8 de janeiro de 2019

PAI NOSSO PARA 2019 (Frei Bento Domingues, O.P.)



1. Dizem-me que ando distraído das estatísticas das religiões que, na Europa, manifestam um inquietante declínio. O cristianismo não revela qualquer estratégia adequada para inverter essa situação. A laicidade do Estado, mal entendida, teria conduzido a sociedade para os braços do maior adversário da fé cristã: a indiferença.
O Islão aposta nesse vazio. Estaria, ao que parece, cada vez mais dominado pelas correntes e organizações islamitas, que, a bem ou a mal, pretendem ser a religião europeia do futuro.
Por outro lado, invocar o nome de Deus em vão era considerado um pecado grave. Acaba de sagrar a tomada de posse do Presidente do Brasil. As chamadas “igrejas evangélicas” têm abundantes passagens do Antigo Testamento para apoiar a sua retórica banhada de propósitos guerreiros.
À primeira vista, violência e religião nunca deveriam poder andar associadas. A história mostrou e mostra que, por diversas loucuras, andaram e andam muito juntas.
 A religião é, por natureza, a dilatação transcendente do ser humano. Mas também pode ser entendida como um mecanismo de autoprotecção. Um indivíduo ou um grupo sentem-se mais seguros se alguém superior – uma divindade, por exemplo – os proteger em todas as dimensões da vida: espirituais e materiais. Nesse sentido, defender a sua religião é defender todos os seus interesses. Quem a puser em causa ameaça toda a sua vida. Daí nasce o elo entre violência e religião: defender-se do inimigo. A melhor defesa é destruí-lo. Procura, por esse caminho, salvar a própria identidade. É uma explicação simples para a história da violência ligada ao fenómeno religioso e às suas expressões. Nessa perspectiva, a salvação de uns é a perda dos outros.
Não é inevitável que assim seja. A tolerância não é um desprezo pelas convicções de cada pessoa ou grupo. É a atitude de quem reconhece que não é dono da verdade, mas apenas um seu peregrino. Para erradicar as ligações entre religião e violência, o melhor é a promoção da liberdade religiosa para todos, menos para aquelas actividades que a procuram destruir.
Quem deseja a liberdade religiosa não é um apóstolo da indiferença perante os valores. Reconhecer o direito a ser ou não ser religioso é um apelo à seriedade na busca livre do sentido da vida.
Procurar a verdade e testemunhar essa busca não tem nada a ver com a violência. Testemunha algo que é essencial à vida: nunca se acomodar aos passos já dados. O infinito não tem limites.
2. A oração é uma atitude comum a todas as religiões. A qualidade da oração diz muito acerca da natureza de uma determinada religião. Se à crença numa divindade está ligado o prémio e o castigo, tem de negociar com ela. Tem de evitar a sua ofensa e pedir perdão pelo pecado cometido. É uma transposição para o sagrado do que se passa nas relações humanas de inferior para superior. Em caso de muita incerteza, importa contar com bons intermediários. Como se diz, quem tem amigos não morre na cadeia.
Não vou apresentar uma tipologia de todas as formas de oração nas diferentes religiões ou das atitudes espontâneas de cada pessoa perante o mistério da história pessoal e do mundo.
No plano cristão, a oração mais prestigiada e mais comentada é o Pai-Nosso. Costuma dizer-se que é a própria síntese do Evangelho de Cristo. Até está escrito que foi Ele que pediu para se rezar assim.
Recomendo a consulta da tradução e das notas de Frederico Lourenço aos textos de Mateus e Lucas.
O Papa Francisco, na 2ª catequese sobre o Pai Nosso, no seu inconfundível estilo, diz o mais importante: «Jesus põe nos lábios dos seus discípulos uma prece breve, audaz, formada por sete pedidos, um número que na Bíblia não é casual, indica plenitude. Digo audaz, porque se Cristo não a tivesse sugerido, provavelmente nenhum de nós — aliás, nenhum dos teólogos mais famosos — ousaria rezar a Deus desta maneira.
«Com efeito, Jesus convida os seus discípulos a aproximarem-se de Deus e a confidenciar-lhe alguns pedidos: antes de tudo em relação a Ele e depois em relação a nós. Não há prefácios no Pai Nosso. Jesus não ensina fórmulas para adular o Senhor, aliás, convida a pedir-lhe abatendo as barreiras da reverência e do medo. Não diz para se dirigir a Deus chamando-lhe Omnipotente, Altíssimo, Tu, que estás tão distante de nós, eu sou miserável: não, não diz assim, mas simplesmente Pai, com toda a simplicidade, como as crianças se dirigem ao pai. E esta palavra Pai, expressa a confidência e a confiança filial».
3. O que talvez se esqueça, nos comentários ao Pai Nosso, é a raiz do contencioso de Jesus com a sua família de Nazaré, com a família dos discípulos e com o facto de ele nunca ter constituído uma família pessoal. Procurou fazer família com quem não era da família. Daí o escândalo que provocou.
O Pai Nosso exprime o mundo por que lutou e a missão que deixou aos discípulos, a missão que nos cabe. Nada acontece de forma mágica. É uma forma de viver e de intervir em relação ao que ainda falta, ao advento do Reino de Deus no mundo.
Dizer o Pai Nosso e julgar que as pessoas passam, automaticamente, a considerarem-se como irmãs não seria milagre, mas um exercício ilusionista.
O Pai-Nosso é um programa de missão para a Igreja e para todos os que trabalham por uma humanidade una, com os mesmos direitos. Por não se encarnar o Pai-Nosso como uma missão do dia-a-dia, semana-a-semana, ano-a-ano, uma ousadia pode tornar-se banalidade verbal.
Foi o que o Papa Francisco afirmou na quarta-feira passada: "Quantas vezes vemos o escândalo dessas pessoas que passam o dia na igreja, ou que lá vão todos os dias, e depois vivem a odiar ou a falar mal dos outros". Nesse caso, “o melhor é nem ir à igreja”. "Se vais à igreja, então vive como filho, como irmão, dá um verdadeiro exemplo". Os hipócritas rezam "para serem vistos pelas pessoas". "Os pagãos acreditam que se reza a falar, a falar, a falar. Eu penso em muitos cristãos que acreditam que rezar é falar com Deus, salvo seja, como um papagaio. Não! Rezar faz-se com o coração, a partir do interior".
Começamos um novo ano. Os interesses dos cristãos de todo o mundo, para além do que as ciências, as técnicas, a economia, as políticas e as criações artísticas prometem, não podem esquecer a alma de tudo espelhada na oração que o Senhor nos deixou. Um programa de vida a inventar como o pão nosso de cada dia.
in Público, 06. 01. 2019

6 comentários:

  1. Bom dia amigo
    Mais uma publicação para ler e refletir .
    O pai de todos nós , por isso sermos todos irmãos .
    JAFR

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    1. Deram polémica as declarações de Francisco.
      Estão aqui explicadas para quem não as percebeu ou não quis perceber.

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  2. Temos assistidos a "vazios" que se tornam "perigosos" pela probabilidade de serem preenchidos por crenças e ou organizações que não interessam "nem ao menino Jesus", sem consideração pela época que se vive, mas no sentido global da expressão :)

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    1. A indignação que acompanhou as declarações do Papa, que são repetidas há anos por muita gente, está aqui bem desmontada e explicada, Angela

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  3. Pedro, gosto muito das crónicas de Frei Bento Domingues.
    Gosto de as ler em papel, para sublinhar, anotar e guardar.
    Esta não vi nem li, porque não saímos (frio!!!) para comprar o Público, jornal que entra aqui em casa (em papel, como eu gosto) diariamente.
    Vou guardar este Pai Nosso.
    "Rezar faz-se com o coração", GRANDE Papa Francisco!
    Beijo.

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    1. Quantos de nós não conhecem estes falsos beatos, teresa dias?
      Batem com a mão no peito enquanto deitam o olho ao vizinho e dizem mal da vizinha.
      Beijo

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