4 de junho de 2013

A primeira civilização ateia




Declarou Vaclav Havel em Setembro de 1994 num discurso na Universidade de Stanford: "O papel do intelectual é, entre outras coisas, antever, como Cassandra, as variadas ameaças, horrores e catástrofes. O papel do político é escutar as vozes de aviso, tomar nota dos perigos e, ao mesmo tempo, pensar intensamente no modo de os afrontar ou prevenir." 

Havel acaba de ser homenageado pelo seu papel histórico, pelo combate pela liberdade e pela verdade, como cidadão europeu ou como teórico do "pós-totalitarismo". Foi um dos grandes pensadores políticos da segunda metade do século XX. Tem, no entanto, muitas vidas e vozes - do dramaturgo ao boémio, do político ao profeta. Tentou, ao longo de décadas, deixar-nos um aviso: não tomem nada como automaticamente garantido, pois a nossa civilização corre o risco de catástrofe. É o trabalho de Cassandra, o mais silenciado e o que aqui nos interessa.

Em Outubro de 2010, Vaclav Havel surpreendeu alguns jornalistas no discurso de abertura da 14ª Conferência do Forum 2000 em Praga: "Estamos a viver na primeira civilização global." Ela tem inúmeras vantagens e um grande inconveniente: cada perigo que nasce num ponto do mundo pode tornar-se numa ameaça global. 

O escândalo vem na passagem seguinte: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Apontava-lhe dois efeitos. Primeiro, a preferência pelo ganho a curto prazo. "O que é importante é que um investimento seja rentável em dez ou 15 anos: o modo como afectará as vidas dos nossos descendentes dentro de cem anos é menos importante." 

Segundo: o "orgulho", aquilo que os gregos denominavam por hubris, a "ideia arrogante de que conhecemos tudo e que aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo". É a convicção de que o progresso da ciência, da tecnologia e do conhecimento racional em geral "induzem crescimento, mais crescimento e ainda mais crescimento, a começar pela dimensão das aglomerações" - o tema da conferência era a globalização, a urbanização e o planeta. 

"Nós esquecemos o que as anteriores civilizações sabiam: nada é evidente por si mesmo. Penso que a recente crise financeira e económica é de extrema importância e constitui, na sua essência, um eloquente sinal para o mundo contemporâneo." Colheu-nos de surpresa. "É um aviso contra a desproporcionada autoconfiança e o orgulho da civilização moderna. (...) O comportamento humano não é totalmente explicável como muitos inventores de teorias e conceitos económicos acreditam. (...) Vejo a recente crise como um pequeno apelo à humildade. Como um pequeno desafio para que não tomemos nada como automaticamente garantido."

Havel suspeita que "a nossa civilização caminha para a catástrofe", a menos que corrija "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho".

Esta intervenção não encerra novidade, é um tema recorrente em Havel. "A minha principal preocupação não é o terrorismo", declarou em 2007 ao Nouvel Observateur. "É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização planetária. É como se estivesse obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação."

"Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos. Quanto a mim, sou apenas meio crente, pois não adiro completamente nem a um único deus, nem a uma religião revelada. Tenho, no entanto, a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso. Estou convencido de que há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Havel não propõe nem a conversão religiosa, nem o misticismo, sublinha a espiritualidade e a necessidade do sentido de transcendência: "A transcendência é a única alternativa real à extinção."

Preveniu no mesmo discurso de Stanford: "Sei que, ao dizer estas coisas, corro o risco de que um exército de cientistas e jornalistas me ponham o rótulo de místico que espalha opiniões obscurantistas. (...) O risco do ridículo é, no entanto, razão insuficiente para guardar silêncio sobre aquilo que considero ser verdadeiro."

É uma linha de pensamento que se filia no próprio passado de combate pela liberdade e pela verdade na Europa de Leste. Escrevia em 1984: "O maior erro que a Europa Ocidental poderia cometer seria não compreender os regimes pós-totalitários tal como eles são em última análise, isto é, um espelho deformador da civilização moderna no seu todo." A derrota do comunismo não resolveria por si a "doença" da civilização ocidental. 

Sublinhava noutra entrevista de 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. (...) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo como suprema autoridade a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. (...) Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes."

Havel falou muito de "antipolítica". O politólogo Jacques Rupnik, seu antigo conselheiro, anotou há dias no Monde: "A "antipolítica" remete para um défice de legitimidade da política. A política deve legitimar-se através de qualquer coisa que a transcenda, como valores éticos e espirituais. A dissidência [anticomunista] não tinha por ambição conquistar o poder e rejeitava a política como tecnologia do poder."

Este resumo da "profecia" de Havel é inevitavelmente redutor. O actual momento de crise, a generalização da insegurança, os conflitos no horizonte - e a experiência dos limites do "orgulho"- justificam a evocação de uma outra profecia feita em 1994: "Dada a sua fatal incorrigibilidade, a Humanidade terá provavelmente de atravessar muitos outros Ruanda e muitos outros Tchernobil antes de compreender quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus."



Jorge Almeida Fernandes
Público 2011-12-24


4 comentários:

  1. Como eu costumo dizer, é importante vivermos o dia de hoje como se fosse o último mas sem excessos, e mesmo não pensando em nós é importante pensar nas gerações vindouras, afinal falamos dos nosso descendentes. Que mundo lhes vamos deixar se só pensarmos no aqui e no agora, só em nós? Um pensamento muito perigoso é o homem considerar-se um deus...

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    1. Este artigo é brilhante, Poppy.
      Estava a ficar triste por ninguém lhe dar atenção.
      É bom que entendamos que, no esquema das coisas, somos muito pequeninos.

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  2. Não tinha lido e agradeço-lhe a partilha, Pedro, porque tinha perdido um excelente texto.

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    1. Um texto extraordinário e que passou quase despercebido, Carlos.
      Excepcional!!

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