14 de janeiro de 2011

Os custos da dívida


A grande notícia de ontem em Portugal foi o grande sucesso conseguido com a venda de títulos da dívida pública nos mercados financeiros.
Com juros a rondar a 7%, os mercados mostraram confiança no país, no trabalho que está a ser feito pelo Governo.
Foram estas as notícias que todos recebemos.
As reacções de euforia a nível interno (sim, que fora de Portugal o cenário nunca foi apresentado com uma matiz tão cor-de-rosa....), o foguetório oficial, tiveram em Cavaco Silva a excepção.
O Presidente da República, e candidato às eleições de dia 23, confrontado com as "excelentes notícias" (sic) no decorrer de uma acção de campanha, foi comedido nos seus comentários.
Mas eloquoente para quem o ouviu.
E percebeu o que queria dizer.
Cavaco Silva afirmou que só podia comentar as notícias quando tivesse informação concreta e fidedigna acerca dos compradores.
Esta frieza valeu-lhe um coro de recriminações, uma chuva de críticas.
O Presidente da República não só não vendia o país, como, ainda pior, dava uma má imagem do mesmo.
No mesmo dia em que os mercados, essa entidade fenomenal,  tinham dado uma prova inequívoca da credibilidade que o país merece.
Em que tinham deixado claro que o futuro é risonho.
E até o presente não é tão negro como o pintam.
Afinal, e porque nem todos os jornalistas são fazedores de manchetes e caixas de ressonância, aparece agora o DN com esta notícia (http://dn.sapo.pt/bolsa/interior.aspx?content_id=1756685).
Uma notícia que vem no mesmo sentido da que foi dada, entre outros, pelo Herald Tribune.
Os mercados, pelo menos neste caso, têm face.
E essa face tem traços marcadamente orientais.
Goste-se, ou não, de Cavaco Silva, que isso agora pouco importa, era para esta possibilidade/probabilidade que estava a chamar a atenção.
Já se conhece o comprador.
E ficam a conhecer-se as condições impostas.
Cavaco Silva sabe bem que não há almoços grátis.
Aliás, com os chineses a regra é até a oposta.
Como se constata agora.
Os juros já eram conhecidos.
Ficam a conhecer-se mais alguns custos.
E haverá outros que irão conhecer-se no futuro.
Havia muita boa gente assustada com a perspectiva da entrada do FMI em Portugal.
E com boas razões para isso.
O FMI não brinca quando confrontado com conjunturas de descontrolo económico e financeiro.
E aplica medidas duras, muito duras, para debelar os males que detecta.
Vou dar uma novidade aos mais distraídos - o grau de exigência da China é infinitamente superior ao do FMI.
Percebem agora a razão que motivou tanta frieza na reacção de Cavaco Silva?

3 comentários:

  1. Caro Pedro Coimbra
    É caso para dizer que no fim de ler o seu post, fiquei com os olhos em bico...

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  2. Pedro:
    A verdade é que ontem de manhã, ainda antes de se saber como tinha corrido o leilão, Cavaco disse que tinha recebido notícias de que o leilão tinha corrido bastante bem. E estava tão eufórico, que até pediu "royalties" aos jornalistas por lhes estar a dar a informação em primeira mão.
    Depois, talvez alertado por alguém doi seu inner cercle, virou o bico ao prego e começou a falar da possibilidade de uma crise política.
    Claro que pagar juros a 5,3 e 6,7% ( foram os juros cobrados pelas parcelas a 4 e 10 anos respectivamente, não augura nada de bom. No entanto, para quem previu ( os analistas económicos do costume...) que os juros cobrados iriam rondar os 7,5%, o erro foi colossal. Pronto, estábem, esses andam tristes porque queriam cá o FMI. E qaunto mais depressa, melhor...
    Só ainda não percebi as vantagens, para o povo português, da entrada do FMI. Os gregos e os irlandeses, que já lá o~têm, também não...
    Abraço

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  3. folha seca,
    Sem dramatismos, é para ficar um pouco preocupado.
    Se há algo que os chineses levam MUITO a sério é o dinheiro.
    Como tal, esta intervenção vai ter custos elevados.

    Carlos,
    Não sei se foi Cavaco que se apercebeu, ou se foi algum dos seus conselheiros que o alertou.
    A intervenção da China é, do meu ponto de vista, muito mais exigente que uma possível intervenção do FMI.
    Obviamente, o desejável era não ser necessária nenhuma delas.
    Mas, quando vejo a China, e dinheiro, misturados em Portugal, assusto-me um bocado.
    Um abraço a ambos

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