10 de janeiro de 2012

VELHO!!! (Crónica verídica de Ary Franco)

(Com um abraço especial para o Prof. João Paulo de Oliveira que me deu a conhecer esta pérola)


Dia 24 de novembro do distante 2011, um dia antes de meu aniversário, quando alcancei meus 78 anos de idade, vencia-se a validade da minha carteira de habilitação para dirigir veículos. Lá fui eu ao DETRAN levando minha filha mais nova a tiracolo.

_ Bom dia, disse cumprimentando uma das recepcionistas.

_Bom dia, respondeu-me ela. Em que posso servi-lo?

_Quero saber sobre os procedimentos a tomar para renovar minha carteira de motorista.

_O sr, está com a antiga aí?

_Sim!

E comecei a procurá-la na minha capanga. Como demorei mais de dois segundos para achá-la, minha filha, falou-me para deixar que ela procurava. Entreguei-lhe a capanga.

A partir daí, “fiquei de lado”. A carteira foi entregue à moça, fez umas anotações numa ficha e pediu que minha filha desse o meu CPF e a minha carteira de identidade.

Com desprendido estoicismo atrevi-me a dizer os números de ambos de cor. Recebi de volta da moça um piedoso sorriso de soslaio e ela copiou os números depois de estar de posse dos documentos entregues pela minha filha.

_ Por causa da idade, ele está dispensado de pagar o DUDA e só precisa tirar uma foto. Qual o melhor dia para marcarmos?

Minha filha perguntou:

_Pode ser quinta-feira à tarde?

_l6:30h está bom?

_Está ótimo!

_Então é só isso, ele vai ter que pagar na hora R$52,00 pelo exame de vista.

EI! EU TÔ AQUI! PENSEI INDIGNADO! SILENCIOSAMENTE! MUDO!

Minha filha guardou os documentos de volta e entregou-me a capanga. Calado, dirigi de volta pra casa e pensando: por que um simples detalhe etário me torna velho? Sou um jovem, sinto-me jovem dentro desta carcaça aparentemente velha, bolas!!! Se tivesse recursos financeiros, uma plástica ajudaria bastante!

Quinta-feira à tarde:

_Boa tarde! Vim fazer o exame de vista e tirar minha foto.

_Boa tarde! O sr. está com o protocolo do agendamento?

_Sim! Está com a minha filha, ela preferiu ficar com ele, com medo de que eu o perdesse ou esquecesse onde tinha guardado.

_Pronto, aqui está!Disse triunfante, minha filha.

_Obrigada, é só aguardar um pouquinho. Tem 5 pessoas na frente mas ele será logo atendido. Idosos têm preferência no atendimento.

Enquanto isso, entregaram-me uma ficha para ser preenchida e a moça disse-me, mui carinhosamente:

_Qualquer dúvida é só perguntar, viu?!

Irado, sentei-me naquelas cadeirinhas de colégio e preenchi tudo em menos de dois minutos e assinei. Todos que lá estavam quando cheguei, ainda estavam às voltas com o preencher de seus questionários. Levantei-me para entregar à moça a ficha preenchida e ela, sem ver, disse-me:

_Pode sentar-se lá que eu já vou lhe ajudar.

_Mas eu já acabei!

_Já?! Deixa eu ver aqui. Pareceu-me incrédula. Puxa, que rapidez... e ta tudo certinho, parabéns! Agora, o sr. vai tirar a foto, ali atrás daquele biombo.

Ironicamente, perguntei pra minha filha: Você não quer tirar a foto, no meu lugar? Pode ser que eu não saiba...

_Ah! Pai! Vai logo e vê se não faz gracinhas, comporte-se!

Fui pra traz do tal biombo e quem vejo. Uma linda morena, de olhos verdes.

Na juventude de seus 46 anos, mais ou menos...

_Boa tarde! Sente-se, por favor, mas não mexa na “cadeirinha”, ela já está na posição exata para o seu “retratinho” ser tirado.

_Bolas!”Cadeirinha”, “ retratinho”???!!!

Ajeitou-me a gola da camisa, retirou-me os óculos delicadamente (naturalmente para não arranhar a pele “do múmia”) e mandou-me olhar fixamente para um determinado ponto.

_Não, não, não... o sr. está olhando pra mim. Tem que olhar pra cá. Olha onde está o meu” dedinho”...

_Eu não estava olhando para você, estava olhando para seus olhos e admirando as belas verdes lentes de contato que está usando.

_Não uso lentes de contato, meus olhos são verdes naturalmente...

Desculpe perder-me na vastidão de seu verde olhar
Desperta-me a beleza sedutora de um lindo sonhar.
Se fossem azuis, castanhos ou outra cor qualquer,
Atrairiam-me de qualquer forma, por seres mulher!

_Ah... o sr. “era” poeta?

_Sim...” já fui poeta!” Vamos à foto – OK?

Foto tirada, fui avisado que passaríamos à parte dactiloscópica. No meu tempo de rapaz, séculos passados, lambuzavam meus dedos numa almofada para carimbos e saía todo borrado. Em alguns lugares, forneciam uma toalha já mais suja que meus próprios dedos. Hoje, tem um aparelhinho luminoso que colhe nossas impressões digitais.

_Agora, vou colher suas impressões digitais. O sr. não vai poder calcar demais; somente encostar levemente os “dedinhos”, um por um. Deixa que eu lhe ajudo.

_Vamos começar pela “mãozinha” direita. Me dê seu “dedinho” aqui. E segurou minha mão. Toque suave e quente eu senti.

Bom, aprendi que “dedinho” é o mínimo ou mindinho e dei-o, ou melhor, emprestei-o pra Alexandra (nestas alturas já sabia o nome dela). Então ela disse-me não. Tinha que começar pelo “gordinho” (ela se referia ao polegar!). Terminadas ambas as mãos, as impressões de três dedos não ficaram boas e foram repetidas, para meu gáudio...

_Obrigada, pelo versinho “seu Ary”. Acabamos. Agora o sr. volta pra sala e aguarda o médico lhe chamar – OK?

_OK! Você é muito simpática... e simulei beijar-lhe a mão.

_Obrigada!!

Mal sentei-me, o médico assomou a porta do consultório e chamou:

_ Ary Mendes Franco!

_Eu! Às suas ordens, seu criado!

_Deu-me um amistoso tapinha nas costas e mandou-me entrar.

_Tudo bem, com o sr.? Tem sentido tonteiras, dorme bem, sente sonolência ao dirigir por longo percurso?

_Não sr! Sinto-me ótimo para dirigir por mais uns 20 anos. Rimos!

_Estes óculos que o sr. está usando são os mesmos com que dirige?

_São!

_Vamos ficar em pé. O sr. vai encostar na porta e vem andando na minha direção com os olhos fechados, Certo?

_Certo.

Sem problemas fiz o percurso, ganhando nota dez.

_Agora, ainda com os olhos fechados, abra os braços como que crucificado e coloque os dedos indicadores na ponta do seu nariz, sem abaixar os cotovelos.

_Vapt vupt! Outra nota dez!

_Finalmente, vamos ao exame de vista. Tampe o olho esquerdo e diga-me que letras e números está vendo. Apontou ele com uma varinha.

_A X Z Y K 8 S 7...

_Chega, agora tampe o olho direito e diga-me o que enxerga.

_3 C J 7 B ...

_Muito bem! Infelizmente (fiquei gélido de pavor) não posso lhe dar mais 5 anos de habilitação, por força do sistema que só vai aceitar 3 anos, por causa da sua idade. Mas, se Deus quiser, daqui a 3 anos estaremos aqui outra vez para novo exame. Dia 6 de dezembro pode pegar sua nova carteira. Felicidades!

_Obrigado doutor. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

Dirigindo de volta pra casa, com minha filha a tiracolo, pensei: daqui a três anos, estarei com 81, Deus que me ajude, como tem ajudado até aqui! Como será que eles vão me tratar? Nem quero imaginar...
_Tá calado, pai! Ta pensando o que? 

_Nada, nada...

5 comentários:

  1. Estimado Amigo Pedro Coimbra.
    Uma história bem gira e penso que bem real.
    Eu tenho, somente 68 anos, porém não renovei a minha carta de condução, tenho três frotas à minha escolha, para poder andar pelas vias desta cidade.
    Também o não fiz, porque a carta de condução que possuia inicialmente era de Lista Branca, depois a troquei por uma carta de condução normal de Macau e mais tarde a renovei em Portugal, torna-la a renovar, agora em Macau seria mai9s complicado e não teria, uma moça linda de olhos verdes para me atender.
    Abraço amigo

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  2. A estória é verdadeira, Amigo Cambeta.
    Tenho carta de condução desde os 18 anos.
    E carro também desde então.
    Sem carro, para mim, é pior que andar nu.
    Tente lá renovar a carta que as moças, mesmo não tendo olhos verdes, não estão nada mal :)))
    Aquele abraço

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  3. Caro confrade Pedro Coimbra!
    Aqui entre nós inventaram uma nova expressão para a senilidade: a melhor idade... Deve ser constrangedor sentir-me bem e ser tratado como uma pessoa que necessita de cuidados especiais...
    Caloroso abraço! Saudações vigorosas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  4. Bem, pelo menos as moças eram jeitosas :)*

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  5. Prof. João Paulo de Oliveira,
    Este texto é genial!
    E define com grande precisão a maneira patética como se tratam as pessoas mais idosas.
    A mesma maneira como se tratam muitas vezes as crianças.
    Uns e outros, quando são tratados assim, pensam que os seus interlocutores têm algum problema mental.
    Aquele abraço

    Catarina,
    O tipo é excepcional.
    Até nisso.
    Fez-me lembrar um amigo dos tempos de juventude e o lema dele constantemente - "calem-se e galem as gajas" :)))

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