Quem manda na Igreja? Padre Anselmo Borges


1 A Igreja está em crise? Quem duvida? No entanto, "vivemos tempos de esperança. A Igreja tem uma "oportunidade de ouro", já que é, sociologicamente falando, católica, espalhada por todo o planeta, e a única instituição mundial que está estruturada, hierarquizada e que forma uma unidade. Não há outra. E é a única com capacidade de opor-se ao capitalismo financeiro dominante, que faz do dinheiro autêntico bezerro de ouro. Desde os tempos de Constantino, nunca a Igreja esteve tão livre do poder. Mas a Igreja deveria passar do modelo piramidal, com o Papa no vértice e um protagonismo excessivo, para a descentralização em rede, com um nó central que é o papado. Então entraríamos verdadeiramente na idade de ouro do cristianismo".
Este é o sonho, concretizável, do sociólogo católico Javier Elzo, expresso e desenvolvido numa obra importante, que obriga a reflectir, e acabada de publicar, com o título "Quem manda na Igreja? Notas para uma sociologia do poder na Igreja Católica do século XXI".

2 Evidentemente, a missão da Igreja é que os seus membros e os seus grupos sejam "testemunhas do invisível e ao serviço dos mais pobres e necessitados", aplicando o amor, a denúncia profética de um mundo injusto, a proposta de outro mundo mais justo.
Mas a Igreja é também terrena e precisa de organização. Ora, a sua presente estrutura não se adequa aos tempos actuais nem ao Evangelho, já que "a Igreja somos nós todos". De facto, o que é que se constata? "A voz que se ouve na Igreja é a voz de homens celibatários, enquanto a voz das mulheres e a dos homens casados quase não se ouve. Há que reconhecer que um organismo que se diz católico, portanto, universal, onde mais da metade dos seus membros, as mulheres, e a grande maioria da outra metade, homens casados ou solteiros, mas não celibatários, quase não têm voz, é um organismo um pouco estranho. Raro. Preocupante." Afinal, quem decide na Igreja e como? Poucos, homens celibatários e de idade muito avançada, de tal modo que, para eleger o seu responsável máximo, o Papa, entre um grupo selecto de pouco mais de cem homens, foi decretado que tenham direito a voto apenas os que não ultrapassaram os 80 anos de idade. Sim, a Igreja, que representa a sexta parte dos habitantes do planeta, é "uma Igreja piramidal, com um Papa com poderes praticamente ilimitados" ("monarca absoluto", diz o teólogo J. M. Castillo), "uma Igreja gerontocrática, masculina, clerical, europeísta, Igreja que é governada, em última instância, por poucas pessoas: o Papa, os bispos em exercício e a burocracia da Cúria Romana". O modo de tomada de decisões na Igreja é "hierárquico, vertical, secretista, onde não brilha a transparência, e com exclusão da maioria".

3 Impõe-se um novo modelo de Igreja e de governança, no sentido da sinodalidade, pois o que a todos diz respeito deve ser participado e decidido por todos. A sinodalidade (caminhar em conjunto) é o modelo a seguir em todos os níveis: paroquial, provincial, nacional, continental, planetário. Para que a Igreja se afirme como comunhão, Povo de Deus, com a participação de todos.
J. Elzo começa por criticar, aliás na linha do Papa Francisco, que em Filadélfia declarou que o futuro da Igreja passa pelos leigos e pelas mulheres, a clericalização da Igreja. E acentua fortemente que os cargos na Igreja, nomeadamente o papal e o episcopal, devem ser temporários, o que permitiria, por exemplo, eleger um Papa ou bispo mais jovens, já que não haveria o perigo da eternização no cargo.
Pensando na Igreja universal, contra uma Igreja piramidal, centralizada e clerical, propõe uma Igreja em rede, com um Sínodo universal enquanto estrutura permanente, que se reúne periodicamente e não necessariamente em Roma. "Outro modelo de Igreja para o século XXI: uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, inter-relacionados entre si e todos religados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. No Vaticano ou noutras partes do planeta, todos os anos se reuniria uma representação universal de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos (homens e mulheres), todos sob a presidência do Papa, para debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as decisões pertinentes."
Num mundo globalizado, o Papa tem um papel crucial como líder supremo da Igreja Católica, continuando a ter a última palavra. Mas, com um Sínodo universal, no qual também os leigos têm direito a voto, se ele adoptar uma decisão com uma maioria clara (dois terços?), o Papa deveria aceitá-la e "agir em consequência" ou demitir-se. Por outro lado, é preciso atender às diversas culturas, com a inculturação, e não confundir, pois isso seria "um erro mortal", como já tinha prevenido J. Maritain, por exemplo, "latinidade e catolicismo ou ocidentalismo e catolicismo".
in DN 07 DE MAIO DE 2016

Comentários

  1. Mais uma vez, brilhante, Pedro.

    Aquele abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vamos ver se é este ano que tenho a oportunidade de conhecer Anselmo Borges pessoalmente, Ricardo.
      Aquele abraço

      Eliminar
  2. ~~~
    Intervenções sempre pertinentes, lúcidas e excelentes.

    Beijinhos.
    ~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Presença assídua e obrigatória aqui no blogue.
      Beijinhos

      Eliminar
  3. Um olhar lúcido para dentro da igreja. Apesar de a igreja sermos todos nós, a verdade é que a sociedade se sente pouco representada pela igreja.

    Um beijinho, Pedro

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esse é o grande drama da Igreja na actualidade, Miss Smile - está longe dos fiéis.
      E, como tal, vai perdendo fiéis.
      Beijinhos

      Eliminar
  4. Uma vez mais um excelente artigo.
    Um abraço

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Obrigado pelo seu comentário

Mensagens populares