23 de junho de 2011

Porta do esquecimento

Os últimos anos da Administração portuguesa em Macau ficaram marcados pela inauguração de várias obras arquitectónicas e escultóricas.
Que, supostamente, perdurariam como marca da presença em Macau e constituiriam também uma forma de celebração do bom relacionamento entre Portugal e a China, passariam a ser símbolos da interpenetração e do convívio harmonioso de culturas.
De todas essa peças, porventura a mais emblemática será a obra de João Charters de Almeida, a Porta do Entendimento.
Estrategicamente colocada junto à água, o mar que os portugueses sulcaram para chegar a Macau e que uniu as duas civilizações, situada numa zona nobre da cidade, a Porta do Entendimento ficou para sempre associada a uma imagem muito próxima da de um nado-morto.
Nunca despertou grande entusiasmo, a zona nunca foi devidamente aproveitada, nunca houve ali vida, movimento.
Era um local tão sossegado, tão tranquilo, tão abandonado, que se tornava até um pouco assustador.
Escuro, recôndito, desértico, o local fazia os casais de namorados que ali se deslocavam em busca de alguma privacidade temer pela sua segurança.
O tempo foi correndo e os fenómenos do  esquecimento, e consequente degradação, do monumento foram-se acentuando.
Várias vezes comentei com amigos que, apesar de ser um leigo na matéria, as condições de segurança do conjunto se me afiguravam altamente questionáveis.
Mais a mais, tendo em conta qua parte da superfície, em placas de  mármore, havia tombado pouco depois da sua inauguração.
Facto que determinou o encerramento do local ao público.
Não encontrava assim qualquer justificação (plausível, que os complexos colonialistas não me interessam minimamente) para que, das duas uma - ou se recuperasse o monumento, ou se retirasse dali de uma vez por todas.
Faltava coragem política para assumir qualquer atitude, diziam-me frequentemente.
Sou hoje surpreendido com a notícia que José Chui Sai Peng apela ao Executivo para que, finalmente, se recupere o monumento.
Intenção que, aliás, o Executivo já pomposamente anunciara há dois anos.
Dezoito anos depois da sua inauguração ao público, terá finalmente chegado  o momento de  a "porta do esquecimento" dar verdadeiramente lugar à Porta do Entendimento?

4 comentários:

  1. Estimado Amigo Pedro Coimbra,
    Ao longo dos anos, nesta cidade de Macau, já quase de tudo, as administrações portuguesas, para poderem justificar, o que não era justificavél, mandaram ewrguer essa múmia e não só, ais quais os chineses se estão marimbando.
    Está recordado da tal estátua da mulher e o cão, junto às Ruínas de S. Paulo? e a outra postada no átrio do Hospital, obra de João Cutileiro? é assim já.
    Esta da Porta da Amizade, é bom que seja reparada pois podem continuar a cair mais alguns calhaos!...
    Abraço amigo

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  2. Foi política dos últimos anos da Administração portuguesa.
    Uma obra destas por ano.
    Esta, qualquer dia, cai ao chão.
    Um abraço

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  3. Pedro Coimbra,
    Desejo que se torne a "Porta do Entendimento" para glória do nosso povo, daqueles que durante séculos conviveram com a China, levaram Portugal e outros mundos.

    A ideia da porta é muito bonita mas que seja mesmo uma porta para admirar e ver o mar. Não me lembrava desta escultura.
    Obrigada por este post tão bonito!
    :)

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  4. ana,
    Depois da transferência de administração, havia para aqui uns espíritos atormentados que queriam fazer desparecer todos os vestígios da passagem portuguesa por Macau.
    Como se isso fosse possível.....
    A Porta do Entendimento foi uma das vítimas desses complexos.
    E estava a tornar-se realmente triste assistir à degradação do monumento.
    E perigoso.
    Finalmente, parece que alguém acordou bem disposto e resolveu recuperar o monumento.
    Mas isso não chega.
    É preciso dar vida ao lugar.
    Se não for assim, daqui a uns anos voltamos ao mesmo.

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