30 de agosto de 2012

Ricardo Mutti - O Coro dos Escravos


Em celebração dos 150 anos da fundação da Itália, ocasião em que a Ópera de Roma apresentou a ópera Nabuco de Verdi, símbolo da unificação do país, que invocava a escravidão dos Judeus na Babilônia, uma obra não só musical mas também, política à época em que a Itália estava sujeita ao império dos Habsburgos (1840).

Sylvio Berlusconi assistia, pessoalmente, à apresentação, que era dirigida pelo maestro Ricardo Mutti. Antes da apresentação o prefeito de Roma, Gianni Alemanno - ex-ministro do governo Berlusconi, discursou, protestando contra os cortes nas verbas da cultura, o que contribuiu para politizar o evento.

Como Mutti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira "noite de revolução" quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral "Va pensiero" o famoso hino contra a dominação. Há situações que não se pode descrever, mas apenas sentir; o silêncio absoluto do público, na expectativa do hino; clima que se transforma em fervor aos primeiros acordes do mesmo. A reação visceral do público quando o coro entoa - "Ó minha pátria, tão bela e perdida Ao terminar o hino os aplausos da plateia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de "bis", "viva Itália", "viva Verdi".
Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Mutti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse: "não cabia um simples bis; havia de ter um propósito particular".
Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o público, e com ele o próprio Berlusconi.
Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de "longa vida à Itália" disse RICCARDO MUTTI:



"Sim, longa vida à Itália mas... [aplausos]. Já não tenho 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquiesço ao vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o coro que cantava "Ó meu pais, belo e perdido", eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente "bela e perdida". [aplausos retumbantes, inclusive dos artistas da peça] Reina aqui um "clima italiano"; eu, Mutti, me calei por longos anos.

Gostaria agora...nós deveríamos dar sentido a este canto; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um coro que cantou magnificamente e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos."



Foi assim que Mutti convidou o público a cantar o Coro dos Escravos.

Toda a ópera de Roma se levantou... O coral também se levantou. Vê-se, também, o pranto dos artistas.

Foi um momento magnífico na ópera!
Assistam agora:


15 comentários:

  1. Sublime, Catarina, sublime.
    Veja também o vídeo do bar em Pamplona.
    Uma maravilha!!

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  2. Admiro a coragem do Mutti em dar a cara. E não poderia ter escolhido melhor obra musical para o fazer.
    Um grande abraço, meu caro Pedro.
    Luciano Craveiro

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  3. Luciano,
    A obra é fenomenal.
    A ocasião, o grito de protesto, a coragem, uma fonte de inspiração.
    Grande abraço

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  4. Pedro,

    Mutti é, além de Maestro, um pensador!

    Muito obrigado pela partilha!

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  5. Caro Pedro
    Embora ao bochechos tenho estado a ouvir esta verdadeira pérola.
    Lá para o fim de semana vou ligar à aparelhagem e ouvir com o som que merece.
    Obrigado por mais esta.
    Abraço
    Rodrigo

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  6. Arrepia, Ricardo, arrepia!
    Sabe qual a ária que mais me comove, Ricardo?
    Vesti La Giubba.
    Cantada por Pavarotti, faz pele de galinha.
    Esta, e neste enquadramento, é impressionante!!

    Veja também o vídeo do café em Pamplona.
    Vale a pena.

    Aquele abraço

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    Respostas
    1. Para mim, Pedro, entre as favoritas tenho "Il mio babbino caro" da ópera de Puccini "Gianni Schicchi" cantado pela Maria Callas, vou cometer uma inconfidência sobre mim, choro sempre que a ouço, como tal, só a ouço em privado.

      Após esta partilha, despeço-me com aquele abraço!

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    2. Também entre as favoritas, Ricardo.
      E também capaz de comover.
      Um poder que poucas músicas têm.
      Aquele abraço

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  7. Rodrigo,
    É verdadeiramente emocionante, comovente até.
    Uma demonstração do poder terrível que a música pode ter.
    Esta ária é lindíssima.
    Cantada desta forma, com este sentimento.....é impossível ficar indiferente.
    Aquele abraço

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  8. Que história fenomenal! Quanto à ópera estou a ouvir e completamente arrepiada, vai ser a minha banda sonora enquanto leio os restantes posts :) Parece-me bem!

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  9. Se quer continuar arrepiada espreite aqui, Catarina

    http://www.youtube.com/watch?v=Z0PMq4XGtZ4

    Vi ao vivo, quer o Nabuco, quer Il Pagliaci, e é de ficar com uma lágima nos olhos.
    Só se se for uma pedra é que não se reage assim.

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  10. Já conhecia, porque na altura correu célere pela bloga, mas é sempre bom recordar...

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  11. Caro confrade Pedro Coimbra!
    Muito obrigado pelo precioso mimo!!!
    Todas as vezes que escuto esta ópera não consigo conter as lágrimas...
    Caloroso abraço! Saudações emocionadas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  12. Já a tinha guardada para publicação há algum tempo, Carlos.
    Foi agora.
    Lindo demais!


    Caro Prof. João Paulo de Oliveira,
    A ária é sublime.
    Cantada neste enquadramento comove.
    Impressionante!!
    Aquele abraço

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