26 de março de 2012

"O prefaciador implacável" por Ricardo Araújo Pereira


O prefaciador implacável

Anseio por conhecer os factos gravíssimos que estão a ocorrer em Portugal neste momento lendo o prefácio do próximo livro de Cavaco, daqui a um ano

Ricardo Araújo Pereira

Quinta feira, 22 de Mar de 2012

Revista Visão

Julgo que Cavaco tem um sonho parecido com o de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um Presidente. Só que, no sonho de Cavaco, ele desempenha todos os cargos. Há um Presidente Cavaco, um conselho de ministros formado por Cavacos e 230 Cavacos na Assembleia da República. No entanto, por absoluta impossibilidade física, Cavaco vê-se forçado a ocupar apenas um cargo de cada vez. Quem perde é o país. E Cavaco exaspera-se um bocadinho, como tem sido o caso.
Enquanto periodicamente manifesta alguma desilusão com o actual primeiro-ministro, Cavaco publica um livro em que reprova o comportamento do primeiro-ministro anterior. Diz que José Sócrates violou um artigo da Constituição. O caso gerou alguma surpresa entre os analistas: o livro reúne discursos do Presidente, mas a acusação, que é gravíssima, está no prefácio. Normalmente, o tema do livro é introduzido no prefácio, mas a matéria mais importante está, digamos, no fácio. Em Cavaco, tal não sucede. Os discursos são mais ou menos dispensáveis, mas o prefácio é soberbo. Anseio por conhecer os factos gravíssimos que estão a ocorrer em Portugal neste momento lendo o prefácio do próximo livro de Cavaco, daqui a um ano. A espera é dura, mas vale a pena.
Porquê fazer uma acusação destas num prefácio, têm perguntado os analistas. Porque fazê-la numa nota de rodapé seria ridículo, digo eu. No prefácio, tem outra dignidade. E é o que está estipulado na carta de poderes e competências do Presidente da República: quando o primeiro-ministro viola a Constituição, o Presidente tem duas hipóteses: demiti-lo e convocar eleições ou esperar um ano e dizer-lhe das boas num maldoso prefácio. Cavaco escolheu a opção mais violenta. Quem sabe história recordará que Napoleão foi obrigado a exilar-se em Santa Helena na sequência de um prefácio muito desagradável escrito pelo Duque de Wellington. O poder devastador do prefácio, em política, está bem documentado.
Cavaco viu na atitude de Sócrates uma deslealdade histórica. Infelizmente, é difícil perceber se a deslealdade do ex-primeiro-ministro é histórica por ser de grande envergadura ou por entretanto ter passado tanto tempo que já pertence à história. Para ajudar a esclarecer estas questões, Cavaco é hermeneuta de si próprio, como vem sendo hábito. O trabalho do Presidente é infinito: há que fazer declarações sobre as pensões de miséria do Banco de Portugal, explicá-las no facebook e depois explicar as explicações ao longo da semana, escapar a escolas repletas de perigosos pré-adolescentes e justificar a fuga no dia seguinte, registar uma violação da Constituição, remoer nela durante meses e denunciá-la num prefácio. É rara a atitude de Cavaco que não necessita de esclarecimento. Incluindo os esclarecimentos.

4 comentários:

  1. Brutal!!!
    Como o humor inteligente pode ser tão certeiro.
    Abraço Pedro e boa semana.
    Rodrigo

    ResponderEliminar
  2. O RAP é tremendo, Rodrigo.
    Sem ofender ninguém, atira a matar.
    E faz-nos rir pelo caminho.
    Aquele abraço e votos de boa semana

    ResponderEliminar
  3. Sempre recomendáveis as crónicas de RAP.

    Boa semana.

    ResponderEliminar
  4. Já viu a intervenção dele no programa do Jô, António?
    Vale a pena.
    Completamente fã do RAP!!
    Aquele abraço

    ResponderEliminar