14 de fevereiro de 2018

Entrevista a Frei Bento Domingues, O.P., Divorciados, texto de Leonor Xavier


Frei Bento Domingues, de 83 anos, é uma das vozes da Igreja Católica mais presentes no espaço mediático (tem uma coluna semanal no “Público” há mais de duas décadas), falando sem tabus da realidade da Igreja e da relação dela com o mundo. Um observador privilegiado para comentar a nota pastoral de D. Manuel Clemente, em que o cardeal-patriarca de Lisboa aconselhou abstinência sexual aos católicos recasados que se queiram reaproximar da Igreja. “Um delírio” para o frade dominicano.

A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?

É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!


O texto representa o cardeal-patriarca de Lisboa ou o episcopado português?

Está à vista que é a opinião dele. Já outros se pronunciaram noutra direção.

Não deviam os bispos portugueses pronunciar-se?

Deviam fazer uma declaração explicando que, se um casamento não correu bem, há serviços pastorais nas dioceses para ajudar os casais, mas não propriamente sobre as questões sexuais.

Não é preciso um esclarecimento da Conferência Episcopal, que ainda não se pronunciou?

Isto é um ato do bispo de Lisboa, que não é patriarca das outras dioceses. Mas havendo pessoas que reagiram de forma muito violenta contra o Papa Francisco, os bispos que estão em comunhão com ele e que gostam da sua orientação pastoral podiam pronunciar-se. A Conferência Episcopal devia ter um pronunciamento de apoio às posições, que são bastante interessantes e abertas, da pastoral do bispo de Roma.

Esta nota de D. Manuel contraria o apelo à inclusão feito pelo Papa Francisco?

Eu acho que é um ato da teologia das palavras cruzadas. Porque ele diz que andou a cruzar documentos de João Paulo II, do cardeal Ratzinger e do Papa Francisco. Mas isto não é um problema de palavras cruzadas! Ou se aceita o caminho de abertura que o Papa Francisco abriu ou se recusa.

E estão a recusá-lo?

A maneira como este patriarca se pronunciou e o conselho dele parecem-me um bocado absurdos. O que significa para um casal a abstinência sexual? A ideia peregrina que existe há muitos anos do “viverem como irmãos”!... Então não casavam! Há coisas que não passam pela cabeça se a pessoa começar a pensar minimamente no que está a dizer! A meu ver, não houve orientação nenhuma, mas uma espécie de delírio mental.

O sentido da nota do patriarca aproxima-se mais do pensamento de João Paulo II, do de Bento XVI ou do do Papa Francisco?

Do Papa Francisco não. Com todo o respeito pela função de D. Manuel Clemente na Igreja de Lisboa, o problema é que foi um ato falhado sobre algo que, em primeiro lugar, devia remeter para consciência do casal. E com um efeito perverso: muita gente vai pensar que isto é que é a Igreja, porque ele é que é o patriarca de Lisboa e o presidente da Conferência Episcopal.

Será feita uma leitura errada da nota...

Vão começar a tirar ilações sem sentido. A Igreja é feita pelo conjunto dos cristãos. Santo Agostinho foi fantástico ao dizer: “Convosco sou cristão, para vós sou bispo.” O bispo de Lisboa tinha de contar primeiro que era cristão aos cristãos casados. E, como bispo, ajudar. O que vai ficar na opinião pública é que para os cristãos recasados o melhor é viverem em abstinência sexual. O problema é criar-se a ideia de que a Igreja são os bispos e os padres. Isso acho triste. E teve outro efeito: a pastoral de um bispo fixou a atenção de crentes e de não crentes numa realidade absurda.

Esta nota representa os católicos portugueses?

É evidente que não. Já há bispos com outros pronunciamentos. Há pessoas encarregadas das pastorais em dioceses [Viseu e Évora] que não se identificam com a nota do cardeal-patriarca. O que significa que os bispos dessas dioceses já tomaram uma orientação diferente.

REVIVER O PASSADO DO PRÉ-VATICANO II

Frei Bento Domingues fala com o desassombro de sempre. Em algumas das respostas, sem mencionar D. Manuel Clemente, a crítica vai direitinha para o cardeal-patriarca de Lisboa. Desde logo quando lembra que só no “pré- Vaticano II” vingava a “ideia de que a Igreja são os padres e os bispos”, o que o leva a declarar que “há pessoas que ainda estão no pré-Vaticano II”. Quanto ao resto, nomeadamente o facto de haver opiniões diferentes entre o episcopado português, a explicação é simples: “Os bispos são um ministério, um serviço à comunidade. Às vezes o serviço é bom, outras vezes o serviço não é tão bom.”

Texto Paulo Paixão e Rosa Pedroso Lima

in Expresso, 11.02.2018

6 comentários:

  1. Graças a DEus, existem pessoas esclarecidas na Igreja católica portuguesa, embora poucas.

    UMa lástima que as boas informações que tenho sobre Clemente sejam totalmente desmentidas pelos seus comportamentos.

    Acho lamentável que a maior parte da instituição em Portugal siga Raymond Burke, pois por este caminho ainda reacendem fisicamente as fogueiras da Inquisição

    Bom resto de semana

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    1. E é assim que mais e mais pessoas se afastam da Igreja, São.
      Com atitudes destas é difícil que se leve a Igreja a sério.
      Bom resto de semana

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  2. Se a Igreja os recasou, são casados à sua luz.
    Ponto final.
    D. Manuel Clemente não foi muito feliz ...

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    1. Dizer que não foi muito feliz é MUITO simpático, João Manéres.
      Que disparate foi dizer D. Manuel Clemente.

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  3. Uma posição aberta e esclarecida. Nem sei como classificar D. Manuel Clemente.
    Abraço e dia feliz

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    1. Assim de repente diria tonto, Elvira Carvalho.
      Abraço, votos de um dia feliz

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