26 de setembro de 2018

"Likai-vos" uns aos outros (Anselmo Borges)


Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Vou constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação. Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...

Na era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso, ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro, esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a solidão.

Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá estudante. Havia uma salle d'accueil (sala de acolhimento), onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família... sempre com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: "Só lhe peço o favor de me ouvir e que me não interrompa", o que eu fiz. No fim de uma hora e tal, ele acabou e disse-me: "Não sabe quanto me ajudou, nunca o esquecerei." E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro dele.

A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e insultos e fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...

A questão é, a um dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real. Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola, Bailar con la Soledad, a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo, vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, dos vizinhos e dos conhecidos. Mesmo assim, tinha uma vida activa e popular no Facebook, onde contava com 3544 amigos e 361 seguidores, dando opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de Tenerife, a 1677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, tinha prevenido com razão: "Parece que o sucesso fundamental da proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as relações. "Estar conectado" é mais económico do que "estar relacionado", mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua conservação".

Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de likes e seguidores.., com as consequentes ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.

Há pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um dos artistas com mais êxito dos últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas que não o conheciam mas o odiavam. "Um só comentário é suficiente para me estragar o dia." Comenta o jesuíta: "A pressão amor-ódio nas redes é demasiado exigente para muitos, inclusive para quem é maioritariamente aceite."

No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena O'Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos, no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada para a aprovação, para que chovessem os likes... O preço, chegou a dizer, é "a tua vida e a tua autoestima".

A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida influencer - assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade, uma enorme quantidade de pessoas - suicidou-se. Chamava-se Celia Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular, com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à vida? O jesuíta resume: "A ficção de uma vida ideal enquanto na vida real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida construída apenas para aparentar. "Tudo é mentira", foram as últimas palavras da jovem no seu WhatsApp.

Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista Philosophie Magazine: "Likai-vos uns aos outros", ponde muitos likes (gostos) uns aos outros. Mas tende cuidado!
Padre e professor de Filosofia
in DN, 22 Setembro 2018

15 comentários:

  1. Ainda bem que os seus amigos proibem os telemoveis a mesa, na minha casa tambem se faz isso.
    Infelimente nos tempos de hoje raramente se comunica atraves de voz, mas sim atraves de mensagens e fotos. Imagino que muita gente tenha milhares de amigos virtuais mas nao tenham amigos de carne e osso!

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    1. Não são os meus amigos, Sami.
      São amigos do padre Anselmo Borges.
      Aqui o que cada vez mais vejo é utilizar a porcaria dos telemóveis em toda a parte.
      Incluindo à mesa.

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  2. Conta, peso e medida.
    Um equilíbrio muito mais difícil do que parece!

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    1. Será assim tão difícil, Boop?
      Não utilizo o telemóvel, o iPad, seja o que for, numa mesa com família e/ou amigos.
      E não sinto falta nenhuma disso.
      Há um tempo para tudo.

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  3. Pior do que uma droga é viver uma vida virtual que não se tem... e isso vai levar a realidades como o filme Player One.

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    1. Isso é profundamente triste, Pedro Dinis.
      Deprimente, mesmo.

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    2. Infelizmewnte é o que está a acontecer com as gerações mais novas. As minhas filhas são consideradas estranhas por andarem de bicicleta ao domingo, enquanto os amigos estão a jogar PS.

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    3. Quem é estranho é quem não vem à rua, Pedro Dinis.
      Foi isso que recentemente aqui escrevi por causa do idiota do deputado por ver o jovens na rua.

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  4. Felizmente tenho um filho que abomina o facebook, diz ele que o melhor face que tem são os inúmeros amigos que tem e nunca deixa de ajudar quem dele precisa.
    Telemóveis junto dele são de imediato proibidos e em festas a primeira coisa que faz é recolhê-los todos e metê-los dentro de um saco, que no final devolve.
    Teve a pouca sorte de ter uma mãe desnaturada que utiliza o facebook para saber das amigas(os) que vai conhecendo pelo mundo e de se aproximar, por vezes com uma palavra de carinho ou de um sorriso, quando desconfia que há alguém que não está bem.
    Utilizado com conta peso e medida é uma boa ferramenta.

    Beijos Pedro

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    1. "Utilizado com conta peso e medida é uma boa ferramenta."
      É isso mesmo, Manu.
      Fundamentalismos, para um lado ou para o outro, não fazem sentido nenhum.
      Não viver numa realidade alternativa, não negar a sua existência.
      Será assim tão complicado?
      Beijos

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  5. Li com muita atenção oeste post.
    É bem verdade a dependência que as pessoas têm do mundo virtual.
    Não vou muito ao FB. Gosto. Gosto mais dos blogues. Mas mais do que tudo gosto de conviver. Frequento a Universidade Sénior e participo de tertúlias de poesia e não só.
    Abraço

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    1. Há tempo para tudo, Elvira Carvalho.
      Se soubermos distribuir bem o tempo, há tempo para tudo.
      Sem ter que exagerar em nada.
      Abraço

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  6. Como tudo na vida, há que encontrar o equílibrio. Tudo se quer com conta, peso e medida. E genuinidade.

    Abraço.

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    1. Equilíbrio, Fá menor, esse é o ponto essencial.
      Não me parece complicado.
      Abraço

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