22 de julho de 2011

A praia da minha vida


Desafio do Carlos Barbosa de Oliveira, no seu Crónicas do Rochedo (http://cronicasdorochedo.blogspot.com/), é para mim uma ordem.
Até porque são sempre desafios muito interessantes.
Este, de ir buscar ao baú das memórias a praia das nossas vidas, é particularmente fascinante.
A praia da minha vida?
Sem hesitações, a Figueira da Foz.
Vivi na Figueira da Foz dos momentos mais felizes, mais memoráveis, mais comoventes, mais loucos, de maiores excessos, da minha vida.
As memórias começam na infância e nas férias que eram passadas todos os anos ali na zona do Casal da Areia.
Porque o meu avô materno adorava aquela zona, a meio caminho entre a Figueira e Buarcos.
Julho/Agosto, lá estávamos sempre presentes.
O meu avô partiu cedo, muito cedo, e o roteiro de férias foi alterado porque as memórias ainda eram dolorosas e só muito mais tarde voltaríamos à mesma zona.
Foi então tempo para ficarmos alojados na Pensão Figueirense.
Uma só vez, um só ano, porque realmente não agradou.
Depois vêm as memórias das estadias nas casas junto ao que chamávamos a Rua das Árvores (acho que é mesmo esta a designação oficial da rua).
Em particular, o casarão onde ficava com o meu padrinho, a minha tia, as minhas primas.
E aí as memórias são muitas.
As mais fortes, as mais vívidas, as do Zezé (o meu padrinho) levantar-se de madrugada, enquanto todos dormíamos, ir ao Mercado Municipal, ao supermercado, à padaria, buscar os jornais do dia, antes de voltar para casa para tomarmos o pequeno almoço em família.
Quando a gente acordava, lá estavam os rissóis acabadinhos de fazer, ainda quentinhos (nunca mais comi rissóis como aqueles!!), as pinhas, as vianas, o pão, tudo ainda a fumegar, tudo da mesma padaria, tudo com um sabor que ainda se sente mesmo quando se (d)escreve.
À tarde, era tempo dos bijous e dos fofinhos da Pastelaria Bijou.
Que desapareceram com o desaparecimento da dona.
Já na adolescência, o tempo dos excessos, da boémia.
Que passou muitas vezes pelo parque de campismo.
E acabou algumas vezes no Hospital da Gala.
Um grupo de amigos excepcional juntava-se naquele parque de campismo e era substancialmente alargado na praia.
Tempo de loucuras, de muitas noitadas, de muita borga, de muito alcoól, de discotecas (o Pessidónio era o must, o Abrigo da Montanha a discoteca onde se ouvia a música mais agradável, o Bergantim a mais central).
Voltávamos para o parque de campismo à hora que muitas pessoas iam para a praia.
Porque, como dizia o Zeferino, "temos que ser só nós e os homens do lixo, pá!".
Tantas vezes, antes de voltarmos, a ida ao Cabedelo e o caldo verde quentinho no Alkimia que aconchegava o estômago.
Como é que sobrevivemos a tantos excessos ainda permanece um mistério.
Mas conhecemos o sabor das bolas de berlim e do pão acabados de fazer nas padarias ali perto da Fonte Luminosa.
E das canecas, das girafas e das tostas mistas nas esplanadas do Tubarão, da Sagres.
E esses sabores também ficaram na memória e no palato.
Tempos felizes.
Como felizes foram os tempos que se seguiram.
Agora já na Murtinheira, invariavelmente na casa da família Ferreira.
Ali, no meio das árvores, com a praia logo abaixo e a carruagem do Manuel Castanheira logo ao lado.
E a discoteca onde o Tó João era disc - jockey, o Flashen, em Quiaios, a ser ponto obrigatório de passagem e de paragem.
A praia da Murtinheira era mais abrigada, tinha menos vento, e a Dyane (o Fiat 600, que "bebia" dois garrafões de água no percurso entre Coimbra e a Figueira, já tinha passado à história) trazia a malta até à Figueira num pulinho.
Já não passo uns dias na Figueira há muito tempo.
Demasiado tempo.
É bem provável que lá vá passar uns dias no próximo ano.
Porque tenho saudades da Figueira.
A praia da minha vida.

19 comentários:

  1. Caro Pedro
    A Figueira da Foz tambem me diz muito. Não fora lá ter namorado, casado e divorciado com aquela que foi minha mulher 18 Anos. No entanto tive muitos momentos de felicidade.
    Talvez o que mais me agradava era a serra da Boa Viagem, pelas arvores e pela visão do mar que nos dava lá do cimo.
    Abraço

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  2. Pedro,
    Que prazer ler este texto.
    Figueira da Foz era a praia da minha infância. Tantas memórias e fotografias.
    A água é fria mas é uma praia que tem o seu encanto.
    Hoje não faço lá férias mas vou passear na marginal a comer um gelado.
    É tão bom ver que do Oriente não se esquece a nossa paisagem ocidental.
    Abraço de Coimbra!:)

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  3. A casa da família Ferreira lá continua, aberta para os amigos e para aqueles que são mais do que isso. Porque há palavras que não têm preço.
    Um beijo e até qualquer dia!
    Luís Ferreira

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  4. Rodrigo,
    A serra da Boa Viagem era onde ficava o tal Abrigo da Montanha.
    Priemiro restaurante, depois discoteca.
    Tantos piqueniques lá fiz meu caro!!
    Um abraço

    ana,
    A água é fria, há sempre aquela nortada que aborrece.
    Mas, com os amigalhaços que sempre por lá tive, até isso tudo passava.
    Chegávamos a constituir grupos de cerca de 40 pessoas na praia!!
    Não há vento nem água fria que resista.
    Nunca esquecerei esses momentos.
    Muito menos as pessoas.
    Abraço para Coimbra! :)))

    Luís,
    Quem sabe no próximo ano, por esta altura, não vou lá bater à porta.
    Já tenho saudades.
    E não é só da praia.
    Abração

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  5. Sim senhor, Pedro! Que belo relato nos traz aqui da sua juventude. Gostei muito.

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  6. relogio.de.corda,
    São memórias que me vão acompanhar sempre.
    E que o tempo e a distância não apagam.

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  7. Caro Pedro,

    bonito "postal" da sua infância/juventude, cheio de emoção e sentimento.

    Para mim, a minha praia foi, é e sempre será a de Porto Santo, desde os tempos em que demorávamos na ligação inter-ilhas qualquer coisa como 4 horas, repito, 4 horas, teria eu uns 4/5 anos, até aos dias de hoje onde em pouco mais de 1 hora lá estamos.

    É um extenso areal dourado (9 km) onde as crianças e adultos podem desfrutar das ondas do mar, dos raios de sol, da conversa com amigos, enfim...

    Engraçado, quando o Pedro referiu o seu amigo Zeferino naquela sua afirmação "temos que ser só nós e os homens do lixo, pá!", lembrei da minha adolescência e respectivas noitadas de borga e cujo objectivo supremo entre o meu grupo de amigos era ver quem chegaria por último a casa, quando me lembro dá-me vontade de rir.

    Caro, a prosa já vai longa tenha um bom fim de semana junto aos seus mais próximos!

    Aquele abraço

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  8. Obrigado pela participação no desafio. Também gosto muito da Figueira, embora nunca lá tenha passado férias. No entanto, quando vou ao Porto de automóvel páro muitas vezes por lá para almoçar e aproveito para recordar alguns passeios de fim de semana que fazia com os meus pais quando era miúdo.
    Na terça feira farei o link, ok?
    Grande abraço e mais uma vez obrigado pela participação. Bom fds
    CBO

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  9. Ai a serra da Boa Viagem... E a Garraiada Académica... E os camarões e os finos na esplanada! Gosto mesmo :) Com este comentário brindou-me com muita nostalgia caro Pedro!*

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  10. Caro confrade Pedro Coimbra!
    Agradeço sua deferência em compartilhar suas enternecedoras reminiscências de uma época que, nunca, jamais, em tempo algum, voltará!!!
    Estas tocantes reminiscências me fez lembrar da Praia da Enseada, na cidade de Guarujá-SP, onde no meu tempo de pequenino e adolescente passava férias na casa da minha tia paterna...
    Também morei na cidade de Guarujá-SP de 1977 a 2002, onde ainda mantenho uma morada, mas que precisa de urgentes reparos...
    Caloroso abraço! Saudações memorialistas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  11. Ricardo,
    Outro dos objectivos que tenho é conhecer a Madeira.
    Que ainda não conheço.
    O Ronaldo estava a construir grandes infra-estruturas no Porto Santo.
    Acho que até em parceria com o Carlos Queiroz.
    O amigo Zeferino, que era um pândego, infelizmente já partiu.
    Só há muito pouco tempo, e por puro acaso, o soube.
    Este era o lema dele.
    Que a malta adoptava.
    Porque depois seguia-se o "morra quem se negue!!".
    Episódios hilariantes vividos com ele, especialmente na Figueira, davam um best seller.
    Um abraço e bfds

    Carlos,
    Aquela praia, aquela serra, guardam memórias que nunca mais se apagarão.
    E que vêm desde menino.
    Um abraço

    Catarina,
    Também tem paixão por Coimbra e pela Figueira?
    Cada vez gosto mais de si! :))

    Caro Prof. João Paulo Oliveira,
    O Carlos Barbosa Oliveira, mais uma vez, tocou num ponto sensível a todos nós.
    Todos temos uma praia das nossas vidas.
    Pelo menos uma.
    Um abraço amigo

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  12. Viva Pedro. A convite do Carlos venho cá felicita-lo pelo texto. Na praia da Figueira só por umas, poucas, tardes estendi a toalha naquele extenso areal e passeei pela marginal. Nos anos mais recentes, deu-me para isto, passo pela Figueira sentado na bicicleta, a meio caminho entre o Porto e Fátima, numa longa pedalada apenas para cumprir o objectivo de chegar. É já depois de percorrer toda a Ponte Edgar Cardoso que paramos de rodar as pernas e nos entregamos às delícias do almoço e de algum descanso. Espero de novo voltar lá.

    Cumprimentos

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  13. Pedro,
    ao ver o entusiasmo com que fala da praia da Figueira da Foz, que conheço, mas aonde nunca passei férias, vieram-me à mente aquelas palavras da canção sobre a Figueira e interpretada pela Maria Clara: "das finas areias, berços de sereias procurando abrigo..."
    A praia da sua vida é mesmo a mais linda de Portugal.
    Parabéns pelo excelente texto.
    Um abraço
    Janita

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  14. Boa escolha, Pedro!

    A praia da Claridade foi a minha praia de férias até ir para a tropa (e até há dez anos ia lá regularmente. Continuo a ir à Figueira, mas não à praia). Ainda não era aquele areal imenso de hoje, e do outro lado do Forte de Santa Catarina havia uma pequena praia, mais fluvial do que marítima. Foi lá que aprendi a nadar.

    Os meus primeiros namoricos começaram lá. E foi também lá que apanhei o meu primeiro (e único, já agora) susto, quando, com 13 ou 14 anos me aventurei um pouco e, com a maré a descer com força, me vi em dificuldades. Foi o meu pai, que era um nadador exímio, que me foi buscar. Aprendi a lição e passei a nadar numa direcção paralela à praia.

    A festa começava no comboio, e durava durante os meses de Agosto e Setembro. Entrava no apeadeiro de Montemor, e o convívio começava logo ali, com jovens que já vinham de mais longe. Acredita que vinham banhistas de Miranda do Corvo?

    Enfim, que saudades!

    P.S.- A rua "das árvores" seria a rua da Liberdade, onde fica o casino?

    Carlos Fonseca

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  15. Não conheço essa praia mas gostei muito do post.

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  16. paulofski,
    Outra das boas características da Figueira - come-se lá muito bem.
    Nestes tempos que aqui descrevo, muitas vezes fomos comprar sardinhas fresquinhas, acabadas de chegar, à lota ou ao Mercado.
    No Mercado comprava-se logo tudo - a sardinha e os vegetais.
    Depois era a festa.
    Cumprimentos e volte sempre.

    Janita,
    Já não vou à Figueira há muitos anos.
    Ontem, um amigo deste grupaço que aqui nomeio, escreveu-me por causa deste post.
    Dizia-me que, quando voltar à Figueira, vou apanhar uma desilusão.
    Porque está muito diferente.
    Acredito que esteja muito diferente.
    Mas não sei se ficarei desiludido.
    Um abraço e volte sempre

    Alturense (Carlos),
    Conheço bem todas essas realidades que menciona.
    E é curioso que mencione Mirando do Corvo.
    Porque tive um escritório de advocacia, juntamente com outros dois colegas, lá.
    À beira da linha de caminho de ferro, num local onde o meu pai tinha trabalhado quando eu era garoto.
    A rua a que me refiro é paralela à rua em que fica o casino.
    Era ladeada por árvores (daí a designação rua das árvores) e, lá a meio, tinha uma padaria que era propriedade de dois velhinhos, um casal fantástico, que fazia aquelas iguarias deliciosas.
    Aqueles rissóis.....
    Logo abaixo, antes de se ir para o Picadeiro, ficava a Bijou.
    E os bijous e os fofinhos eram de ir ao céu!!
    É mesmo a isto que se chama saudade.
    Um abraço e volte sempre.

    papoila,
    A praia da Figueira tinha duas grandes desvantagens - água muito fria e uma nortada muito chata.
    Nada que nos impedisse de passar momentos maravilhosos, inolvidáveis.
    Um abraço e volte sempre também

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  17. Praias... lindas praias?! Lá mais p'ró sul! : )
    Se chegar a tempo ainda vou entrar no desafio do Carlos.
    Catarina, Contempladora...

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  18. Olá, o Abrigo da Montanha está activo como restaurante, têm fb!
    E o café no largo da Varina em Buarcos é uma excelente alternativa ao Emanha... e mais barato...

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    1. Já há MUITOS anos não passo uns dias na Figueira, Cenourinha.
      Mas confesso que a última vez que por lá passei fiquei algo desiludido.
      Então aquela zona da praia em Buarcos onde nos juntávamos às dezenas até deu dó.
      Hoje em dia, com aquele pequeno areal, os grupos que reuníamos davam para encher o areal.

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