Notável fotografia...de Paulo Portas

Execração de Paulo Portas

por Mário de Carvalho 


Vamos lá gastar alguma cera com esta criatura. Mais uma concessão ao efémero.
Começo por estranhar a benevolência relativa com que ela tem sido tratada.
Como se um instinto nato de harmonia obrigasse a atenuar a flagrância do mau gosto.
Um querido amigo meu, a certo desabafo, sugeriu que o meu desprezo era «emocional».
Havia aqui uma sugestão de parcialidade política.
Devo defender-me disso.
Na verdade, até aprecio e respeito algumas pessoas que se dizem amigas do doutor Portas.
E verifico que ele tem esta particularidade estranhíssima: todos os seus amigos são melhores que ele. 
Recordo os tempos muito catitinhas de «O Independente», cheios de peripécias e partes gagas.
Costuma evocar-se - e com razão - o rasgo inovador e dinâmico do jornal.
Pouca referência se faz - e sem razão - ao lastro de frioleira e alarvidade que lhe pesava como chumbo. 
Portas esteve por então envolvido numa campanhazinha muito marota e fraldiqueira contra a «meia branca».
Estas coisinhas davam-lhe muito prazer.
Em dada altura dedicou-se à política (em revogação do desdém pedante antes manifestado)
e é hoje -com Jardim e Cavaco- um dos políticos de mais longo exercício.
Ainda tenho nos ouvidos os gritinhos de «ó Margarida», «ó Margarida!» com que ele pontuou uma entrevista qualquer, dada a uma jornalista que viria a ter um fim infeliz. 
Toda a sua vida pública (e provavelmente a outra) é feita em permanente pose.
Tem atitudes; Olhares longamente estudados; máscaras de sisudez de Estado; esgares trabalhadíssimos; soslaios de palco amador; sorrelfas; sorrisinhos desdenhosos; trejeitinhos manhosos; «boquinhas e olhinhos»; meneios de cabeça; artifícios retóricos como o de perguntar repetidamente «sabe que...?».
Às vezes tenta o furor tribunício, mas a voz não lhe dá para tanto; experimenta a pose imperial, mas é pequenote mesmo para Napoleão.
Ainda é um homem novo. 
Quando for mais velho lembrará uma deprimente figura de actor que aparece na «Roma» de Federico Fellini. 
Talvez a exposição pública da política exija um certo histrionismo. 
Mas então, que se seja bom actor. E não se deixe no ar esta grande vontade de pedir a devolução da entrada. 
Já o vi a exaltar a «lavoura» em vezos saudosistas (menos insinceros do que parece); já o vi a ajoelhar, numa capela, com os dois joelhos, numa compunção beata; já o vi a bramir, numa cena movimentada, contra «os ciganos do rendimento mínimo»: já o vi em festarolas de aldeia, ou em obscenas rondas de lares de idosos, ou a debitar banalidades de dentadura a rebrilhar.
Já o vi a dizer (e a fazer) trinta por uma linha. 
E já o vi a disparatar abertamente, quando, evitando o russo «troika» (alguém o convenceu de que a atrelagem russa era uma palavra «soviética»...) optou por «triunvirato»,  solução histórica tradicionalmente catastrófica.
Apesar de tudo, sempre é melhor que a ridícula revogação da decisão «irrevogável». 
Esperava-se que ocupasse a Administração Interna, depois de ter feito histérica algazarra (ora obnubilada...) sobre a segurança. 
Não.
Foi para os Negócios Estrangeiros, para se descomprometer e fazer de conta (sempre o fingimento, o obsessivo, doentio, fingimento) que era alheio às mexerufadas da famulagem financeira.
A seu tempo ressurgiria em atitude messiânica, como resgatador dos infelizes. 
Sempre o calculozinho. Contas furadas. 
Deixou uma nota de subserviência a manchar a diplomacia portuguesa com o caso Snowden.
Em tempo de crise política interna, a situação foi minimizada, ninguém estava a espreitar.
Mas as consequências para os interesses de Portugal (já não falo nos princípios) serão lastimáveis. 
Creio que Freitas do Amaral nunca se prestaria a esse papel.
Paulo Portas não a desmentiu, neste ziguezague da sua carreira, que se espera abreviada. 
Ao longo de quase vinte anos, houve a universidade Moderna, as deslealdades para com dirigentes políticos afins,   a fotocópia de toneladas de documentos da República Portuguesa, a questão dos submarinos.
Por estes interstícios, o doutor Portas tem deslizado como enguia em sargaço. Com uma certa complacência, é preciso dizê-lo, da comunicação social. 
Agora aí o temos, repescado para o governo em circunstâncias equívocas. A existência deste homem tem sido, aliás, amalgamada de equívocos.
Dir-se-ia que não é capaz de viver de outra maneira. Há nele uma vertiginosa atracção pelo Mal.
Para usar a velha comparação americana da venda do automóvel usado, creio   que se o doutor Portas tivesse um carro em bom estado para vender, não deixaria de o avariar,   por puro fascínio do ludíbrio. 
E sobre a personagem, fiquemos por aqui. Seria fácil (demasiado fácil) usar uma fotografia ilustrativa das milhentas disponíveis na NET.
Mas prefiro deixar-vos  com o Narciso de Caravaggio que também vem a propósito.
Para ser franco, preferia ter tido a oportunidade de dizer´algum bem ’ , em vez de execrar. 
MdC



Narciso, Caravaggio

Comentários

  1. Concordo, Pedro, um texto para a posteridade!

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    1. Um sabidão, o Portas, Ricardo.
      aqui exemplarmente retratado.

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  2. Eu sou do CDS e até gostava do Paulo Portas, mas já está mais que na hora de o partido mudar de liderança. O que não falta no partido é gente com fibra e com eles no sítio.

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    1. Firehead,
      O Portas só sai do CDS, se, e quando, ele quiser.
      E, se isso acontecer, o partido não vai ter a mesma expressão

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  3. Mário de Carvalho acutilante como sempre e com boa memória.

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    1. O Mário de Carvalho fez o trabalho de casa, Carlos.
      Um artigo supimpa!

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  4. O Narciso do Caravaggio é mal empregado para lembrar Portas.
    Mas o Narciso mito está bem empregado.
    Excelente texto muito bem lavrado.
    Parabéns para o seu amigo.
    Beijinho, Pedro. :))

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    1. O Mário de Carvalho não é meu amigo, ana.
      Mas, com este raciocínio, até gostaria que fosse.
      O artigo é brilhante!
      Beijinho

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  5. Um notável retrato de PP, duro mas realista e sem esquecer nenhum dos pormenores do passado de uma personagem tão maquiavélica. Faltou, talvez, a história da Vichyssoise com o tio Marcelo, mas aí estão bem um para o outro, que a esse também não falta maquiavelismo... :)

    Beijocas

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    1. Quando duas víboras se picam, Teté.
      É isso que me apetece comentar.
      Beijocas

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  6. Quem é o Mário de Carvalho???

    Afinal o Paulo Portas é uma figura interessante para o Mário de Carvalho perder tanto tempo a fazer-lhe um retrato tão longo.

    Eu cá prefiro políticos maquiavélicos a políticos estúpidos.

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    1. Mário de Carvalho é professor e escritor, ematejoca.
      E sim, Paulo Portas é uma figura interessante.
      também eu, e julgo que Mário de Carvalho, partilhamos da sua preferência

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