29 de março de 2011

Seu pendrive tem blutufe?

Haroldo tirou o papel do bolso, conferiu a anotação e perguntou à balconista:

- Moça, vocês têm pendrive?

- Temos, sim.

- O que é pendrive? Pode me esclarecer? Meu filho me pediu para comprar um.

- Bom, pendrive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.

- Ah, como um disquete...

- Não. No pendrive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. O disquete, que nem existe mais, só salva texto.

- Ah, tá bom. Vou querer.

- Quantos gigas?

- Hein?

- De quantos gigas o senhor quer o seu pendrive?

- O que é giga?

- É o tamanho do pen.

- Ah, tá. Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.

- Todos são pequenos, senhor. O tamanho, aí, é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.

- Ah, tá. E quantos tamanhos têm?

- Dois, quatro, oito, dezesseis gigas...

- Hmmmm, meu filho não falou quantos gigas queria.

- Neste caso, o melhor é levar o maior.

- Sim, eu acho que sim. Quanto custa?

- Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB?

- Como?

- É que para acoplar o pen no computador, tem que ter uma entrada compatível.

- USB não é a potência do ar condicionado?

- Não, aquilo é BTU.

- Ah! É isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, sei lá se a minha entrada é USB.

- USB é assim ó: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o P2, mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é P2.

- Acho que o meu tem uns dois anos. O anterior ainda era com disquete. Lembra do disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador funcionava com aqueles disquetes do tipo bolacha, grandões e quadrados. Era bem mais simples, não acha?

- Os de hoje nem têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou pendrive.

- Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.

- Quem sabe o senhor liga pra ele?

- Bem que eu gostaria, mas meu celular é novo, tem tanta coisa nele que ainda não aprendi a discar.

- Deixa eu ver. Poxa, um Smarthphone! Este é bom mesmo! Tem Bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, filmadora, radio AM/FM, TV digital, dá pra mandar e receber e-mail, torpedo direcional, micro-ondas e conexão wireless....

- Blu... Blu... Blutufe? E micro-ondas? Dá prá cozinhar com ele?

- Não senhor. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.

- Pra que serve esse tal de blutufe?

- É para um celular comunicar com outro, sem fio.

- Que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os celulares já não se comunicam com os outros sem usar fio?
Nunca precisei fio para ligar para outro celular. Fio em celular, que eu saiba, é apenas para carregar a bateria...

- Não, já vi que o senhor não entende nada, mesmo. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu celular para outro, sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.

- Ah, e antes precisava fio?

- Não, tinha que trocar o chip.

- Hein? Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais chip...

- Precisa, sim, mas o Bluetooth é bem melhor.

- Legal esse negócio do chip. O meu celular tem chip?

- Momentinho... Deixa eu ver... Sim, tem chip.

- E faço o quê, com o chip?

- Se o senhor quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe.

- Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples? Imagino, então que para ligar tudo isso, no meu celular, depois de fazer um curso de dois meses, eu só preciso clicar nuns duzentos botões...

- Nããão! É tudo muito simples, o senhor logo apreende. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde... Pronto, está chamando.

Haroldo segura o celular com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta:

- Oi filhão, é o papai. Sim. Me diz, filho, o seu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era mesmo? Nossa conexão é USB? É? Que loucura. Então tá, filho, papai está comprando o teu pen drive. De noite eu levo para casa.

- Que idade tem seu filho?

- Vai fazer dez em Março.

- Que gracinha...

- É isso moça, vou levar um de quatro gigas, com conexão USB.

- Certo, senhor. Quer para presente?

Mais tarde, no escritório, examinou o pendrive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha, com receio, para o celular sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa. Tudo o que ele quer é um telefone, para discar e receber chamadas. E tem, nas mãos, um equipamento sofisticado, tão complexo que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de quarenta, saberá compreender.

Em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um 'heavy metal' infernal invade o quarto e os ouvidos de Haroldo. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:

- Pronto, pai, baixei a música. Agora eu levo o pendrive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu celular, por exemplo.

- Teu celular tem entrada USB?

- É lógico. O teu também tem.

- É? Quer dizer que eu posso gravar músicas num pen drive e ouvir pelo celular?

- Se o senhor não quiser baixar direto da internet...

Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo em Clarinha e disse:

- Sabe que eu tenho Blutufe?

- Como é que é?

- Blutufe. Não vai me dizer que não sabe o que é?

- Não enche, Haroldo, deixa eu dormir.

- Meu bem, lembra como era boa a vida, quando telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão, para as coisas funcionarem?

- Claro que lembro, Haroldo. Hoje é bem melhor, né? Várias coisas numa só, até Blutufe você tem. E conexão USB também. Que ótimo, Haroldo, meus parabéns.

- Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais rápido. Fico doente de pensar em quanta coisa existe, por aí, que nunca vou usar.

- Ué? Por quê?

- Porque eu recém tinha aprendido a usar computador e celular e tudo o que sei já está superado.

- Por falar nisso temos que trocar nossa televisão.

- Ué? A nossa estragou?

- Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slowmotion e reset.

- Tudo isso?

- Tudo.

- A nova vai ter blutufe?

- Boa noite, Haroldo, vai dormir que eu não agüento mais...

(autor desconhecido)

Mas podia ter sido eu!!!

8 comentários:

  1. Caro Pedro Coimbra
    Podia ter sido o meu caro, mas tambem eu e muito mais gente de certeza.
    Ainda recentemente tive que adquirir um potátil novo. Trazia os programas mais actualizados. Eu que trabalho muito com o Excel, ainda ando a brigar com as alterações.
    Quando se trata de mudar de telemóvel, então é um desatino.
    Abraço

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  2. Rodrigo,
    Sou um desastre com estas novas tecnologias.
    Então com os telemóveis......
    Fazer chamadas, e receber; enviar e receber umas mensagens; ver as horas e a data; ligar o despertador.
    Acho que me fico por estas funcionalidades.

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  3. Eu quando comecei a usar a net, não sabia enviar um e-mail, mas como tinha que me comunicar com o BNU em Macau, vi uma imagem e foi essa que enviei, tendo escrito por baixo o assunto que pretendia ser resolvido.
    O cartão era um gerente de um banco sentado à secratária e um tipo a bater-lhe com um maço na tola rsrsrs.
    Quando regressei a Macau, foi falar com o geren te e a pedir-lhe as minhas desculpas pelo envio do tal cartão, ele até achou graça, o que é certo é que o assunto foi resolvido.
    Acontece a todos, é por isso que não uso telemovel.

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  4. O gerente não se assustou caro amigo Cambeta?
    Um tipo receber um mail desses e depois ver a pessoa aparecer-lhe à frente fica a pensar - "vou levar na tola!!":)))

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  5. E eu também, Pedro. Sou um ignorante nestas matérias.

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  6. Caro confrade Pedro Coimbra!
    Ainda considero-me um néscio nas questões cibernéticas, porque meus parcos conhecimentos eletrônicos deixam-me atarantado... As fotomontagens que aparecem no meu vagão do Expresso do Oriente são mimos das minhas estimadas confrades Glorinha e Cristina.
    Até nos dias em curso não sei utilizar integralmente os recursos do telefone portátil, porque reiteradas vezes necessito do auxílio do meu filho para ensinar-me a ativar alguns recursos...
    Vou solicitar os valiosos préstimos do nosso estimado confrade e amigo em comum, o valoroso António Cambeta, para que ele me ensine a enviar correspondências eletrônicas concomitantemente para vários destinatários, porque você acredita que até agora não aprendi a fazê-lo?!...
    Caloroso abraço! Saudações neófitas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP
    Brasil

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  7. Carlos e Prof. João Paulo de Oliveira,
    O mais curioso é exactamente, como comenta o Prof., serem os garotos a ensinar-nos, muitas vezes com um ar de espanto, como é que se utilizam aquelas funcionalidades todas.
    Acontece-me frequentemente com a minha filha mais velha (completa hoje 13 anos).

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  8. Prefiro chamar-lhe “memory stick”.
    E já agora parabéns pelo aniversário da sua filha!

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