6 de dezembro de 2019

Cabeu


BOM FIM-DE-SEMANA
(Alargado em Macau porque segunda-feira há tolerância de ponto)

5 de dezembro de 2019

Quid pro quê?


O processo de destituição de Donald Trump, o célebre impeachment, mais um anglicanismo que o Mundo adoptou, continua.
Donald Trump falou com Zelensky acerca da família Biden?
Sim, não há dúvidas, o próprio o admite.
Chantageou Zelensky? Houve lugar ao tão afamado quid pro quo? O “I give you something if you give me something”?
Essa é a grande questão.
Uma questão que estou cada vez mais convicto Donald Trump não terá sequer colocado a si próprio.
Rei dos cabotinos, profundo ignorante do mais básico rule of law, Donald Trump exerce o cargo de Presidente dos Estados Unidos como sempre se comportou na sua vida privada e negocial.
Quero, posso, mando, faço, contrato, demito, tudo com grande panache.
Informações acerca da família Biden ainda que vindas de um líder de outro país e a troco de vantagens para esse país?
Lembram-se de Michael Douglas em Wall Street contratar Charlie Sheen para espiar o seu principal adversário?
Same same but different.
Quid pro quê?

Intemporais (189)

4 de dezembro de 2019

Fonctionnaires


O novo Executivo foi formalmente apresentado.
Sem grandes novidades relativamente ao que vinha sendo anunciado.
Se alguns nomes podem ter sido uma surpresa, ainda mais quando se verifica as áreas que vão tutelar, não é minimamente complicado perceber qual foi o critério essencial para as escolhas.
Uma linha que o novo Chefe do Executivo explicou sem tibiezas nem floreados – são todos oriundos da Administração Pública, com longa carreira, acima de tudo são todos íntegros, têm todos ficha limpa.
Goste-se ou não, concorde-se ou não, há que fazer escolhas.
E que ter critério nessas escolhas.
Ho Iat Seng, à semelhança de Pequim, elege a integridade como qualidade fundamental.
A par da integridade, a dedicação à causa pública.
Um Executivo que marca o fim da era do empresariado (o Chefe do Executivo é o único que vem da área empresarial) e marca o início da era dos fonctionnaires.

Como é que se explicam estas mudanças?





3 de dezembro de 2019

Pitoresco e modernaço


Para quem vive longe de Portugal há momentos na vida política do país que provocam um sentimento próximo da perplexidade.
A eleição de Joacir Katar Moreira para exercer o cargo de deputada foi um desses momentos.
De repente, do nada, Joacir Katar Moreira saltou para as primeira páginas dos jornais, para a ribalta, e acabou sentada na Assembleia da República.
Porquê, como?
A sensação que fica é que tal fenómeno se deveu à vertente pitoresca, modernaça.
Seria mais um momento fracturante como tanto parece ser do agrado de uma larga faixa da população.
Ideias, conteúdo, propostas?
Para quem está longe não chega nada de novo, de diferente.
Novo, diferente?
O ser mulher, negra, gaga, incómoda.
Chega para ser eleita deputada?
Pelos vistos nos dias que correm é o suficiente.
Se lhe juntarmos uma pitada de folclore (as saias do assessor, a birra com o Partido, a escolta policial) está garantida a fama, ainda que efémera, que Andy Warhol vaticinava.

Arte com calhaus

























2 de dezembro de 2019

Ser velho não é estar caduco



Uma velhinha foi ao supermercado e colocou no carrinho uma  embalagem da ração para gatos, da marca mais cara .

Ao chegar à caixa a moça  disse-lhe:
- Desculpe, mas nós não podemos  vender-lhe a ração de gatos  sem provas de que a senhora tem, realmente, gatos! 
É que muitos idosos  compram ração de gatos para comerem eles mesmo, e a gerência quer  provas de que a senhora esteja realmente a comprar a ração de gatos  para o seu gato.

A velhinha foi para casa, pegou no gato e levou-o ao supermercado  e eles, então, lá lhe venderam a ração pró gatinho.

Num outro dia, a velhinha foi novamente ao supermercado e comprou 12  dos mais caros biscoitos para cachorros.

A menina, novamente, pediu provas de que ela teria, realmente,  um cachorro, explicando que os idosos também costumavam comer comida  de cachorros.

Frustrada, a idosa lá foi a casa e voltou com o seu cachorrinho, e já  pôde levar os pretendidos biscoitos.

No dia seguinte, a velhinha voltou ao supermercado, levando uma caixa  com um buraco na tampa e pediu à moça para colocar o dedo no buraco da  caixa.

A moça da caixa disse:
 - Não, não meto!!! 
Pode ter uma cobra, ou outro bicho aí dentro !!!

A velhinha  assegurou-lhe que não tinha nenhuma cobra de estimação, e  que não havia nenhum bichinho na caixa que pudesse mordê-la.
 E,  então, a moça da caixa enfiou o dedinho no buraco, tirou-o, cheirou e  disse: 
- Hummmmmm... mas isto é merda!!!

A velhinha, então, sorriu de orelha a orelha e confirmou:

- É mesmo merda!
 Agora, minha querida, eu só quero saber se posso  comprar três rolos de papel higiénico de folha dupla???

(Prenda do Ricardo Santos)

BOA SEMANA

29 de novembro de 2019

O corno (ainda os há inteligentes)


O indivíduo surpreende a mulher em sua cama com outro.
Tirou o revólver da cintura, armou o gatilho e já ia metendo bala nos dois, quando parou para pensar e foi percebendo como a sua vida de casado havia melhorado nos últimos tempos.
A esposa já não pedia dinheiro para comprar carne, aliás, nem para comprar vestidos, jóias ou sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou uma sandalinha da moda.
Os meninos mudaram da escola pública do bairro para um cursinho super chique, na zona de Cascais.
 Sem contar que a mulher trocou de carro, apesar dele estar há quatro anos sem aumento e ter cortado a mesada dela.
E o mercado então, nem se fala, eles nunca tiveram tanta fartura quanto nos últimos meses.
E as contas de luz, água, telefone, internet, telemóvel e cartão de crédito, fazia tempo que ele nem ouvia falar delas.
O caso é que a mulher dele era mesmo um avião, uma mistura de Diana Chaves com Rita Pereira , temperada no caldo da Catarina Furtado. 
Coisa de louco. 
Guardou a arma na cintura e foi saindo devagar, para não atrapalhar os dois. 
Parou na porta da sala e disse para si mesmo:
- O gajo paga o aluguer, o supermercado, a escola das crianças, as contas da casa, o carro, o shopping, todas as despesas e eu ainda vou para cama com ela todos os dias...
E fechando a porta atrás de si, concluiu:
Deixa para lá, afinal o corno é ele!

BOM FIM-DE-SEMANA 

28 de novembro de 2019

Pequim insiste no comportamento da avestruz


A lenda ensina que a avestruz enterra a cabeça na areia ao primeiro sinal de perigo.
Na nossa vida conhecemos muitas situações e pessoas em tudo similares.
Pequim é um bom exemplo desta realidade.
Os resultados das eleições em Hong Kong passaram ao lado da imprensa no interior da China.
Se não se falar de uma realidade que se teme, da qual não se gosta, pode ser que essa realidade se transforme, desapareça.
Todos sabem que não é assim, que só enfrentando os problemas os podemos compreender e solucionar.
A lenda da avestruz com a cabeça enterrada na areia não passa disso mesmo, de uma lenda.
A realidade é que a avestruz encosta a cabeça na areia para girar os ovos durante a incubação (o seu enorme pescoço, junto ao chão, cria a ilusão de estar enterrado).
O comportamento de Pequim não é lenda, não é ilusão, é mesmo teimosia, insistir no no pasa nada quando a realidade desagrada.

Intemporais (188)

27 de novembro de 2019

Two countries, two systems


No passado domingo, em conversa com uma familiar residente nos Estados Unidos, ela comentava que era óbvio o que os manifestantes em Hong Kong queriam – two countries, two systems.
Acredito que com muitos seja efectivamente assim.
Não é segredo que há uma frente independentista em Hong Kong que conta com o apoio de uma faixa da população residente.
Uma faixa que muito claramente pede o impossível.
Impossível legalmente, impossível politicamente, impossível na prática.
A Declaração Conjunta e a Lei Básica consagram o conceito “um país, dois sistemas”.
Um conceito imaginado para integrar Macau e Hong Kong na grande China (eventualmente Taiwan...), nunca para permitir a qualquer uma das regiões administrativas especiais ser independente.
E vamos a questões práticas – como poderia qualquer uma das regiões administrativas especiais sobreviver sem o apoio da China? Da China de onde recebem todos os bens essenciais e as suas maiores fontes de receita? 
Jangada de Pedra só mesmo no romance de José Saramago.

Apóstolas (e não Apóstatas) - Henrique Raposo


Este ensaio defende o fim do celibato obrigatório do clero e defende a ordenação de mulheres. A missa pode e deve ser celebrada por uma mulher. Não se trata de uma cedência ao ar do tempo, trata-se de uma cedência ao ar bíblico. Homem e mulher são iguais no corpo de Cristo. Não, não se trata de colocar a Igreja dentro da “modernidade”, seja lá o que isso for, trata-se de aproximar a Igreja de Jesus Cristo. O género não está antes da nossa humanidade partilhada, está depois. A Igreja não é Deus, não é Cristo, é um edifício imperfeito e sempre em obras, uma espécie de torre de Babel omnipresente mas não omnisciente, imperecível mas não perfeita. Esta torre católica nunca deixa de ter andaimes, roldanas e cordas, porque a tradição é viva e orgânica, não é um museu de figuras e normas intocáveis, quais bezerros de cera dourada. Naturalmente, admito a falibilidade dos argumentos que se seguem. Não admito que não se realize este debate. Não admito que a mera invocação destas ideias seja rotulada como herética.

MULTIPLICAI-VOS

O celibato obrigatório não tem suporte bíblico, é só uma construção política da Igreja. No Evangelho, Jesus nunca nos diz que o trabalhador evangélico não pode ter mulher e filhos. Nunca. Diz-nos outra coisa diferente, que não pode ser confundida com a defesa da castidade, a saber: há momentos, diz Jesus, em que um cristão tem de ir contra a vontade da sua própria família se quiser permanecer fiel à revelação. Podemos e devemos ir contra o nosso próprio sangue se os nossos filhos ou pais estiverem moralmente errados. A nossa lealdade está em primeiro lugar na transcendência e não na imanência, mesmo que seja a imanência filial. É isto que Jesus quer dizer quando declara “se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26). Esta passagem é um alerta contra o relativismo passional, e não um pedido para um exército de celibatários. Até porque os apóstolos eram homens com mulher e sogra: “Entrando em casa de Pedro, Jesus viu que a sogra dele jazia no leito com febre” (Mt 8, 14).

Além da fidelidade à “Bíblia”, uma questão atemporal, este tema remete para o caso dos abusos, uma questão do nosso tempo. Os abusos não têm como causa o celibato. A maioria dos casos de pedofilia é cometida por homens casados, os pais, os tios, os avôs, os vizinhos. Sucede que o celibato, a partir de uma certa idade, é um fator de risco adicional no clero. Quem é o diz é Hans Zollner, o jesuíta responsável pela cimeira da Igreja sobre o assunto: “A forma de vida celibatária torna-se um fator de risco quando a vida sacerdotal entra em crise.” Não é preciso um doutoramento em neurociência para compreender que uma vida sem afeto, sem toque, sem amor, sem sexo, sem mulher e sem filhos é uma vida contranatura. E não será também uma vida pouco cristã? Não haverá uma contradição teológica entre a “Bíblia” que tem o Cântico dos Cânticos e a Igreja que força a castidade dos seus servidores? Não haverá uma contradição entre a Igreja que diz que a família é o valor absoluto e a mesmíssima Igreja que é liderada por homens que não podem formar família?

FEBE

Em 2002, sete mulheres e dois bispos começaram a mudar a história a bordo de um barco no Danúbio, perto de Passau, Alemanha. Dentro de água e fora da jurisdição de qualquer diocese, os bispos Regelsberger e Braschi ordenaram como padres da igreja as tais mulheres: Pia Brunner, Ida Raming, Iris Muller, Christine Mayr-Lumetzberger, Adeline Roitinger, Gisela Forster e uma sétima que tinha como cognome “Ângela Branca”. Algumas eram freias. Digo “eram”, porque as sete do Danúbio foram excomungadas. Algumas ouviram dos seus superiores que aquela rebeldia era tão vil como um abuso sexual.

Este caso não é muito conhecido por duas razões. Em primeiro lugar, os dois bispos são rebeldes, não fazem parte da hierarquia, pertencem a um movimento sem validade, “catolicismo independente”. Mas, com ou sem validade, a coragem está lá. Em segundo lugar, o caso é anterior às redes sociais. Se tivesse ocorrido em 2016 ou 2019, teria tido uma repercussão muitíssimo maior. As sete do Danúbio seriam hoje figuras à escala de Greta Thunberg. Julgo, porém, que é só uma questão de tempo até que este gesto seja repetido por dois bispos da verdadeira hierarquia. E, seja como for, as sete do Danúbio trazem à memória Ludmila Javorová, padre da igreja checa na clandestinidade (anos 70 e 80). Neste caso, não se coloca a questão da validade: Javorová foi ordenada por um bispo da hierarquia. Se Javorová serviu a Igreja debaixo de fogo do totalitarismo comunista, outras Jovorovás não o poderiam fazer no dia a dia normal?

A IGREJA NÃO É DEUS, NÃO É CRISTO, NÃO É UM MUSEU DE FIGURAS E NORMAS INTOCÁVEIS

Começo com estes casos para ilustrar que a mulher padre é uma ideia com um passado e com um presente. As sete do Danúbio são a face mais visível de um movimento que se move ao lado da igreja numa espécie de desobediência civil. Nos EUA, por exemplo, há centenas de mulheres padres nesta desobediência civil. São apoiadas por inúmeras organizações como Roman Catholic Womenpriests, Voices of Faith Iniciative ou Women Priests Project: angariam dinheiro para estas igrejas paralelas e para a educação teológica destas mulheres e do público, cada vez mais recetivo à ideia. Até porque as irmãs, as freiras, estão cada vez mais desafiantes e vocais na imposição da sua voz. Há neste momento um movimento sufragista de freiras, dos EUA à Alemanha. A par do movimento das irmãs, há um movimento das leigas. Olhe-se por exemplo para a KFD, organização das católicas alemãs que conta com 4 mil associações e 450 mil inscritas. 450 mil vozes lideradas por uma política da CDU, Mechthild Heil, católica, conservadora, feminista e reformista dentro da igreja. Heil tem dito, e bem, que os bispos têm de abdicar do poder 100% masculino e que essa não abdicação de poder é que é absolutamente anticristã.

Não é a ordenação de mulheres contrária à vontade de Jesus tendo em conta que os 12 são 12 homens? A meu ver, manter a conversa só aqui revela uma leitura superficial da “Bíblia”. Superficial e incoerente. É verdade que os 12 são 12 homens, mas também é verdade que Jesus não ordenou o celibato. Então como ficamos? Quando nos dá jeito, seguimos Jesus à risca como se Ele nos tivesse deixado um mero Excel teológico, mas quando não nos dá jeito já não O seguimos à letra? Depois, importa frisar que Jesus sabia que atuava numa sociedade historicamente situada. Jesus Cristo é a intersecção entre o tempo de Deus e o tempo dos homens; é Deus a escrever não num vácuo, mas num momento historicamente situado. Neste sentido, importa recordar que Jesus não contesta a escravatura. Não há uma passagem em que Jesus diga taxativamente que a escravatura é uma prática condenável. Quer isto dizer que Jesus é a favor da escravatura? Não. Mas é curioso que não a condene de forma aberta. Há momentos assim em Jesus, momentos de uma enorme sabedoria política. Daí a César o que é de César, por exemplo. Mas claro que Ele nos deixa a pista que só seria percebida e consumada 1800 anos mais tarde: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo” (Gl 3, 28). E, se esta frase da Carta aos Gálatas nos permite dizer que Jesus está contra a escravatura, então também nos permite dizer que Jesus está contra a subalternidade da mulher. Demorámos 1800 e tal anos para compreender “não há escravo e livre”. Precisamos de mais um século para compreender “não há homem e mulher”?

Ao longo dos Evangelhos, a atitude de Jesus em relação às mulheres é reveladora. Em primeiro lugar, traz as mulheres para a praça pública. As mulheres estavam confinadas à vida doméstica, as discussões políticas e teológicas na praça pública eram dos homens. Jesus quebra esta regra, trazendo as opiniões e os gestos das mulheres para o centro do espaço público. Quando uma mulher ousa falar, Jesus manda calar os doutores da lei. Isto era revolucionário há 2000 anos na Palestina. Parece que continua a ser revolucionário à beira de 2020. Em segundo lugar, Jesus não se limita a dar voz às mulheres na praça pública. Dá-lhes razão. Através de Jesus, as mulheres vencem sempre os debates com os homens que pretendem silenciar as suas palavras ou censurar os seus gestos. Por outro lado, há que frisar que Jesus também mandata mulheres para o trabalho de apóstolo. É Maria Madalena quem vê Jesus ressuscitado pela primeira vez: “Ela aproximando-se, exclamou em hebraico, Rabbuni” (Jo 20, 16). E, a seguir, Jesus dá-lhe uma missão de apóstolo: vai e dá a boa nova! É curioso verificar que Pedro e os outros recusam acreditar na boa notícia de Madalena; fazem lembrar os judeus que recusavam acreditar na boa nova de Caleb. Se recuarmos um pouco a fita do tempo, verificamos que são elas, Maria Madalena, Maria, Salomé, que ficam no momento mais delicado, a crucificação e a colocação de Jesus no sepulcro. Eles desaparecem com medo, elas ficam. E, já agora, é Maria quem reúne os apóstolos amedrontados. Até se pode fazer o caso de que Maria é o grande apóstolo, é ela o ponto de ligação de todo o Evangelho, desde Gabriel até aos dias pós-ressurreição. Um país mariano como Portugal não pode ficar indiferente a este argumento.

O CELIBATO OBRIGATÓRIO NÃO TEM SUPORTE BÍBLICO, É UMA CONSTRUÇÃO POLÍTICA DA IGREJA

Esta defesa da abertura do púlpito às mulheres ganha ainda mais força quando recordamos os primeiros anos da Igreja. E nem sequer estou a falar do diaconato, que esteve aberto às mulheres até ao século XII. Estou a falar da paridade entre homem e mulher da igreja original.

Não haverá peça de teologia cristã mais importante do que a Carta aos Romanos, de São Paulo. Pois bem, os agradecimentos finais desta carta (Rm 16, 1-16) são dominados por mulheres. Sim, Paulo dedica a grande peça teológica da cristandade a mulheres que são tratadas como diaconisas, trabalhadoras evangélicas e até por apóstolas. Sim, porque “apóstolo” quer dizer “mandatado”. Se Cristo mandata Madalena para a maior boa nova da história, São Paulo mandata as seguintes mulheres, Febe, Júnia, Prisca, Pérside, Trifosa, Júlia, e a irmã de Nereu. Elas estão em pé de igualdade numérica com eles. E estão em superioridade na qualidade dos elogios. Estas mulheres têm uma autoridade plena ao nível teológico e ao nível organizativo, sobretudo Febe, Júnia e Prisca ou Priscila.

Febe é a primeira pessoa a receber o agradecimento, porque provavelmente é o correio da carta. Ou seja, é Febe quem aparece em Roma representando Paulo. “Recomendo-vos”, começa Paulo, “a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncrea.” Cêncrea era um porto perto de Corinto. “Recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos, e assisti-a nas atividades em que precisar de vós. Pois também ela tem sido uma protetora para muitos e para mim pessoalmente.” Quem é que em Roma recebe a carta das mãos de Febe? Provavelmente outra mulher, Priscila. Priscila é a segunda pessoa a surgir nos agradecimentos e até aparece antes do seu marido, Áquila. “Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça.” Nesta época, Priscila é porventura o cristão mais importante fora os nomes sagrados. É o cristão ‘normal’ mais importante, digamos assim. Ela e o marido estão na base de mais dois centros da cristandade emergente além de Roma, Corinto (Grécia) e Éfeso (Turquia). E o que dizer de Júnia, que é tratada por Paulo como apóstola? “Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim” (Rm 16, 7).

Não seria extraordinário se a Igreja em 2020 se aproximasse desta pureza original? A exclusão da mulher do clero é uma obra do homem, não de Cristo. A exclusão da mulher do púlpito é uma cedência da Igreja, a cidade de Deus, ao ar que vem da cidade dos homens.
in Semanário Expresso, 23.11.2019, p 44

26 de novembro de 2019

Exemplos de civismo


Hong Kong e Macau tiveram mais uma oportunidade de verificar o civismo das suas populações.
Na perspectiva da participação e consciência política, muito especificamente.
Em Hong Kong, nas eleições para os conselhos distritais, a população saiu à rua em massa, de forma ordeira, com grande civismo, e demonstrou que não está contente com o rumo do segundo sistema, com a rápida aproximação ao primeiro sistema que Pequim e alguns sectores da sociedade, claramente minoritários, desejam.
Um dia sem violência e sem caos, com o tremendo poder do voto popular a falar muito mais alto que todos os berros sem sentido que se têm continuadamente ouvido.
Em Macau, no mesmo dia, nos processos eleitorais locais muito sui generis, conseguimos verificar na prática o que se diz em anedota ser o cúmulo da lentidão (correr sozinho e ficar em segundo).
Um único candidato e mesmo assim a eleição (sufrágio indirecto) fica manchada.
Sem comentários porque se afiguram de todo desnecessários.

Carta dos pais ecologistas



Meu querido,

Na sexta-feira, faltaste às aulas para participar na manifestação pela defesa do ambiente.

Então eu e o teu pai decidimos aderir à tua causa e reduzir a pegada de carbono da nossa família.

A partir de hoje suprimiremos smartphones, consolas de jogos, internet e televisão.

Segundo parece tudo isso é causador de detritos electrónicos que envenenam os rios do sudoeste asiático.

Não iremos mais de férias de avião ao estrangeiro, nem praticar ski, nem fazer camping-car na côte d’Azur, e até já decidimos vender a roulotte.

No próximo Verão eu e o pai já programámos a subida em bicicleta das margens do canal do Midi.

Tu farás exercício físico indo a pé para o colégio, visto que a bateria da tua trotinete não é reciclável.

Quanto ao vestuário, acabaram-se as grandes marcas fabricadas pela mão de obra escrava infantil, comprar-te-emos apenas roupa fabricada com tecidos ecoresponsáveis , tais como, linho, lã crua, bombazina, etc.

Passaremos a consumir unicamente alimentos biológicos, banindo assim a comida industrial como Mars e Coca Cola e afins, poupando também no respectivo transporte.

À noite, dedicar-nos-emos à leitura de livros impressos em papel reciclado, evidentemente, e jogaremos xadrez, damas e jogos educativos, fabricados em madeira, evidentemente.

Claro que teremos que passar a ir para a cama mais cedo para economizar energia.

Estamos seguros que tu aderirás a este programa fantástico com todo o entusiasmo.

Os teus pais, verde-convertidos.

25 de novembro de 2019

Surpresas no casamento


Um homem conheceu uma linda moça e decidiu casar-se com ela. 
Pediu-a em casamento e ela disse:
- Mas... não sabemos nada um sobre o outro...
- Não há problema - respondeu - conhecemo-nos com o tempo.
Ela concordou.
Casaram-se e foram passar a lua de mel num luxuoso resort.
Certa manhã, estavam ambos recostados junto à piscina, quando ele se levantou e subiu para o trampolim dos 10 metros.
Uma vez aí, saltou para a piscina num salto correcto e lindo. Subiu de novo e iniciou série de outros diferentes saltos numa demonstração perfeita. 
Feito isto, voltou para junto da esposa.
- Isso foi incrível - disse ela sem se conter.
- Ohhhh... eu fui campeão olímpico de saltos ornamentais para a piscina - respondeu - eu tinha-te dito que nos iríamos conhecendo com o tempo.
Não demorou muito até que ela se levantou, entrou na piscina e começou a nadar, fazendo ida e volta com uma velocidade impressionante.
 Ao fim de 30 piscinas completas, ela saiu da água e, sem demonstrar qualquer cansaço, foi recostar-se junto ao marido.
- Estou surpreendido - exclamou ele - Foste nadadora olímpica, com toda a certeza...
- Não... - esclareceu, ela, candidamente - fui prostituta em Veneza e atendia ao domicílio.

BOA SEMANA

22 de novembro de 2019

O HOMEM É BASTANTE PONDERADO



Um homem tinha três namoradas e não sabia com qual delas deveria casar.
Resolveu, então, fazer um teste para ver qual estava mais apta a ser a sua mulher.Tirou 15 mil euros do banco, deu 5 mil para cada uma e disse:
- Gastem como quiserem.

A primeira foi ao shopping, comprou roupas, jóias, foi ao cabeleireiro, salão de beleza, etc. Voltou para o homem e disse:
- Gastei todo o teu dinheiro para ficar mais bonita para ti, para te agradar. 
Tudo isso porque te amo.

A segunda foi ao mesmo shopping, comprou roupas para ele, um leitor de CD, uma televisão écran plano, dois pares de ténis para jogar basquetebol,tacos
de golfe e filmes porno. 
Voltou para o homem e disse:
- Gastei todo o teu dinheiro para te fazer mais feliz, te agradar. 
Tudo isso porque te amo.

A terceira pegou no dinheiro, aplicou em acções.
 Em três dias duplicou o investimento, devolveu os 5 mil Euros para o homem e disse:
- Apliquei o teu dinheiro e ganhei o meu. 
Agora posso fazer o que quiser com o meu dinheiro.
Tudo isso porque eu te amo.

Então o homem pensou,

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou... (os homens, demoram muito para pensar.)

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou...

pensou.... (os homens, pensam mesmo muito...)

pensou...

pensou...

pensou...

pensou..

pensou...

E casou com aquela que tinha as mamas maiores!

Um homem pensa muito... mas escolhe sempre da mesma maneira.

BOM FIM-DE-SEMANA 

21 de novembro de 2019

Um país, dois sistemas (com ou sem máscaras)


O Supremo Tribunal de Hong Kong deixou claro que o princípio “um país, dois sistemas” vigora naquela Região Administrativa Especial.
A decisão de considerar contrária à Lei Básica a lei que proibia a utilização de máscaras nas manifestações é uma decisão marcante.
Porque representa a consagração daquele princípio como realidade presente, estruturante, porque reafirma a tripartição de poderes, a independência do poder judicial, dos tribunais, a centralidade do rule of law.
A decisão de recorrer a esta lei, que o Executivo de Carrie Lam foi ressuscitar das cinzas da memória (a lei data de 1922 e não era utilizada desde 1967), foi insensata, inábil, ineficaz, produziu o efeito contrário ao desejado.
O que não surpreende vindo de um Executivo que insiste no erro, no tiro no pé.
Como se deve fazer em situações similares, os que discordavam da medida contestaram-na no local próprio.
E foram ouvidos ficando o sério aviso para todos – o sistema judicial de Hong Kong está vivo e atento.
E o princípio “um país, dois sistemas” também.

Intemporais (187)

20 de novembro de 2019

Amar pelos dois



A música feita em Portugal não é popular em Macau, passa completamente ao lado da esmagadora maioria da população aqui residente.
Mas começo a pensar que Salvador Sobral, especialmente depois de por aqui ter actuado com assinalável êxito, deixou boas memórias.
Particularmente com a famosa balada “Amar Pelos Dois”.
Deve ser essa a explicação para cada vez mais ouvir gente presumivelmente responsável em Macau encher a boca com o chavão “amar a pátria”.
Será preciso as pessoas estarem sempre a ser chamadas a atenção para a necessidade de amar a pátria, de amar tout court?
Amar é um sentimento que nunca pode ser forçado, incutido.
Quem ama, ama porque sente, porque vibra, porque faz parte de si, do seu ser, do seu viver.
Longe fisicamente, continuo a amar a minha Pátria.
E não preciso de ser constantemente lembrado disso.
Quando se bate a mesma tecla repetidamente a música e a voz começam a soar a falsete.

L' ALTRA PAR (Praga dos telemóveis)

19 de novembro de 2019

Caçar vários coelhos com vassouras e pás


A milenar sabedoria chinesa manifesta-se muitas vezes em pequenos gestos.
Gestos que na sua simbologia dizem muito mais que os mais bem imaginados e elaborados textos.
Ver os militares do Exército de Libertação Popular (ELP) nas ruas de Hong Kong limpando e desimpedindo as vias públicas foi um desses gestos.
Sem alarido, sem anúncio prévio, dentro da mais estrita legalidade, os militares do ELP, numa acção de auxílio em situação de emergência, vieram à rua e eficazmente limparam o que outros tinham conspurcado.
Com este gesto conseguiram ganhar protagonismo, popularidade, mostraram que estão presentes e prontos para qualquer eventualidade.
Armados apenas com vassouras e pás conseguiram matar vários coelhos.
Não com uma cajadada, apenas com sabedoria e  limpeza.
Chapelada!

A pena de morte e o inferno. 2 (Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia)


1. Desgraçadamente, como disse o Cardeal Carlo Montini, antigo arcebispo de Milão, também jesuíta e que o Papa Francisco quer seguir, a Igreja anda atrasada pelo menos 200 anos.
Este atraso é infeliz concretamente no que à pena de morte diz respeito. É uma vergonha, mas até 1969 no Estado do Vaticano existia a pena de morte. Podia não aplicá-la, mas estava vigente e só foi derrogada formalmente na Lei Fundamental em 2001 pelo Papa João Paulo II. E ainda constava até 2 de Agosto de 2018 no Catecismo da Igreja Católica a legitimação da pena de morte. Felizmente, como aqui escrevi na crónica da semana passada, o Papa Francisco reescreveu esse artigo do Catecismo e quer que a Igreja faça campanha a favor do fim da pena de morte em todos os países e pronuncia-se contra a pena de prisão perpétua. “Nunca se pode castigar sem esperança; é por isso que sou contra a pena de morte e também contra a prisão perpétua interpretada como sendo ‘para sempre’.” Porque a todos deve ser dada a possibilidade de regeneração, a todos deve ser restituída a esperança.
2. Evidentemente, aqui chegados, coloca-se, concretamente ao crente, a questão da doutrina do inferno, que seria a condenação definitiva, eterna. Pergunta-se: Alguém merece a condenação definitiva, eterna? Qual a relação entre uma liberdade finita no tempo e uma eternidade falhada, definitivamente, eternamente falhada? Uma pergunta imensa e dramática. A pergunta tem sentido, ao pensar na inscrição que, segundo A Divina Comédia, de Dante, na linha do “dogma” católico, se encontra à porta do inferno: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” (abandonai toda a esperança, vós que entrais).
Dizia-me uma vez o filósofo Ernst Bloch, numa conversa em Tubinga: pensando no inferno, seria melhor não existirmos, e “todos os condenados no inferno estariam de acordo comigo”. Aliás, o inferno seria o sofrimento eterno sem qualquer finalidade… De modo paradigmático, David Hume argumentou (socorro-me da citação feita pelo teólogo Andrés Torres Queiruga): “É inaceitável um castigo eterno para ofensas limitadas de uma criatura frágil, e, ainda por cima, esse castigo não serve para nada, uma vez que se dá quando toda a peça está acabada, concluída”.
Na presença do Deus que é amor incondicional, como diz a Primeira Carta de São João, julgo que também é legítimo pensar e esperar que, seja qual for o mal feito, haverá sempre algum acto de amor de todos, de cada uma e de cada um, que permite a Deus recriar para a vida eterna feliz todos os homens e mulheres…, mesmo se as possibilidades não realizadas neste mundo — a vida aqui, na liberdade, tem de ser tomada a sério e com consequências — Deus não as possa eternizar, elevando-as à plenitude. Seja como for, a Igreja nunca declarou que alguém esteja condenado no inferno. A doutrina sobre o inferno diz apenas sobre a grandeza da liberdade e de como é necessário tomá-la eminentemente a sério.
Dada a importância do tema, permito-me explicitar. Seja como for, todas as pessoas, crentes ou não, perguntam pelo sentido último da sua existência, vivem a angústia da liberdade e a exigência radical da justiça — bem e mal não são equivalentes —, e foram atormentadas pelos horrores do inferno e sabem como isso serviu o poder da Igreja...
Houve um tempo em que o inferno era um tema central dos sermões. Teólogos e pregadores, aterrorizados por uma sexualidade reprimida, por dúvidas atrozes de fé, por uma agressividade latente, compensaram a sua própria angústia projectando-a sobre os outros. Tudo com a melhor das intenções. Afinal, se o que esperava os hereges, os judeus, as bruxas, etc., era sem dúvida o inferno (lembre-se a doutrina do Concílio de Florença, em 1442, segundo a qual quem está fora da Igreja católica “cai no fogo eterno, preparado para o demónio e os seus anjos”), então deveriam arder desde já, até porque, mesmo que não fosse possível salvar as suas almas, pelo menos a sua morte, pela espada, pela tortura e sobretudo pelo fogo, serviria de advertência para outros e a sua salvação. Assim, escreve Hans Küng, “conversões forçadas, condenação dos hereges à fogueira, perseguições dos judeus, cruzadas, a paranóia das bruxas, guerras de religião em nome de uma ‘religião do amor’, tudo isso custou milhões de vidas humanas”. O terrorismo exercido sobre as consciências pelas torturas do inferno e a que se estava condenado por um único pecado mortal, um pecado que andava principalmente ligado ao sexo, serviu realmente para a manutenção do poder da Igreja, mas é bem possível que, como escreveu o historiador católico Jean Delumeau, “porque as Igrejas do Ocidente não prestaram atenção suficiente aos argumentos dos ‘hereges’ que recusavam acreditar na eternidade do inferno, se produziu desde o século XVI um movimento de recusa do cristianismo, identificado pelos libertinos como uma teologia do Deus que castiga”.
Mas bem e mal não se identificam. Se a História tem um sentido, ele só pode ser o da liberdade. Então, o que se chama o dogma do inferno, na sua dramaticidade, diz: És livre, não tens a salvação assegurada automaticamente, podes falhar radical e definitivamente o sentido da tua vida. Quando olhamos para a História da Humanidade, com todo o seu cortejo de horrores, de crimes, de infidelidades, de crueldade gratuita, de suor, de lágrimas, de sangue, de desespero, de traições, de desprezo, de indiferenças, de guerras, de massacres, de genocídios, de aviltamento, de torturas, causados por homens e mulheres a outros homens e mulheres e, concretamente, inocentes, de tal modo que a existência se tornou para eles absurda, um verdadeiro “inferno”, compreendemos e exigimos, desde a raiz do nosso ser, que o algoz e a vítima não podem ter a mesma sorte. Por paradoxal que pareça, o dogma do inferno é a proclamação mais radical da liberdade. O inferno como possibilidade real para mim é advertência para  a seriedade radical da existência livre, que de modo nenhum pode ser reduzida a bagatela ou vulgaridade. Neste sentido, o inferno não significa o castigo da tortura infligido “de fora” por um Deus implacável e sedento de vingança, mas o falhanço total da existência a que o homem pode auto-condenar-se. Então, como interpretar teologicamente o inferno?
Deus não condena ninguém, porque Deus é só Amor. Pode a pessoa auto-condenar-se ao inferno? Significativamente, a Igreja nunca declarou que alguém em concreto esteja no inferno, nem mesmo Judas ou Hitler. No caso-limite de haver realmente alguém que se feche radical e obstinadamente ao amor, excluindo definitivamente Deus, então, não podendo, na morte, ser encontrado por Deus, porque o não aceita, anula-se definitivamente. Este é o “inferno” enquanto “segunda morte”, de que fala a Bíblia: o homem ou a mulher radical e obstinadamente maus não participam na plenitude da vida eterna de Deus, mas também não são eternamente torturados, pois, pela morte, simplesmente já não existem. Na morte, os maus são entregues à sua própria lógica: para eles, não pode haver vida eterna: a sua morte, escreveu o grande teólogo E. Schillebeeck, “é realmente o fim de tudo”, o nada puro e simples, a morte definitiva, eterna.
O teólogo Andrés Torres Queiruga pensa, com razão, que se pode esperar mais e ir mais longe. Ninguém é absolutamente mau, e poderá a liberdade finita ter “uma opção tão absoluta que a leve a escolher o nada?”. Assim, “conjugando os dois pólos — um Deus que quer fazer tudo para salvar e uma liberdade que é limitada —, chegar-se-ia a uma autêntica mediação: Deus salva quanto e na medida em que ‘pode’, isto é, quanto a liberdade finita lhe permite. Dado que esta não é total, Deus salva aquele resto de bondade que parece não poder ficar anulado por nenhuma acção má. Haveria, portanto, condenação real e definitiva, pois perde-se tudo aquilo que não se permite a Deus salvar, mas desapareceria a desproporção que parece intolerável entre o finito da culpa e o infinito das consequências”. Há salvação, mas com “perda eterna de possibilidades, plenitude e felicidade”: a pessoa empequeneceu-se por sua culpa e estará eternamente “menos realizada do que poderia”.
Este é o sentido de eu dizer: Não há inferno. Para maior explicitação, permito-me remeter para o meu recente livro: Conversas com Anselmo Borges.
in DN, 17.11.2019