18 de abril de 2018

Medidas regionais bem antigas


Talvez nem todos saibam que antigamente, desde a Idade Média, sobretudo a partir do movimento foraleiro, isto é, da atribuição das Cartas de Foral aos Concelhos, que as medidas com que se aferiam os pesos, capacidades e comprimentos das produções, agrícolas e industriais, assim como dos bens e mercadorias que animavam as actividades mercantis nacionais, eram diferentes de terra para terra, o que em nada beneficiava os preços e em muito contribuía para a inflação dos preços e consequente destabilização do mercado. 

Só após a institucionalização do Sistema Métrico Decimal, adoptado e aprovado a partir de 1795, é que as unidades de medida passaram a ser padronizadas. 

Aqui fica, portanto, a relação dessas medidas e do seu valor oficial, sendo que estes só tiveram efectividade no nosso país a partir de 1814, mercê da aprovação do sistema métrico décimal pelo príncipe-regente D. João VI. 

ALMUDE - medida para aferir os líquidos, sobretudo o vinho, e que era equivalente a 12 canadas, correspondendo a 16,8 litros. 

ALQUEIRE - medida de capacidade, usada para secos de volume variável, geralmente milho, trigo, aveia, centeio, grão, feijão, assim como todo o tipo de gramíneas e sementes. Também podia ser usado para os líquidos, o que só acontecia em pouquíssimos concelhos do país, e nesse caso equivalia a 6 canadas, ou seja, 8,4 litros. Mas o seu valor em seco (quer para as transações comerciais, quer para a avaliação das terras de semeadura) passou a ser oficialmente de 13,9 litros, por decisão do Marquês de Pombal, logo após o terramoto de 1755. Valor esse que se manteve para sempre. 

ARRATEL - medida de peso, que na Idade Média correspondia ao peso da libra que se usava na península ibérica, mas que não era igual à que se usava, e ainda usa, nos países anglo-saxónicos. O seu valor no século XIX, após a converção ao SMD, era de 459,5 gramas. Esta medida usava-se muito para aferir o peso dos animais, sobretudo para o preço da carne ao público. A libra britânica corresponde a 500 gramas. 

ARROBA - como medida de volume, para líquidos como o vinho, valia aproximadamente 16 litros, mas se fosse para o azeite já valia menos, cerca de 12,5 litros; era principalmente usada nas transações comerciais como medida de massa, para pesar porcos e bovinos, e nesse caso era equivalente a 32 arráteis (14.720 gr), sendo arredondada com o SMD para 15 kilogramas. 

CANADA - medida de volume mais usada nas transações mercantis, e talvez a mais antiga que se conhece em Portugal. Nos forais aparece para aferir quase todos os líquidos, sendo muito usada para medir o azeite. Equivalia a 1,4 litros, mas o valor mais comum era o usado no mercado de Lisboa, onde valia 1,5 litros, sendo esse o que prevaleceu até à adpção do sistema internacional de unidades em 13-12-1852. Dividia-se em 4 quartilhos, era a 12ª parte do Almude, e 6 canadas prefaziam um pote, unidade que rapidamente caiu em desuso no nosso país. O quartilho foi muito usado para a comercialização a retalho do vinho, equivalendo a 0,35 litros. 

COVADO - medida de comprimento, talvez a mais antiga, conhecida e usada desde os tempos bíblicos, baseava-se no tamanho do antebraço, isto é na distância que ia da ponta do dedo médio até ao cotovelo. Parece terem sido os egípcios os seus inventores, com um valor aproximado de 50 cm. Com o desenrolar dos séculos evoluiu entre os 45 e os 67 cms, fixando-se, antes do SMD, em cerca de 66 cm, o equivalente a 3 palmos. 

MOIO - medida de capacidade muito usada no nosso país desde a Idade Média, que tinha uma grande ambivalência, pois que não só se usava para capacidades de sólidos e de liquídos, como também servia para medir superfícies agrárias, tendo como exemplo a área média de terreno que podia ser semeada com um moio de trigo, de centeio, de cevada, etc. Herdamos esta medida dos romanos que a usavam para os sólidos como para os líquidos, mas com valores muito díspares. Entre nós valia 560 litros com D. Afonso Henriques e subiu até 790 litros com D. Manuel I. O seu valor mais comum era de 60 alqueires, só que o valor do alqueire variava de terra para terra. Mas com a introdução do sistema métrico de unidade o moio passou a ser avaliado em 828 litros. 

QUARTA - medida de capacidade ou de volume, era a quarta parte do alqueire, do arrátel e da vara. Era por vezes citada com o valor de 2 maquias, o equivalente no sistema métrico a 1,725 litros. Já agora, acrescento que cada maquia valia 0,8625 litros. Já que falei em "vara" convém dizer que se usava como medida de comprimento, e que equivalia a 5 palmos, que foram arredondados no sistema métrico para 1,1 metros. 

QUARTILHO - medida de volume para líquidos, que antigamente valia cerca de 0,5 litros, passando com a introdução do sistema métrico para 0,35 l. 

VARA - medida de comprimento, que como já disse valia 1,10 metros. 

JARDA - A origem da “jarda” (yard, em inglês), como medida de comprimento, remonta ao século XII, durante o reinado de Henrique I de Inglaterra, que decidiu instituir a distância entre seu nariz e o polegar de seu braço estendido como sendo uma jarda. Esta medida não está desactivada nem foi esquecida, pois que ainda hoje é usada (por exemplo no Futebol Americano para decidir as medidas que separam as linhas em que se divide o terreno de jogo). Era oficial no comércio britânico aferir-se a jarda como equivalente a 3 pés ou a 36 polegadas, e julgo que é essa ainda a medida usada no mercado anglo-saxónico. A jarda mede cerca de um metro, mais concretamente 0,91 m, ou seja, 91 centímetros.

22 comentários:

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    1. E é sempre bom não esquecer, Mena Almeida.
      Tenha uma óptima quarta-feira

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  2. É sempre bom conhecer um pouco mais! =)
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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    1. fico contente por ver que já está melhor, Ana.
      É uma verdade indesmentível - o saber não ocupa lugar.
      Beijinhos

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  3. bom dia
    lembro me de quase todas , inclusive de ir á loja buscar quartilho e meio de vinho e á leitaria buscar meia canada de leite e muitos outros.
    uma boa lição da historia das medidas.
    JAFR

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    1. Para não esquecer para alguns, Joaquim Rosário.
      Para aprender para outros.

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  4. Em casa dos meus avós lembro-me de se usar muito o alqueire.
    Outras medidas aqui descritas confesso que desconhecia.

    Continuação de boa semana

    Bjs Pedro

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    1. Eu também desconhecia a grande maioria, Manu.
      Estamos sempre a aprender.
      Se estivermos dispostos a isso.
      Beijos

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  5. Era habitual ouvir esta terminologia aos mais velhos, sobretudo, rurais.
    Interessante.
    Abraço.

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    1. Caiu em desuso.
      Mas acredito que em meios rurais ainda se utilize, Agostinho.

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  6. Várias destas medidas ainda são perfeitamente do meu tempo, embora já com o conhecimento das medidas actuais :
    Por ex. :
    O ALMUDE - para aferir os líquidos, correspondendo a 16,8 litros. 

    O ALQUEIRE - usada para o milho, … Nunca me apercebi ser usada para líquidos.

    A ARROBA, não para líquidos, mas especialmente como medida de massa, para pesar porcos, sendo arredondada para 15 Kgs.  Um porco de 7 arrobas já era um belo bicho ! :))

    O QUARTILHO - medida de volume para líquidos, que antigamente valia cerca de 0,5 litros . Quantas vezes fui à mercearia com uma garrafa para trazer um quartilho de vinho da pipa (quase não havia vinho engarrafado e em garrafão seria muito para o consumo diário ! :)))

    A JARDA – os Pés, a polegada, estas mais actuais em termos desportivos por ex. Ou em certo tipo de medidas de comprimento.

    Muito interessante este post, Pedro . ☺

    Abraço

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    1. É o que eu digo, Rui, estamos sempre a aprender.
      Aquele abraço

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  7. lembro-me destes nomes Pedro!
    muitos devem ser de origem árabe com o tal "Al" ?!
    a explicação é interessante por não conhecia as quantidades :)

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    1. Acredito nessa origem, Angela.
      Como muitas outras palavras que hoje são de uso comum, é bem provável que haja aqui origem árabe.

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  8. Publicação muito interessante Pedro !
    Abraço

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  9. O alqueire também era conhecido na minha zona como rasa, que era um alqueire alisado pelo rodo (peça cilindrica que rodava sobre os lados do alqueire), quando era totalmente cheio era o "alqueire acogulado", se o alqueire era de cereal quando ia ao moinho era "maquiado" (um oitavo do total) que era para o moleiro. Se fosse o moleiro a recolher o cereal e traze-lo de volta já moído pagava-se maquia e meia (cerca de 18% do valor do cereal). Quando um negociante roubava no peso ou na medida de qualquer produto que se vendesse dizia-se que "maquiava" a mercadoria. Já agora um "carro" de cereal eram 40 alqueires. Cumprimentos

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    1. Ora aqui está a prova do que ainda agora comentei, álvaro silva - estamos sempre a aprender.
      Cumprimentos

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  10. Só lembrava o alqueire e a arroba...
    E foram objetos importantíssimos...
    Beijinhos
    ~~~

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