20 de março de 2010

A entrevista do meu amigo Arnaldo Gonçalves na Rádio Macau

Estive a ouvir atentamente a entrevista que o meu amigo Arnaldo Gonçalves concedeu à Rádio Macau no programa "Rádio Macau Entrevista:" de Gilberto Lopes.
Temos opiniões muito semelhantes relativamente a algumas questões de política interna e internacional.
Cito, sem pretender ser exaustivo, a visão que o Arnaldo defende relativamente a Obama, que o Mundo olhou como quase uma divindade, quando se trata de um homem comum, que foi até algo ingénuo e precipitado nas promessas que fez em campanha eleitoral.
Nesse seguimento, a desilusão de uma grande parte dos seus apoiantes que começam a perceber o óbvio - é um homem, sério, inteligente, culto, carismático, muito diferente de Bush, e essa era uma preocupação essencial dos americanos e do resto do Mundo, mas com defeitos e qualidades como qualquer outro homem.
Também nesse seguimento, a normal queda de popularidade do Presidente americano, que Pedro Lomba chegou a dizer que "se arriscava a ser mais popular que Deus".
O caminho, com um ponto de partida destes, só podia ter um sentido - o descendente.
Ainda na mesma linha de pensamento, algo que o Arnaldo deixou muito claro, e que terá escutado num debate que ouvira em recente estadia em Portugal - temos que perceber que o tempo dos líderes míticos, salvíficos, de grande têmpera e carisma, terminou, e "que estamos condenados ser governados por homens comuns" (sic).
Também na necessidade de, no caminho para a reforma do sistema político na RAEM, termos de dar tempo ao tempo, e de percebermos o que pensa a nova lideranca chinesa, a que irá tomar o poder dentro de dois anos e que ainda não se sabe exactamente qual e quem é, sobre o tema.
Mas há um ponto em que temos opiniões algo dissonantes.
A posição da China relativamente ao regime que governa a Coreia do Norte.
O Arnaldo defende temos de compreender e aceitar a posição de neutralidade da liderança chinesa relativamente ao regime político norte-coreano porque é o resultado normal do somatório da visão política dos líderes chineses com uma ligação histórica e ideológica que já vem de há muito.
Compreender, ainda concedo.
Aceitar, não.
A China continua, na vertente externa da sua política, a pautar a sua atitude por um jogo duplo que me parece de todo inaceitável.
À sombra da confortável bandeira da neutralidade, e do princípio de não-ingerência, conceitos que são úteis à liderança chinesa para não intrevir em situações complexas na arena política internacional, com o regime norte-coreano na sua corrida armamentista e opressiva da sua população à cabeça, e para não ser também atacada nas suas opções políticas internas, o Poder chinês vai exigindo a terceiros a resolução de problemas de enorme gravidade, e a pacificação internacional, enquanto observa tranquilamente de fora, não se abstendo de algumas intervenções cirúrgicas e críticas veladas, o trabalho das grandes potências.
O problema é que a China tem que se assumir como uma grande potência, com todas as obrigações daí decorrentes, se aspiramos a ter um Mundo pacificado e livre de tiranetes loucos como é o caso do líder norte-coreano.
Esta posição de neutralidade, cómoda e hipócrita, já não tem razão de ser num Mundo globalizado.
Será talvez imperioso fazer a liderança chinesa perceber que pode, muito brevemente, ter uma potência nuclear junto às suas fronteiras.
E uma potência nuclear que tem a dirigi-la um demente.
Também talvez só  então a liderança chinesa perceba que tem de tomar posição e abandonar esta sua confortável, mas algo falsa, apatia.

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