30 de janeiro de 2013

A regra de ouro e a empatia (Anselmo Borges)



Na Inglaterra, foi de tal modo valorizada que aí recebeu, nos inícios do século XVII, o nome por que é conhecida: "regra de ouro" (golden rule), com duas formulações, uma negativa: "não faças aos outros o que não quererias que te fizessem a ti", e outra positiva: "trata os outros como quererias ser tratado". Frédéric Lenoir faz, com razão, notar que a maior parte dos moralistas prefere a versão negativa, pois o perigo de auto-projecção sobre os outros pode levar a esquecer que cada um tem os seus gostos e a sua própria visão do que é bem. Neste quadro, Bernard Shaw escreveu com o seu sentido de humor: "Não façais aos outros o que quereríeis que vos fizessem; talvez não tenham os mesmos gostos que vós!"
É uma regra tão universal que o filósofo R.-P. Droit perguntava recentemente no Le Monde: "Existem regras morais presentes em todos os tempos e lugares, seja qual for a cultura ou a época? Isso é posto em dúvida a maior parte das vezes. No entanto, há uma excepção notável face ao relativismo generalizado." E apontava precisamente a regra de ouro.
De facto, ela encontra-se em todas as áreas culturais e religiosas do mundo. Apresentam-se exemplos, segundo Olivier du Roy, que acaba de publicar: La règle d'or. Histoire d'une maxime universelle.
Na China, com Confúcio, talvez o primeiro a formulá-la: "O que não queres que te façam não o faças aos outros." No budismo: "Uma situação que não é para mim agradável nem felicitante também o não poderia ser para o outro; como poderia então desejar-lhe isso?" No zoroastrismo: "Tudo o que te repugna não o faças também aos outros." No judaísmo: "Não faças a outrem o que não desejas que te façam a ti." No cristianismo: "Tudo o que quereis que os homens façam por vós, fazei-o igualmente por eles: eis a Lei e os profetas." No islão: "Ninguém entre vós é um crente enquanto não desejar para o seu irmão o que deseja para si próprio."
No estóico Séneca, encontramos esta reflexão admirável sobre como tratar os escravos: "Vive com o teu inferior como quererias que o teu superior vivesse contigo. Cada vez que pensares na extensão dos teus direitos sobre o teu escravo pensa que o teu senhor tem sobre ti direitos idênticos. 'Mas eu não tenho senhor', dizes. Talvez venhas a ter."
Todos os grandes reformadores cristãos a retomam. Pode ler-se num sermão de Martinho Lutero: "Não há ninguém que não sinta e não tenha de reconhecer que é justo e verdadeiro o que diz a lei natural: o que queres que te seja feito e poupado, fá-lo e poupa-o aos outros: esta luz vive e reluz no espírito de todos os seres humanos. E se quiserem tomá-lo em consideração, terão ainda necessidade de outro livro, de outro mestre, de outra lei? Têm um livro vivo neles, no fundo do coração, que pode bastar para ditar-lhes o que devem fazer, não fazer, aceitar ou rejeitar."
Com ela, argumentou John F. Kennedy contra a segregação racial, em 1963: "Se um americano, porque o seu rosto é negro, não pode almoçar num restaurante aberto ao público, mandar os seus filhos à melhor escola pública acessível, votar para os funcionários públicos que vão representá-lo, então quem de vós quereria ver mudar a cor do rosto e colocar-se no seu lugar? O coração do problema é este: vamos tratar os nossos companheiros americanos como queremos ser tratados?"
Atendendo à sua universalidade, Olivier du Roy conclui que ela "corresponde a uma espécie de maturidade moral da humanidade, que descobre ou exprime, por volta do século V a. C., um princípio fundamental de moralidade ou de vida em sociedade". O reconhecimento do outro humano pode ser considerado como "um dado cultural universal, o fundamento de uma verdadeira 'lei natural'". A sua base está na empatia, na capacidade de eu me colocar no lugar do outro, como que sentindo as consequências da minha acção sobre ele. Mas a ética propriamente dita começa, quando se vai para lá da simpatia e se alarga o círculo do humano ao que me não é próximo nem simpático.
Imagine-se o que seria o mundo regido por esta regra de ouro!

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

7 comentários:

  1. Pedro,

    «(...)a ética propriamente dita começa, quando se vai para lá da simpatia e se alarga o círculo do humano ao que me não é próximo nem simpático.»

    está tudo dito ou não, amigo?

    Abraço

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    1. Já combinei com o meu pai, Ricardo - a próxima vez que for a Coimbra vou dar um abraço ao padre Anselmo Borges.
      Porque foi mestre do meu pai e porque é uma pessoa que quero conhecer.
      O que ele escreve, as ideias que defende, fazem-me pensar que será alguém que eu gostaria de conhecer pessoalmente.

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  2. Imaginar uma coisa dessas, só mesmo o John Lennon, Pedro. Como já aqui lhe disse, gosto muito de Anselmo Borges que conheci nos anos 70

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    1. Como respondi ao Ricardo, espero conhecê-lo na próxima viagem a Portugal, Carlos.

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  3. Texto interessante. Se me permite, postarei no meu blogue.
    Realmente, esta questão do tratamento entre os seres-humanos, teve sempre uma tónica comum, desde que racionalmente se tenta conciliar o entendimento filosófico com o religioso, desde os primórdios, como exemplificou o autor do texto.
    A consciência da suprema acção humana perante a inconsciência da maldade humana, esgrimindo a noção da dualidade Bem-Mal, que ao longo dos tempos foi mantendo um plano de fundo de matriz base, configurando essencialmente uma moralidade transversal a todas as religiões e pensamentos criados pelo Homem.
    Regra de ouro aceite, dificilmente cumprida.
    O ir para além do que não é próximo nem simpático, é algo como tentar tocar na Lua, é possível, mas tem de se chegar até lá. E digamos que ao ser-humano, não lhe falta o meio, mas sim a vontade.

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  4. TITO COLAÇO,
    Por favor, esteja à vontade.
    Os textos do padre Anselmo Borges merecem toda a divulgação.

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  5. A Lei Natural está associada a um conceito de ética universal certo?

    Bem grandes atrocidades da história aconteceram, porque de modo a contornar a Lei Natural, essa do trata o teu semelhante como se fosses tu próprio, negaram a humanidade, por exemplo Hitler considerou os Judeus pessoas inferiores de modo a que as pessoas aceitassem como correctas as atrocidades, retirando a humanidade ao que é humano contorna-se a Lei Natural, com os escravos acontecia o mesmo, há um texto brilhante do Luther King que eu tenho pena de não ter guardado, mas se voltar a encontrar partilho, basicamente o que era feito na situação dos escravos era desumanizá-los de modo a que fosse aceitável o que era feito. Actualmente vivemos um caso semelhante, eu sei que é uma discussão difícil, e não quero chamar para aqui essas discussões, actualmente transformaram a vida humana de um ser ainda não nascido em algo não humano para assim transformarem o aborto numa coisa moralmente aceitável... Não é! E daqui a uns anos talvez se venha a falar das atrocidades que se cometem do mesmo modo que falamos das atrocidades de outrora.

    Em suma, desumanizar para se contornar a regra de ouro sem peso na consciência...

    Espero que tenha conseguido passar o meu ponto de vista, embora que de um modo um pouco desajeitado.

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