21 de agosto de 2019

Governar a cidade


No próximo domingo Ho Iat Seng será eleito para desempenhar o cargo de Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau.
Como se trata de uma eleição em círculo fechado, para mais sem adversários, o candidato não precisa de explicitar as suas ideias para atrair votos.
Ho Iat Seng que apresentava como cartão de visita apenas o seu desempenho como Presidente da Assembleia Legislativa já que os outros cargos que desempenhava fogem muito ao escrutínio público.
E o Presidente da Assembleia Legislativa Ho Iat Seng era olhado de soslaio por muitos sectores da sociedade civil.
Quiçá consciente dessa realidade, o candidato a Chefe do Executivo Ho Iat Seng parece estar a querer distanciar-se de algumas polémicas estéreis e a apresentar uma imagem pública renovada.
Uma imagem pública que passa muito por perceber que o Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau é um dirigente político sui generis.
Representando o topo da hierarquia político-administrativa de uma cidade que dispõe de uma PIB extraordinário, e de uma taxa de emprego excepcional, ao Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau cabe na prática apenas governar a cidade.
Algo que se espera que Ho Iat Seng esteja a ser aconselhado fazer.
Este período de auscultação dos anseios da população não pode ser apenas uma manobra eleitoralista.
Um erro que é ainda mais absurdo e disparatado em Macau do que provavelmente em qualquer outro local.
O Chefe do Executivo não precisa de saber as minudências (de minimis non curat praetor).
Mas também não as pode olimpicamente ignorar para se concentrar em hipotéticas questões políticas que todos sabemos são pensadas e decididas bem mais a Norte.
Esperemos que Ho Iat Seng saiba governar a cidade.
Não é pedir muito ...

Sem comentários


20 de agosto de 2019

Passar ao lado do tema em discussão


A discussão acerca da bondade/legalidade da decisão da PSP de não autorizar uma reunião, que visava manifestar desagrado face à actuação das força policiais em Hong, está a passar ao lado do tema principal.
O direito de reunião e manifestação em Macau é livre.
E só pode ser limitado se o seu exercício visar fins contrários à lei.
Que têm que ser claramente identificados e fundamentados.
Uma invocação genérica, uma possibilidade, é um não fundamento, é insuficiente, abusivo e perigoso.
No futuro, depois deste precedente, é possível dizer que pode haver problemas para restringir um direito fundamental?
Estamos claramente a pisar terreno muito minado.
E estamos a permitir que aqueles que possam eventualmente ter interesses obscuros escondidos façam uso desta deriva autoritária para justificar sabe-se lá o quê.
A reguada, o puxão do orelhas, o autoritarismo em vez da autoridade, nunca foram bons conselheiros.
Sublinho a traço grosso, nunca esquecer que o direito de reunião e manifestação em Macau é um direito fundamental e é livre.
Mesmo que seja exercido para dizer disparates.

De pedra em pedra (O Ponney)


 De pedra em pedra
Calma aí! Este país não está tão mal como parece: está bem pior, sem ponta por onde se lhe pegue ou despegue.
Eu tinha prometido a mim próprio (ou a mim mesmo) – ou tinha-me prometido – que não falava mais de política, ou, pelo menos, dos políticos do PS. Todavia, esta foi uma semana diabólica com gente demasiada, como sói dizer-se, a meter o pé na poça.
Começo por aquele pobre coitado ministro que tem voz e aspecto de Bruno de Carvalho, que andou lá por Viana – havemos de ir a Viana, cantava Amália – a dar cabo dos coitados enclausurados no prédio Coutinho, ameaçando, até “matá-los” à fome e à míngua de água; depois, aparece o bom amigo e protegido de Costa, de seu nome Azeredo Lopes - mais azarado que azaredo . que parece ter mentido na comissão de inquérito da AR, mas que não enganou o Ministério Público, (Vox populi convicta-nos a pensar que as comissões são constituídas mais para “safar” que para condenar), o que levanta a questão de se saber se o chefe primeiro-ministro também não denegou…
Sem espantar, a senhora ministra da saúde mais uma vez meteu o pé no lodo, ela que bem tentou ir de pedra em pedra. Confrontada com as cirurgias em atraso, Marta Temido, perdão, a senhora doutora Marta Temido, destemida, falou no envelhecimento da população. Já há uns tempos, um deputado do PSD se atirou à geração da peste grisalha; esta, a ministra, atirou-se à velhada, como se a velhada não tivesse o direito de continuar a viver.
Compreende-se, esta geração de mulheres de cabelo pintado, para esconder as brancas, e de nutricionada para evitar o balzaquianismo, pensa que nunca será sénior, pelo que não compreendem – ou querem suspendê-lo – o mau costume de os portugueses quererem continuar a viver para além do prazo de validade. E D. Marta que se cuide com os seus “descuidos”, que, e não por acaso, até cheiram muito mal.
Depois, foi a outra governante das bichas, perdão, das filas para a aquisição de cartões e outras necessidades, como se, neste tempo em que não devia haver, as bichas já não são só para o pão como no tempo da grande guerra.
Rui Rio deu uma de sua graça. Centeno não gostou dizendo que  no cenário do PSD  “falha quase tudo” na “razoabilidade orçamental”.
De braço dado com Costa, que não conseguiu votos para a presidência da comissão europeia – até Macron lhe tirou o tapete -, o seu sonho,  Centeno, o rei das cativações, continua a mentir aos portugueses: o país está pelas ruas da amargura, e o SNS  é já só pele e osso.
E se Costa também for “metido” no caso de Tancos?
Com uma oposição que teima em não se afirmar, maus dias vão acontecer.
Figas canhoto, dir-me-ão; mas eu já ando a fazê-las há muito. Toca a ir de pedra em pedra…

16 de agosto de 2019

15 de agosto de 2019

Diálogo impossível


Muito se tem dito e escrito acerca do que se passa em Hong Kong.
Muitos têm sido também os diagnósticos e as possibilidades de terapia que conduza à cura.
Todos estarão destinados ao fracasso enquanto se mantiver a profunda desconfiança mútua que facilmente se detecta no relacionamento sempre muito complicado entre Pequim e Hong Kong.
Pequim não sabe lidar com a rebeldia de Hong Kong, com as pretensões políticas da sociedade de Hong Kong.
E também não parece conseguir ter mão na oligarquia económica que domina a Região Administrativa Especial.
Um cocktail perfeito para uma revolta social que inevitavelmente teria que acontecer.
Sobretudo quando Hong Kong olha cada vez mais com profunda desconfiança para tudo o que vem de Pequim.
Neste ambiente nem um diálogo de surdos é possível.
Neste ambiente, com este ambiente, mantém-se o diálogo impossível e ninguém consegue prever como e quando se poderá desatar este verdadeiro nó górdio.

Intemporais(175)

14 de agosto de 2019

Um mal nunca vem só


Surpresa e choque no Dragão.
O Porto caiu com estrondo perante um adversário de muito baixa qualidade e estatuto.
Depois da derrota em Barcelos é tempo de procurar perceber que um mal nunca vem só.
O que se passou em Barcelos não foi um acidente, um dia mau.
Como o que se passou ontem no Dragão não foi um acidente, um dia mau.
O Porto não tem uma equipa, não tem um onze, não tem uma ideia.
Esse é neste momento o principal problema.
Quem olha para a equipa do Porto fica com a sensação que a pré-época está a ser vivida em competição.
Jogadores a ser integrados, à procura de perceber o que se quer deles, desligados, a jogar para si próprios e não para uma equipa.
Alguns deles de muito duvidosa qualidade (estou a ser simpático...).
Sérgio Conceição vai ter muito trabalho em muito pouco tempo para conseguir fazer de um conjunto de jogadores que custaram uma fortuna uma equipa.
E vai ter que conseguir consertar o motor com o carro a trabalhar. 
Não adianta nada berrar, exaltar-se, enervar-se publicamente.
Pelo contrário, é tempo de mostrar liderança num momento bastante complicado dentro de um clube que acaba de perder prestígio e muito dinheiro. 
E repensar opções que são claramente apostas falhadas. 

Estou tramado!



- "O que a senhora bebe?"

- Para uma melhor digestão eu bebo cerveja!
- No caso de perda de apetite eu bebo vinho branco!
- No caso de diminuição da tensão arterial eu bebo vinho tinto!
- No caso de tensão alta, eu bebo uísque e quando apanho uma constipação, bebo um bagaço".
 
- "E quando é que a senhora bebe água?"
"Eu nunca estive assim tão doente!..." 

13 de agosto de 2019

Poderá Macau ser novamente exemplo a seguir para Hong Kong?


As declarações públicas do próximo Chefe do Executivo deixaram-me intrigado.
A possibilidade de se caminhar no sentido da democracia em Macau significa exactamente o quê?
Já todos sabemos que Pequim, quando fala em democracia, não está a pensar num sistema decalcado das democracias ocidentais.
Então qual é a ideia?
Estará Pequim a pensar fazer de Macau um exemplo para Hong Kong?
Ser Macau a testar a evolução do sistema que foi proposta e rejeitada em Hong Kong?
Se assim for será uma variação no sentido positivo, será uma das primeiras vezes que uma boa notícia viaja no jefoil entre Hong Kong e Macau.

Quando os Degraus das Escadas São Obras de Arte


Abandonando a tela plana de edifícios, alguns artistas de rua vão às escadas, transformando-as em magníficas obras de arte urbana.
Não importa se são pinturas, plantas, mosaicos ou papéis de parede - o objectivo final é a beleza, compartilhada e apreciada por todos.
Este fenómeno não é localizado e está acontecendo em diversos locais. Estas são 20 das escadas mais impressionantes do mundo:


Ottawa, Canadá


Filadélfia, EUA


Morlaix, França


Targu Mures, Roménia


Rio de Janeiro, Brasil


Sicília, Itália


Valparaiso, Chile


Liège, Bélgica


Berlim, Alemanha


Tóquio, Japão


Londres, Inglaterra


Seul, Coreia do Sul


São Francisco, EUA


São Francisco, EUA


Auckland, Nova Zelândia


Teerão, Irão


Poznan, Polónia


Sicília, Itália


Heidelberg, Alemanha


Seul, Coreia do Sul


12 de agosto de 2019

PIADAS SECAS

 
O que que a flor disse pra abelha?
– Sai pra lá.

Qual o contrário de ice cream?
– You scream.

Qual o nome do japonês com pénis grande?
– Kaso raro.

Qual é o cúmulo do vegetariano?
– Leva a mulher pro mato e come o mato.

O que se chama a um cão que vai à missa?
– Cachorro Crente.

Quando é que um giz vira uma cobra?
– Quando ele cai na água, pois gizbóia!

Como se faz para se casar com uma loira?
– Diz que ela está grávida.
Sabe o que ela vai responder?
– Você tem certeza que o filho é meu??

Quantas loiras são necessárias pra se trocar uma lâmpada???
– Uma. Ela segura a lâmpada e o mundo gira em torno dela!

Porque a loira não pode pilotar um elevador?
– Porque não conhece a rota.

Um canibal vai viajar de avião, e ao receber o menu do jantar diz à hospedeira:
– Prefiro a lista de passageiros.

Qual o cúmulo da organização?
– Tomar sopa de letrinhas e cagar em ordem alfabética.

O que o The Flash disse para a Mulher Maravilha antes de dar uma rapidinha?
– Vai ser bom, não foi?

BOA SEMANA!

8 de agosto de 2019

Joga quem conhece os cantos à casa


Joga quem conhece os cantos à casa.
Esta deve ter sido a mensagem que Sérgio Conceição transmitiu ao grupo antes do jogo na Rússia.
Como não há regra sem excepção, Marchesin, que foi contratado para ser titular, estreou-se no onze inicial.
E foi decisivo com uma extraordinária defesa aos oitenta minutos.
Sérgio Conceição apostou em jogadores que se conhecem, que conhecem a filosofia de jogo do treinador.
Mesmo o menino Baró vinha sendo aposta regular de Sérgio Conceição.
Com este onze o treinador transmitiu a mensagem que confirmou no final - não é por serem reforços que são titulares.
E agora fica à espera da resposta dos jogadores e da capacidade  destes para darem mostra que são verdadeiras alternativas.
Num jogo muito calculista dos dois lados (está em causa muito prestígio e muito dinheiro...) ganhou quem teve o "golpe de asa" que desequilibra estes jogos muito equilibrados.
Foi o regressado Sérgio Oliveira a conseguir dar uma vantagem importante para a segunda mão da eliminatória.
Aquele pontapé, calculado a regra e esquadro, pode ser fundamental no desfecho da eliminatória.
A confirmar na segunda mão. 

Intemporais (174)

7 de agosto de 2019

A febre localista


A febre localista ainda me surpreende.
Ao mesmo tempo que me irrita profundamente.
A febre localista é um movimento oficioso que obriga a recrutar locais para o exercício de todas as funções, ainda que sejam comprovadamente incompetentes e incapazes.
Só esta febre explica que na mesma ocasião, e quase em simultâneo, se justifique o dispêndio de uma fortuna colossal com o facto de ter que se adjudicar a operacionalidade do Metro Ligeiro a uma determinada empresa, porque não existe localmente ninguém com capacidade para assegurar este serviço, e se diga que três quartos das centenas de trabalhadores já recrutados são locais.
Mas afinal em que é que ficamos?
Não há capacidade local mas recruta-se a esmagadora maioria dos trabalhadores localmente?
Para aprender?
Então não seria melhor trazer peritos externos para treinar os interessados e depois sim recrutá-los?
Estas justificações de sentido oposto só podem mesmo justificar-se com a febre localista.

A mentira vestiu as roupas da verdade

6 de agosto de 2019

Ajude por sua conta e risco

 

Auxiliar o próximo, especialmente em situações catástrofe, é altruísta e deve ser sempre incentivado.
Macau, cada vez mais sui generis, parece querer fugir a este paradigma de sensatez e reconhecimento.
Só assim se explica que seja sequer aventada a possibilidade de excluir trabalhadores não residentes dos seguros que protegem os voluntários nestas situações.
Ajudem-nos a proteger a cidade, a fazê-la voltar à normalidade com a maior rapidez possível, mas façam-no por vossa conta e risco.
Este parti-pris face aos não residentes é revoltante, ofende quem quer insistir na tarefa de fazer desta uma cidade inclusiva bem mais que supostamente internacional.
Responsáveis políticos terem sequer declarações deste teor é muitíssimo grave.
Insistirem nesta linha de raciocínio é revoltante.
Muito mais quando muitos dos que se colocam na primeira linha deste combate se esquecem que as suas raízes estão bem longe de Macau.
Quando é que esta gentinha vai perceber que Macau só sobrevive, e gera toda a riqueza que parece ser sempre insuficiente para alimentar a soberba de uns quantos, graças à mão-de-obra não residente e ao auxílio que aqui presta todos os dias??

Teste pré-escolar nos EUA


Para qual lado se dirige o autocarro?

Vai para a esquerda ou para a direita?


Não consegues descobrir?

Então olha para a gravura de novo e atentamente.

Ainda não sabes?

Essa pergunta, com esta mesma gravura, foi feita a crianças de uma pré-escola nos EUA.

Ora 90% deram esta resposta:

'O autocarro dirige-se para a esquerda.'

Quando lhes perguntaram, 'Porque achas que o autocarro se dirige para a esquerda?'

Elas responderam: 

'Porque não se vê a porta de entrada por onde os meninos entram no autocarro' .

Como te sentes agora?

Eu sei.

Também eu.




2 de agosto de 2019

1 de agosto de 2019

Interferência externa nas manifestações em Hong Kong


Voltou a conversa da alegada interferência externa nos protestos que têm ocorrido em Hong Kong. 
Forças externas estariam a manobrar nos bastidores instigando e apoiando os manifestantes que têm invadido as ruas de Hong Kong.
Mais, seriam essas forças externas as grandes responsáveis pelos protestos e tumultos que têm abalado Hong Kong. 
Uma visão em tudo redutora, simplista, maniqueísta até.
Se é possível que haja efectivamente interferência externa nos protestos em Hong Kong, como acontece um pouco por toda a parte, simplesmente porque tal faz parte do jogo da política internacional, afirmar que os milhares de manifestantes que têm saído à rua em Hong são manipulados por obscuras forças externas chega a ser ofensivo.
Os que se manifestam em Hong Kong, com todos os exageros conhecidos e apontados, mas também com toda a determinação e convicção, são tudo menos marionetas ao serviço de terceiros.
São estes discursos extremados, patéticos, ofensivos, que fazem perpetuar o caos em Hong Kong e não os movimentos externos que por ali possam existir.
O discurso político já é bem conhecido, começa a ficar gasto, não resulta, só agrava.
Não seria tempo de tentar mudar a agulha? 

Intemporais (173)

31 de julho de 2019

Apoio financeiro a vítimas de violência doméstica


O Instituto de Acção Social (IAS) terá disponibilizado cerca de cento e dez mil patacas de apoio financeiro urgente, concedido ao abrigo do disposto no artigo 16º da Lei nº 2/2016, a treze vítimas de violência doméstica.
A frieza destes números faz-me pensar que, bem mais que as quantias financeiras, está em causa o número de vítimas deste crime hediondo.
Números conhecidos, casos tratados, apoios concedidos, tudo parece ter pouca importância quando se pensa nas vítimas sujeitas a todo o tipo de sevícia e tormento, físico e psicológico, às mãos dos bárbaros que ainda retiram um prazer sádico das torturas que infligem aos seus companheiros e famílias.
Mas, porque money efectivamente makes the world go round, cento e dez mil patacas distribuídas por treze vítimas vem a resultar em menos de dez mil patacas por pessoa.
Seria interessante saber exactamente para serem utilizadas como, em quê.
Porque dez mil patacas são, face à carestia do custo de vida em Macau, uma quantia quase irrisória.
Uma quantia insuficiente para custear uma simples refeição de um conhecido deputado, é sempre bom lembrar.

Do Woody Allen para o Rui

30 de julho de 2019

Reescrever a História


O anunciado Centro Interpretativo do Estado Novo, que nascerá na casa onde nasceu Salazar, e a polémica à volta da criação deste museu, fizeram-me pensar na mania tantas vezes repetida de reescrever a História.
Uma vontade de fazer a História ficar mais agradável, mais ao gosto das pessoas e dos tempos.
Que tem tanto de ridículo quanto de estúpido.
A História deve ser apresentada e ensinada sem rodeios, sem tabus, sem floreados.
Por mais bárbaros que sejam os acontecimentos que se relatam a verdade é sempre a melhor solução.
Porque só à luz dessa verdade se podem colher ensinamentos do passado para serem utilizados no presente e no futuro.
O Estado Novo existiu e Salazar foi talvez o seu maior rosto.
Ainda que o Centro se destinasse a glorificar a figura de Salazar, e parece não ser essa a intenção, estava aí uma óptima oportunidade para ensinar quem foi e o que fez Salazar e o regime político que comandou à revelia da propaganda do Centro.
A mentira combate-se sempre com a verdade.
Porque a verdade é sempre mais forte e acaba sempre por vencer.
Reescrever a História nunca é boa ideia.
Seja em Santa Comba Dão ou muito mais a Oriente.

Marta e Maria, Eco e Narciso (Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia)



1. É um passo extraordinário do Evangelho segundo São Lucas.

Numa aldeia a caminho de Jerusalém, Betânia, Marta, a dona da casa, convidou Jesus, e, claro, querendo receber bem, como é próprio de uma dona de casa que convida um hóspede ilustre, afadigava-se a trabalhar. Entretanto, a sua irmã, Maria, sentada aos pés de Jesus, na posição própria do discípulo que escuta um rabi, um mestre, pôs-se a ouvir a palavra d'Ele. O trabalho era tanto que Marta veio ao encontro de Jesus e, compreensivelmente, quase em termos de repreensão, atirou-lhe: "Senhor, não te importas que a minha irmã me tenha deixado sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me." Jesus respondeu: "Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, quando uma só é necessária! Na verdade, Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada."

2. Ao longo dos tempos, sobre este texto sucederam-se os comentários. Que Marta representa a acção e Maria a contemplação. Mestre Eckardt, paradoxalmente, chamou a atenção para o facto de a verdadeira mística ser, afinal, Marta, no contexto do que se chamou "a mística de olhos abertos", dirigida à acção a favor dos outros. A contemplação sem acção, sem compaixão, pode não passar de pura ilusão. De qualquer modo, é essencial sublinhar o que raramente ou mesmo nunca se diz: Jesus está a afirmar que as mulheres também podem e devem ser discípulas. Não é por acaso que Maria está precisamente na posição do discípulo: aos pés de Jesus, escutando a sua palavra. Contradizendo o que estava determinado, Jesus teve discípulos e discípulas; as mulheres não podem estar confinadas ao serviço da casa.

3. Numa leitura abrangente e essencial, o que o texto propugna é uma Igreja das duas irmãs e a vida de todos, de cada um e de cada uma, tem de ser a sínteses das duas irmãs. Também na política.

Concretizando.

3. 1. Há hoje muitos que não querem trabalhar e vivem pura e simplesmente encostados ao Estado, aos outros, aos contribuintes. Não é só não procurarem trabalho, é mesmo recusar trabalhar ou ser descuidado no trabalho... Isso é bem conhecido. Ora, o ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a sua vida - uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge a adultidade -, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, que era um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) - em inglês, trabalhar diz-se to work, e em alemão Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica!

3. 2. Mas ninguém pode ficar absorvido, cansado e morto pelo activismo de Marta. Até Deus, no princípio, segundo o livro do Génesis, determinou um dia de descanso semanal, o sábado, para que o Homem se lembrasse de que não é uma besta de carga. Todos precisamos de integrar na vida a atitude de Maria. Descansar, repousar, festejar, fazer férias (etimologicamente, férias são dias festivos). Ah! E tempo para a beleza, e para a família, tempo para os amigos, tempo para o silêncio, para o encontro consigo. Nestes tempos de dispersão, de corrida louca (para onde?), perigo maior é o do esquecimento de si e da alienação. Nestes tempos de extimidade, do fora extremo, tempos da perdição, precisamos do outro lado: cultivar a intimidade, dialogar na intimidade, lá no mais íntimo, com a fonte de ser e do ser. Ah! E ouvir o silêncio, lá onde se acendem as palavras vivas e luminosas e o sentido do existir. É preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: "Deixai-me com as coisas/ Fundadas no silêncio." Aí, meditar. Quem sabe da sabedoria das palavras? Meditação, moderação, medicina têm um étimo comum: o verbo latino mederi - a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente -, que significa medir, cuidar de, tratar, medicar, curar... Tanto se busca fora e longe o que está dentro e tão perto!

3. 3. Os políticos também precisam? Se precisam! Como é possível a Assembleia da República ter deixado 170 diplomas para o seu último dia de votações?! Uma vergonha! Quando é que os políticos meditam e pensam em profundidade o que é preciso pensar, longe do ruído tagarela e vazio e dos holofotes que cegam e estonteiam?

4. Dei muito recentemente um pequeno curso sobre "Grandes Mitos da Humanidade". Assim, um pouco à maneira de apêndice, deixo aí aquele que considero um dos mitos mais actuais e que diz o amor impossível: o mito de Eco e Narciso.

Narciso, enamorado da sua própria imagem reflectida na água, deixou de comer, de distrair-se com qualquer outra coisa, e ficou apenas uma flor, um narciso. A ninfa Eco, tagarela infindável, foi castigada pela deusa Hera, pois a sua tagarelice impedia-a de vigiar o seu divino esposo Zeus, que a traía: ficou muda, sem voz própria, repetindo apenas em eco as palavras alheias.
in DN, 28.07.2019

29 de julho de 2019

Loira cheia de calor


Uma loira chegou ao hotel e como estava muito calor, ela abriu a janela. 
Só que começaram a entrar vários mosquitos.
Então, ela ligou para a recepção e reclamou:
– Boa noite, estou com muito calor e com a janela aberta vários mosquitos entraram no meu quarto e estão-me a incomodar.
– Se a Senhora desligar as luzes do seu quarto, eles irão embora, disse-lhe o recepcionista.
Ela fez o que ele disse e realmente eles foram embora.
Depois de um tempo, começaram a entrar vários pirilampos, e então ela tornou a ligar para a recepção a reclamar.
E o recepcionista perguntou:
– Mas o que foi agora?
Ela responde:
– Não resolveu nada! Os mosquitos voltaram com lanternas!

BOA SEMANA!