10 de dezembro de 2010

Um activista e não um dissidente


Há um  nome que hoje domina os noticiários em (quase) todo o Mundo (as excepções são por demais conhecidas....)  - Liu Xiaobo.
Um nome por todos conhecido e que , ironicamente, a China ajudou enormemente a divulgar.
Liu Xiaobo é hoje o ausente mais presente na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz em Oslo.
A cadeira que lhe estava destinada estará vazia.
Porque nem Lui Xiaobo, nem nenhum dos seus familiares, poderá receber o prémio que lhe foi atribuído.
Ainda assim, daquela cadeira vazia, e do simbolismo à mesma associado, emanará uma mensagem poderosíssima.
Que não poderá ser ignorada por muito mais tempo.
Por muito que o regime político chinês o tente a todo o custo.
A mensagem da liberdade de pensamento, da defesa dos direitos humanos.
Que é apanágio de pessoas livres, corajosas, íntegras.
Activistas.
E activistas porque partidários do activismo, da " (...)doutrina segundo a qual a verdade não é tanto questão de pura inteligência como de acção; tendência para a actividade política e exaltada". (Dicionário de Língua Portuguesa, 6ª edição, Porto Editora, 35).
Ou seja, de pessoas que, sem receios, se entregam a uma causa.
Bem diferente de um dissidente.
Como tem sido constantemente apelidado Liu Xiaobo.
Porque dissidente é aquele "(...) que se separou de um grupo político ou religioso, por discordância com a maioria". (idem, 557).
Compreende-se facilmente que se queira colar este rótulo a Liu Xiaobo.
Rótulo que os regimes totalitários tendem a colar a todos aqueles que não seguem a linha oficial. 
Um rótulo que transporta consigo uma óbvia conotação ou carga  pejorativa.
O dissidente é quase um traidor.
Alguém que negou os seus ideais.
Precisamente o oposto do que é, e do que representa, Liu Xiaobo.
E tantos outros como ele.
Também eu incorri neste erro vários vezes.
O alerta apareceu num post do Pedro Correia no blogue Delito de Opinião.
Liu Xiaobo não é um dissidente.
É um activista.
De causas nobres.
Da liberdade de pensamento, dos mais básicos direitos humanos.
Que lhe são sonegados.
A ele e à sua família.
Por isso mesmo, e porque, na defesa das suas causas, nunca recorreu a qualquer tipo de violência, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz.
Um prémio ao activismo, não à dissidência, insisto.
Liu Xiaobo não o vai receber.
Nem os seus familiares.
Mas vai ser o ausente mais presente de que tenho memória.

5 comentários:

  1. Caro Pedro Coimbra
    Cresci com um trauma que ao longo da vida, conforme dela ia tendo conheciemto se transformou num motivo de orgulho. O meu avô passou 14 anos nas prisões fascistas. Foi preso pela primeira vez em 18 de Janeiro de 1934, tinha o meu Pai 1 Ano de idade.
    Hoje é um dia em que a tristeza me faz companhia, por várias razões, esta é uma delas.
    Abraço

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  2. Concordo, Pedro. Compartilho os mesmos sentimentos.

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  3. Caro folha seca,
    Pessoas que se sacrificam por ideais devem alegrar-nos, encher-nos de orgulho e servir de exemplo nas nossas vidas.

    Hugo e Catarina,
    A estratégia de menosprezar aqueles que discordam da linha e do discurso oficial, apondo-lhes o rótulo de dissidentes, traidores, é típica das ditaduras.
    Quero crer que não o será por muito tempo.
    E o dia de hoje é muito importante para que éssa transformação aconteça.

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