12 de janeiro de 2012

Diálogo (imaginado) com uma prostituta em Macau

Uma vez que o Blogger não me deixa comentar, nem no meu blogue, mas me deixa publicar, fica mais um devaneio. Vamos ver se amanhã isto está em ordem.



Aproximou-se dela acompanhado por um intérprete.

Àquela hora, naquela zona, naquele hotel, tinha a certeza que a iria encontrar.

Era jovem, muito provavelmente vinte, vinte e poucos anos, chinesa, muito bonita, pele muito branca, corpo escultural, um sorriso gaiato que a vida ainda não lhe roubara.

Quando o viu aproximar-se, a pergunta saiu de imediato, sacramental – “massage?”

As prostitutas, quando se dirigem ao guai lo *, fazem sempre essa pergunta.

Com o auxílio do intérprete, disse-lhe que não pretendia que ela lhe prestasse esse tipo de serviços.

A expressão dela, misto de surpresa e susto, denunciou o que lhe ia na alma.

Se não pretendia os serviços dela, ou era da bófia, ou era da segurança do hotel.

Fosse o que fosse, estava em apuros.

Fez menção de se afastar mas, mais uma vez com o auxílio do intérprete, ele tranquilizou-a.

Só queria conversar. E pagaria para isso.

Ela reagiu com incredulidade.

Provavelmente porque nunca se lhe tinham dirigido, naquele local, apenas para conversar.

- Conversar sobre quê?, perguntou ela.

- Sobre ti, sobre a tua vida, respondeu ele.

- Que disparate! Para quê?

Percebia-se o incómodo nos seus gestos, na sua reacção, na sua voz.

O tonto do guai lo queria conhecer a vida dela para quê, porquê?

Estava a desconfiar daquele tipo.

Será alguma perversão? Já tinha ouvido algumas amigas falar dessas coisas….

Percebendo que ela estava a ficar irritada com a situação, procurou tranquilizá-la.

- Como é que te pagam os serviços? Sabes, eu nunca procurei uma prostituta, não sei como é, esclareceu. Por hora (lembrou-se de Julia Roberts em Pretty Woman)? Pelo tipo de serviço prestado?

- É pelo serviço prestado, respondeu ela num tom áspero.

- Então fazemos o seguinte – eu pago como se me tivesses prestado os serviços todos. Na condição de responderes às minhas perguntas todas.

- Já percebi!, exclamou ela. És jornalista.

- Não, não sou jornalista. Sou blogger.

- O que é isso?, perguntou ela novamente com desconfiança.

- Tenho um espaço na Internet onde escrevo o que me apetece, quando me apetece.

- E ganhas dinheiro com isso?, quis ela saber.

- Não. É só por gozo, respondeu ele sorrindo.

A expressão dela não enganava – “este é mesmo amalucado”, era o que estava a pensar.

Escrever na Internet, por gozo, e sem ganhar dinheiro com isso? Para quê? O problema era dele. Se lhe pagasse, queria lá saber o que é que ele fazia. Receber e não ter que prestar serviço nenhum, só conversar com ele, era o bastante para ela.

Ele tinha era que lhe pagar. Até porque a mamma san** não lhe ia perdoar se ela não entregasse nada, a percentagem devida e esperada.

E ia levar porrada como já tinha levado noutras vezes.

Disse-lhe então qual seria a quantia que ele teria que pagar para ficar ao seu dispor.

E ele lembrou-se novamente de Julia Roberts e do filme Pretty Woman.

Mas, ao contrário de Richard Gere, ele não regateou o preço.

Em vez disso, respondeu – dinheiro não é problema. E perguntou – para onde é que vamos?

- O melhor é irmos para um quarto, respondeu ela. É nos quartos que costumo prestar os meus serviços e não quero levantar suspeitas, esclareceu.

- Seja, disse ele.

Conseguiu o quarto com menos dificuldade do que previra.

Afinal, num hotel reputado, que se dizia estar sempre cheio, bastava pedir um quarto na recepção, pagar, e estava tudo tratado.

Sem perguntas, sem controlo nenhum.

Ficou até algo desapontado.

"Luxo de porra”, pensou para consigo mesmo.

Subiram ao quarto, sempre acompanhados do intérprete, e ela pôs-se à vontade no sofá.

Perguntou se podia tirar uma bebida do mini-bar.

Ele disse que sim.

- Pronto, pergunta lá o que quiseres, atirou ela.

- Quando é que vieste para Macau?

- Estou cá há menos de um ano.

- E vens de onde?

- Isso eu não te quero dizer. Nem de onde venho, nem como aqui cheguei. Só te posso dizer que venho do interior da China, de uma terrinha que, quase de certeza, não conheces nem nunca ouviste falar.

- Tens lá família?

- Os pais. Disse-lhes que vinha para Macau trabalhar num hotel. E não era totalmente mentira.

Sorriram com esta observação.

- E namorado?

- Já tive. Mas acabou-se.

- Porquê?

- Porque ele estava satisfeito naquele inferno e eu queria fugir de lá o mais depressa possível. Assim que acabei o secundário disse-lhe que queria sair para uma grande cidade. Ele disse que não queria e acabou-se logo ali o namoro.

- Posso concluir que não havia grande paixão, então…

- Podes concluir o que quiseres. O que é que interessam as paixões se tens uma vida de merda? Tu e a tua família. E, sobretudo, se não tens perspectivas de a melhorar.

- Isso não é ser demasiado materialista?

- Mais uma vez, chama-lhe o que quiseres. Eu chamo-lhe instinto de sobrevivência. Já foste pobre?

- Não, respondeu ele.

- Pois, bem me parecia.

- Compreendo a tua observação. Mas não podias continuar os estudos? Noutro local, numa grande cidade por exemplo?

- E o que é que achas que quero fazer quando sair desta vida?, perguntou ela. Vou andar aqui mais uns anos e, depois disso, quando tiver algum dinheiro, vou-me embora, vou para Guangdong que é por aqui que está o dinheiro, e ainda vai estar mais, vou casar, ter a minha família, provavelmente continuar os meus estudos.

- Tens tudo muito bem planeado, observou ele.

- Claro! Achas que ia passar a vida toda aqui? Como puta? Só nos querem enquanto somos jovens. Nem que eu quisesse ficar por cá, daqui a uns anos ninguém me queria.

Por esta altura, a desenvoltura dela surpreendia-o. Sem que nada lhe perguntasse, ela continuou.

- Já reparei que estás, desde que chegaste ao pé de mim, com um ar quase de piedade no rosto. Não estejas. Sou puta porque quero! Não queria ficar enfiada naquele pardieiro o resto da vida. Se, para sair de lá, era preciso ser puta, tudo bem. Tudo para sair dali.

- Sabes que temos muito a ideia que vocês vêm para aqui enganadas por redes ligadas à prostituição, observou ele.

- Nem todas. Muitas, sim. Eu, por exemplo, sabia muito bem ao que vinha. São precisos contactos, mas já te disse que, sobre isso, não vou falar.

- E não tens medo?

- De quê?

- Violência, doenças, dos clientes, dos chulos,…

- Claro que sim! Todos os dias. E achas que quem trabalha nas fábricas e nos campos, no interior da China, sem condições, sem segurança, também não tem medo?

- Postas as coisas assim…

- A diferença é que, o que eles ganham num mês, eu ganho num dia bom.

- Lá vem o teu materialismo.

- Realismo, instinto, está bem?, respondeu ela irritada.

- Não te queria ofender.

- Então pára com as lições de moral!, ordenou-lhe.

- Assim seja.

O intérprete, de quando em vez, lançava um olhar de quase incredulidade na sua direcção.

Também era fácil adivinhar o que lhe ia na mente. “Estes guai lo são muito inocentes, caramba!”, era isso que estava a pensar.

- Se já pensaste em tudo, então quantos filhos queres ter? Seguir a política de filho único?, perguntou em tom provocatório. E que curso superior vais frequentar?

- Eu ainda nem conheci o marido!! Tenho que conhecer o marido primeiro. Depois é que decido. Até posso encontrar aqui algum ricaço que me queira sustentar. Ou a grande paixão da minha vida. Desde que não seja para regressar à origem…Se for assim, já nem preciso de pensar muito.

Sorriu com um ar maroto depois de dizer isto.

- Achas que isso é possível?, perguntou ele.

- E achas que já não aconteceu antes?, retorquiu ela

Lá vinha outra vez o filme Pretty Woman à mente. “Haverá mesmo Cinderelas e príncipes encantados nestes tempos?”, pensou ele. Pelos vistos….

Já estavam a conversar há mais de uma hora.

E ela fez-lhe notar isso.

- Não é nada vulgar ficar com um cliente tanto tempo. E eu não quero problemas com quem me está a vigiar. Estão a vigiar-nos, tens consciência disso, não tens?

Ele abanou a cabeça afirmativamente.

- Então, tens muito mais perguntas?, inquiriu ela.

- Só mais uma – és feliz?

Ficou surpreendida com esta pergunta. Felicidade era coisa que não estava na sua mente como possível tema de conversa.

Mas rapidamente se recompôs da surpresa.

E respondeu com convicção - Às vezes. Não se pode ser sempre triste, nem sempre feliz, não é?

- Sem dúvida, respondeu ele.

Quando se dirigiu a ela para lhe pagar o que havia ficado combinado, ela perguntou – e não queres saber o meu nome? Isso eu posso dizer…..

E ele respondeu, de forma seca e convicta – não!


*Estrangeiro

** Proxeneta do sexo feminino


4 comentários:

  1. Caro Pedro

    Vim aqui só para dizer que também estou com problemas, principalmente com o Firefox.

    Abraço

    Nota: Este texto foi colocado através do IE.
    vamos ver se entra ou se a internet anda toda à deriva.

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  2. Mas quem é que escreve na internet por gozo sem ganhar dinheiro? :p

    Mas que bela imaginação... :)

    P.S. O breack lá do estaminé, é temporário, só até afugentar os maus ventos que andam por lá... Eu não faço mal a ninguém, mas há quem goste de me fazer sentir mal... Enfim, tenho de aprender a lidar com isso, faz parte do crescimento! :)

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