8 de fevereiro de 2018

Errare humanum est, sed perseverare diabolicum


Errare humanum est, sed perseverare diabolicum – errar é humano, persistir (no erro) é diabólico.
Esta expressão do Latim é de todos conhecida.
E aplica-se como uma luva aos acontecimentos dados a conhecer pelo Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) relativamente a um terreno em Coloane que esteve envolto em polémica desde que foi dada a conhecer a intenção de ali ser construída habitação de luxo.
Um terreno enorme, com uma localização privilegiada, com o senão para o proprietário e promotor imobiliário de no local existir uma casamata portuguesa, outrora essencial no processo de defesa da cidade, e que importaria preservar como testemunho da memória colectiva de Macau.
Uma maçada.
Mas uma maçada que se transformou em massada.
De repente, e à boleia da casamata, que parece ter passado despercebida a muito boa gente, começou a investigar-se o título de propriedade do terreno, a sua transmissão, as suas dimensões, a sua localização, as quotas altimétricas para o projecto a desenvolver no local.
E o que se descobriu, e foi agora revelado pelo CCAC, é escabroso.
Um terreno que milagrosamente se moveu da zona antiga de Coloane para uma zona nobre da vila, que nesse movimento também milagrosamente cresceu cem vezes!!, aquisição e transmissão de propriedade a raiar o incompreensível, quotas altimétricas que também só por milagre podiam atingir aquelas dimensões.
Errare humanum est.
Se realmente houve erros foram muitos, envolveram muita gente, muitos Serviços, e foram grosseiros.
Errare humanum est, sed persevare diabolicum.
Persistir no erro seria efectivamente diabólico.
E aí andaram muito bem o CCAC, que investigou profundamente o caso, e o Chefe do Executivo ao enviar toda a documentação para o Ministério Público.
Porque se errare humanum est tantos erros têm que ser investigados e, havendo ilegalidades como suspeita o CCAC, punidos os infractores para que os erros não se repitam (sed perseverare diabolicum).
Ao residente permanente de Macau, depois de tudo o que ouviu e leu, uma dúvida se levanta – quantos mais erros semelhantes ainda haverá para detectar??

26 comentários:

  1. Uma dúvida lógica e pertinente. Terrenos que mudam de lugar,só mesmo por milagre. Abraço

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    1. Como comentava um amigo meu, "há terrenos que são muito irrequietos", Elvira Carvalho :)))
      Abraço

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  2. Gostei do comentário do seu amigo "há terrenos que são muito irrequietos".
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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    1. Vindo de quem vem não me admira nada, Francisco :)))
      Aquele abraço

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  3. Irrequietos e interesses monetários que não olham a meios para atingir os fins, infelizmente há muito disso por toda a parte, com retorno impossível.
    O meu abraço

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    1. Tenho o máximo desrespeito por pessoas corruptas, António Querido.
      Da mais pequena corrupção, do pequeno favor, às grandes negociatas, tudo me dá nojo.
      Aquele abraço

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  4. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Como sabes aqui a corrupção chegou a um ponto inimaginável...
    Caloroso abraço. Saudações inimagináveis.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Porque é que há pessoas que não têm o mínimo sentido de Estado, o mínimo de respeitabilidade e decência, Amigo João Paulo de Oliveira?
      Acabam por ser uns tristes.
      Aquele abraço

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  5. Muitos erros que beneficiam muita gente de certeza! Terrenos que mudam de lugar, essa da para rir, lol.

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    1. Daria para rir se não fosse tão sério, Sami.
      Assim revolta, enoja.

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  6. Boa tarde. Passando, lendo e elogiando tão maravilhosa prosa - e imagem - que aqui são apresentadas.

    * Vivências de Amor - Volúpia Incerta *
    .
    Desejos de um dia feliz

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    1. A imagem é da tal casamata que, com a voragem do dinheiro, passou despercebida a muito boa gente, Gil António.

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  7. Já me deparei com um caso idêntico num terreno de um loteamento para uma IPSS e não tinha forma de resolver a situação. O remédio foi descobrir quem foram os dois tratantes (solicitador e funcionário das Finanças) e ameaçá-los que os denunciaria às autoridades se não me resolvessem o assunto. Não sei como o fizeram, mas um mês o terreno estava registado em nome da IPSS, onde se veio a construir um edifício (creche, infantário e tempos livres).
    Portanto, nem sempre é errado continuar a errar... porque às vezes escreve-se direito por linhas tortas.
    Mas o caso que relatas é muito diferente, nomeadamente quanto ao destino do terreno.
    Continuação de boa semana, caro Pedro.
    Abraço.

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    1. A grande diferença é o aproveitamento do terreno, Jaime Portela.
      Num caso para uma finalidade social, no outro para fazer alguns gulosos ganharem MUITO dinheiro.
      Aquele abraço

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  8. Ai os euros :( enfim coisas que só a ganância faz.
    Abraço

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    1. A ganância chega ao ponto de deixar as pessoas estúpidas, Mena Almeida.
      Esta malta pensava que nunca ia ser agarrada??
      Tristes!
      Abraço

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  9. tenho ouvido falar em ruinas que se deslocam para aparecer em locais mais "apropriados", mas terrenos a viajar parece-me ser bastante curioso! daí certamente a investigação Pedro !

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    1. Há coisas que desafiam a nossa compreensão, Angela

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  10. tantas vezes que ao descobrir um erro leva a um novelo de erros perpetuados de forma sistemática.....enfim...corrupção
    Abraço
    Kique
    https://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt

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    1. O que uma casamata originou, Kique!!
      Aquele abraço

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  11. Será essa uma herança portuguesa ?

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    1. Há quem goste de dizer isso, Magui.
      Quando o ouço fico furioso.
      Eu sou português e nunca meti uma pataca no bolso que não me fosse devida.
      E há muitos mais como eu.
      Houve gente desonesta nos tempos da Administração Portuguesa?
      Claro.
      Mas deixámos essa herança e é por isso que se têm descoberto casos verdadeiramente inacreditáveis?
      Pelo amor da santa!!

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  12. Acredito que muitos meu amigo.
    O problema é que muitas vezes cometem-se mais erros para encobrir os anterior. É claro que há sempre alguém a ganhar com esses erros.
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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    1. Fico mais irritado quando os erros são "erros", Maria Rodrigues.
      Beijinhos

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  13. Caro Pedro Coimbra, pelo menos por aí ainda detetam os "erros" e enviam para o MP investigar. Já não é mau, porque por aqui até os dados cadastrais "desaparecem", depois inventam-se outros e ninguém se "magoa". Abraço.

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    1. Mas a minha dúvida metódica mantém-se, Corvo Negro - quantos mais "erros" por aí haverá sem que a gente os conheça??
      Aquele abraço

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