29 de novembro de 2016

A amante


A ESTRANHA VERDADE:

Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu uma estranha, recém-chegada à nossa pequena cidade.
Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com esta encantadora personagem e, em seguida, a convidou a viver com nossa família.
A estranha aceitou e, desde então, tem estado connosco.
Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre seu lugar na minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.
Meus pais eram instrutores complementares...a minha mãe ensinou-me o que era bom e o que era mau e o meu pai ensinou-me a obedecer.
Mas a estranha era a nossa narradora.
Mantinha-nos enfeitiçados durante horas com aventuras, mistérios e comédias.
Ela tinha sempre ensinamentos para qualquer coisa que quiséssemos saber: da política à história ou ciência.
Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!
Levou a minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-me rir, e fazia-me chorar.
A estranha nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, a minha mãe levantava-se cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava a ouvir o que tinha que dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora pergunto-me se ela alguma vez teria rezado para que a estranha fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentia obrigada a honrá-las.
As blasfémias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa… nem da nossa parte, nem por parte dos nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.
Entretanto, nossa visitante de longo prazo usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool. Mas a estranha nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem algo elegante.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. 
Seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos.
Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência pela estranha.
Repetidas vezes a criticaram, mas ela nunca fez caso dos valores de meus pais, e, mesmo assim, permaneceu no nosso lar.
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que a estranha veio para a nossa família. 
Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era no princípio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda a encontraria sentada em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome? Ah. seu nome…
Chamamos-lhe TELEVISÃO! 
É isso mesmo; a intrusa chama-se TELEVISÃO! 
Agora ela tem um marido que se chama Computador, um filho que se chama Telemóvel e um neto de nome Tablet. 
A estranha, agora, tem uma família. 
A nossa será que ainda existe?

22 comentários:

  1. Continua a existir, mas com outros moldes e outros meios de comunicação ... :) vai dar tudo certo

    Sempre pensei que a amante fosse uma loira... ☺

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    1. Esta não é loira, Catarina.
      Foi a preto e branco, há já muitos anos que é a cores :)))

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  2. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Se minha combalida memória não falha já li aqui um texto similar...
    Caloroso abraço. Saudações televisionadas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Também julgo que não é a primeira vez que publico, não exactamente este texto, mas algo de semelhante, Amigo João Paulo de Oliveira.
      Aquele abraço

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  3. Achei interessante.
    Estava eu num crescendo de má vontade contra e invasão da estranha e completamente solidária com a mãe quando surge a palavra televisão!!! Fiquei mais descansada. :)) bjs

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    1. Esta estranha é outra.
      E invade quase todas (todas??) as casas, papoila.
      Bjs

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  4. Embora já conhecesse este texto, ou outro parecido, a mensagem que ele nos transmite é forte e faz-nos pensar como a nossa vida mudou desde que apareceu essa "estranha".
    Não lhe sei dizer se antes era melhor ou pior, mas sei que era diferente e aunião que existia entre os membros da família, os vizinhos e os amigos, mudou radicalmente.

    Um beijinho

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    1. Como tudo na vida, sem abusos não faz mal nenhum, Fê.
      Já com abusos...
      Beijinhos

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  5. Enquanto lia, o texto parecia-me familiar, mas não o xonsegui localizar. Ao espreitar o comentário do professor João Paulo de Oliveira e a sua resposta, fiquei elucidado. E gostei de recordar.
    Boa semana Pedro

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  6. Olá Pedro, ninguém se livra dessa intrusa, e é muito difícil competir com ela, pois nem adoece, nem precisa de dormir!

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    1. Esta estranha tem uma resistência notável, Angela!

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  7. Estava a ver onde que que isto ia chegar... :) A tecnologia instalou-se de tal modo que quase a sentimos como parte de nós. Olhe a nossa relação com os telemóveis... :)

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    1. Por acaso a minha relação com o telemóvel é muito pouco intensa, luisa.
      Sou subscritor do pacote mais básico e mesmo assim nunca o gasto totalmente.

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  8. Uma excelente reflexão, questionada, k já conhecia.

    Beijos, Pedro!

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    1. Uma estranha cada vez mais presente na vida de todos, CÉU.
      Beijos

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  9. Desconfiei de quem era a estranha quase desde o início, não estava à espera é de como termina e de ela ter agora uma "família"...um texto para nos fazer pensar...

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  10. Nasci e cresci durante alguns anos sem televisão, lembro-me que era muito feliz e entretinha-me a brincar com os meus irmãos na rua.
    Tinha apenas um rádio portátil que carregava comigo só para cantar e decorar as canções, facto que por vezes irritava a minha mãe, já que eu tentava cantar mais alto.
    Lembro-me ainda que ia a casa de uma vizinha, sempre que havia festivais da canção.
    Um dia a intrusa chegou, cortou diálogos, risos e canções e hoje tarde e a más horas ela prendeu-me e estive a ver um filme que em nada me enriqueceu.
    Tento ao máximo fugir dela, mas de vez em quando ainda me persegue.
    Nada é como dantes, mas faço questão de a pouco e pouco a banir da minha vida e arranjar alternativas saudáveis.
    Gostei da reflexão!

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    1. Confesso que não sei quem é o autor do texto, Manu.
      Mas é excelente.

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  11. Muito interessante, Pedro.
    Abracinho.
    ~~~~~~

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