10 de novembro de 2011

Voltámos a ser bem comportados?


Eça de Queirós escreveu - "Os políticos são como as fraldas - devem ser trocados constantemente. E sempre pelo mesmo motivo".
Permito-me acrescentar - e os temas dos discursos também.
E também pelo mesmo motivo.
Portugal foi, durante muitos anos, apresentado como o bom aluno da Europa.
Confesso que era um atestado de bom comportamento que me irritava.
Porque trazia subjacente um estatuto de menoridade, de subalternidade.
"Deixamos que entrem no clube dos ricos, mas vocês têm que se portar bem!
Está bem, seus diabretes?"
E os portugueses disseram sim.
Imberbes, rendidos ao estatuto de membros de pleno direito da Europa rica e desenvolvida e dos milhões que esse estatuto implicava.
De repente, fruto de anos de abusos (se somos membros do clubes dos ricos, bem comportados, temos assumir o estatuto na totalidade, não é?) o bom aluno passou a ser um menino travesso, irresponsável, cábula.
E veio o paleio da crise, ou das crises, das dívidas, dos ratings, dos spreads, a malta desatou a dizer umas coisas engraçadas em inglês e descobriu que estava tudo teso.
E que era preciso apertar o cinto e fazer sacrifícios.
Num ápice, perdeu-se a postura altaneira de aluno bem comportado.
E passou-se a adoptar uma postura envergonhada de cábula mal comportado.
Que se sente na necessidade de estar constantemente a repetir que é assim mas, no fundo, até é boa pessoa.
E que promete que se vai portar bem outra vez.
Já hoje ouvi o Presidente da República com esse discurso.
Em Washington, em conversa com Barack Obama.
Que devia estar a pensar com os seus botões - "se não pagarem o calote, a gente fica com a Base da Lajes, quero lá saber!!"
Dez minutos depois, Jean-Claude Juncker a afirmar qualquer coisa do género - "eles são uns irresponsáveis, mas não são caloteiros; estejam tranquilos".
Não estará na altura de mudar a fralda?
Perdão, o discurso?
Que cheirete!!

4 comentários:

  1. Mas aqui ouve-se o discurso também, Isabel.
    E até é mais irritante.
    Porque envergonha.
    Bjs

    "Roubei" o post do FB. Excelente!!

    ResponderEliminar
  2. Caro Pedro Coimbra
    Começa a ser angustiante a falta de politicos que criem alguma confiança no nosso futuro. Nos meus 56 anos já passei por várias crises e muitas incertezas. Nunca me senti tão inseguro quanto ao futuro. Já não é uma questão de mudar as "fraldas" é encontrá-las "limpas".
    Entretanto já começam a aparecer candidatos a "Caudilho".
    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Percebo essa angústia, Rodrigo.
    Não há referências, não há gente com um discurso e uma postura mobilizadoras.
    Uma mediocridade que realmente angustia.
    Abraço

    ResponderEliminar