23 de outubro de 2019

A anedota americana



Na minha juventude organizava, juntamente com um grupo de amigos sempre bem dispostos, umas festarolas para a malta.
Que não tinham local fixo, antes eram repartidas pelos locais que achávamos mais apropriados para a ocasião.
Lembrei-me desses tempos por causa no inefável Presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump, à medida que o seu mandato caminha para o fim, já só me faz rir.
Mais que tudo Donald Trump passou a ser o meu menino travesso favorito.
Até na organização de festarolas Donald Trump consegue ser anedótico.
Prepotente (I know the best places!), Donald Trump toma estas dificílimas decisões sozinho.
E decide organizar reuniões dos líderes das maiores potências mundiais nos seus resorts.
Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte, ensina a sabedoria popular.
Donald Trump é tolo mas tem arte.
E manda a malta pagar-lhe para se reunir.
Quando lhe chamam a atenção, e lhe dizem que este comportamento é altamente criticável, faz birra no Twitter porque os outros meninos não o deixam fazer o que lhe apetece.
Por causa de Donald Trump, e das suas trapalhadas estou sempre a relembrar Jorge Valdano e a sua vontade de rir, rir, rir.

Ementa para a cimeira do G7


22 de outubro de 2019

Predomínio do executivo


Na Região Administrativa Especial, como foi pensada e plasmada na Lei Básica, vigora um sistema político em que se consagra o predomínio do poder executivo (executive lead).
Mas esse predomínio não pode nunca influir na clássica tripartição de poderes sob pena de se subverter toda a lógica que sustenta a existência do segundo sistema.
E foi precisamente isso que aconteceu numa tristemente célebre sentença muito recente.
Um tribunal tem que se abster de formular juízos de oportunidade política e cingir a sua análise puramente a argumentos jurídicos, à conformidade com a lei vigente dos actos praticados pelo poder político.
Respeitar sentenças dos tribunais não significa não as analisar, não as discutir.
Só quando isso acontece o sistema, sobretudo o segundo sistema, funciona em toda a plenitude.
Tinha aqui exprimido a opinião que o sistema ainda não tinha sido testado até ao fim em muitos domínios da vida pública.
Não ficaria bem com a minha consciência se agora não deixasse claro que, quando foi testado até ao fim num desses domínios, falhou rotundamente.

QUE COISA SÃO AS NUVENS (JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA)


PASSE-VITE

A VELHICE APRESENTA INTERROGAÇÕES E DILEMAS ESPECÍFICOS, MAS É BEM MAIS DO QUE UMA IMAGEM ESTEREOTIPADA

A patente deste equipamento de cozinha tem registo datado de 1928, em nome do inventor belga Victor Simon, mas a verdade é que o famoso ralador de inox, mais ou menos se universalizou, e por duas razões: passa depressa os alimentos e deixa-os com uma consistência que facilita a deglutição. Dá que pensar a expressão “passe-vite”. De facto, não são apenas os legumes que giram em velocidade entre as hélices do ralador. Da nossa própria vida podemos dizer que um dos seus traços é esse: no seu trânsito frágil, fascinante e inelutável, ela passa depressa. Tenho um bando de amigos que, pesando tudo isso, se autodenominou ‘passe-vite’. Cruzaram-se nos tempos de universidade, cimentaram a amizade nessa outra escola de vida que é o voluntariado social, maturaram as próprias escolhas na partilha da palavra e do silêncio, da fé e da procura. Há anos que se encontram regularmente, que se encontram a bem dizer por nada, apenas no desejo de regar as raízes do seu futuro comum, pois a conspiração que os anima é a de, na velhice, poderem viver todos juntos (na mesma casa, no mesmo lar, na mesma jangada, no mesmo bosque). Um dia convidaram-me para um desses encontros, e sinto também que por nenhuma razão em especial: queriam simplesmente estar, estar com a pessoa, mais do que ouvir falar sobre um tema. Foi aí que me explicaram a rir o seu projeto, esclarecendo que, entre eles se chamavam assim, “porque a vida passe vite e porque quando arrancarem finalmente com a comunidade de idosos terão já de comer a paparoca mais passada”. Primeiro ri com eles até às lágrimas, com a sua louca e sapientíssima ligeireza, mas depois dei por mim só com lágrimas descendo-me pelo rosto, pois aquele bando de jovens adultos, que aparentemente não queria nada, me estava afinal a mostrar oceânicas profundezas da vida.

Cada um de nós envelhece à sua maneira, com a sua própria dicção e os seus limites, os seus contextos e os seus sonhos, mas temos muito que aprender uns com os outros

Recordei-me deles estes dias ao ler um livro de Marta C. Nussbaum e Saul Levmore, amigos de longa data e colegas na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, intitulado “Envelhecer Com Sabedoria. Diálogos Sobre a Vida, o Amor e o Remorso”. E a lição que se retira dessas conversas entre a filósofa e o jurista é que há um défice de pensamento sobre a velhice que se torna urgente inverter. Cada um de nós envelhece à sua maneira, com a sua própria dicção e os seus limites, os seus contextos e os seus sonhos, mas temos muito que aprender uns com os outros. E a verdade é que falamos pouco sobre isso ou, pelo menos, não de forma suficiente e aberta. Trata-se, no fundo, de preparar juntos uma etapa da vida como, a seu tempo, foi acompanhada a infância, a iniciática adolescência ou cada um dos ciclos da vida adulta. E da mesma maneira que, nessas outras etapas, também o discurso das competências externas e dos recursos internos se deve colocar. A velhice apresenta interrogações e dilemas específicos, mas é bem mais do que uma imagem estereotipada. Associadas às dores há o saborear de alegrias talvez ainda não experimentadas. A par das preocupações, é possível provar, não raro, uma serena liberdade na forma de estar com os outros, uma compreensão mais ampla e maturada do real, uma criatividade mais afetuosa e menos temerosa. No meio de tanta transformação que a velhice comporta, ela permite enfrentar não só a perda, mas também o amor; não só a solidão, mas também formas novas de presença e companhia; não só a avolumar das necessidades, mas também o gratuito perfume do dom. A velhice pode ser uma oportunidade para viver de forma mais reconciliada, pacificadora, espiritual e atenta, na fidelidade a essa arte que nos está confiada: a de dizer e redizer infinitamente o amor.

17 de outubro de 2019

Continua o diálogo de surdos


Em Hong Kong mantém-se o diálogo de surdos.
E é fácil prever que se mantenha por mais algum tempo (quanto tempo é que ninguém sabe).
Com a cambiante de agora também haver “surdos” no exterior de Hong Kong.
Se a nível interno se mantém o extremar de posições, e o discurso estafado da não interferência em assuntos internos (como se isso fosse possível hoje em dia em algum ponto do Globo!!), a nível externo, Donald Trump e Boris Johnson agradecem o apelo dos manifestantes de Hong Kong.
Por momentos deixou de se falar no processo de destituição nos Estados Unidos, e do aproximar vertiginoso da data limite para o Brexit, para se falar na hipotética restrição de liberdades em Hong Kong e nos possíveis excessos das forcas policiais.
Rigor na informação, na investigação, credibilidade das fontes, são pormenores despiciendos quando o fim pretendido é desviar atenção, mudar o tema.
Quem é que falou em fake news??

Intemporais(182)

16 de outubro de 2019

O povo saiu à rua


As redes sociais mudaram o Planeta.
O acesso ilimitado a todo um mundo de notícias, de contactos, tantas vezes sem rosto, é um novo desafio para os decisores políticos.
Ruas cheias de pessoas descontentes com o rumo da governação começam a ser quase um hábito.
Na actualidade, e no futuro, quem decide terá que se preocupar com o impacto imediato que as decisões que toma poderão provocar.
Já não é um efeito a médio prazo, fechado entre paredes de gabinetes ou parlamentos, é um efeito imediato resultante de uma convocação em massa que só as redes sociais permitem.
A internet efectivamente democratizou as sociedades.
E está cada vez mais a responsabilizar quem decide.
Porque agora já não é preciso o rei fazer anos para o povo sair à rua com a alegria que costumava ter.

O talento de Kevin Spacey

15 de outubro de 2019

Ainda e sempre os táxis


Passei uns dias em Portugal em visita a familiares e amigos.
Já de regresso a Macau, no voo entre Lisboa e o Qatar, uma das assistentes de bordo, Portuguesa, disse-me que já tinha visitado Macau e tinha odiado.
Confesso que me incomodou o comentário tão desassombrado e simultaneamente tão assertivo.
Quando lhe perguntei o que tinha provocado tão forte sentimento de repulsa, começou por me dizer que aconteceu logo à chegada.
Porque os taxistas eram mal educados, rudes, não entendiam nada do que lhes era dito nem se preocupavam com isso, porque seleccionavam clientes, porque os táxis estavam porcos e a cair de podres.
Não sendo novidade, entristece quem aqui vive e fez de Macau o seu lar.
Quantos visitantes ficam, logo à entrada, com este sentimento?
Estes patifes, fora da lei e acima da lei, é assim que demonstram o seu tão falado amor à Pátria e amor a Macau?
Slogans não têm qualquer valor ou significado quando a prática diária os desmente frontalmente.
Fiquei triste, aborrecido.
E calado porque tenho consciência que não se pode discutir o indiscutível.

Sínodo para a Amazónia: um mini-Concílio Vaticano II (Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia)


Começou em Roma no passado dia 6 e estará activo até ao próximo dia 27 o Sínodo para a Amazónia. Estão presentes 185 Padres sinodais, mas participam também membros da Cúria, religiosos e religiosas, auditores e auditoras, peritos, membros de outras confissões religiosas, convidados..., o que perfaz, em números E se dirija directamente só a uma zona determinada do planeta, ainda que extensíssima e tocando nove países (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a sua temática -"Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral" - é universal e vai marcar este pontificado com um antes do Sínodo e um depois. Penso que estaremos num processo de recuperação da dinâmica do Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais importantes, se não o mais importante, do século XX, para a Igreja e para o mundo. O Papa Francisco acentua que a sua missão fundamental é criar "processos" no tempo, irreversíveis, sem possibilidade de voltar atrás, a caminho de objectivos essenciais, que já vêm do Vaticano II.
2. Destaco quatro desses pontos fundamentais, a debater no Sínodo e que influenciarão a Igreja universal.
2. 1. Logo na terminologia. O Papa quer uma Igreja sinodal, isto é, na qual, como diz o étimo da palavra sínodo, se faça o caminho juntos. Repete constantemente: "a Igreja somos nós todos". Se é assim, o que é de todos deve ser partilhado por todos. Na véspera da abertura do Sínodo, aquando da imposição do barrete cardinalício aos novos cardeais, lembrou-lhes que não são príncipes, e pediu-lhes "lealdade" e "compaixão", também no sentido etimológico da palavra: partilhar as alegrias, as tristezas e as angústias de todos, a começar pelos "descartados", com os quais devem ser samaritanos, e que evitem ser "funcionários". Um desses novos cardeais, Cristóbal López, arcebispo de Rabat, sabe que assim deve ser, ao afirmar: "Os cristãos são todos iguais, o ser bispo ou cardeal não nos torna superiores a ninguém". Na Igreja, não pode haver duas classes: os clérigos e os leigos, pois toda a Igreja é uma Igreja de iguais, ministerial.
2. 2. Francisco propugna por uma "ecologia integral". Disse-o na sua encíclica Laudato Si, que fica para a História. É a mesma lógica economicista que está na base da depredação da mãe Natureza, a nossa casa comum, e da injustiça social, do escândalo da pobreza e da exclusão de multidões de homens e mulheres. Quando é que se entenderá que o grito dos descartados e o grito da mãe Terra devastada são o mesmo grito e que os pecados ecológicos são pecados contra Deus e contra a Humanidade?
Quando se olha para a situação da região panamazónica, percebe-se a urgência de mudar de rumo. Aliás, um conjunto de cientistas de vários países, que inclui o Prémio Nobel Carlos Nobre, acaba de entregar ao Sínodo e dar a conhecer um documento, "Um quadro científico para salvar a Amazónia" (assinam 44 especialistas), no qual se lê que "hoje a Amazónia e os seus habitantes estão ameaçados de extinção, representando a sua agonia uma ameaça dramática para o bem-estar humano, da nossa geração e das gerações futuras." Constatando que a Amazónia "possui uma imensa riqueza natural, cultural e singular diversidade", sendo "o maior repositório de biodiversidade do mundo", apelam "aos governos, às empresas, à sociedade civil e aos povos de boa-fé de todas as partes do mundo para se unirem num esforço comum pelo bem da Humanidade e da Terra hoje e no futuro."
Aí está um desses problemas que exigem o esforço de toda a comunidade internacional e uma nova ordem mundial, no quadro de uma Governança global, já que todos são afectados, sem excepção.
2. 3. Uma Igreja com rosto amazónico.
Muitas vezes me interrogo sobre qual seria a nossa compreensão de Jesus e do Evangelho, se, logo no princípio, a evangelização, em vez de partir de Jerusalém para Atenas e Roma, isto é, para a cultura helenista, tivesse derivado para a China ou para a Índia, por exemplo. A linguagem e a conceptualidade que utilizamos seriam diferentes; por exemplo, o Credo tem muitos conceitos gregos, de tal modo que quando se diz sobre Jesus Cristo: "gerado, não criado, consubstancial ao Pai", quem entende hoje esta linguagem?

Que é que isto quer dizer? O Evangelho é o mesmo, mas, uma vez que a nossa identidade é dada numa determinada cultura, sempre aberta, a mensagem de Jesus e a fé devem inculturar-se, atender às diferentes culturas, para que possam ser compreendidas e vividas. Juan Carlos Scannone, um dos teólogos de referência e antigo professor do Papa Francisco, acaba de afirmar, contexto do Sínodo: "A fé faz-se cultura e, portanto, não é a mesma coisa ser cristão na Amazónia ou na Espanha, Argentina, Índia ou África. Quando se adoptam formas culturais, há ao mesmo tempo um movimento de encarnação, de purificação e de transformação. Penso que esse momento de inculturação é muito importante, sobretudo nesses povos originários da Amazónia, que são muito diferentes. E, por outro lado, também a sinodalidade, entendida como uma grande orquestra na qual cada um toca um instrumento diferente mas a partir da unidade. A Igreja manifesta-se como uma comunhão e um caminhar juntos." As Igreja locais são uma porção da Igreja universal e, com a sua identidade cultural, histórica, litúrgico-celebrativa, canónica, enriquecem-na. Há um só Povo de Deus, numa pluralidade de rostos.
Dou exemplos. Pensando na ecologia, não terão esses povos uma lição a dar-nos na sua relação contemplativa e familiar com a Natureza, que não pode ser reduzida a um reservatório de energias e possíveis negócios a explorar? Quanto à celebração litúrgica, concretizando quanto à Eucaristia, pergunto: "Se o pão de trigo e o vinho de uva não são elementos essenciais dessas culturas, como o são na cultura mediterrânica, a celebração da Eucaristia não deverá também adaptar-se?"
Já na abertura do Sínodo, mas isto é menos importante e quase folclórico, Francisco queixou-se: "Deu-me muita pena ouvir aqui dentro um comentário a dar piadas de mau gosto sobre esse senhor piedoso que na Missa levou, com penas na cabeça, as oferendas ao altar. Digam-me: qual é a diferença entre levar penas na cabeça e o tricórnio que usam alguns funcionários dos nossos Dicastérios?", e arrancou um aplauso dos presentes na sala. Aqui, entre parêntesis, permito-me um comentário: penso sinceramente que, nos tempos que correm, já é altura de acabar com tanta pompa aquando da criação de cardeais, e, sinceramente, olhando para o barrete e vestimentas cardinalícias, ouvi muita gente, sobretudo jovens, a reclamar algum decoro, para se não cair no ridículo. Já não se trata só de uma questão de simplicidade...
2. 4. Ordenação de homens casados e os ministérios das mulheres. No Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho) para o Sínodo, contempla-se a possibilidade de ordenar como padres homens casados, preferencialmente indígenas, respeitados e indicados pela comunidade, e também identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher. Apesar da indignação dos rigoristas e ultraconservadores, o tema está a ser debatido no Sínodo e estou convencido de que essa possibilidade se vai tornar realidade, primeiro para a Amazónia e, lentamente, estender-se-á a toda a Igreja.
Afinal, não foi isso que aconteceu na Igreja durante o primeiro milénio? A lei do celibato obrigatório só começou a impor-se no século XI. Mesmo depois do Concílio de Trento, no século XVI, a lei não se estendeu às Igrejas católicas orientais e, actualmente, os pastores protestantes que se convertem ao catolicismo continuam com as suas famílias. Há uma pergunta essencial: porventura não é a Eucaristia o centro da Igreja? Sendo assim, o que deve estar em primeiro lugar: a manutenção da lei do celibato ou a possibilidade da celebração eucarística? No Novo Testamento, por exemplo, na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: "É necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar, que não seja dado ao vinho, que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da Igreja de Deus?"
Na presente situação, opor-se a esta possibilidade é um suicídio.
E quanto às mulheres? Estão 35 a participar activamente no Sínodo e reclamam poder votar o documento final. Poderá a Igreja continuar a discriminá-las? Não é verdade que Jesus tinha discípulos e discípulas? Não foi a Maria Madalena que Jesus se manifestou após a sua morte para que fosse anunciar aos outros que está vivo, que Ele é o Vivente, a ponto de São Tomás de Aquino, entre outros, lhe chamar a "Apóstola dos Apóstolos"? No princípio, não houve mulheres cristãs que presidiram à Eucaristia? Que razões se opõem à sua ordenação? Só para dar um exemplo, cito o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que tive o privilégio de ter tido como professor: "Sou católico romano e, se a Igreja me disser que não ordena mulheres, aceito-o por fidelidade. Mas, se me der cinco razões e todas elas são falsas face à exegese e à teologia, tenho que protestar. Penso que o Magistério que apela para essas razões falsas não acredita no que diz ou não sabe ou mente ou estas coisas todas juntas. Além disso, a Igreja é infalível em questões de fé e moral, e o tema da ordenação das mulheres não é de fé, nem de costumes, mas de administração". O Cardeal José Policarpo também teve problemas porque afirmou o mesmo: que teologicamente nada se opõe à ordenação de mulheres. Aliás, digo eu, há uma razão de fundo: é uma questão de direitos humanos e Deus não pode ir contra os direitos humanos.
in DN, 13.10.2019

14 de outubro de 2019

Brinquedos para adultos



ANÚNCIO

Apenas para os meus amigos, finalmente ganhei coragem para assumir que vendo brinquedos para adultos.

Talvez não tenham coragem de perguntar por eles, mas podem colocar todas as vossas questões por mensagem privada.

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Não se armem em esquisitos, pois não estamos em idade de fingir que não interessam!

Garanto total sigilo!

Façam já os vossos pedidos.

Tenho em stock: andarilhos, bengalas, garrafas de oxigénio portáteis, canadianas, fraldas, cola para dentaduras, aparelhos auditivos, cadeiras de rodas, placas, entre outros!!

BOA SEMANA!

30 de setembro de 2019

Um Suminho de Limão


Num bar esconso, num porto, um letreiro dizia: 
«Oferecem-se 500 euros a quem conseguir tirar sumo ao limão.»

Um tipo magricela entrou e perguntou que aposta era aquela.

 Um dos clientes do antro explicou que o dono da taberna, um latagão de 2 metros de altura, espremia completamente um limão e apostava com quem quisesse que não era possível tirar daquele limão nem mais uma gota de sumo.

— E eu também posso experimentar? — perguntou o lingrinhas.

Depois de ter rido a bom rir, o outro explicou-lhe:

— Já houve muitos que tentaram: 
estivadores, tipos das obras… 
Mas olhe que nem um ganhou a aposta!

Mesmo assim o pequenote quis tentar a sorte. 

Pegou no limão espremido pelo outro e, enquanto os outros riam a bom rir e iam pedindo copos de vinho, o homenzinho lá ia espremendo, espremendo, com persistência, sem nunca abrandar, até que, para surpresa de todos, lá apareceu mais uma gotinha de sumo.

Todos ficaram estupefactos, mas não havia dúvida: 
o homem tinha conseguido tirar sumo de um limão completamente seco.

— Diga-me uma coisa — perguntou o taberneiro cheio de admiração—, qual é a sua profissão? 
O senhor é estivador?

— Não — respondeu o outro com um sorriso finório —, sou funcionário do Ministério das Finanças…

BOA SEMANA
(Vou dar uma saltada à Pátria e volto já)

27 de setembro de 2019

Foi mesmo apanhado em flagrante


Um gajo está na cama com uma mulher, que não é a dele, quando ouve os passos do marido.

A mulher manda-o pegar as roupas e sair pela janela. 

Ele resmunga porque está a chover muito, mas não tendo outra solução, salta e cai no meio da rua, onde está a passar uma maratona.

Ele aproveita e corre junto com os outros, que o olham de um jeito esquisito. 

Afinal, ele está sem roupa! 

Um corredor pergunta:

– Corres sempre sem roupa?

– Sim! – Responde o homem – É tão bom ter uma sensação de liberdade…

Outro corredor pergunta:

-Mas corres sempre assim… com as roupas nas mãos?

O gajo não se dá por vencido:

– Eu gosto assim. Posso vestir-me no fim da corrida e ir para o carro para ir para casa…

Um terceiro corredor insiste:

– Mas corres sempre com as roupas nas mãos e com um isso enfiado no coiso?

Aí o gajo responde:

– Só quando está a chover!

BOM FIM-DE-SEMANA

26 de setembro de 2019

Fazer omeletes sem ovos


Todos crescemos a ouvir a expressão “fazer omeletes sem ovos” quando se procurava descrever uma situação de impossível solução.
Os novos tempos, o advento e a popularização da cozinha vegan, tiraram algum sentido a esta expressão.
Sim, já é possível fazer omeletes sem ovos.
Não as omeletes que estávamos habituados a consumir, mas outras versões.
Onde ainda não se aprendeu a fazer omeletes sem ovos foi no Estádio José de Alvalade.
Pediu-se isso a Marcel Keizer, pede-se agora a Leonel Pontes.
Nenhum deles propriamente um mestre-cuca, muito menos um verdadeiro chef, mas, sejamos honestos, também sem disporem de ingredientes capazes de lhes proporcionarem a possibilidade de confeccionar uma iguaria potencialmente famosa.
Tantas discussões, tantas análises, para ver o óbvio – o grande problema do Sporting, o que origina esta onda de maus resultados, é uma enorme falta de qualidade no plantel.
Se na época transacta a equipa do Sporting era Bruno Fernandes e mais dez, esta época, sem o abono Bas Dost, é mesmo só Bruno Fernandes.
Quando ele falta é um perfeito deserto, uma equipa vulgar.
Pode mudar-se o treinador, o sistema de jogo, os jogadores, que o essencial continua a faltar – opções de qualidade.
Se ainda houver dúvidas acerca deste diagnóstico eu termino com uma pergunta – quantos jogadores do Sporting queriam ver na equipa que apoiam?
Pois, Bruno Fernandes.

Intemporais (181)

Porque Sir Paul McCartney diz que as versões de George Benson são as suas favoritas

25 de setembro de 2019

Sistemas a funcionar


Nas últimas horas o espaço noticioso foi dominado por duas grandes notícias - a decisão do Supremo Tribunal na Inglaterra  relativamente à suspensão do Parlamento e a decisão de se iniciar um processo de destituição (impeachment) do Presidente nos Estados Unidos.
São os sistemas a funcionar, é a tripartição de poderes levada à prática.
Muito mais que barulho, discussão em surdina ou no espaço público, opiniões e pareceres, o que é importante é deixar os sistemas funcionar.
Boris Johnson foi demasiado longe na sua intenção de levar por diante uma suspensão do Parlamento? Donald Trump traiu o país e aliou-se a potências externas?
Perguntemos os tribunais, deixemos o poder judicial fiscalizar (no caso do impeachment nos Estados Unidos, o Senado) o poder político-administrativo.
Mais que a notícia, o impacto mediático, interessa-me o exemplo.
Um exemplo que devia ser seguido em toda a parte (a começar por Macau, obviamente...).
Quando não se concorda com decisões do poder político, das autoridades administrativas, há mecanismos para as enfrentar e combater.
E, se as convicções são fortes, e a coragem também, devemos ir até ao fim.
Só assim teremos legitimidade para criticar os sistemas, só assim poderemos provar se funcionam ou não. 

Confounds the Science - (Parody of) Sound of Silence

24 de setembro de 2019

Vacas sagradas


Quando Cavaco Silva era Presidente da República a sua tirada acerca das vacas ficou nos livros, no anedotário real.
Quiçá inspirado nesse bizarro momento, o Reitor da Universidade de Coimbra veio agora mostrar a sua preocupação com os pobres mamíferos.
Os tais que só os hindus, Cavaco Silva, e agora o Reitor da Universidade de Coimbra, compreendem e respeitam.
Tento encarar a situação com leveza, com humor, mas confesso que não é fácil.
Para quem estudou naquela Universidade, para quem para sempre a ela estará ligado, não é fácil ver a Universidade de Coimbra ser falada pelo que não devia.
Ser objecto de ridículo, de chacota, ser fonte de anedotas e não de respeito.
A mesma Universidade que parece algo adormecida, que cai nos rankings, internos e externos, enquanto o Reitor se preocupa com…as vacas.
Quero ver a minha Universidade nas notícias por ser um exemplo na investigação, na inovação, na pesquisa, no conhecimento.
Não porque já não se come carne de vaca nas cantinas.

ACABAR COM A CHANTAGEM (Frei Bento Domingues, O.P. )



Escusam de continuar com as ameaças de cisma.
 Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.

1. O acontecimento mais importante, na liderança da Igreja Católica, nos últimos tempos, não pode passar despercebido ou dissolvido no ruído dos noticiários acerca do Vaticano.
O Papa Francisco, ao regressar da última viagem apostólica a vários países africanos (Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias), não se limitou a responder às perguntas e curiosidades dos jornalistas, de forma aberta e desinibida, como sempre faz. Desta vez, foi muito mais longe. Decidiu colocar um ponto final na chantagem que se arrastava, dentro e fora do mundo católico, desde o começo do seu pontificado: a ameaça de um Cisma.
Para quem conhece alguma coisa da história do cristianismo, não pode ignorar os efeitos terríveis que essa palavra evoca, efeitos que ainda hoje persistem, apesar de todas as iniciativas ecuménicas.
Dada a desenvoltura com que se pronunciou, terá Bergoglio esquecido as catástrofes dessa “bomba atómica” no tecido da Igreja? Essa ameaça não deveria aconselhar o Papa a ter mais cuidado com o que diz e faz e, sobretudo, com o modo provocador como fala e actua? Não saberá que está sempre a pisar terreno armadilhado?
     Neste caso, essas perguntas não conseguem esconder uma solene hipocrisia. Dito de outro modo: o Papa Francisco para não causar um cisma na Igreja deve renunciar a cumprir o programa do seu pontificado, tornar-se prisioneiro do medo, asfixiar a liberdade de expressão e concordar que o Vaticano continue num regime de monarquia absoluta!
Teria de anular tudo o que fez e desistir do futuro: da reforma da Cúria; do combate ao clericalismo e ao carreirismo eclesiástico; da denúncia da economia que mata e da religião que manda matar; do acolhimento das vítimas da guerra e dos que fogem da miséria; deixar de ver o mundo a partir dos excluídos e marginalizados; de aceitar que haja cidadãos de primeira e de segunda; de incitar a Igreja a deslocar-se para as periferias; da revisão do papel dos colégios e das universidades católicas; das alterações nas práticas teológicas para que recusem o papel de ideologia da dominação económica, política e religiosa; da encíclica Laudato Si sobre a ecologia integral; da irradicação da pedofilia no seio das instituições eclesiásticas e seus responsáveis; das conclusões do Sínodo sobre a Família reunidas no documento polémico Amoris Laetitia; de incentivar o debate sobre os ministérios das mulheres na Igreja; de renegar o caminho sinodal como reclamam os opositores vaticanistas à opção dos Bispos alemães; da convocatória para o estudo de alternativas económicas; dos passos gigantescos nos caminhos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso; de nunca procurar nas suas deslocações pelo mundo poder para a Igreja católica, mas que se torne exemplo desinteressado para os mais pobres, etc. etc..
2. Acontece, porém, que longe de renunciar ao programa do seu pontificado, de bloquear em si e nos outros a criatividade, alarga-a e estimula-a cada vez mais.
     A 15 de Outubro de 2017, abriu uma nova frente de inquietações e trabalhos, cujas consequências vão muito para além dos seus previsíveis anos de vida.
     O melhor é dar-lhe a palavra: «Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazónica. O Sínodo será em Roma, em Outubro de 2019. O objectivo principal, desta convocatória, é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, e por causa da crise da Floresta Amazónica, pulmão de capital importância para o nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram os caminhos da justiça e de paz».
A 17 de Junho deste ano, foi publicado o documento de trabalho, Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
Papa reunirá, no Vaticano, entre os dias 6 e 27 de Outubrobispos dos nove países que abrangem a região Pan-amazónica.
Desde a corajosa convocatória em Outubro de 2017, tudo se agravou. De Janeiro a Setembro deste ano, já foram contabilizados 106.141 focos de incêndios florestais na Amazónia. De um assunto que alguns teimavam em considerar puramente regional transformou-se numa questão global.
3. Estamos todos na mesma Casa Comum. Como diz o teólogo brasileiro L. Boff, voltamos do exílio, depois de milhões de anos, e agora estamos todos juntos no mesmo lugar, no planeta Terra. Esta não pertence a ninguém em particular. É um bem comum de toda a humanidade e de toda a comunidade de vida (animais, árvores, microorganismos, etc.). Amazónia é parte da Terra. L. Boff insiste: O Brasil não é senhor da Amazónia. Possui apenas a gestão dessa parte que administra mal e de forma irresponsável. 
As causas da redução da área natural da Amazónia são múltiplas e essencialmente económico-sociais. Há grandes interesses ligados ao agro-negócio, à criação da soja, à produção da carne de vaca, à indústria madeireira e não só. Segundo a investigação do Ministério Público brasileiro, algumas destas forças organizaram-se para promover um horrendo “dia de fogo” em Agosto passado.
No próximo dia 22 de Setembro, no âmbito da quinta edição do Átrio de Francisco, serão projectadas, na fachada da basílica superior de S. Francisco de Assis, as imagens do novo projecto fotográfico de Sebastião Salgado, sobre essa vasta região da América do Sul que tem estado no epicentro das notícias devido à acelerada desflorestação.
Voltemos à questão do começo. O Papa Francisco não deseja abafar as críticas que lhe fazem. Ajudam-no sempre e não vêm apenas dos americanos, vêm da própria Cúria! “Não gosto quando surgem de debaixo da mesa e te fazem sorrisos a mostrar os dentes e, depois, espetam-te a faca nas costas. Isso não é leal, nem humano. Disso não gosto!” Escusam de continuar com as ameaças de cisma. Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.
Basta de chantagens!
in Público, 22.09.2019

23 de setembro de 2019

Angelina e o pé na banheira


Mãe, Angelina, de 100; Nini, a comadre desta, de 84;  e Luísa, filha de 78 aninhos de idade, viviam na mesma casa.

Uma noite, Angelina, a de 100, começa a encher a banheira para tomar banho; põe um pé dentro da banheira, faz uma pausa e grita:
– Alguém sabe se eu estava entrando ou saindo da banheira?

A comadre Nini, de 84, responde:
– Não sei, mas vou já subir aí para ver!

Começa a subir as escadas, faz uma pausa, e grita:
– Eu estava a subir ou a descer as escadas?

A filha mais nova, Luísa, a de 78, estava na cozinha a tomar chá e a ouvir as duas, mãe e sogra, balança a cabeça e pensa:
– Que coisa mais triste! 
Espero nunca ficar assim tão esquecida…

E, prevenida, bate três vezes na madeira da mesa, e grita:
– Vou já ajudá-las, mas antes vou ver quem está a bater à porta!

BOA SEMANA

20 de setembro de 2019

AS RESPOSTAS MAIS CRIATIVAS NOS EXAMES NACIONAIS


HISTÓRIA

• Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.
• Quando os egípcios viam a morte a chegar, disfarçavam-se de múmia.
• O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0.
• O Convento dos Capuchos foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do monte.
• A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.
• Na segunda guerra mundial, toda a Europa foi vítima da barbie nazi.
• Na Idade Média os tratores eram puxados por bois, pois não tinham gasolina.
• A fundação do Titanic serve para mostrar a agressividade dos icebergs.
• Os escravos dos romanos eram fabricados em África, mas não eram de boa qualidade.
• Ao princípio os índios eram muito atrasados mas com o tempo foram-se sifilizando.
• Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.

BIOLOGIA, GEOLOGIA, CIÊNCIAS NATURAIS, PSICOLOGIA

• O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.
• O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia praticamente toda a gente tem um.
• Quando o olho vê, não sabe o que está a ver, então ele amanda uma foto elétrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.
• O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.
• O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebé. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.
• O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.
• A água tem uma cor inodora.
• Parasitismo é o facto de um gajo não trabalhar e viver à ‘pala’ dos outros, de dinheiro, cigarros e outros bens materiais.
• Ecologia é o estudo dos ecos, isto é, da ida e vinda dos sons.
• A baleia é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios.
• As aves têm na boca um dente chamado bico.
• Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica
• O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe.
• A homossexualidade, ao contrário do que todos imaginam, não é uma doença, mas ninguém quer tê-la.
• Newton foi um grande ginecologista e obstetra europeu que regulamentou a lei da gravidez e estudou os ciclos de Ogino-Knaus.
• A Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puxada por dois cavalos.

GEOGRAFIA

• A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.
• O sul foi posto debaixo do norte por ser mais cómodo.
• A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.

MATEMÁTICA, FÍSICA E QUÍMICA, ECONOMIA

• O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra!
• Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.
• Para fazer uma divisão basta multiplicar subtraindo.
• Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai molhado.
• Uma linha reta deixa de ser reta quando encontra uma curva.
• O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.
• Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.

BOM FIM-DE-SEMANA

19 de setembro de 2019

Sufrágio directo, sufrágio universal e sufrágio directo e universal


Os acontecimentos em Hong Kong têm sido fonte de frequentes equívocos.
O maior dos quais, opinião muito pessoal, a insistência em confundir sufrágio universal, sufrágio directo e  sufrágio directo e universal.
Ensina a melhor doutrina que o sufrágio universal é aquele que se verifica quando o direito de voto pode ser exercido por todos os cidadãos com capacidade legal para votar.
Já o sufrágio directo é aquele em que o eleitor pode votar directamente no seu candidato.
Logo, sufrágio directo e universal existirá sempre que os eleitores possam votar directamente nos candidatos que queiram, apenas com um requisito - que haja capacidade legal/eleitoral de uns e outros.
Se atentarmos no disposto no artigo 45 da Lei Básica de Hong Kong o que ali está previsto é o sufrágio universal, não o sufrágio directo e universal.
Mais, a segunda parte do artigo até parece, na sua literalidade, afastar a possibilidade de um sufrágio directo.
Pessoalmente, creio que Pequim sempre terá tido esta última possibilidade em mente.
Pequim resignar-se a ver como Chefe do Executivo de Hong Kong um qualquer cidadão com capacidade legal para tal?
Ficando apenas com o poder de “carimbar” o que já vinha decidido?
Alguém acredita seriamente nesta possibilidade?

Intemporais (180)

18 de setembro de 2019

O debate de todas as dúvidas


Esclarecimento prévio - não vi o debate televisivo entre António Costa e Rui Rio em directo.
Mas, de tudo o que já li e ouvi, algumas considerações podem ser tecidas, algumas certezas terão ficado, muitas dúvidas também. 
Primeira certeza, a julgar por todas as análises que li e ouvi repito e sublinho, Rui Rio terá vencido este debate. 
Uma vitória alicerçada no facto de Rui Rio ter conseguido centrar as questões num terreno muito mais tecnocrata, onde se sente muito mais confortável e onde está muito melhor preparado, do que estritamente político. 
Rui Rio não atacou a ideia que domina a sociedade portuguesa, que o Governo conseguiu bons resultados, mas procurou dizer que se fez muito menos do que era possível e expectável. 
E foi aí que traçou a grande diferença entre as propostas do PSD e do PS. 
O PSD propõe uma maior devolução de dinheiro aos cidadãos, propõe injectar mais dinheiro na economia para a fazer crescer, utilizando para isso a receita fiscal já arrecadada. 
Esta vitória, se poderá ser uma aparente certeza, levantou no entanto uma série de dúvidas. 
Desde logo saber se essa vitória terá estancado a sangria de votos no PSD, evitando por essa via a anunciada maioria absoluta do PS. 
A ser assim, saber se Rui Rio terá consolidado a sua liderança no PSD e na oposição à Geringonça que poderá afinal sair novamente das eleições de Outubro. 
Sem maioria absoluta, o PS teria novamente que recorrer ao auxílio dos ausentes sempre presentes no debate, Bloco de Esquerda e PCP. 
Ausente também sempre presente, e muito possivelmente grande derrotado neste debate, o CDS. 
Se Rui Rio conseguiu mesmo consolidar a sua liderança no PSD e na oposição ao futuro Governo, o CDS irá definhar ainda mais e Assunção Cristas poderá ter assistido ao final da sua liderança no CDS em directo nas televisões. 
O debate que devia esclarecer todas a dúvidas, se esclareceu algumas,  acabou afinal por deixar a pairar muitas mais.

What's happening in Hong Kong?

17 de setembro de 2019

O Irão depois do Iraque?


Depois do atoleiro que foi a invasão do Iraque, e dos efeitos devastadores que essa manobra táctica americana teve para todo o Planeta, será que Donald Trump se prepara para repetir a fórmula no Irão?
A retórica bélica tem-se acentuado desde que Donald Trump foi empossado.
A visão do Irão como inimigo figadal é óbvia, assumida, e levou mesmo ao abandono dos acordos anteriormente firmados.
Mas conhece agora novo desenvolvimento com os ataques às instalações da Saudi Aramco.
Ataques que provocaram uma queda de abastecimento de petróleo estimada em cerca de 5% e a consequente subida dos preços desta matéria-prima essencial.
Os ataques, efectuados com drones e reivindicados pelos rebeldes de etnia Houthi, concentrados no Iémen, terão na sombra a mão de Teerão.
Afirmação do príncipe saudita e que Donald Trump corrobora embora ainda deixe essa confirmação pendente de mais provas.
O mesmo Donald Trump que se apressa a garantir apoio aos seus aliados sauditas e que se afirma preparado para retaliar este ataque com força "nunca antes vista".
Depois de Bush no Iraque, e com sondagens cada vez mais desfavoráveis no caminho para a reeleição, estaremos à beira de assistir a um ataque de Trump no Irão? 

Francisco em África para o mundo (Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia)

                                                         
1. O Papa Francisco voltou a África. Numa viagem de contrastes: por um lado, Moçambique e Madagáscar, dois dos países mais pobres do mundo — Moçambique, com 70% dos 28 milhões de habitantes a viver abaixo do limiar da pobreza, é o décimo mais pobre; Madagáscar é o quinto mais pobre —, e, por outro, a República de Maurício, onde a economia cresce cerca de 5% ao ano, é uma ilha onde fazem férias turistas ricos. Francisco levava na bagagem objectivos essenciais: uma paz duradoura, o cuidado com o meio ambiente, o diálogo inter-religioso, um mundo globalizado justo. Numa visita multitudinária, em todo o lado foi recebido em festa e júbilo, com danças e tambores, como só os africanos sabem fazer.
A viagem decorreu entre 4 e 10 deste mês de Setembro. Ele próprio, no passado dia 12, já em Roma, descreveu o seu périplo por África e o que o moveu: “O Evangelho é o mais poderoso fermento de fraternidade, de liberdade, de justiça e de paz para todos os povos.”
1.1. “Em Moçambique fui semear sementes de esperança, paz e reconciliação numa terra que tanto sofreu no passado recente por causa de um longo conflito armado e que na passada Primavera foi vítima de dois ciclones que causaram danos muito graves.”
Em Moçambique, clamou perante as autoridades: “Não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.” E, sobre o processo de paz, no qual tem tido papel fundamental a Comunidade de Santo Egídio, quis exprimir o seu “reconhecimento”, dele e de grande parte da comunidade internacional, pelo esforço em ordem à reconciliação, que, sublinhou, “é o melhor caminho para enfrentar as dificuldades que tendes como Nação”. “Vós tendes uma missão valorosa e histórica a cumprir: Que não cessem os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem tecto, operários sem trabalho, camponeses sem terra: bases de um futuro de esperança porque é futuro de dignidade. Estas são as armas da paz.”
Certamente pensando no facto de Moçambique, entre 2001 e 2008, ter perdido 3 milhões de hectares de floresta — um total de 11% da sua área florestal (Madagáscar perdeu 3,63 milhões de hectares, o que representa uma diminuição de 21% —, pediu, com a igualdade, a defesa da terra e da vida, frente aos que exploram e desflorestam em seu próprio benefício — os principais responsáveis são os chineses —, num “afã acumulativo que, em geral, nem sequer é de pessoas que habitam estas terras e não é movido pelo bem comum do vosso povo”.
   Acusado de visitar Moçambique em campanha eleitoral, Francisco respondeu, já no avião, de regresso a Roma: “Não foi um erro, foi uma opção decidida livremente, porque a campanha eleitoral começou nestes dias e foi eclipsada pelo processo de paz. O importante era ajudar a consolidar este processo. E isto é mais importante do que uma campanha que ainda não começou. Ao fazer o balanço, é necessário consolidar o processo de paz. E também me reuni com os dois opositores políticos, para sublinhar que o importante era isso e não para animar o presidente, mas para sublinhar a unidade do país.”
    1.2. Francisco continua a narrativa da sua viagem: “De Maputo segui para Antananarivo, capital de Madagáscar. Um país rico em beleza e recursos naturais, mas vítima da pobreza. Desejei-lhe que, animado pelo seu tradicional espírito de solidariedade, o povo malgaxe possa superar as adversidades e construir um futuro de desenvolvimento, conjugando o respeito pelo meio ambiente e a justiça social.”
Madagáscar, um país esquecido, encontra-se entre os cinco países mais pobres do mundo e os católicos representam 36% da população. A luta contra a pobreza, a crise climática — simbolicamente, contra a desflorestação, Francisco plantou juntamente com o Presidente de Madagáscar um baobá, “a mãe da floresta” — e a necessidade da transformação da sociedade para uma distribuição equitativa dos recursos foram os eixos da intervenção papal.
Uma multidão de mais de cem mil jovens reuniu-se para abraçar o Papa e dialogar com ele. Perante um milhão de fiéis na Missa em Antananarivo, numa esplanada imensa em terrenos da diocese e de um cidadão muçulmano que os cedeu para a celebração, Francisco clamou contra “a cultura dos privilégios e da exclusão: favoritismos, amiguismos e, portanto, corrupção”, advertindo igualmente contra “o fascínio por ideologias que acabam por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar actos de violência, segregação e até homicídio, exílio, terrorismo e marginalização”. “A pobreza não pertence ao plano de Deus”.
O momento mais emocionante da viagem foi o encontro com 8.000 crianças na visita à chamada “cidade da amizade”, Akamasoa, um lugar onde antes havia uma enorme lixeira e agora há casas, pequenas, mas dignas, escolas, espaços de recreio, para milhares de famílias que puderam recuperar o seu trabalho e a dignidade. Foi construída pelos próprios pobres, com a ajuda do padre argentino Pedro Opeka: afinal, “a pobreza não é uma fatalidade”. “Rezemos para que em todo o Madagáscar e noutras partes do mundo se prolongue o brilho desta luz e possamos conseguir modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do esforço.”
1.3. “A Segunda-Feira dediquei-a à visita da República de Maurício, conhecido lugar turístico, mas que escolhi como lugar de integração entre diversas etnias e culturas.”
O país, com pouco mais de 1,2 milhões de habitantes, com pessoas de origem indiana, africana, chinesa e europeia, sobretudo francesa, é o único do continente africano com uma maioria hindu (48,5%) — 32,7% são cristãos e 17,2% são muçulmanos —, e é um exemplo para todos no que respeita ao diálogo entre culturas, pessoas e religiões.
Na Missa, na qual participaram 100.000 pessoas, 8% da população, o Papa reflectiu sobre as Bem- aventuranças, “o bilhete de identidade dos cristãos”.
No seu último discurso oficial, fez como que uma síntese, pela positiva, das suas preocupações nesta viagem. Dirigiu-se às autoridades de Maurício, que, desde há anos, possui “não só um rosto multicultural, étnico e religioso mas, sobretudo, a beleza que provém da vossa capacidade de reconhecer, respeitar e harmonizar as diferenças existentes em função de um projecto comum”.
Agradeceu à população o ensinamento que dá ao mundo: “é possível alcançar uma paz estável a partir da convicção de que a diversidade é bela quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação, até selar uma espécie de pacto cultural que faça emergir uma diversidade reconciliada”. Esta é, sublinhou, “base e oportunidade para a construção de uma real comunhão dentro da grande família humana, sem necessidade de marginalizar, excluir ou rejeitar.”
Recordando que Maurício se fez com diversos movimentos migratórios, animou a “assumir o desafio de dar as boas-vindas e proteger os migrantes que vêm hoje à procura de trabalho e, para muitos deles, melhores condições de vida para as suas famílias: preocupai-vos com dar-lhes as boas-vindas como os vossos antepassados souberam acolher-se uns aos outros”.
Também recordou “a tradição democrática instaurada depois da independência e que contribui para fazer da ilha Maurício um oásis de paz”, que há-de prosseguir “lutando contra todas as formas de discriminação.”
Destacando o grande desenvolvimento da ilha, advertiu que “o crescimento económico nem sempre beneficia a todos e que inclusivamente deixa de lado, devido a algumas estratégias da sua dinâmica, um certo número de pessoas, especialmente os jovens. Por isso, quereria animar-vos a promover uma política económica orientada para as pessoas. Animai-vos a não sucumbir à tentação de um modelo económico idólatra que sente a necessidade de sacrificar vidas humanas no altar da especulação e da mera rentabilidade, que só tem em conta o lucro imediato em detrimento da protecção dos mais pobres, do nosso meio ambiente e os seus recursos”. Trata-se, em última análise, de “promover uma mudança de estilos de vida para que o crescimento económico possa realmente beneficiar a todos, sem correr o risco de causar catástrofes ecológicas nem graves crises sociais”.
Dirigindo-se por fim aos líderes religiosos presentes, exprimiu-lhes a sua “gratidão por em Maurício as diferentes religiões, com as suas respectivas identidades, trabalharem em comum para contribuir para a paz social e recordar o valor transcendente da vida contra todo o tipo de reducionismo.
2. Francisco foi, nesta viagem, como sempre, arauto da paz, clamando contra a guerra, a corrupção e a favor da justiça e da fraternidade humana; insistiu no diálogo inter-religioso; arremeteu contra o clericalismo: “a Igreja não pode ser parte do problema, mas porta de solução, de respeito, intercâmbio e diálogo”, às vezes, “sem querer, sem culpa moral, habituamo-nos a identificar a nossa tarefa quotidiana de sacerdotes com certos ritos, com reuniões onde o lugar que ocupamos na reunião, na mesa, é de hierarquia”; defendeu a atenção a ter com o cuidado do meio ambiente; proclamou a alegria: “Jovens, não deixeis que vos roubem a alegria de viver”.
As linhas fundamentais da mensagem essencial, que ficou, tinha-as enunciado numa entrevista, ainda antes da visita, o Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin. África “precisa de amigos de África, não pessoas que olhem para ela com olhos interesseiros, mas pessoas que realmente procurem ajudar este continente a pôr em prática todos os seus recursos, todas as suas forças para progredir, para avançar.” Mas a primeira linha é que “os africanos devem ser conscientes da sua responsabilidade na busca de soluções para os problemas africanos dentro das suas sociedades, dentro dos seus Estados. Portanto, uma consciência renovada de que o destino de África, o seu futuro, está nas mãos dos africanos: uma assunção de responsabilidade neste sentido para lutar contra todos aqueles fenómenos que impedem o desenvolvimento e a paz.”
Como é hábito, já de regresso a Roma, Francisco, na habitual conferência de imprensa, foi confrontado com a acusação de herético e a ameaça de cisma na Igreja. Dedicarei a minha próxima crónica a esta magna e decisiva questão.
in DN 15.09.2019