11 de junho de 2011

Discurso de António Barreto, Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (Leitura obrigatória!!)


"Nada é novo. Nunca! Já lá estivemos, já o vivemos e já conhecemos. Uma crise financeira, a falência das contas públicas, a despesa pública e privada, ambas excessivas, o desequilíbrio da balança comercial, o descontrolo da actividade do Estado, o pedido de ajuda externa, a intervenção estrangeira, a crise política e a crispação estéril dos dirigentes partidários. Portugal já passou por isso tudo. E recuperou. O nosso país pode ultrapassar, mais uma vez, as dificuldades actuais. Não é seguro que o faça. Mas é possível.

Tudo é novo. Sempre! Uma crise internacional inédita, um mundo globalizado, uma moeda comum a várias nações, um assustador défice da produção nacional, um insuportável grau de endividamento e a mais elevada taxa de desemprego da história. São factos novos que, em simultâneo, tornam tudo mais difícil, mas também podem contribuir para novas soluções. Não é certo que o novo enquadramento internacional ajude a resolver as nossas insuficiências. Mas é possível.

Novo é também o facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros, para dialogar, para encontrar denominadores comuns e chegar a compromissos contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais e renúncias a que muitos se recusam. A crispação política é tal que se fica com a impressão de que há partidos intrusos, ideias subversivas e opiniões condenáveis. O nosso Estado democrático, tão pesado, mas ao mesmo tempo tão frágil, refém de interesses particulares, nomeadamente partidários, parece conviver mal com a liberdade. Ora, é bom recordar que, em geral, as democracias, não são derrotadas, destroem-se a si próprias!

Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade.

Vivemos um desses momentos. Tudo deve ser feito para que estas condições de sobrevivência, porque é disso que se trata, estejam ao nosso alcance. Sem encenação medíocre e vazia, os políticos têm de falar uns com os outros, como alguns já não o fazem há muito. Os políticos devem respeitar os empresários e os trabalhadores, o que muitos parecem ter esquecido há algum tempo. Os políticos devem exprimir-se com verdade, princípio moral fundador da liberdade, o que infelizmente tem sido pouco habitual. Os políticos devem dar provas de honestidade e de cordialidade, condições para uma sociedade decente.

Vivemos os resultados de uma grave crise internacional. Sem dúvida. O nosso povo sofre o que outros povos, quase todos, sofrem. Com a agravante de uma crise política e institucional europeia que fere mais os países mais frágeis, como o nosso. Sentimos também, indiscutivelmente, os efeitos de longos anos de vida despreocupada e ilusória. Pagamos a factura que a miragem da abundância nos legou. Amargamos as sequelas de erros antigos que tornaram a economia portuguesa pouco competitiva e escassamente inovadora. Mas também sofremos as consequências da imprevidência das autoridades. Eis por que o apuramento de responsabilidades é indispensável, a fim de evitar novos erros.

Ao longo dos últimos meses, vivemos acontecimentos extraordinários que deixaram na população marcas de ansiedade. Uma sucessão de factos e decisões criou uma vaga de perplexidade. Há poucos dias, o povo falou. Fez a sua parte. Aos políticos cabe agora fazer a sua. Compete-lhes interpretar, não aproveitar. Exige-se-lhes que interpretem não só a expressão eleitoral do nosso povo, mas também e sobretudo os seus sentimentos e as suas aspirações. Pede-se-lhes que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade. Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira. Espera-se deles que saibam traduzir em razões públicas e conhecidas os objectivos das suas políticas. Deseja-se que percebam que vivemos um desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes. Os Portugueses, idosos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, merecem ser tratados como cidadãos livres. Não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados.É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível.

O esforço que é hoje pedido aos Portugueses é talvez ímpar na nossa história, pelo menos no último século. Por isso são necessários meios excepcionais que permitam que os cidadãos, em liberdade, saibam para quê e para quem trabalham. Sem respeito pelos empresários e pelos trabalhadores, não há saída nem solução. E sem participação dos cidadãos, nomeadamente das gerações mais novas, o esforço da comunidade nacional será inútil.

É muito difícil atrair os jovens à participação cívica e à vida política. É quase impossível. Mas é possível. Se os mais velhos perceberem que de nada serve intoxicar a juventude com as cartilhas habituais, nem acreditar que a escola a mudará, nem ainda pensar que uma imaginária "reforma de mentalidades" se encarregará disso. Se os dirigentes nacionais perceberem que são eles que estão errados, não as jovens gerações, às quais faltam oportunidades e horizontes. Se entenderem que o seu sistema político é obsoleto, que o seu sistema eleitoral é absurdo e que os seus métodos de representação estão caducos.

Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições.Pobre país moreno e emigrante, poderás sair desta crise se souberes exigir dos teus dirigentes que falem verdade ao povo, não escondam os factos e a realidade, cumpram a sua palavra e não se percam em demagogia!

País europeu e antiquíssimo, serás capaz de te organizar para o futuro se trabalhares e fizeres sacrifícios, mas só se exigires que os teus dirigentes políticos, sociais e económicos façam o mesmo, trabalhem para o bem comum, falem uns com os outros, se entendam sobre o essencial e não tenham sempre à cabeça das prioridades os seus grupos e os seus adeptos.

País perene e errante, que viveste na Europa e fora dela, mas que à Europa regressaste, tens de te preparar para viver com metas difíceis de alcançar, apesar de assinadas pelo Estado e por três partidos, mas tens de evitar que a isso te obrigue um governo de fora.

País do sol e do Sul, tens de aprender a trabalhar melhor e a pensar mais nos teus filhos.

País desigual e contraditório, tens diante de ti a mais difícil das tarefas, a de conciliar a eficiência com a equidade, sem o que perderás a tua humanidade. Tarefa difícil. Mas possível."

13 comentários:

  1. Um discurso muito forte e directo, porém, é apenas mais um dircurso, veja-se quanto custou aos cofres do Estado, as comemorações do dia de Portugal.
    Só mundam as moscas a M.... é sempre a mesma, assim é a política.

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  2. Caro Amigo Cambeta,
    António Barreto ainda é uma das pessoas lúcidas, e independentes, em Portugal.
    O discurso/reflexão dele é intenso, cheio, directo e corajoso.
    Que seja lido, relido, compreendido e seguido é o que eu desejo.
    Um abraço

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  3. Discursos, reflexões... é o que não falta! Como se costuma dizer: “De boas intenções está o mundo cheio.”
    Factos concretos... O que é que eles (os oradores) fazem para porem em prática aquilo que apregoam?!

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  4. Catarina,
    Sem relexão não há acção (esta foi boa, não foi??).
    O discurso de António Barreto parece-me muito oportuno.
    O que acontecerá a seguir?
    Não sei.
    Vamos esperar para ver.

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  5. Caro Pedro Coimbra
    Concordo com a ideia de que A.Barreto é um dos homens que exerceram funções políticas no passado que demonstra uma grande lucidez.
    Este discurso foi do melhor que ouvi. Espero que tenha sido ouvido por quem a eles foi direccionado.
    Abraço

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  6. António Barreto é das pessoas que mais gosto de ouvir e ler.

    O que terão pensado os destinatários desta mensagem, que são muitos?

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  7. Pedro Coimbra,
    Gostei muito de ler o discurso. Ele é um homem inteligente e muito culto.
    Obrigada pela partilha.
    Ainda não comprei o jornal mas vou fazê-lo.
    Bom Domingo! :)

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  8. Pedro
    Eu já entrei numa como dizia o cego "vamos ver".
    Abraço

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  9. Gostei muito de ler o discurso de António Barreto. Confesso que não o tinha ouvido. Para além de ser uma pessoa inteligente, mostrou que tem coragem para fazer chegar as suas ideias à classe política, e não só.
    A ver vamos se as suas palavras não irão cair em "saco roto".

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  10. Rodrigo,
    António Barreto é um homem culto, sensato, inteligente, educado e equidistante dos partidos.
    O irmão dele viveu e faleceu aqui em Macau.
    Era um pintor excelente.
    Depois da sua morte, o António Barreto agredeceu publicamente a Macau o acolhimento que deu ao irmão.
    Diz tudo acerca da excelência da pessoa.
    Que este discurso só vem comprovar.
    Abraço

    Observador,
    Espero que o tenham ouvido atentamente.
    E que tenham interiorizado a mensagem.
    É difícil. Mas é possível.

    ana,
    O António Barreto está, sem dúvida, naquela galeria dos senadores da República (dos sábios do Reino para os monárquicos).

    Adélia,
    Gosto do lema que ele repete.
    Faz-me lembrar Obama.
    É difícil. Mas é possível.
    Abraço

    Sonhadora,
    António Barreto sempre foi um homem de coragem, de desafios.
    Enfrentou até alguns dissabores por ter essa coragem, essa frontalidade.
    Espero que tenha sido escutado.

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  11. Um discurso forte, mas vamos aguardar!
    Pode ter sido indirectas/directas para alguém, vamos agora é ver a quem a carapuça serve.
    :)

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  12. Meu caro amigo,

    Eis só um discurso, há quem o diga.
    São só palavras ao vento, há quem almeja.
    Vamos ver no que vai dar...há os que esperam da vida.
    Palavras foram feitas para refletir sim,
    mas não podemos e sentar e ficar só a espera de os outros agirem...o povo( que somos nós) precisam ser a ação.

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  13. Carlota,
    O discurso é dirigido a todos.
    Até a mim que estou em Macau mas sou português.
    Apesar de ter alguns destinatários mais facilmente identificáveis, é dirigido a toda a gente.

    A Lôba
    Inteiramente de acordo.
    Um bocadinho cada um (comprando português, não abusando do Estado, não apontando para o lado, coisas pequenas) todos temos o dever de contribuir para tornar possível o que é difícil.

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