28 de fevereiro de 2019

Estou cansado


Eu até podia escrever umas linhas acerca do tema da violência doméstica e de não ser considerado violência doméstica, nem exigir a intervenção das polícias, umas chapadas ocasionais.
Pelos vistos para haver violência doméstica é preciso chegar à monstruosidade, à vítima que viverá para sempre desfigurada, quiçá cega, porque foi agredida com óleo a ferver e líquido para desentupir sanitas.
Abaixo disto é uma simples briga familiar, uma troca de carícias mais acalorada.
Podia escrever umas linhas acerca deste tema?
Poder, podia.
Mas não me apetece.
Estou cansado.
E também podia escrever umas linhas acerca do tema sempre controverso da sobrelotação dos hospitais públicos.
E de ter estado mais de duas horas à espera de um teste que acabei por não fazer.
Com o corredor cheio de pessoas idosas que ainda lá ficaram.
Tudo isto na tal cidade que vai brevemente ter o PIB per capita mais elevado do Planeta.
Podia escrever umas linhas acerca deste tema?
Poder, podia.
Mas não me apetece.
Estou cansado.
Basicamente é isto – estou cansado.

Intemporais (154)

27 de fevereiro de 2019

Decidimos não decidir


O processo do Brexit continua a arrastar-se sem fim à vista.
Os adiamentos sucedem-se e depois de uma hipótese de adiamento admitida pelos dois lados (2021?), Corbyn insiste na possibilidade de novo referendo.
Na arena política estes sinais exteriores nunca são obra do acaso.
Pelo contrário, costumam funcionar como um processo de auscultação informal das opiniões públicas.
Lança-se a notícia para o espaço público e espera-se pelo impacto.
Para depois se tomarem decisões em consonância.
Estamos longe do fim de um processo que se adivinha ser longo e moroso.
E que poderá conhecer uma viragem completa neste longo caminho que há para percorrer.
Por enquanto as duas partes do processo (Grã-Bretanha e União Europeia) decidiram não decidir.

Cansei-me, rendo-me ...


Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa universidade de Montevideo. Corre na internet um artigo seu publicado em papel, em 2015, com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.
Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e, de modo mais alargado, a sociedade.

"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade.
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.
Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.
Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais
Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.
Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.
Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas.
Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim!
Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado.
É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.
Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho.
E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.
Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.
E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim.
O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu também."  

26 de fevereiro de 2019

Afinal para que serve o VAR?

 
Quem acompanha o futebol conhece a expressão VAR.
VAR é a sigla que designa o Video Assistant Referee, um sistema de auxílio dos árbitros com recurso à tecnologia (monitores e auscultadores).
A tecnologia é elemento essencial do VAR mas não decide.
Ao contrário do que acontece no ténis, por exemplo, com os sinais sonoros a serem audíveis por todos, o VAR utiliza a tecnologia mas a decisão fica sempre nas mãos de um círculo fechado de humanos.
E esse é o grão de areia que faz toda a máquina falhar.
Ainda assim, depois de ver as imagens da grande penalidade surreal marcada a favor do Real Madrid no jogo com o Levante, fico mais céptico acerca da utilidade do VAR e da apregoada redução do erro no julgamento.
A intervenção humana, o elemento humano, esse continua a ser preponderante.
E mesmo com imagens, com paragens no jogo, pode descambar em erro.
Porque nem quero pensar noutras hipóteses...
Se é para assistirmos a disparates daqueles tem que se fazer a pergunta sacramental – afinal para que serve o VAR?
 

O celibato obrigatório não faz sentido (Anselmo Borges)

 
Anselmo Borges, padre e professor de filosofia da Universidade de Coimbra, não espera grandes anúncios do encontro entre o Papa e os presidentes das conferências episcopais do mundo inteiro, mas diz acalentar a esperança de ver os candidatos a padres sujeitos a um escrutínio psicológico e formados fora dos seminários. A ordenação de mulheres e de homens casados e o fim do celibato obrigatório – defende ainda – são imprescindíveis.
Leiam a entrevista aqui
Vale e pena.

25 de fevereiro de 2019

Piadas e adivinhas idiotas



Porque é que se um astronauta matar outro no espaço não é preso?
– Porque é um crime sem gravidade.


Estão duas bolas de Berlim num precipício, uma vira-se para a outro e diz:
– Estás com medo?
Responde a outra:
– Não é medo, é recheio.


Está uma mãe e uma filha a dormir no corredor, que horas são?
– Falta um quarto para as duas.


Estão dois espelhos a conversar e um vira-se para o outro e diz:
– Qual é o significado da vida?
Responde o outro:
– Deixa-me reflectir.


Qual é a semelhança entre um padre e um martelo?
– Ambos pregam.


Como é que se tira leite a uma gata?
– Tira-se a pia da frente.


O que faz uma hortaliça surda?
– Finge couve.


Como é que as freiras secam a roupa?
– Convento.


O que é um pontinho amarelo no céu?
– Um Yellowcóptero.


O que se faz para diferenciar um gato de um relógio?
– Atira-se os dois à parede, o que miar é o gato.


Porque é que na Polónia ninguém se perde?
– Porque há muitas polacas.


Qual é o símbolo químico da água benta?
– H Deus O.

BOA SEMANA!!

22 de fevereiro de 2019

O Rei e o burro


Era uma vez um Rei que queria pescar.

Ele chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as próximas horas.

Este lhe assegurou que não iria chover.

A noiva do monarca vivia perto de onde ele iria e colocou sua roupa mais elegante para acompanhá-lo.

No caminho, ele encontrou um camponês montando seu burro que viu o rei e disse:

“Majestade, é melhor o senhor regressar ao palácio porque vai chover muito”.

O Rei ficou pensativo e respondeu:
“Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente”.

E assim fez.

Choveu torrencialmente.

O Rei ficou encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.

Furioso, o Rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista.

Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.

O camponês disse: “Senhor, eu não entendo nada disso. Mas, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover”.

Então, o Rei contratou o burro.

E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto ao Poder.

Desde então, eis a razão de burros ocuparem as posições mais bem pagas em qualquer Governo.

BOM FIM-DE-SEMANA!

21 de fevereiro de 2019

People on film


Quem atravessou a adolescência nos anos oitenta do século passado lembra de certeza o estrondoso sucesso musical que foi “Girls on Film” da banda britânica Duran Duran.
Em Macau, no século XXI, não são só as girls que estão on film.
Somos todos, todos os dias, a toda a hora, em todos os locais.
O que faz com que seja ainda mais surpreendente a reacção do deputado Sulu Sou face à instalação de câmaras no interior dos táxis.
Uma medida que se tem algum defeito é pecar por tardia.
Os constantes desmandos por parte de um bando de criminosos com carteira de taxista que todos os dias são noticiados só aconselhavam que estas câmaras tivessem sido há muito instaladas.
A perda de alguma privacidade, com conhecimento prévio e consentimento tácito por parte do passageiro e condutor, em nada me ofende.
Ofende-me bem mais não saber onde e como funcionam muitas câmaras que constantemente nos vigiam.
E o comportamento aviltante de muitos taxistas que deviam ser severamente punidos por assaltar os incautos passageiros.
Não é Candid Camera, é People on Film.
Não consigo perceber onde está o problema.

Intemporais (153)

20 de fevereiro de 2019

Como vulgarizar o Prémio Nobel da Paz


Quando Alfred Nobel decidiu aplicar a sua enorme fortuna à criação dos famosos prémios Nobel não terá imaginado que poderiam ser vulgarizados como têm vindo a ser.
Especialmente o Nobel da Paz, que deveria distinguir "a pessoa que tivesse feito a maior ou melhor acção pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz".
A intenção era nobre, altruísta, de algum modo mitigava o sofrimento que a dinamite, que enriquecera Alfred Nobel, causaria à Humanidade.
Este intento nobre tem sido distorcido e vulgarizado por quem tem a missão de o levar à prática.
Se a atribuição do Nobel da Paz a Obma em 2009 fora em tudo disparatada, agora somos confrontados com a possibilidade de ser atribuído o mesmo prémio a Donald Trump.
Como reconhecimento pela contribuição do Presidente norte-americano nos esforços de paz na península coreana, diz-se para justificar tão aberrante proposta.
Donald Trump? Pela promoção da paz na península coreana?
E porque não Kim Jong-un, esse paladino da paz universal??

"NUNCA PRECISÁMOS DE OUTRA COISA!"


"Nunca precisámos de outra coisa!"  Foi escrito em 1934.

Conta-se que este poema foi dirigido ao Ministro da Agricultura do governo de Salazar, como forma de pedir adubos. Por mais estranho que pareça, o senhor que o escreveu não foi preso e Salazar (dizia o Ministro) até se fartou de rir quando o leu (??):
EXPOSIÇÃO

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cu bem apontado ao rego,
e... como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
... quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n'um traque do Ministro das Finanças?...
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n'elas.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda...

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.


Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
O Presidente

D. Tancredo (O Lavrador)

19 de fevereiro de 2019

Agentes de autoridade em Portugal e em Macau


Declaração de interesses – tenho amigos e familiares que fazem parte dos quadros das forças policiais em Portugal e em Macau.
Dito isto confesso que não consigo compreender a constante desconfiança com que são encarados os agentes de autoridade em Portugal e em Macau.
Excessos cometidos pelas polícias são notícia, vendem, são fonte de comentário, de censura, de reprovação.
Já os abusos sofridos pelos mesmos não o são tanto.
Algo que me desilude e ofende o meu sentido de justiça.
A segurança de pessoas e bens é fundamental em qualquer sociedade.
E aqueles que zelam para que essa segurança seja uma realidade devem merecer o nosso respeito.
Há excessos da parte das forças policiais?
De certeza que sim.
Assim como os há em todas as outras profissões.
São a regra?
Não acredito.
Pelo contrário, acredito que sejam a excepção.
Vamos dar um bocadinho mais de atenção a quem zela pela nossa segurança e das nossas famílias?

ISLAMOFOBIA E CRISTIANOFOBIA - A BELEZA DA FAMÍLIA (Anselmo Borges)




1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a História, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como “uma nova página no diálogo entre Cristianismo e Islão”. É preciso ler e estudar o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, então assinado por ele e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou Missa para 150.000 cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.
Já de regresso ao Vaticano, na habitual conferência de imprensa no avião, um jornalista perguntou-lhe que “consequências terá também entre os católicos o Documento, considerando que há uma parte dos católicos que o acusam de deixar-se instrumentalizar pelos muçulmanos...” E Francisco: “E não só pelos muçulmanos... (riu-se). Acusam-me de me deixar instrumentalizar por todos, incluindo os jornalistas. É parte do trabalho, mas gostaria de dizer uma coisa. Do ponto de vista católico, o Documento não se separou nem um milímetro do Vaticano II, que até é citado várias vezes. Se alguém se sentir mal, eu compreendo-o, pois não é algo de todos os dias..., mas não é um passo atrás, é um passo para diante... É um processo e os processos amadurecem.”
Outro jornalista observou: “O Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, denunciou a islamofobia. Porque é que não se disse nada sobre a cristianofobia, sobre a perseguição aos cristãos?” E o Papa Francisco: “Falei sobre a perseguição aos cristãos. Também falo sobre ela frequentemente. Inclusive nesta viagem falei sobre isso. Também o Documento condena a violência, e alguns grupos que se dizem islâmicos (os Sábios dizem que não é o islão) perseguem os cristãos.” E, aqui, Francisco relembrou uma história absolutamente comovente, que já contara com mais pormenores em 2017. Em 22 de Abril de 2017, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina em Roma, o Papa Francisco, com a Comunidade de Santo Egídio, presidiu a uma Liturgia da Palavra em memória dos novos mártires dos séculos XX e XXI. E ficaram estas palavras de profundidade incomensurável, apontando, com comoção que nos abala, para a religião na sua verdade humana e divina: “Eu quero, hoje, acrescentar mais um ícone a esta igreja. Uma mulher. Não sei o seu nome. Mas ela olha para nós lá do Céu. Eu estava em Lesbos, saudava os refugiados e encontrei um homem de 30 anos, com três crianças. Olhou para mim e disse-me: ‘Padre, eu sou muçulmano. A minha mulher era cristã. Os terroristas chegaram ao nosso país, olharam para nós e perguntaram-nos qual era a nossa religião e viram-na a ela com um crucifixo. Disseram-lhe que o atirasse ao chão. Ela recusou, não o fez. E degolaram-na diante de mim. Amávamo-nos muito, gostávamos muito um do outro.” “Este é, continuou Francisco, o ícone que trago aqui como presente. Não sei se esse homem ainda está em Lesbos ou se conseguiu ir para outro lado. Não sei se conseguiu sair desse campo de concentração, porque os campos de refugiados — muitos — são de concentração, devido à quantidade de gente que ali é deixada (...). E este homem não tinha rancor: ele, muçulmano, tinha esta cruz da dor que levava sem rancor. Refugiava-se no amor da mulher, salva pelo martírio.”
2. Precisamente no contexto do magno acontecimento histórico que foi esta visita, quero relembrar que, entre os pressupostos para um diálogo inter-religioso autêntico, há dois que são imprescindíveis. Refiro-me concretamente a uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados e à laicidade do Estado.
Estes pressupostos são universais, mas têm particular importância para o cristianismo e o islão (deve-se distinguir entre islão e islamismo, este já com o sentido de islão extremista), pois o número dos cristãos e dos muçulmanos é superior a mais de metade da Humanidade, o que significa que o entendimento entre eles é essencial para o futuro.
A Igreja Católica nomeadamente teve dificuldade em aplicar estes pressupostos, que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II. De qualquer forma, já havia indicações no Novo Testamento e no fundador. Assim, nunca os teólogos católicos referiram a Bíblia como ditada por Deus, mas como Palavra de Deus em palavras humanas, o que implica a exigência de interpretação. Jesus disse: “Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus”. E, chegado a Jerusalém, foi morto, manifestando-se contra toda a violência, dizendo a Pedro: “Mete a espada na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre”. Isto significa que, quando os cristãos olham para os horrores cometidos por eles ao longo da História, têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram Jesus, o fundador.
O que para a Igreja católica foi difícil vai sê-lo ainda mais para o islão. De facto, muitos defendem que o Corão foi ditado por Deus ou que é cópia do Corão eterno, e, por isso, lêem-no à letra, com todos os riscos de barbárie. E o fundador, Maomé, foi ao mesmo tempo um profeta, um chefe de Estado e um combatente em várias batalhas. Com razão, escreveu o filósofo Slavoj Zizek, citando M. Safouan: “A marca distintiva do islão é ser uma religião que não se institucionaliza a si mesma e que, ao contrário do cristianismo, não se equipa com uma Igreja. Na verdade, a Igreja Islâmica é o Estado Islâmico: foi o Estado que inventou a chamada ‘mais alta autoridade religiosa’ e é o chefe de Estado quem nomeia o homem que deve ocupar esse cargo; é o Estado que manda construir as grandes mesquitas, que supervisiona a educação religiosa; é ainda o Estado que cria as universidades, que exerce a censura em todos os domínios da cultura e que se considera ser o guardião da moralidade”.
Evidentemente, a laicidade não é laicismo, que seria a religião da não religião, no sentido de remeter a religião para o espaço privado ou íntimo, sem lugar no espaço público. Sendo a religião uma dimensão constitutiva do ser humano e estruturante da cultura, é evidente que tem de ter lugar também no espaço público, e as religiões têm o direito de debater as grandes questões das sociedades, concretamente as referentes à bioética, e tentar fazer triunfar as suas posições. Qual é a diferença, quando há laicidade, separação da(s) Igreja(s) e do Estado, da religião e da política? Neste caso, a lei não é a lei religiosa, mas a lei votada democraticamente, em democracia pluralista, no Parlamento.
in DN, 17 de Fevereiro de 2019

18 de fevereiro de 2019

Velório de loiras


Estava de passagem por uma capela moderníssima, toda em cor de rosa, quando percebi que uma pessoa havia morrido.
Fiquei curiosa para saber como eram os velórios naquela capelinha….
Ao chegar, vi milhões de bouquês de flores – das mais variadas, das mais sofisticadas às mais chiques – e notei que no caixão estava a morta inteiramente nu@, loiríssima, e ao lado um grande pote cheio de creme muitíssimo perfumado, do qual cada uma das presentes – também loirézimas reluzentes – pegava um pouquinho e passava na defunta.
Surpreendido pela cena, coisa inusitada, aproximei-me de uma das mulheres e perguntei:
– Desculpe-me a ignorância, mas porque estão passando creme na defunta? É tradição aqui?
A moça respondeu:
– Não! É inédito! Nunca fizemos isso. Ela é que pediu para ser cremada!!!!!!!!!!

BOA SEMANA!

15 de fevereiro de 2019

14 de fevereiro de 2019

Ser "fontra"


Ficámos ontem a conhecer a opinião do deputado Sulu Sou acerca da possibilidade de ser implementado legalmente um salário mínimo para as empregadas domésticas.
Sulu Sou é totalmente favorável a essa possibilidade. 
E totalmente contra essa possibilidade.
Ou seja, Sulu Sou, é totalmente "fontra" essa proposta.
Até acredito que o cidadão Sulu Sou perceba a necessidade e a justiça de ser implementado legalmente um salário mínimo para as empregadas domésticas.
Mas o político Sulu Sou sabe que defender intransigentemente essa proposta representaria alienar uma fatia considerável da sua base de apoio eleitoral.
Aquela fatia da população que quer ter uma empregada doméstica com um salário e condições de trabalho próximas da escravidão.
E recua estrategicamente.
Para ficar em meias-tintas.
A favor. Contra. Ou seja, "fontra".

Intemporais (152)

13 de fevereiro de 2019

Decisão adiada


Vinte e seis jogos depois do dérbi na Luz o Porto voltou a saborear o amargo da derrota.
Jogo no Olímpico de Roma, oitavos de final da Liga dos Campeões, derrota por 2-1, tudo adiado para o jogo da segunda mão no Dragão.
Num jogo com poucas oportunidades de golo, muito calculista, com muitas cautelas e pouco risco, venceu a Roma porque procurou mais o golo e marcou mais golos.
O Porto até teve mais posse de bola, foi competitivo, combativo, personalizado, mas acabou por sucumbir à realidade fria dos números que fazem de um garoto de 19 anos protagonista maior do jogo.
Numa fase da época em que a malapata das lesões teima em perseguir a equipa, o Porto vai conseguindo ultrapassar a perda de activos importantíssimos para a equipa com muita entrega e muita alma.
No final do jogo em Roma Sérgio Conceição dizia convictamente que o Porto vai passar a eliminatória.
Essa crença, essa convicção, faz parte do ADN da equipa desde a chegada de Sérgio Conceição.
E faz acreditar que, com ou sem azares, os resultados aparecerão.
Em Março voltamos a conversar. 

Uma sugestão para Theresa May


12 de fevereiro de 2019

Surfar a onda


Declaração prévia – nunca fui, e continuo a não ser, um admirador do político Pedro Santana Lopes.
Demagogo, populista, Pedro Santana Lopes sempre teve uma qualidade(??) que lhe reconheço e que mantém – saber surfar a onda.
E foi esse Pedro Santana Lopes que decidiu criar um partido à boleia do tristemente célebre cansaço e descontentamento com a actuação e as ideias das chamadas forças políticas tradicionais.
O congresso de Évora do partido (Aliança) deverá ter deixado muita gente a pensar o mesmo que eu – porque é que Pedro Santana Lopes não apresentou aquelas ideias no seio do seu PPD/PSD(sic)?
Porque o PPD/PSD já não é de Pedro Santana Lopes, é de Rui Rio, e Pedro Santana Lopes não se revê no partido que o ostracizou.
Será esta constatação óbvia fundamento suficiente para se fundar uma nova força política?
Na era do consumo imediato até pode haver quem ache que sim.
Não faço parte desse clube, confesso.
Pedro Santana Lopes continua a saber surfar a onda.
Mas creio que essa onda, a do descontentamento e da desilusão, exige bem mais que um novo partido, ainda para mais encabeçado por um rosto antigo, para poder agradar aos descontentes.
Algo que Pedro Santana Lopes ainda não terá percebido muito bem e que acredito só irá perceber nas urnas.

Lei Maria da Penha

11 de fevereiro de 2019

Visita da sogra


A sogra vai visitar o filho e a nora.

- Querida sogra! Que saudades!
 
Quanto tempo é que vai ficar cá desta vez?

- Ó querida, só até vocês ficarem fartos de mim.

- A sério?! Não fica nem para tomar um cafezito?

BOA SEMANA!

8 de fevereiro de 2019

CÚMULOS


Qual é o cúmulo da incompetência ?
– Deixar o bichinho virtual escapar.

Qual é o cúmulo da má pontaria ?
– Atirar uma pedra no chão e errar. 

Qual é o cúmulo da ingratidão ?
– Dar ao seu pai um vidro com esperma e dizer: 
“Toma, agora eu não te devo mais porra nenhuma !” 

Qual é o da paciência ?
– Limpar o cú a um elefante com cotonetes!
– Catar piolhos com luvas de boxe!
– Colocar um cagalhão numa gaiola e esperar que ele cante!
– Esvaziar uma piscina com conta-gotas!

Qual é o cúmulo do absurdo?
– O mudo dizer para o surdo que o cego viu o aleijado correr.

Qual é o da preguiça ?
-Casar com uma mulher grávida de outro.

Qual é o da sorte ?
-Ser atropelado por uma ambulância. 

Qual é o da economia ?
-Usar o papel higiénico dos dois lados. 

Qual é o cúmulo da distracção ?
-Na lua de mel, levantar da cama, deixar 100 euros na mesinha de cabeceira e ir embora. 

Qual é o cúmulo da rapidez?
– Fechar uma gaveta à chave e colocar a chave lá dentro. 
– Cagar da janela do 25o. andar de um edifício, descer a correr pelas escadas e ao chegar à rua olhar para cima e ver o cú a fechar.
– Ir ao enterro de um parente e encontrá-lo vivo.

Qual é o da Rebeldia?
– Morar sozinho e fugir de casa. 

Qual é o da Traição?
– Suicidar-se com uma punhalada nas costas. 

Qual é o da Vaidade?
– Engolir um baton para passar na boca do estômago. 
– Comer uma rosa para enfeitar os vasos sanguíneos.

BOM FIM-DE-SEMANA!

4 de fevereiro de 2019

Ano do Porco


Nos próximos dias não haverá publicações.
Celebra-se a chegada do novo ano, o Ano do Porco, e é tempo de convívio familiar.
Se tiverem curiosidade vejam aqui as previsões dos almanaques para o ano que agora chega.
Kung Hei Fat Choi!