Notas fortes das eleições legislativas


Nas últimas semanas, todas as sondagens davam conta do que acabou por acontecer ontem nas eleições legislativas antecipadas em Portugal - a vitória do PSD e o regresso da direita ao poder.

Indiscutivelmente, o PSD e Pedro Passos Coelho são os grandes vencedores da noite eleitoral.
O resultado conseguido (38,6%) fez alimentar a esperança, durante largo período da noite eleitoral, de uma maioria absoluta do partido laranja.
Em boa verdade, nunca passou disso mesmo - esperança.

Porque havia outros grandes vencedores nesta noite eleitoral - o CDS/PP e Paulo Portas.
Com uma percentagem de 11,7% dos votos expressos, e mais três deputados eleitos, o CDS força o PSD a um entendimento político, a uma coligação governativa, que permitirá conseguir materializar o que era o sonho de Sá Carneiro - um governo, uma maioria, um presidente.
Uma nova "dança", um novo "tango", agora com tons laranja e azul.

Porque um dos anteriores "bailarinos" não foi capaz de dançar em pontas e aterrou com estrondo.

No "pas de deux" com Passos Coelho, José Sócrates, e o PS, são os grandes derrotados da noite.
Os 28,1% conseguidos são o pior resultado eleitoral dos últimos 20 anos para o PS.
Consequência, expectável, a demissão de José Sócrates do cargo de secretário-geral do PS.

Outros dos grandes derrotados da noite eleitoral são o Bloco de Esquerda e Francisco Louçã.
Praticamente metade da votação conseguida nas últimas legislativas (pouco mais de 5%) e, consequentemente, metade dos deputados.
Mas aqui não vão rolar cabeças.
Já lá vamos.

A CDU mantém a percentagem eleitoral (7,9%) mas elege mais um deputado.
Corredores de fundo, os comunistas portugueses vão resistindo à erosão do tempo e mantendo a base social de apoio praticamente inalterada.

Ainda no diz respeito aos resultados eleitorais, merece nota de grande destaque a brutal taxa de abstenção (41%) (o discurso de Cavaco caiu em saco roto).
Um sinal fortíssimo na direcção dos líderes político-partidários de um cada vez maior alheamento, desinteresse e desilusão dos portugueses acerca do que se passa nos meandros da política
portuguesa.

Conhecidos os resultados, os vencedores e vencidos, algumas notas a reter:
  • Os portugueses estavam fartos da governação PS/José Sócrates e, na primeira oportunidade, atiraram-no borda fora sem piedade.
  • José Sócrates que, em boa verdade, foi o principal obreiro da sua derrota. A sua trejectória errática ao longo destes anos de governação, as dúvidas que se foram acumulando à volta do seu carácter e da sua seriedade pessoal, foram corroendo a credibilidade que poderia ter, minando o seu apego ao poder.
  • Fica a sensação muito forte que muitas destas questões terão até tido origem dentro do próprio PS.
  • A ser assim, a maneira de ser de José Sócrates, o seu feitio irascível, despótico, terão em muito contribuído para alimentar uma mão cheia de adversários (não lhes chamo inimigos) que acabaram por o deixar imolar publicamente para agora tomarem de assalto o lugar de secretário-geral do PS.
  • PS que, intencionalmente ou não, confesso que não sei, foi fazendo campanha a favor do PSD e de Pedro Passos Coelho. Apontar como defeito do líder laranja a sua inexperiência governativa, o facto de estar fora da pandilha que foi partilhando o poder, de ser mal visto pelas mais altas figuras (barões e baronesas) do seu partido, foi o melhor que se podia fazer para passar a ideia que Passos Coelho era algo de diferente do que estávamos habituados a ver. Fartos de ver, até. Se é, ou não, só lá mais para a frente veremos. O que agora importa realçar é que, num erro básico, primário, o PS fez o jogo que mais interessava ao líder do PSD.
  • O mesmo PS que, mesmo com o efeito voto útil que penalizou o Bloco de Esquerda, sofreu uma derrota fortíssima. Erosão do poder, consequência de uma crise económica sem precedentes, mas também erros em catadupa, na governação e na campanha, um líder a quem faltava toda a credibilidade, que passou a ser muito mais um problema que uma solução.
  • O mesmo PS que, na hora da derrota, teve alguns energúmenos a portarem-se como selvagens. Descarregar frustrações nos jornalistas, no mensageiro, é de uma baixeza inqualificável.
  • O mesmo PS que, finalmente, terá agora que escolher novo líder face à demissão de José Sócrates. Líder que, inevitavelmente, será uma cara nova. António José Seguro? Francisco Assis? António Costa? Um deles, por certo.
  • Grande derrotado na noite eleitoral também, o Bloco de Esquerda foi vítima do voto útil e foi vítima também da percepção que, de tempos a tempos, os eleitores portugueses têm - não se trata de um partido que apresente soluções governativas, ambições de poder. O Bloco de Esquerda, agremiação de pequenos partidos de extrema esquerda, com origem na UDP, ainda que com alguns líderes extremamente cultos e inteligentes, nos momentos mais complexos da vida portuguesa é penalizado pelos eleitores.
  • Algo que já não acontece com a coligação PCP/Verdes, a CDU, que vai mantendo uma base de apoio estável. Por maiores que sejam os dislates que deixe passar cá para fora. Abandonar a União Europeia, o euro, e não pagar o empréstimo que nos foi concedido, como afirmou Jerónimo de Sousa em comício, é de uma irresponsabilidade impressionante. Mesmo com a ideia de uma "Coreia do Norte europeia", isolada e caloteira, a CDU consegue manter a sua expressão eleitoral e até eleger mais um deputado.
  • No final, fica a certeza que os vencedores da noite vão ter que se entender para formar governo, apoiado numa maioria parlamentar, pegar num país em grandes dificuldades, com um caderno de encargos terrível para cumprir, tudo sob a fiscalização implacável de uma troika comandada pela mão de ferro de Merkel.
Passos Coelho vai ser um bom primeiro-ministro?
Sinceramente não sei.
Nem a grande maioria dos portugueses.
Mesmo os que votaram no PSD.
O resultado da votação de ontem reflecte, acima de tudo,  um forte desejo de mudança.
De caras e de políticas.
E uma esperança, fundada ou infundada só depois veremos, em algo e alguém novo, que pareça diferente.
Até pode não ser.
Mas parece.
E isso chegou para os portugueses lhe darem um voto de confiança.
Que se mostre merecedor da mesma é o que desejo.
E que não se esqueça que houve 41% de recenseados que se abstiveram.
Terá assim que perceber que lhe foram dados, em simultâneo, um voto de confiança e um forte aviso.
E terá que saber governar com ambos.

Comentários

  1. Caro Pedro Coimbra
    Permita-me mais uma vez subscrever um texto seu. Excelente e realista análise!
    Abraço

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  2. Caro Amigo Pedro Coimbra,
    Totalmente sintonizado com suas perfeitas letras.
    Fez uma leitura 100% correctissima.
    Abraço amigo

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  3. É na verdade, uma análise excelente, correctíssima e sem uma pontinha de subjectividade.

    Eu cá continuo a chorar a derrota do PS, e penso mesmo que o PPC não vai dar conta do recado, mas isto é apenas a opinião de uma pessoa que nada compreende de política.

    A mão de ferro da nossa Angie está cada vez a tornar-se mais mole.

    EMATEJOCA AZUL

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  4. Não consigo compreender a razão de uma certa tristeza no CDS. É claro que para um candidato a PM, 11 por cento é muito pouco, mas a verdade é que o CDS continua a subir e será um fiel de balança que irá refrear alguns ímpetos ultra-liberais de PPC.
    Sócrates, de quem nunca gostei, teve um digno discurso de derrota. Uma grande lição, depois do miserável discurso de vitória de Cavaco.
    Abraço
    CBO

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  5. Rodrigo,
    Fico lisonjeado com a deferência.
    Um abraço

    Amigo Cambeta,
    Antes de ir nadar e passear com as minhas filhas (que dia perfeito!!), ainda tive tempo para escrever o que me ia na alma.
    Um abraço

    Teresa (ematejoca),
    Não sei sinceramente o que valerá PPC como primeiro-ministro.
    Era bom, para todos, que fosse um bom governante.
    A primeira tarefa, complicada, é entender-se com Paulo Portas.
    O PS saiu derrotado e terá que arrumar a casa, eleger um novo líder, aparecer com outra imagem e outras pessoas.
    Dizia Francisco Louçã que se aprende mais com as derrotas.
    Se se for humilde, aprende-se em todos os momentos.

    Carlos,
    O CDS vai ser (mais) um osso duro de roer para PPC.
    Negociar com Portas é complicado.
    José Sócrates é alguém com quem não simpatizo minimamente.
    Corporiza o pior do politiqueiro.
    Cavaco, esse, de discurso em discurso, vai dizendo mais disparates.
    Aquele sermão ao país foi completamente tonto.
    Não gostei nada.
    Um abraço

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  6. Pedro,

    subscrevo na integra e acrescento que esta "vassourada" ao "Engº" Sócrates peca por...tardia.

    Viva Portugal!

    Abraço e boa semana para si!

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  7. Ricardo,
    José Sócrates, há já muito tempo, era um sério problema.
    Mesmo para o partido que dirigia.
    Vamos ver o que nos reserva o futuro.
    Um abraço e uma boa semana também para si

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  8. Pedro
    Excelente!!! Mas eu ainda estou a bater mal com os resultados do BE e PCP.
    Abraço

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  9. Adélia,
    O BE foi penalizado pelo voto útil.
    O que significa que o resultado do PS seria ainda pior se não se tivesse verificado tal fenómeno.
    O PCP mantém a base de apoio praticamente inalterada desde os anos 80.
    Nunca sobe nem desce muito.

    Carlota,
    Sem angústias, com esperança, mas sem euforia, aguardemos o futuro.
    Só isso.
    Bjs às duas

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  10. Excelente análise, Pedro.

    O grande problema é que a cambada política "tuga" está noutra.

    E mais não digo. Até para não ser mal interpretado.

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  11. Observador,
    Todos sabemos que Portugal vai enfrentar tempos difíceis, turbulência em voo.
    Será Passos Coelho o camandante indicado para tripular a nave?
    Não faço ideia.
    Veremos lá mais para a frente.
    Mas, como pede o Portas, espero que se acabe de vez com a crispação política.
    É necessário que haja responsabilidade e união.
    Acredito nisso?
    Infelizmente, não.

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  12. Caro Pedro
    Queria deixar uma correcção e uma sugestão:
    - correcção à sua primeira nota a reter: não foi à primeira, mas sim à segunda, oportunidade que se correu com Sócrates (então ele e o PS não foram reeleitos?);
    - sugestão: já considerou "justificar" as "postas" em vez de as alinhar ao centro? Não sei quanto aos restantes leitores, mas eu fiaria muito grato...
    Abraço e continue o excelente blog

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  13. Pedro

    Tinha aqui um texto da Clara Ferreira Alves sobre o Mário Soares que não cheguei a ler. Apagou-o?

    Abraço

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  14. Anónimo,
    Quando me refiro à primeira oportunidade, pretendo significar o primeiro momento em que havia condições para isso.
    No momento em que foi reeleito, Sócrates dominava totalmente o PS e estava ainda em estado de graça mesmo no país.
    Mas percebo a sua correcção e aceito que não tenha ficado muito claro.
    No que se refere à sua sugestão, vou ver como fica, em termos gráficos, o texto "justificado".
    Se ficar bem, porque não?
    Um abraço

    Hugo,
    Eliminei esse post porque tive conhecimento, e confirmei, que não foi a Clara Ferreira Alves a escrevê-lo.
    Se procurar com o descritor Clara Ferrreira Alves e Mário Soares encontrará facilmente o texto e o desmentido.
    Um abraço

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