10 de janeiro de 2011

Decisões científicas e governo científico


As modas em Macau têm, normalmente, origem do outro lado do Delta do Rio das Pérolas.
No caso da tomada de decisões com base científica, que foi abreviada para a expressão decisões científicas, a fonte é o outro lado da Porta do Cerco.
O Governo Central fez entrar a expressão no léxico diário do aparelho governativo na China.
Essa prática foi adoptada depois em Macau.
Mais do que adoptada, foi adaptada.
E, de repente, passámos a ser quase constantemente bombardeados com as expressões decisões científicas e governo científico.
Apesar da vulgarização da expressão, o significado da mesma nunca foi bem explicado.
Orlando Pavani Jr. ajuda a compreender o que se deve entender por tomada de decisões com base científica - " Há duas formas ou estilos de decisão: A Artística e a Científica. A Artística caracteriza-se por decisões alicerçadas no empirismo e/ou na intuição do tomador de decisão. A Científica se fundamenta por decisões baseadas em fatos e/ou evidências disponíveis ou sistematicamente planejadas."
Ou seja, com a expressão tomada de decisões com base científica, pretende-se significar um processo, um encadeado de factos, de experiências, que levam a uma conclusão que deixa de lado a intuição, a "pele", as sensações do decisor.
Pelo contrário, é priveligiado o elemento racional.
O mesmo autor explica porque razão se priveligia a tomada de decisões com base científica hoje em dia - " É simples. Nem sempre teremos 'artistas' em nosso quadro de tomadores de decisão. Enquanto existir o “artista”, poderíamos, e talvez até devêssemos, continuar a decidir pelo empirismo/intuição e as coisas tenderiam a continuar dando certo.
Temos percebido, portanto, que precisa haver uma revolução de aprendizado no que tange a decisão científica, preponderantemente baseada em fatos e em evidências.
Não podemos mais depender somente dos 'artistas' intuitivos, normalmente brilhantes (...)."
Foi isto mesmo que o Governo Central percebeu.
Pessoas que conseguem liderar somente através da sua intuição são muito poucas.
Como tal, é mais seguro recorrer à base factual, à experimentação, à auscultação de opiniões, no processo de tomada de decisões.
Em Macau, estes conceitos foram algo adulterados, levados ao exagero e ao disparate das decisões científicas e do governo científico (aquele que toma decisões científicas).
Vamos lá ser rigorosos.
Não é de decisões científicas que se deve falar na área da governação.
Antes, de tomada de decisões com base científica.
E esse conceito de governo científico também não tem sentido nenhum.
Será um governo composto por cientistas?!
Que tal começar a falar-se também de um governo cujas decisões são tomadas com base científica?
Fica a sugestão.

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