme cultura e mundividência nos debates com Jaime Nogueira Pinto nos “Radicais Livres”.
O meu fim-de-semana vai ficar mais enfadonho agora que o Ruben de Carvalho partiu.
Nunca o conheci ou conhecerei pessoalmente, tínhamos ideias muito díspares em muitos sectores da vida, mas o Ruben de Carvalho deixa um vazio também na minha vida.

Intemporais (169)

12 de junho de 2019

Febre de consultas públicas


Macau é uma terra de excessos.
O excesso de consultas públicas será assim só mais um dentro de uma longa lista.
Não há decisão política que seja tomada sem que se ouça o que o público, essa massa anónima, tem a dizer.
Até se chegar a pontos de quase demência.
Consulta pública acerca do impacto ambiental da travessia em túnel subaquático entre a península e a Taipa?
Haverá matéria que envolva mais tecnicidade, que apele mais  a conhecimentos técnicos muitíssimo específicos?
E vai-se ouvir a população sobre esta matéria???
Ouvir especialistas nesta área tão específica faz todo o sentido.
Ouvir o cidadão comum é anedótico e pura perda de tempo.

A importância da maçã


11 de junho de 2019

Posições extremadas


Hong Kong terá assistido no domingo às maiores manifestações alguma vez ali realizadas.
Muitos milhares de pessoas saíram às ruas (os números oficias e dos organizadores apresentam sempre uma brutal disparidade) para exprimirem abertamente a sua oposição às leis de extradição que vão ser votadas no Legco.
A desconfiança mútua entre Hong Kong e Pequim chegou a níveis nunca antes experimentados e que ameaçam uma possível reconciliação entre as partes desavindas.
Tudo o que de algum modo indicia a presença do dedo de Pequim é imediatamente rejeitado por uma larga fatia da população de Hong Kong.
Pequim que olha para Hong Kong como uma constante ameaça à harmonia, como os eternos descontentes e arruaceiros.
Com posições tão extremadas, com o aniversário do handover a aproximar-se, esperemos que os acontecimentos de domingo ao final do dia (confrontos entres forças policiais e manifestantes) não prenunciem nuvens negras e carregadas no horizonte.

Alterações climáticas (Vandana Shiva)


10 de junho de 2019

Dia de Portugal (Camões)


Sabem como é que Camões perdeu um olho ?
A mãe estava a fazer o jantar e disse assim:
- ó filho deita ai um olhinho na comida enquanto eu vou ali fora..

Um grupo de turistas brasileiros estava a visitar um museu de história em Lisboa.
Param em frente a um esqueleto e perguntam ao guia: 
- De quem é esse esqueleto?
-É de Camões, grande poeta português.
- E esse pequenino aí do lado?
- É o esqueleto de Camões, quando era criança...

Sabem qual é o smile de Camões ?
(, ou (. ??

BOA SEMANA!

6 de junho de 2019

O colonizado quer ser colonizador


No dia 4 de Julho será comemorado mais um aniversário do Dia da Independência nos Estados Unidos.
O dia em que formalmente se punha fim à colonização britânica.
Estávamos no ano 1776 da era cristã e desde lá muito mudou no Mundo.
Os Estados Unidos tornaram-se na maior potência mundial, um estatuto que se acentuou com o desmoronamento da União Soviética.
Esta bipolaridade, com duas grandes potências, foi substituída por um mundo unipolar com os Estados Unidos a exercerem um domínio incontestado.
A União Europeia nunca foi uma potência militar e como tal nunca conseguiu beliscar o domínio americano.
Um cenário que se vem alterando nos últimos anos com a ascensão da China e a pretensão de alargamento do poderio chinês, por mais que os líderes chineses afirmem publicamente o contrário.
Xi Jinping sonha com uma China como actor dominante no panorama geo-estratégico mundial.
Um sonho que Donald Trump tem para os Estados Unidos e que assume abertamente.
Não surpreende assim que, no meio de algumas gaffes e alguns episódios caricatos, Donald Trump tenha aproveitado esta sua visita a Inglaterra para piscar o olho aos britânicos não se coibindo mesmo de os aconselhar a ser caloteiros no processo Brexit.
Abandonar de forma imediata a União Europeia, romper as negociações, entregar-se nos braços de uma América desejosa de os receber.
No dia 4 de Julho de 1776 os Estados Unidos punham formalmente fim à colonização britânica.
No dia 4 de Junho de 2019 o anterior colonizado fez uma proposta informal para se tornar colonizador.

BOM FIM-DE-SEMANA
(Prolongado em Macau por causa do Festival Tung Ng)

Intemporais (168)

5 de junho de 2019

Protesto múltiplo em Hong Kong


Milhares de pessoas acorreram ontem a Victoria Park para relembrar os acontecimentos de 4 de Junho de 1989 em Tinanmen.
Já é tradição, já era previsível.
O que também já é tradição é haver uma disparidade brutal nos números de participantes apresentados pelos organizadores dos protestos e as forças policiais.
Martelando ainda a tecla da tradição, estes protestos raramente se resumem a um único tema.
O mote pode ter sido Tinanmen mas os protestos de ontem em Hong Kong tinham outros temas.
Para além de Tinanmen estava em causa o projecto de lei de alteração da legislação relativa a extradição e uma demonstração de força perante o Executivo de Hong Kong e o Governo Central.
Foi assim ontem, será assim no aniversário do handover no início de Julho.
Sem surpresas também, percebeu-se que a sociedade civil em Hong Kong se mantém atenta, vigilante, interventiva.
E que não será fácil fazer aprovar as alterações legais pretendidas em Hong Kong.
Olhando para o que aconteceu ontem em Hong Kong fiquei a pensar se não será Macau, à semelhança do que aconteceu com a regulamentação do artigo 23º da Lei Básica, o filho pródigo, o exemplo a ser seguido pelo rebelde, agora com as leis de extradição em pano de fundo.

Passa o sal

4 de junho de 2019

O elefante na sala


A expressão elefante na sala tem a sua origem numa publicidade norte-americana de combate ao alcoolismo.
A escolha deliberada em negar problemas familiares originados pelo consumo excessivo de álcool era caricaturada com a presença de um enorme paquiderme no interior de uma sala da casa cuja presença a família insistia em ignorar. 
Hoje é uma data que também, mais e mais, se procura seja o elefante na sala. 
No anúncio publicitário a insistência em ignorar e evitar o problema era retratada com um aspirador que ia sendo utilizado contornando o enorme elefante. 
Não vale a pena, o elefante não se move, não desaparece. 
É melhor enfrentá-lo, tentar explicar a sua presença, tentar persuadi-lo a mover-se para que possa depois seguir o seu caminho na floresta em paz e liberdade. 
Trinta anos depois, o que aconteceu em Tiananmen continua a não ser enfrentado, debatido, procura-se contornar o enorme elefante na sala.
Que não se move, não desaparece.
Até quando?

Nós e os outros. A urgência e a dificuldade do diálogo (Anselmo Borges)


Estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo. Há hoje várias revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a globalização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma “pequena aldeia” e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes, como a China, a Índia... Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um “sexto continente”. Nunca como hoje houve tanta informação e com a rapidez com que circula pelo mundo. Esta é a era da informática. A internet, o correio electrónico, os telemóveis, as televisões põem-nos em contacto constante e imediato com tudo o que acontece no mundo. Depois, com a facilidade dos transportes e no quadro das novas condições económicas, há a circulação permanente das pessoas de uns países para outros e também entre continentes. As NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, Big Data, ciências cognitivas, neurociências...), em interconexão,  transformam a nossa relação com a vida e a procriação e podem fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar; por isso, se fala em transhumanismo e pós-humanismo. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Como se não pode esquecer de modo nenhum o perigo do terrorismo global e de uma guerra atómica. Está aí, omnipresente, de múltiplos modos, o terror da violência...
Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, os mercados, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não se sabe de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma “modernidade mestiça”, mas, para evitar o “choque das civilizações”, impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. De facto, como escreveu o teólogo José María Castillo, com todos estes factos, produziu-se “um fenómeno inteiramente novo na história da Humanidade: a mistura, a fusão ou o choque, a inevitável convivência de culturas, tradições, costumes, formas de pensar e de viver, de pessoas que vão de uns países para outros, de um extremo ao outro do mundo. E vão, não para fazer turismo, mas para tratar da vida, fugir das guerras, da fome e da morte. Mas, como é lógico, este reboliço de pessoas, de notícias, de ideias, de formas de viver fez com que – sem nos darmos conta muitas vezes do que realmente se passa – bastantes critérios, convicções, costumes e tradições que até há poucos anos tínhamos como seguros e intocáveis, hoje estejam abalados, tenham perdido segurança, se tenham esfumado, modificado ou, em todo o caso, perdido a firmeza e estabilidade que antes tinham para nós.”
De qualquer modo, para o diálogo, impõe-se uma reflexão de base sobre as suas condições de possibilidade e as suas dificuldades. De facto, o diálogo é feito de encontros e desencontros. O encontro é fascinante, mas, veja-se, logo de entrada, como a própria palavra chama a atenção para a sua dificuldade: encontro mostra, nas várias línguas, um confronto, uma oposição. Assim: en-contro (lá está o contra, como em en-cuentro ou em rin-contro..., mesmo no alemão, Begegnung, está presente o contra, que se diz gegen).  
A neotenia constata, no essencial, que o ser humano é um prematuro – para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais um ano, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de 9 meses, em vez de passados 20 –, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu. Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura. Como escreve o filósofo Robert Legros, “é na cultura ou no que a fenomenologia chama um mundo que a humanidade de Homo encontra a sua origem, e não na natureza. Quanto à origem da cultura, ela está por princípio votada a permanecer uma questão sem resposta”. Enquanto os outros animais nascem feitos, o Homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo.               
Constata-se deste modo que nos fazemos uns aos outros genética e culturalmente. O ser humano é, pois, sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história. Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. E, em cada um de nós, há múltiplas possibilidades de ser: se eu tivesse tido outros encontros, se tivesse frequentado outras escolas..., certamente seria eu, mas de outro maneira, idem sed aliter. A nossa identidade é aberta, somos nós e somos muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender os outros, compreender um romance, colocando-nos na pele de tantas personagens diferentes?...
Claro que cada um, cada uma, é ele, ela, de modo único e intransferível – a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: “ai que me roubam o meu eu!”, clamava M. Unamuno –, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas. O outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Porque o outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu. Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.
Nunca saberei como é viver-se como outro. Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal? Porque é simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro – outros como nós e outros que não nós –, o outro atrai, ao mesmo tempo que surge como perigo possível. Há, pois, uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado – no amor, é divinizado –, como diabolizado. Atente-se na ligação entre hospitalidade e hostilidade, derivados do latim “hospite” e “hoste”, respectivamente. Cá está: o outro é hóspede, por exemplo, no hotel e no hospital. Mas, no hotel, pedem-nos a nossa identidade, porque podemos constituir uma ameaça, um perigo ou ir embora, sem pagar. Aliás, agora, também há o “hostel”, onde a dimensão hostil é mais visível pela sua sonoridade, e, por isso, nos pedem, repito, para prevenir, a identificação. E a fronteira, porta de entrada e de saída, em ligação com fronte – a nossa fronte somos nós voltados para os outros e ao mesmo tempo ela é limite e demarcação de nós –, anuncia o outro – outro país – e é espaço de acolhimento e também da independência.
No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar. Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgência maior repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso, sempre no horizonte da unidade na diferença e da diferença na unidade.   
As revoluções em curso, que obrigam a repensar o futuro da Humanidade, são outras razões que aprofundam a necessidade e urgência do encontro e diálogo entre as culturas e religiões. O que desde há anos Hans Küng vem sublinhando – a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo – é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do célebre teólogo, autor principal da “Declaração de uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993, se oriente pelo lema: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial”.
Falo nas religiões, mas o problema estende-se às várias dimensões do Humanum, precisamente porque o ser humano é, constitutivamente cultural, resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, é bom repetir. Por isso, a integração noutra cultura é tudo menos fácil. Porquê? Quem não reflectiu suficientemente é por vezes levado a pensar que a cultura é como um vestido, algo exterior que a pessoa facilmente troca, mudando de cultura como muda de vestido. Não é assim, de modo nenhum. Porquê? Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela História, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.
Felizmente, a nossa identidade é aberta, em história e, por isso, também podemos ver no diálogo inter-cultural e inter-religioso um factor determinante de enriquecimento mútuo.
in DN 02.06.2019