3 de janeiro de 2012

Acordo ortográfico (visto de Portugal)


Um cê a mais


Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. São muitos anos de convívio.

Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.

Manuel Halpern

4 de Outubro de 2010

12 comentários:

  1. Agora já não sei se é assim ou como era. As dúvidas são maiores.
    Irei escrevendo ainda do modo que sei mas muitas palavras já me deixam na dúvida.
    Esta é a estória de um português com história.

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  2. Um bem cada vez mais escasso, Catarina.

    Luís,
    Eu continuo a adoptar a ortografia que aprendi, que me foi ensinada na escola.
    E que me ensina que um facto é algo que aconteceu e que um fato é algo que eu visto.

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  3. Caro Pedro
    Também vou ser um dos resistentes mas temo que seja uma batalha perdida. Em Portugal os jornais que leio já adoptaram o acordo,o que faz com que quando escrevo já tenha algumas duvidas.
    Não tem piada nenhuma.O pior vai ser quando tivermos que fazer um requerimento. Sujeitamo-nos a que seja devolvido por estar mal escrito.
    Abraço

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  4. Acontece a todos nós, Rodrigo.
    Por vermos palavras que nos parecem mal escritas tantas vezes, à custa do maldito acordo, ficamos com a cabeça à nora.
    Abraço

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  5. Muito resistente em fazer esta mudança. Nem os textos têm o mesmo sentido. Pelo menos para mim.
    E como se vê pelo meu blogue, continuo a escrever como aprendi.
    Beijo

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  6. Idem, Carlota.
    Não adiro.
    Ponto final.
    Beijo

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  7. Aconteça o que acontecer, não vou mudar a minha maneira de escrever. Porque eu não sou traidor como a elite reinante.

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  8. Quem diria que um texto sobre o "c" me deixaria com pele de galinha... Já sinto nostalgia, porque sei que quer queiramos quer não, por muito que lutemos, que resistamos este novo acordo vai acabar por ganhar-nos!

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  9. FireHead,
    Não mudamos.
    Eu também não vou por esse caminho.

    É muito provável, Catarina.
    Ainda assim, eu vou continuar a escrever como aprendi.

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  10. Quanto não custará a Portugal (país de tanga) este acordo ortográfico? Só de pensar na republicação de panfletos informativos, livros, manuais e afins me dá arrepios.

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  11. Mas é curioso que os defensores do "Acordês" utilizam o argumento do lucro como um dos mais relevantes.
    O hipotético alargamento de mercados.
    Sim, que nós não conseguimos ler o português que se escreve no Brasil, na África lusófona.
    Nem eles conseguem ler o português que nós escrevemos.
    É com cada disparate!!

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