15 de julho de 2011

Joseph Stiglitz e a desregulação dos mercados


"Ainda há bem poucos anos, uma ideologia poderosa – a crença nos mercados livres e sem restrições – colocou o mundo à beira da ruína.

E até mesmo no seu apogeu, desde o início dos anos 80 até 2007, o capitalismo desregulado ao estilo norte-americano trouxe maior bem-estar material mas só para os muitos ricos no país mais rico do mundo. Na verdade, nos 30 anos de ascensão desta ideologia, a maioria dos norte-americanos viu os seus rendimentos baixar ou estagnar ano após ano.

E o crescimento da procura nos EUA não foi economicamente sustentável. Com tanto do rendimento nacional norte-americano a ir para tão poucos, o crescimento só podia mesmo continuar através de um consumo financiado por um endividamento crescente.

Estava entre aqueles que esperavam que, de certo modo, a crise financeira ensinasse os americanos (e os demais) quanto à necessidade de uma maior igualdade, uma regulação mais forte e um maior equilíbrio entre mercado e governo. Mas não foi esse o caso. Pelo contrário, o ressurgimento das economias de direita, movidas, como sempre, pela ideologia e por interesses especiais, volta a ameaçar a economia global - ou pelo menos as economias da Europa e da América onde essas ideias continuam a florescer.

Mas existem alternativas, no caso da Europa: uma estratégia de crescimento económico suportado pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional. O crescimento reporia assim a confiança de que a Grécia conseguiria a amortizar as suas dívidas, levando as taxas de juro a cair e dando uma maior margem de manobra orçamental para investimentos que fomentem um maior crescimento. O próprio crescimento conduz a um aumento das receitas fiscais, assim como o apoio aos desempregados e a confiança que isto gera conduz a um maior crescimento.

Infelizmente, os mercados financeiros e os economistas de direita perceberam o problema ao contrário: acreditam que a austeridade gera confiança e que a confiança gerará crescimento. Mas a austeridade afecta o crescimento, agravando a posição orçamental do país, ou pelo menos gerando menos melhorias do que os defensores da austeridade prometem. E sempre que a confiança é afectada inicia-se assim uma espiral descendente.

Até que ponto devemos continuar a experimentar ideias que falharam? Não devemos, mas ao que parece é isso que vai acontecer. A incapacidade da Europa ou dos EUA de regressarem a uma via de crescimento robusto será sempre má para a economia global. E se essa incapacidade se verificar nos dois espaços ao mesmo tempo, estaremos perante um cenário desastroso - por mais que as grandes economias emergentes consigam um crescimento auto-sustentado. Infelizmente, e se não prevalecer a sensatez, será para aí que o mundo caminha."

Sem comentários:

Enviar um comentário