Mário Soares e a religião, por Anselmo Borges, DN 07.01.2017


Encontrei várias vezes Mário Soares, também em contexto religioso.

Felicitou-me vivamente por umas palavras de despedida no funeral de Natália Correia, com este final: ""Para onde vão os mortos?", perguntava o filósofo Bernhard Welte. Para o Silêncio? Para o Nada? É este Nada que a todos espera. Que Nada? Não está, à partida, decidido como deve ser interpretado este Silêncio e este Nada. Trata-se de um silêncio morto ou de um Silêncio vivo, habitado? Trata-se de um nada negativo ou de um Nada enquanto ocultação absoluta do Mistério vivo, como quando dizemos: aqui não vejo nada, mas sabendo que lá pode estar algo e até o essencial? Quando se olha para o Sol, não se vê nada, tal é o excesso de luz. Este nada é pura e simplesmente nada ou, pelo contrário, o Nada experienciado na morte é a figura do Mistério oculto que a tudo dá sentido e fundamento? Natália, foi no Espírito Santo, tal como o entendias, que acendeste a tua luz e cantaste o fogo do teu canto. Natália querida, no mistério da despedida, que agora mais misteriosamente te envolve, seja ainda o Espírito Santo te guie!"

Fiz uma vez, na Universidade Católica, em Lisboa, uma conferência sobre o pensamento do Padre Joaquim Alves Correia, o padre português mais clarividente do século XX, antecipando inclusivamente o Concílo Vaticano II. Mário Soares, que presidiu, deixou, no final, todas as pessoas sair, para me dizer: Sabe? O António Sérgio, quando lhe apareciam jovens com problemas de fé, mandava-os para o Padre Joaquim Alves Correia. No meu caso, ele já tinha sido exilado. Hoje, estou convencido de que, se não se tivesse dado esse exílio e tivesse tido a oportunidade de me encontrar com ele, possivelmente, em vez de agnóstico, seria crente.

Outra vez, num debate sobre a liberdade religiosa, em Lisboa, uma senhora ousou perguntar-lhe se pensava na morte e no seu depois. E Mário Soares (também aqui cito de cor): A minha mulher é crente. Eu não tenho esse dom. Sou laico, agnóstico. Evidentemente, penso nisso: qual o fundamento de tudo quanto há?, o que é que andamos cá a fazer?, qual o sentido da nossa existência? Mas não tenho fé. Se, na morte, Deus me aparecer, dir-lhe-ei: Ainda bem! Claro, ficarei contente.

"Onde é que eu estarei, quando cá já não estiver", é a pergunta lancinante que Tolstoi coloca na boca de Ivan Ilitch moribundo. Mário Soares partiu. A minha fé diz-me que Deus lhe foi ao encontro. E Mário Soares: Ainda bem que existes! E ficou contente. Porque o Deus em que acredito é o Deus que está do lado da liberdade, aquela liberdade por que Mário Soares se bateu e por cuja luta nós todos lhe estamos profundamente agradecidos. Mário Soares foi um combatente pela liberdade e pela tolerância. A ele se deve em grande parte que, por causa dos ensinamentos colhidos da Primeira República, não tenha havido, no 25 de Abril, conflitualidade religiosa.

Comentários

  1. Conheci Anselmo Borges em Fevereiro de 1977 e sempre apreciei a sua clarividência e a forma como se relaciona com a sua religião. Tudo o que aqui escreve justifica a admiração que ambos temos por Mário Soares. Mesmo discordando dele muitas vezes ( para tempos mais tarde perceber que a razão estava do seu lado), ficar-lhe-ei eternamente grato pela luta que travou em defesa da Liberdade e da qual eu e todos os portugueses hoje beneficiamos. Estou-lhe igualmente grato por ter trabalhado para que Portugal fosse de novo reconhecido na cena internacional. Nem todos são obrigados a admitir a importância de MS no seu modo de vida actual, mas Portugal não seria o que é hoje sem ele. Há muita ignorância e ingratidão em quem se recusa a admitir essa verdade. A ingratidão não me indigna, mas a ignorância provoca-me pena.

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    1. Anselmo Borges é um ser superior, Carlos.
      Uma daquelas personalidades que engrandece a Igreja.

      Mário Soares será tema para hoje.
      Adianto que, um dos méritos que lhe reconheço, e pelo qual lhe sou grato, é o facto de estar aqui, mesmo em Macau, a escrever o que me dá na real gana sem ser incomodado, muito menos perseguido por isso.

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  2. Belo texto.

    E estive nesse Encontro, e eu sou crente, sim.

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    1. Anselmo Borges, que espero vir a conhecer pessoalmente através do meu pai, é um ser superior, São.
      E sim, também eu sou crente.
      Embora muito crítico de algumas posições da Igreja Católica.

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  3. Mário Soares não se dizia ateu, mas sim laico e agnóstico...
    Há uma grande diferença...
    É sempre muito agradável ler o Padre Anselmo.
    Beijinhos.
    ~~~~

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    1. Socialista, republicano e agnóstico.
      Não foi assim que se apresentou ao eleitorado, Majo?

      Anselmo Borges vai continuar a ser presença assídua por aqui, Majo.

      Beijinhos

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