31 de março de 2010

Três entrevistas essenciais para assegurar a realização do "interesse nacional"

Uma das coisas que mais gozo me dá, é ouvir falar no "interesse nacional".
Na linguagem política, e dos políticos, é um must.
Como sou um curioso, fui procurar saber exactamente o que é o "interesse nacional".
Sim, é que muita gente fala nele, mas ninguém nos diz o que é.
Encontrei então o artigo "Sobre o Conceito de Interesse Nacional", de Renato Janine Ribeiro, na Revista Interesse Nacional.
E o que nos ensina então o autor?
Citando:
" (...)Mas o que seria o conceito de interesse nacional? Comecemos pelo substantivo, interesse. Com essa denominação ou outras, ele desempenha papel decisivo na construção do pensamento político moderno. No século XIX, será chamado, por vários, de “interesse bem compreendido”. Benjamin Constant e Alexis de Tocqueville utilizam essa expressão, entre outros. Sua convicção é que, se compreendermos bem nosso interesse, não agiremos de maneira errada ou contraproducente. Assim, um conhecimento adequado do que é vantajoso para nós implica toda uma linha de ação, um road map, como diríamos hoje."
Já começo a comprender alguma coisa.
"(...)E quanto à nação? Como se torna nacional o interesse? Porque lidamos com o interesse, até aqui, do ponto de vista do sujeito individual. A este o interesse pacifica e civiliza. Mas, no caso da nação, ela não requer a mesma pacificação."
(...)O interesse nacional, como conceito, pode ser entendido como a promoção do interesse de um Estado independente pelos seus cidadãos ou governantes, reduzindo enormemente a parte das paixões no trato social. Aqui não importa tanto se o interesse está no nacionalismo acerbo ou na globalização sem salvaguardas; o que conta é que os que defendem uma posição ou outra – e também as intermediárias – acreditem que assim melhor atendem ao interesse nacional. O que é decisivo é que as partes não se iludam pela força dos afetos desabridos. Ora, esse traço traz certas conseqüências. A discussão sobre o interesse nacional supõe então uma racionalidade, uma lógica, de modo que, mesmo quando se torne aquecida, antagônica, as diversas partes estejam apelando a uma razão que, supõe-se, compartilham."
Ou seja, e em resumo, racionalidade, lógica, interesse compartilhado pela comunidade.
Agora estou totalmente esclarecido e fiquei em paz comigo próprio e com o Mundo.
É que, vejam lá a idiotice!, eu não tinha percebido porque raio tinha a Judite de Sousa entrevistado o Pinto da Costa (RTP), o Miguel Sousa Tavares o Luís Filipe Vieira (SIC), e Ricardo Costa tinha estado a perorar acerca de perseguições na SIC Notícias.
Agora já entendo tudo - interesse nacional!
É isso, caramba!
A quem é que não interessa o pensamento de Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira, as vicissitudes da atormentada vida de Ricardo Costa?
Há momentos em que sabe especialmente bem estar em Macau.
Com uma noite tão intensa (??) em Portugal, ontem foi um deles.
Mas ainda há gente com juízo no rectângulo rochoso.
Luís Sobral, no maisfutebol, de quem discordo frequentemente, é um deles.

Para ler e pensar:

Três entrevistas inúteis sobre o triste futebol dos casos


Lamentável que o futebol falado esteja entregue aos dirigentes

Por Luís Sobral

45 minutos na RTP, outros 45 na SIC. Mais 60 na SIC Notícias.

Apesar das semelhanças com os tempos utilizados no futebol, o que se jogou nas televisões raramente foi bola. Pelo menos bola da boa, bola a sério, bola que merece ser recordada.
Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira e Ricardo Costa falaram quase todo o tempo de casos.
Quando é alguma coisa, o futebol falado em português é um caso.
Um caso complexo. Um caso que dá jeito. Um caso invulgar. Um caso para abafar outro. Um caso inventado. Um caso vermelho. Um caso azul. Um caso às vezes ainda verde. Um caso que em nenhum outro país do mundo poderia existir.
Sim, somos o país do mundo com os melhores piores casos de futebol. (e não, não estou a esquecer-me de Itália)
Tudo somado, Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira e até Ricardo Costa nada disseram que mereça ser recordado amanhã.
Os jogos em que participaram foram daqueles fracos, que se esquecem logo a seguir ao último apito.

P.S.: Alguma televisão estaria disponível para oferecer 45 minutos a Cardozo, mais 45 a Falcao? Algum canal de notícias por cabo daria a João Moutinho uma hora para falar de futebol? A resposta é evidente: não. Quando se trata de falar sobre o jogo, há muito tempo que os jogadores cederam o seu lugar a outros. Lamentavelmente e com prejuízos evidentes para o futebol.

Para explicar tamanha tacanhez, só mesmo o tal do interesse nacional, não é?
Ou será que é o desígnio nacional?

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