30 de setembro de 2019

Um Suminho de Limão


Num bar esconso, num porto, um letreiro dizia: 
«Oferecem-se 500 euros a quem conseguir tirar sumo ao limão.»

Um tipo magricela entrou e perguntou que aposta era aquela.

 Um dos clientes do antro explicou que o dono da taberna, um latagão de 2 metros de altura, espremia completamente um limão e apostava com quem quisesse que não era possível tirar daquele limão nem mais uma gota de sumo.

— E eu também posso experimentar? — perguntou o lingrinhas.

Depois de ter rido a bom rir, o outro explicou-lhe:

— Já houve muitos que tentaram: 
estivadores, tipos das obras… 
Mas olhe que nem um ganhou a aposta!

Mesmo assim o pequenote quis tentar a sorte. 

Pegou no limão espremido pelo outro e, enquanto os outros riam a bom rir e iam pedindo copos de vinho, o homenzinho lá ia espremendo, espremendo, com persistência, sem nunca abrandar, até que, para surpresa de todos, lá apareceu mais uma gotinha de sumo.

Todos ficaram estupefactos, mas não havia dúvida: 
o homem tinha conseguido tirar sumo de um limão completamente seco.

— Diga-me uma coisa — perguntou o taberneiro cheio de admiração—, qual é a sua profissão? 
O senhor é estivador?

— Não — respondeu o outro com um sorriso finório —, sou funcionário do Ministério das Finanças…

BOA SEMANA
(Vou dar uma saltada à Pátria e volto já)

27 de setembro de 2019

Foi mesmo apanhado em flagrante


Um gajo está na cama com uma mulher, que não é a dele, quando ouve os passos do marido.

A mulher manda-o pegar as roupas e sair pela janela. 

Ele resmunga porque está a chover muito, mas não tendo outra solução, salta e cai no meio da rua, onde está a passar uma maratona.

Ele aproveita e corre junto com os outros, que o olham de um jeito esquisito. 

Afinal, ele está sem roupa! 

Um corredor pergunta:

– Corres sempre sem roupa?

– Sim! – Responde o homem – É tão bom ter uma sensação de liberdade…

Outro corredor pergunta:

-Mas corres sempre assim… com as roupas nas mãos?

O gajo não se dá por vencido:

– Eu gosto assim. Posso vestir-me no fim da corrida e ir para o carro para ir para casa…

Um terceiro corredor insiste:

– Mas corres sempre com as roupas nas mãos e com um isso enfiado no coiso?

Aí o gajo responde:

– Só quando está a chover!

BOM FIM-DE-SEMANA

26 de setembro de 2019

Fazer omeletes sem ovos


Todos crescemos a ouvir a expressão “fazer omeletes sem ovos” quando se procurava descrever uma situação de impossível solução.
Os novos tempos, o advento e a popularização da cozinha vegan, tiraram algum sentido a esta expressão.
Sim, já é possível fazer omeletes sem ovos.
Não as omeletes que estávamos habituados a consumir, mas outras versões.
Onde ainda não se aprendeu a fazer omeletes sem ovos foi no Estádio José de Alvalade.
Pediu-se isso a Marcel Keizer, pede-se agora a Leonel Pontes.
Nenhum deles propriamente um mestre-cuca, muito menos um verdadeiro chef, mas, sejamos honestos, também sem disporem de ingredientes capazes de lhes proporcionarem a possibilidade de confeccionar uma iguaria potencialmente famosa.
Tantas discussões, tantas análises, para ver o óbvio – o grande problema do Sporting, o que origina esta onda de maus resultados, é uma enorme falta de qualidade no plantel.
Se na época transacta a equipa do Sporting era Bruno Fernandes e mais dez, esta época, sem o abono Bas Dost, é mesmo só Bruno Fernandes.
Quando ele falta é um perfeito deserto, uma equipa vulgar.
Pode mudar-se o treinador, o sistema de jogo, os jogadores, que o essencial continua a faltar – opções de qualidade.
Se ainda houver dúvidas acerca deste diagnóstico eu termino com uma pergunta – quantos jogadores do Sporting queriam ver na equipa que apoiam?
Pois, Bruno Fernandes.

Intemporais (181)

Porque Sir Paul McCartney diz que as versões de George Benson são as suas favoritas

25 de setembro de 2019

Sistemas a funcionar


Nas últimas horas o espaço noticioso foi dominado por duas grandes notícias - a decisão do Supremo Tribunal na Inglaterra  relativamente à suspensão do Parlamento e a decisão de se iniciar um processo de destituição (impeachment) do Presidente nos Estados Unidos.
São os sistemas a funcionar, é a tripartição de poderes levada à prática.
Muito mais que barulho, discussão em surdina ou no espaço público, opiniões e pareceres, o que é importante é deixar os sistemas funcionar.
Boris Johnson foi demasiado longe na sua intenção de levar por diante uma suspensão do Parlamento? Donald Trump traiu o país e aliou-se a potências externas?
Perguntemos os tribunais, deixemos o poder judicial fiscalizar (no caso do impeachment nos Estados Unidos, o Senado) o poder político-administrativo.
Mais que a notícia, o impacto mediático, interessa-me o exemplo.
Um exemplo que devia ser seguido em toda a parte (a começar por Macau, obviamente...).
Quando não se concorda com decisões do poder político, das autoridades administrativas, há mecanismos para as enfrentar e combater.
E, se as convicções são fortes, e a coragem também, devemos ir até ao fim.
Só assim teremos legitimidade para criticar os sistemas, só assim poderemos provar se funcionam ou não. 

Confounds the Science - (Parody of) Sound of Silence

24 de setembro de 2019

Vacas sagradas


Quando Cavaco Silva era Presidente da República a sua tirada acerca das vacas ficou nos livros, no anedotário real.
Quiçá inspirado nesse bizarro momento, o Reitor da Universidade de Coimbra veio agora mostrar a sua preocupação com os pobres mamíferos.
Os tais que só os hindus, Cavaco Silva, e agora o Reitor da Universidade de Coimbra, compreendem e respeitam.
Tento encarar a situação com leveza, com humor, mas confesso que não é fácil.
Para quem estudou naquela Universidade, para quem para sempre a ela estará ligado, não é fácil ver a Universidade de Coimbra ser falada pelo que não devia.
Ser objecto de ridículo, de chacota, ser fonte de anedotas e não de respeito.
A mesma Universidade que parece algo adormecida, que cai nos rankings, internos e externos, enquanto o Reitor se preocupa com…as vacas.
Quero ver a minha Universidade nas notícias por ser um exemplo na investigação, na inovação, na pesquisa, no conhecimento.
Não porque já não se come carne de vaca nas cantinas.

ACABAR COM A CHANTAGEM (Frei Bento Domingues, O.P. )



Escusam de continuar com as ameaças de cisma.
 Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.

1. O acontecimento mais importante, na liderança da Igreja Católica, nos últimos tempos, não pode passar despercebido ou dissolvido no ruído dos noticiários acerca do Vaticano.
O Papa Francisco, ao regressar da última viagem apostólica a vários países africanos (Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias), não se limitou a responder às perguntas e curiosidades dos jornalistas, de forma aberta e desinibida, como sempre faz. Desta vez, foi muito mais longe. Decidiu colocar um ponto final na chantagem que se arrastava, dentro e fora do mundo católico, desde o começo do seu pontificado: a ameaça de um Cisma.
Para quem conhece alguma coisa da história do cristianismo, não pode ignorar os efeitos terríveis que essa palavra evoca, efeitos que ainda hoje persistem, apesar de todas as iniciativas ecuménicas.
Dada a desenvoltura com que se pronunciou, terá Bergoglio esquecido as catástrofes dessa “bomba atómica” no tecido da Igreja? Essa ameaça não deveria aconselhar o Papa a ter mais cuidado com o que diz e faz e, sobretudo, com o modo provocador como fala e actua? Não saberá que está sempre a pisar terreno armadilhado?
     Neste caso, essas perguntas não conseguem esconder uma solene hipocrisia. Dito de outro modo: o Papa Francisco para não causar um cisma na Igreja deve renunciar a cumprir o programa do seu pontificado, tornar-se prisioneiro do medo, asfixiar a liberdade de expressão e concordar que o Vaticano continue num regime de monarquia absoluta!
Teria de anular tudo o que fez e desistir do futuro: da reforma da Cúria; do combate ao clericalismo e ao carreirismo eclesiástico; da denúncia da economia que mata e da religião que manda matar; do acolhimento das vítimas da guerra e dos que fogem da miséria; deixar de ver o mundo a partir dos excluídos e marginalizados; de aceitar que haja cidadãos de primeira e de segunda; de incitar a Igreja a deslocar-se para as periferias; da revisão do papel dos colégios e das universidades católicas; das alterações nas práticas teológicas para que recusem o papel de ideologia da dominação económica, política e religiosa; da encíclica Laudato Si sobre a ecologia integral; da irradicação da pedofilia no seio das instituições eclesiásticas e seus responsáveis; das conclusões do Sínodo sobre a Família reunidas no documento polémico Amoris Laetitia; de incentivar o debate sobre os ministérios das mulheres na Igreja; de renegar o caminho sinodal como reclamam os opositores vaticanistas à opção dos Bispos alemães; da convocatória para o estudo de alternativas económicas; dos passos gigantescos nos caminhos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso; de nunca procurar nas suas deslocações pelo mundo poder para a Igreja católica, mas que se torne exemplo desinteressado para os mais pobres, etc. etc..
2. Acontece, porém, que longe de renunciar ao programa do seu pontificado, de bloquear em si e nos outros a criatividade, alarga-a e estimula-a cada vez mais.
     A 15 de Outubro de 2017, abriu uma nova frente de inquietações e trabalhos, cujas consequências vão muito para além dos seus previsíveis anos de vida.
     O melhor é dar-lhe a palavra: «Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazónica. O Sínodo será em Roma, em Outubro de 2019. O objectivo principal, desta convocatória, é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, e por causa da crise da Floresta Amazónica, pulmão de capital importância para o nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram os caminhos da justiça e de paz».
A 17 de Junho deste ano, foi publicado o documento de trabalho, Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
Papa reunirá, no Vaticano, entre os dias 6 e 27 de Outubrobispos dos nove países que abrangem a região Pan-amazónica.
Desde a corajosa convocatória em Outubro de 2017, tudo se agravou. De Janeiro a Setembro deste ano, já foram contabilizados 106.141 focos de incêndios florestais na Amazónia. De um assunto que alguns teimavam em considerar puramente regional transformou-se numa questão global.
3. Estamos todos na mesma Casa Comum. Como diz o teólogo brasileiro L. Boff, voltamos do exílio, depois de milhões de anos, e agora estamos todos juntos no mesmo lugar, no planeta Terra. Esta não pertence a ninguém em particular. É um bem comum de toda a humanidade e de toda a comunidade de vida (animais, árvores, microorganismos, etc.). Amazónia é parte da Terra. L. Boff insiste: O Brasil não é senhor da Amazónia. Possui apenas a gestão dessa parte que administra mal e de forma irresponsável. 
As causas da redução da área natural da Amazónia são múltiplas e essencialmente económico-sociais. Há grandes interesses ligados ao agro-negócio, à criação da soja, à produção da carne de vaca, à indústria madeireira e não só. Segundo a investigação do Ministério Público brasileiro, algumas destas forças organizaram-se para promover um horrendo “dia de fogo” em Agosto passado.
No próximo dia 22 de Setembro, no âmbito da quinta edição do Átrio de Francisco, serão projectadas, na fachada da basílica superior de S. Francisco de Assis, as imagens do novo projecto fotográfico de Sebastião Salgado, sobre essa vasta região da América do Sul que tem estado no epicentro das notícias devido à acelerada desflorestação.
Voltemos à questão do começo. O Papa Francisco não deseja abafar as críticas que lhe fazem. Ajudam-no sempre e não vêm apenas dos americanos, vêm da própria Cúria! “Não gosto quando surgem de debaixo da mesa e te fazem sorrisos a mostrar os dentes e, depois, espetam-te a faca nas costas. Isso não é leal, nem humano. Disso não gosto!” Escusam de continuar com as ameaças de cisma. Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.
Basta de chantagens!
in Público, 22.09.2019

23 de setembro de 2019

Angelina e o pé na banheira


Mãe, Angelina, de 100; Nini, a comadre desta, de 84;  e Luísa, filha de 78 aninhos de idade, viviam na mesma casa.

Uma noite, Angelina, a de 100, começa a encher a banheira para tomar banho; põe um pé dentro da banheira, faz uma pausa e grita:
– Alguém sabe se eu estava entrando ou saindo da banheira?

A comadre Nini, de 84, responde:
– Não sei, mas vou já subir aí para ver!

Começa a subir as escadas, faz uma pausa, e grita:
– Eu estava a subir ou a descer as escadas?

A filha mais nova, Luísa, a de 78, estava na cozinha a tomar chá e a ouvir as duas, mãe e sogra, balança a cabeça e pensa:
– Que coisa mais triste! 
Espero nunca ficar assim tão esquecida…

E, prevenida, bate três vezes na madeira da mesa, e grita:
– Vou já ajudá-las, mas antes vou ver quem está a bater à porta!

BOA SEMANA

20 de setembro de 2019

AS RESPOSTAS MAIS CRIATIVAS NOS EXAMES NACIONAIS


HISTÓRIA

• Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.
• Quando os egípcios viam a morte a chegar, disfarçavam-se de múmia.
• O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0.
• O Convento dos Capuchos foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do monte.
• A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.
• Na segunda guerra mundial, toda a Europa foi vítima da barbie nazi.
• Na Idade Média os tratores eram puxados por bois, pois não tinham gasolina.
• A fundação do Titanic serve para mostrar a agressividade dos icebergs.
• Os escravos dos romanos eram fabricados em África, mas não eram de boa qualidade.
• Ao princípio os índios eram muito atrasados mas com o tempo foram-se sifilizando.
• Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.

BIOLOGIA, GEOLOGIA, CIÊNCIAS NATURAIS, PSICOLOGIA

• O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.
• O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia praticamente toda a gente tem um.
• Quando o olho vê, não sabe o que está a ver, então ele amanda uma foto elétrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.
• O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.
• O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebé. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.
• O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.
• A água tem uma cor inodora.
• Parasitismo é o facto de um gajo não trabalhar e viver à ‘pala’ dos outros, de dinheiro, cigarros e outros bens materiais.
• Ecologia é o estudo dos ecos, isto é, da ida e vinda dos sons.
• A baleia é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios.
• As aves têm na boca um dente chamado bico.
• Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica
• O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe.
• A homossexualidade, ao contrário do que todos imaginam, não é uma doença, mas ninguém quer tê-la.
• Newton foi um grande ginecologista e obstetra europeu que regulamentou a lei da gravidez e estudou os ciclos de Ogino-Knaus.
• A Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puxada por dois cavalos.

GEOGRAFIA

• A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.
• O sul foi posto debaixo do norte por ser mais cómodo.
• A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.

MATEMÁTICA, FÍSICA E QUÍMICA, ECONOMIA

• O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra!
• Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.
• Para fazer uma divisão basta multiplicar subtraindo.
• Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai molhado.
• Uma linha reta deixa de ser reta quando encontra uma curva.
• O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.
• Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.

BOM FIM-DE-SEMANA

19 de setembro de 2019

Sufrágio directo, sufrágio universal e sufrágio directo e universal


Os acontecimentos em Hong Kong têm sido fonte de frequentes equívocos.
O maior dos quais, opinião muito pessoal, a insistência em confundir sufrágio universal, sufrágio directo e  sufrágio directo e universal.
Ensina a melhor doutrina que o sufrágio universal é aquele que se verifica quando o direito de voto pode ser exercido por todos os cidadãos com capacidade legal para votar.
Já o sufrágio directo é aquele em que o eleitor pode votar directamente no seu candidato.
Logo, sufrágio directo e universal existirá sempre que os eleitores possam votar directamente nos candidatos que queiram, apenas com um requisito - que haja capacidade legal/eleitoral de uns e outros.
Se atentarmos no disposto no artigo 45 da Lei Básica de Hong Kong o que ali está previsto é o sufrágio universal, não o sufrágio directo e universal.
Mais, a segunda parte do artigo até parece, na sua literalidade, afastar a possibilidade de um sufrágio directo.
Pessoalmente, creio que Pequim sempre terá tido esta última possibilidade em mente.
Pequim resignar-se a ver como Chefe do Executivo de Hong Kong um qualquer cidadão com capacidade legal para tal?
Ficando apenas com o poder de “carimbar” o que já vinha decidido?
Alguém acredita seriamente nesta possibilidade?

Intemporais (180)

18 de setembro de 2019

O debate de todas as dúvidas


Esclarecimento prévio - não vi o debate televisivo entre António Costa e Rui Rio em directo.
Mas, de tudo o que já li e ouvi, algumas considerações podem ser tecidas, algumas certezas terão ficado, muitas dúvidas também. 
Primeira certeza, a julgar por todas as análises que li e ouvi repito e sublinho, Rui Rio terá vencido este debate. 
Uma vitória alicerçada no facto de Rui Rio ter conseguido centrar as questões num terreno muito mais tecnocrata, onde se sente muito mais confortável e onde está muito melhor preparado, do que estritamente político. 
Rui Rio não atacou a ideia que domina a sociedade portuguesa, que o Governo conseguiu bons resultados, mas procurou dizer que se fez muito menos do que era possível e expectável. 
E foi aí que traçou a grande diferença entre as propostas do PSD e do PS. 
O PSD propõe uma maior devolução de dinheiro aos cidadãos, propõe injectar mais dinheiro na economia para a fazer crescer, utilizando para isso a receita fiscal já arrecadada. 
Esta vitória, se poderá ser uma aparente certeza, levantou no entanto uma série de dúvidas. 
Desde logo saber se essa vitória terá estancado a sangria de votos no PSD, evitando por essa via a anunciada maioria absoluta do PS. 
A ser assim, saber se Rui Rio terá consolidado a sua liderança no PSD e na oposição à Geringonça que poderá afinal sair novamente das eleições de Outubro. 
Sem maioria absoluta, o PS teria novamente que recorrer ao auxílio dos ausentes sempre presentes no debate, Bloco de Esquerda e PCP. 
Ausente também sempre presente, e muito possivelmente grande derrotado neste debate, o CDS. 
Se Rui Rio conseguiu mesmo consolidar a sua liderança no PSD e na oposição ao futuro Governo, o CDS irá definhar ainda mais e Assunção Cristas poderá ter assistido ao final da sua liderança no CDS em directo nas televisões. 
O debate que devia esclarecer todas a dúvidas, se esclareceu algumas,  acabou afinal por deixar a pairar muitas mais.

What's happening in Hong Kong?

17 de setembro de 2019

O Irão depois do Iraque?


Depois do atoleiro que foi a invasão do Iraque, e dos efeitos devastadores que essa manobra táctica americana teve para todo o Planeta, será que Donald Trump se prepara para repetir a fórmula no Irão?
A retórica bélica tem-se acentuado desde que Donald Trump foi empossado.
A visão do Irão como inimigo figadal é óbvia, assumida, e levou mesmo ao abandono dos acordos anteriormente firmados.
Mas conhece agora novo desenvolvimento com os ataques às instalações da Saudi Aramco.
Ataques que provocaram uma queda de abastecimento de petróleo estimada em cerca de 5% e a consequente subida dos preços desta matéria-prima essencial.
Os ataques, efectuados com drones e reivindicados pelos rebeldes de etnia Houthi, concentrados no Iémen, terão na sombra a mão de Teerão.
Afirmação do príncipe saudita e que Donald Trump corrobora embora ainda deixe essa confirmação pendente de mais provas.
O mesmo Donald Trump que se apressa a garantir apoio aos seus aliados sauditas e que se afirma preparado para retaliar este ataque com força "nunca antes vista".
Depois de Bush no Iraque, e com sondagens cada vez mais desfavoráveis no caminho para a reeleição, estaremos à beira de assistir a um ataque de Trump no Irão? 

Francisco em África para o mundo (Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia)

                                                         
1. O Papa Francisco voltou a África. Numa viagem de contrastes: por um lado, Moçambique e Madagáscar, dois dos países mais pobres do mundo — Moçambique, com 70% dos 28 milhões de habitantes a viver abaixo do limiar da pobreza, é o décimo mais pobre; Madagáscar é o quinto mais pobre —, e, por outro, a República de Maurício, onde a economia cresce cerca de 5% ao ano, é uma ilha onde fazem férias turistas ricos. Francisco levava na bagagem objectivos essenciais: uma paz duradoura, o cuidado com o meio ambiente, o diálogo inter-religioso, um mundo globalizado justo. Numa visita multitudinária, em todo o lado foi recebido em festa e júbilo, com danças e tambores, como só os africanos sabem fazer.
A viagem decorreu entre 4 e 10 deste mês de Setembro. Ele próprio, no passado dia 12, já em Roma, descreveu o seu périplo por África e o que o moveu: “O Evangelho é o mais poderoso fermento de fraternidade, de liberdade, de justiça e de paz para todos os povos.”
1.1. “Em Moçambique fui semear sementes de esperança, paz e reconciliação numa terra que tanto sofreu no passado recente por causa de um longo conflito armado e que na passada Primavera foi vítima de dois ciclones que causaram danos muito graves.”
Em Moçambique, clamou perante as autoridades: “Não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.” E, sobre o processo de paz, no qual tem tido papel fundamental a Comunidade de Santo Egídio, quis exprimir o seu “reconhecimento”, dele e de grande parte da comunidade internacional, pelo esforço em ordem à reconciliação, que, sublinhou, “é o melhor caminho para enfrentar as dificuldades que tendes como Nação”. “Vós tendes uma missão valorosa e histórica a cumprir: Que não cessem os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem tecto, operários sem trabalho, camponeses sem terra: bases de um futuro de esperança porque é futuro de dignidade. Estas são as armas da paz.”
Certamente pensando no facto de Moçambique, entre 2001 e 2008, ter perdido 3 milhões de hectares de floresta — um total de 11% da sua área florestal (Madagáscar perdeu 3,63 milhões de hectares, o que representa uma diminuição de 21% —, pediu, com a igualdade, a defesa da terra e da vida, frente aos que exploram e desflorestam em seu próprio benefício — os principais responsáveis são os chineses —, num “afã acumulativo que, em geral, nem sequer é de pessoas que habitam estas terras e não é movido pelo bem comum do vosso povo”.
   Acusado de visitar Moçambique em campanha eleitoral, Francisco respondeu, já no avião, de regresso a Roma: “Não foi um erro, foi uma opção decidida livremente, porque a campanha eleitoral começou nestes dias e foi eclipsada pelo processo de paz. O importante era ajudar a consolidar este processo. E isto é mais importante do que uma campanha que ainda não começou. Ao fazer o balanço, é necessário consolidar o processo de paz. E também me reuni com os dois opositores políticos, para sublinhar que o importante era isso e não para animar o presidente, mas para sublinhar a unidade do país.”
    1.2. Francisco continua a narrativa da sua viagem: “De Maputo segui para Antananarivo, capital de Madagáscar. Um país rico em beleza e recursos naturais, mas vítima da pobreza. Desejei-lhe que, animado pelo seu tradicional espírito de solidariedade, o povo malgaxe possa superar as adversidades e construir um futuro de desenvolvimento, conjugando o respeito pelo meio ambiente e a justiça social.”
Madagáscar, um país esquecido, encontra-se entre os cinco países mais pobres do mundo e os católicos representam 36% da população. A luta contra a pobreza, a crise climática — simbolicamente, contra a desflorestação, Francisco plantou juntamente com o Presidente de Madagáscar um baobá, “a mãe da floresta” — e a necessidade da transformação da sociedade para uma distribuição equitativa dos recursos foram os eixos da intervenção papal.
Uma multidão de mais de cem mil jovens reuniu-se para abraçar o Papa e dialogar com ele. Perante um milhão de fiéis na Missa em Antananarivo, numa esplanada imensa em terrenos da diocese e de um cidadão muçulmano que os cedeu para a celebração, Francisco clamou contra “a cultura dos privilégios e da exclusão: favoritismos, amiguismos e, portanto, corrupção”, advertindo igualmente contra “o fascínio por ideologias que acabam por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar actos de violência, segregação e até homicídio, exílio, terrorismo e marginalização”. “A pobreza não pertence ao plano de Deus”.
O momento mais emocionante da viagem foi o encontro com 8.000 crianças na visita à chamada “cidade da amizade”, Akamasoa, um lugar onde antes havia uma enorme lixeira e agora há casas, pequenas, mas dignas, escolas, espaços de recreio, para milhares de famílias que puderam recuperar o seu trabalho e a dignidade. Foi construída pelos próprios pobres, com a ajuda do padre argentino Pedro Opeka: afinal, “a pobreza não é uma fatalidade”. “Rezemos para que em todo o Madagáscar e noutras partes do mundo se prolongue o brilho desta luz e possamos conseguir modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do esforço.”
1.3. “A Segunda-Feira dediquei-a à visita da República de Maurício, conhecido lugar turístico, mas que escolhi como lugar de integração entre diversas etnias e culturas.”
O país, com pouco mais de 1,2 milhões de habitantes, com pessoas de origem indiana, africana, chinesa e europeia, sobretudo francesa, é o único do continente africano com uma maioria hindu (48,5%) — 32,7% são cristãos e 17,2% são muçulmanos —, e é um exemplo para todos no que respeita ao diálogo entre culturas, pessoas e religiões.
Na Missa, na qual participaram 100.000 pessoas, 8% da população, o Papa reflectiu sobre as Bem- aventuranças, “o bilhete de identidade dos cristãos”.
No seu último discurso oficial, fez como que uma síntese, pela positiva, das suas preocupações nesta viagem. Dirigiu-se às autoridades de Maurício, que, desde há anos, possui “não só um rosto multicultural, étnico e religioso mas, sobretudo, a beleza que provém da vossa capacidade de reconhecer, respeitar e harmonizar as diferenças existentes em função de um projecto comum”.
Agradeceu à população o ensinamento que dá ao mundo: “é possível alcançar uma paz estável a partir da convicção de que a diversidade é bela quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação, até selar uma espécie de pacto cultural que faça emergir uma diversidade reconciliada”. Esta é, sublinhou, “base e oportunidade para a construção de uma real comunhão dentro da grande família humana, sem necessidade de marginalizar, excluir ou rejeitar.”
Recordando que Maurício se fez com diversos movimentos migratórios, animou a “assumir o desafio de dar as boas-vindas e proteger os migrantes que vêm hoje à procura de trabalho e, para muitos deles, melhores condições de vida para as suas famílias: preocupai-vos com dar-lhes as boas-vindas como os vossos antepassados souberam acolher-se uns aos outros”.
Também recordou “a tradição democrática instaurada depois da independência e que contribui para fazer da ilha Maurício um oásis de paz”, que há-de prosseguir “lutando contra todas as formas de discriminação.”
Destacando o grande desenvolvimento da ilha, advertiu que “o crescimento económico nem sempre beneficia a todos e que inclusivamente deixa de lado, devido a algumas estratégias da sua dinâmica, um certo número de pessoas, especialmente os jovens. Por isso, quereria animar-vos a promover uma política económica orientada para as pessoas. Animai-vos a não sucumbir à tentação de um modelo económico idólatra que sente a necessidade de sacrificar vidas humanas no altar da especulação e da mera rentabilidade, que só tem em conta o lucro imediato em detrimento da protecção dos mais pobres, do nosso meio ambiente e os seus recursos”. Trata-se, em última análise, de “promover uma mudança de estilos de vida para que o crescimento económico possa realmente beneficiar a todos, sem correr o risco de causar catástrofes ecológicas nem graves crises sociais”.
Dirigindo-se por fim aos líderes religiosos presentes, exprimiu-lhes a sua “gratidão por em Maurício as diferentes religiões, com as suas respectivas identidades, trabalharem em comum para contribuir para a paz social e recordar o valor transcendente da vida contra todo o tipo de reducionismo.
2. Francisco foi, nesta viagem, como sempre, arauto da paz, clamando contra a guerra, a corrupção e a favor da justiça e da fraternidade humana; insistiu no diálogo inter-religioso; arremeteu contra o clericalismo: “a Igreja não pode ser parte do problema, mas porta de solução, de respeito, intercâmbio e diálogo”, às vezes, “sem querer, sem culpa moral, habituamo-nos a identificar a nossa tarefa quotidiana de sacerdotes com certos ritos, com reuniões onde o lugar que ocupamos na reunião, na mesa, é de hierarquia”; defendeu a atenção a ter com o cuidado do meio ambiente; proclamou a alegria: “Jovens, não deixeis que vos roubem a alegria de viver”.
As linhas fundamentais da mensagem essencial, que ficou, tinha-as enunciado numa entrevista, ainda antes da visita, o Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin. África “precisa de amigos de África, não pessoas que olhem para ela com olhos interesseiros, mas pessoas que realmente procurem ajudar este continente a pôr em prática todos os seus recursos, todas as suas forças para progredir, para avançar.” Mas a primeira linha é que “os africanos devem ser conscientes da sua responsabilidade na busca de soluções para os problemas africanos dentro das suas sociedades, dentro dos seus Estados. Portanto, uma consciência renovada de que o destino de África, o seu futuro, está nas mãos dos africanos: uma assunção de responsabilidade neste sentido para lutar contra todos aqueles fenómenos que impedem o desenvolvimento e a paz.”
Como é hábito, já de regresso a Roma, Francisco, na habitual conferência de imprensa, foi confrontado com a acusação de herético e a ameaça de cisma na Igreja. Dedicarei a minha próxima crónica a esta magna e decisiva questão.
in DN 15.09.2019

13 de setembro de 2019

Empregada quer ser aumentada


Apesar da crise, a empregada de serviço dirige-se à patroa na esperança de obter um aumento:
– Minha senhora, estou a precisar de um aumento.

A senhora muito aborrecida pergunta:
– Maria, porque achas que mereces um aumento?
 Só estás aqui há 3 meses!

– Por três razões: 
Em primeiro lugar, eu passo as roupas melhor do que a senhora.

– Quem foi que te disse isso?

– Foi o patrão que me disse. 
Em segundo lugar, eu cozinho melhor do que a senhora.

– Que absurdo! 
Quem te disse isso?

– Foi o patrão que me disse. 
Em terceiro lugar eu sou melhor na cama que a senhora.

– Foi o meu marido que te disse isso também?

– Não minha senhora. 
Foi o motorista…

E diz a patroa muito depressa:
– E… quanto queres ser aumentada?

BOM FIM-DE-SEMANA
(prolongado em Macau porque segunda-feira há tolerância de ponto)

12 de setembro de 2019

Les jeux ne sont pas faits


Que Macau é terra de Jogo todos sabem.
Mas o Jogo em Macau não tem glamour.
Movimenta muito dinheiro, faz nascer e morrer muitos sonhos, mas falta-lhe glamour.
Qual é o casino em Macau onde se possa ouvir o célebre pregão “faites vos jeux, les jeux sont faits”?
Nenhum, nem sequer no empreendimento que apresenta uma réplica da Torre Eiffel.
Onde começa a parecer que les jeux ne sont pas faits é na Administração Pública em Macau.
Um certo nervosismo que transparece para o espaço público dá a entender que os trunfos ainda estão escondidos.
E que há muita gente a fazer bluff.
Um bom exemplo é termos Serviços Públicos a aceitarem recomendações para corrigir erros que lhes são apontados.
Para depois baralharem as cartas e darem o dito por não dito afirmando que as recomendações recebidas é que estavam todas erradas.
Só pode haver uma explicação para tão bizarro fenómeno – les jeux ne sont pas faits.

Intemporais (179)

11 de setembro de 2019

John Bolton e Fong Soi Kun


Macau é local de encontro de culturas, East meets West.
Esse é o slogan, essa é (às vezes...) a realidade.
Bom exemplo?
John Bolton e Fong Soi Kun.
Baralhados?
Eu explico.
Nos dois casos pode dizer-se que "e tudo o vento levou".
Ainda não perceberam a conexão?
Fong Soi Kun foi o responsável por o tufão Hato ter devastado Macau, John Bolton terá sido o responsável por o furação Dorian não ter atingido o Alabama.
E foram ambos responsabilizados por aquilo que nós, comuns mortais, pensávamos serem apenas fenómenos extremos da Natureza. 
A razão política tem efectivamente razões que a Razão desconhece.
O Executivo em Macau, incapaz de enfrentar o terrível tufão Hato, e incapaz de enfrentar as ferozes críticas da população, sacrificou Fong Soi Kun.
Donald Trump, incapaz de aceitar que tinha errado estúpida e irresponsavelmente quando afirmou que o furação Dorian ia atingir o Alabama, sacrificou John Bolton.

Os restaurantes não são santuários (João Pereira Coutinho in Folha de S.Paulo)


Este texto é dedicado ao "Chef" Avilez, que estragou dois magníficos restaurantes, o Tavares e, principalmente, o Belcanto. E como esta praga não é nacional apenas, dedicado também ao Alain Ducasse,que assassinou o em tempos magnífico Louis XV, o restaurante (emblemático) do Hotel de Paris, em Monte Carlo.
Felizmente, neste caso, pelo menos continua a magnífica garrafeira.
Restaurantes não são santuários...
Estou cansado da religião dos “chefs”: restaurantes não são santuários...
O melhor restaurante do mundo?
Ora, ora: é o Eleven Madison Park, em Nova York.
Parabéns, gente. A sério.
Espero nunca vos visitar.
Entendam: não é nada de pessoal. Acredito na vossa excelência.
Acredito, como dizem os críticos, que a vossa mistura de "cozinha francesa moderna" com "um toque nova-iorquino" é perfeitamente comparável às 72 virgens que existem no paraíso corânico.
Mas eu estou cansado da religião dos “chefs”.
Vocês sabem: a elevação da culinária a um reino metafísico, transcendental, celestial.
Todas as semanas, lá aparece mais um “chef”, com a sua igreja, apresentando o cardápio como se fossem as sagradas escrituras.
Os ingredientes não são ingredientes. São "elementos".
Uma refeição não é uma refeição. É uma "experiência".
E a comida, em rigor, não é comida. É uma "composição".
Já estive em vários desses santuários. Quando a comida chegava, eu nunca sabia se deveria provar ou rezar.
Os meus receios sacrílegos eram acentuados pelo próprio “garçon”, que depositava o prato na mesa e, em voz baixa, confidenciava o milagre que eu tinha à minha frente:
– Pato defumado com pétalas de tomate e essências de jasmim.
Escutava tudo com reverência, dizia um "obrigado" que soava a "amém" e depois aproximava o garfo trémulo, com mil receios, para não perturbar o frágil equilíbrio entre as "pétalas" e as "essências".
Em raros casos, sua santidade, o “chef”, aparecia no final.
Para abençoar os comensais.
No dia em que beijei a mão de um deles, entendi que deveria apostatar.
E, quando não são santos, são artistas.
Um pedaço de carne não é um pedaço de carne. É um "desafio".
É o tecto da Capela Sistina aguardando pelo seu Michelangelo.
Nem de propósito: espreitei o site do Eleven Madison Park.
Tenho uma novidade para dar ao leitor: a partir de 11 de Abril, o Eleven vai fazer uma "retrospectiva" (juro, juro) com os 11 melhores pratos dos últimos 11 anos.
"Retrospectiva."
Eis a evolução da história da arte ocidental: a pintura rupestre de Lascaux; as esculturas gregas de Fídias; os vitrais da catedral gótica de Chartres; os quadros barrocos de Caravaggio; a tortinha de quiche de ovo do “chef” Daniel Humm.
Gosto de comer.
Gosto de comida.
Essas duas frases são ridículas porque, afinal de contas, sou português.
E é precisamente por ser português que me tornei um ateu dos "elementos", das "composições" e das "essências".
A religião dos “chefs”, com seu “charme” diabólico, tem arrasado os restaurantes da minha cidade.
Um deles, que fica aqui no bairro, servia uns "filetes de polvo com arroz do mesmo" que chegou a ser o barómetro das minhas relações amorosas: sempre que estava com uma namorada e começava a pensar no polvo, isso significava que a paixão tinha chegado ao fim.
Duas semanas atrás, voltei ao espaço que reabriu depois das obras.
Estranhei: havia música ambiente e a iluminação reduzida imitava as casas de massagens da Tailândia (aviso: querida, se estiveres a ler esta crónica, juro que nunca estive na Tailândia).
Sentei-me.
Quando o polvo chegou, olhei para o prato e perguntei ao dono se ele não tinha esquecido alguma coisa.
"O quê?", respondeu o insolente.
"O microscópio", respondi eu.
Ele soltou uma gargalhada e explicou: "São coisas do “chef”, doutor."
"Qual “chef”?", insisti.
Ele, encolhendo os ombros, respondeu com vergonha: "O Agostinho".
O cozinheiro virou “chef” e o meu polvo virou calamares.
Infelizmente, essa corrupção disseminou-se pela pátria amada.
Já escrevi sobre o crime na imprensa lusa.
Ninguém acompanhou o meu pranto.
É a música ambiente que substituiu o natural rumor das conversas.
É a iluminação de bordel que impede a distinção entre uma azeitona e uma barata.
É o hábito chique de nunca deixar as garrafas na mesa, o que significa que o “garçon” só se apercebe da nossa sede "in extremis" quando existem tremores alcoólicos e outros sinais de abstinência.
Meu Deus, onde vamos parar?
Não sei.
Mas sei que já tomei providências: no próximo Outono, tenciono aprender a caçar.
Tudo serve: perdiz, lebre, javali.
Depois, com uma fogueira e um espeto, cozinho o bicho como um homem pré-histórico.
O pináculo da civilização é tortinha de quiche de ovo do “chef” Daniel Humm?
Então chegou a hora de regressar às cavernas de Lascaux..."

João Pereira Coutinho

(Reeditada porque o chef Alain Ducasse tem agora dois restaurantes em Macau e pode ser que leia ...)

10 de setembro de 2019

Sting e Hong Kong


Década de oitenta (1985), em plena Guerra Fria, Sting cantava o que se tornou praticamente um hino.
Russians, lançada nesse ano, ensinava que there is no monopoly of common sense on either side of the political fence.
Esta balada de Sting ou nunca foi escutada ou foi esquecida por manifestantes e autoridades em Hong.
There is no monopoly of common sense.
E se a retórica bélica de um lado for enfrentada com violência do outro será muito difícil ultrapassar o caos que se vive em Hong Kong.
Não são Russians, são hongkongers e authorities, but I hope they love their children too.

Sobre a campanha eleitoral (Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia)


1. É evidente que estou contente com o crescimento económico, com as notas positivas das agências de rating, com a diminuição do desemprego... Significa esse meu contentamento que participo da aparente euforia nacional sobre a situação do país? Não, infelizmente, não. E vou tentar explicar.
Com a dívida pública que temos, com o endividamento privado para o consumo, dentro do fascínio causado pela percepção de que a situação económico-financeira está como nunca, com a recessão que se anuncia para a economia mundial (a Alemanha estagna, estão aí a “guerra” comercial entre os Estados Unidos e a China, o Brexit, a instabilidade na Itália...), e dado que vivemos internamente mais de uma situação conjuntural favorável do que de investimentos sólidos para um desenvolvimento estrutural sustentável, receio que o país venha a confrontar-se com percalços inesperados.
Tenho a sensação de que a aparente euforia tenha na sua fonte um manto de mentira e ilusão que se foi abatendo sobre o país. Porventura acabou a austeridade? Veja-se o preço dos combustíveis, a carga de impostos e taxas e mais taxas, não sem sublinhar os impostos indirectos, que são os mais injustos porque cegos. E as famosas cativações? A saúde está bem? Quem é que o pode dizer e garantir com verdade? A educação está bem? Sinceramente, com louváveis excepções até de excelência, não creio: falo com professores, autênticos e dedicados profissionais, e dizem-me que não; pessoalmente, temo que, com alguns novos métodos já superados noutros países, o permanente experimentalismo e o imenso facilitismo reinante, entre outras coisas, estejamos a contribuir para o apagamento do pensamento crítico e o que o escritor Pérez-Reverte denunciou recentemente: “nunca o ser humano foi tão estúpido como agora”; em relação aos professores, veja-se a instabilidade em que vivem: há antigos alunos meus da Faculdade que andam há anos de escola em escola, percorrendo o país de norte a sul, dificilmente podendo constituir família ou ter filhos, e instala-se a desmotivação; no ensino superior, reconheço manchas de excelência também, mas não sei se está, no seu todo, a contribuir para que o nível de conhecimento real e crítico se mantenha, e é necessário apoiar harmonicamente tanto as ciências ditas exactas e as tecnologias como as ciências humanas, pois, sem ética e humanismo, para onde pode levar-nos o progresso tecnológico? E ainda: em vez de se acabar com as propinas para todos, atribua-se bolsas aos mais frágeis economicamente, mas capazes.
Ainda neste domínio da educação, seja-me permitido um reparo a um recente despacho ministerial. Conheço casos dramáticos de transexuais que passaram e passam por imenso sofrimento. Por isso, é preciso, na educação, preparar para o respeito de todos. No entanto, por causa da orientação sexual, não se pode cair na desorientação de todos. Com o bom senso dos professores, o conselho de médicos e atendendo aos direitos dos pais no que à educação dos filhos se refere, as escolas são capazes de encontrar soluções adequadas para casos concretos, sem a necessidade de despachos eivados de ideologia que só podem levar à confusão universal. Quem está interessado nessas e outras confusões?  
2. Está aí a campanha para novas eleições. Impõe-se que os Partidos sejam claros em pontos essenciais nos programas e nos debates. Por exemplo:
2. 1. Recentemente, a anterior procuradora-geral da República afirmou que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio. Joana Marques Vidal lamentou concretamente: “Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” Muita gente tem denunciado esta situação como um cancro. Pergunta-se: que compromisso assumem os Partidos neste domínio gravíssimo?
2. 2. Contra o contexto do manto de mentira que desceu sobre o país, os Partidos devem assumir claramente as promessas que fazem, com datas claras de cumprimento e com que verbas. Tudo claro. Deixem-se, por favor, de arruadas e argumentem com números, pois, se lhes explicarem, os portugueses perceberão e poderão assumir escolhas racionais. Não se pode é continuar com promessas e mais promessas, algumas repetidas ao longo de anos e nunca cumpridas. Por exemplo, o que se vai fazer pela ferrovia — meu Deus, como foi possível chegar à presente situação? Por favor, não façam promessas que sabem que não vão cumprir, porque não podem. Vão fazer o quê pelo interior? Os que falam disso sabem o que é o interior?
2. 3. Ponto decisivo: esclareçam o que pretendem fazer em relação à justiça, não só em relação à justiça social — há muita miséria ainda no país, nada de ilusões —, mas à justiça-poder judicial, órgão de soberania, independente. A justiça continua lenta e, por isso, pouco eficaz, e, se se ler e ouvir a opinião pública: que foi atingida pelo véu de alguma desconfiança. Lembro o Presidente da República referindo-se, no passado 10 de Junho, às “falências na justiça”: Portugal não pode “minimizar cansaço, corrupções, falências na justiça.”
2. 4. Neste contexto, a Banca. Uma catástrofe! Há anos que o Estado, isto é, os contribuintes, andam a pagar, a tapar buracos com milhares de milhões de euros, e não há consequências para as más administrações e os desvios?... Neste país, é necessário repor setenta cêntimos ao fisco — e eu acho bem —, mas desaparecem milhares de milhões de euros, e não acontece nada? E os responsáveis maiores chamados a juízo... tornaram-se entretanto amnésicos?! Os Partidos devem dizer o que se propõem fazer para acabar com esta falta de vergonha.
2. 5. O que vão fazer para que haja transparência na política e com os políticos? Sinceramente, atendendo às suas responsabilidades, penso que os políticos são mal pagos e até pergunto: será essa uma das razões por que para as tarefas políticas a maior parte das vezes não vão os melhores e estamos cheios de incompetentes? Mas, por outro lado, verifico que imensa gente se bate por, como diz o povo, “ir para lá” — para onde? Para o poder. Há muita sedução pelo poder, pois ele é “o maior afrodisíaco” (Henry Kissinger dixit). Mas também deve haver muitos privilégios que moram para essas bandas. Que haja, portanto, transparência. É preciso acabar com o exemplo inacreditável de deputados que faltam descaradamente às sessões do Parlamento. E donde vêm tantas regalias e privilégios auto-concedidos? Já não há vergonha em Portugal? Leio que subvenções vitalícias para políticos custam milhões de euros (mais de seis milhões este ano), que extras quase duplicam o salário dos deputados (milhões só para cobrir as viagens para casa ou em trabalho político no seu círculo), para não falar no caso dos deputados insulares... E a maior parte dos deputados não morrerão de cansaço, a trabalhar no e para o Parlamento, como Macário Correia denunciou numa entrevista recente: “Metade dos deputados no Parlamento não fazem nada de concreto ou sequer útil, anda lá só a ocupar o tempo.” E ficam sempre aberturas para contactos presentes e sobretudo futuros, numa ligação in-transparente de política e negócios...
Aí está a razão por que já falei aqui uma vez de uma proposta, embora sabendo que é irrealizável: que os votos em branco formassem o “partido da cadeira vazia” no Parlamento. Sinceramente, não acredito que, tirando dignas e honrosas excepções, a maior parte dos candidatos andem por aí, na campanha, lutando por todos os meios para serem eleitos, porque querem realmente servir o bem comum. Lamentável, pois considero a política uma das actividades humanas mais nobres e, do ponto de vista cristão, uma das formas mais altas de amor, de amor social.
2. 6. A actual Presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, entre muitos outros cargos políticos, foi também Ministra da Família. Há muito que admiro que na Alemanha haja um Ministério da Família. Dado o tsunami demográfico de Portugal, quero que os Partidos digam claramente o que se propõem fazer a favor da natalidade e da família.
2. 7. Na campanha, os Partidos são obrigados a dizer claramente aos cidadãos quais são as suas posições sobre a eutanásia (e digam-no sem eufemismos, porque “morte medicamente assistida” todos querem, eu incluído), sobre se pensam em legalizar drogas com fins recreativos, se têm em mente alargar os prazos para o aborto legal, e qual é a sua posição sobre a gravidez de substituição (vulgarmente conhecida como “barrigas de aluguer”); a propósito: porque quiseram os deputados enfrentar o Tribunal Constitucional na recente lei, face à qual ao Presidente da República não restava outra alternativa que não fosse a fiscalização preventiva desse Tribunal? Não venham, por favor, mais tarde, já no Parlamento, com surpresas quanto a estas questões. Seria inqualificável em matérias tão delicadas.
2. 8. Também estudei filosofia política e, portanto, tenho obrigação de saber que a política não é uma ciência exacta (se o fosse, entregava-se a simples tecnocratas), é uma ciência prática, dificílima, talvez sobretudo uma arte, a arte do possível, com muito de lúdico, de espectáculo, no bom sentido, que tem de jogar com interesses muitas vezes contraditórios, com a complexidade do humano e as suas paixões e, hoje, na complexidade de um mundo globalizado e cada vez mais interdependente, o que faz com que, também no quadro da democracia com prazos curtos de governação, a política fique atenazada: é necessário decidir rapidamente e para um tempo curto o que pode ter consequências dramáticas no tempo longo... Também por isso é essencial a racionalidade política em ordem ao bem comum, bem para lá dos interesses próprios e partidários. E a competência. Aqui, é necessário pensar sempre mais longe e determinar um consenso mínimo nacional, com duração suficiente para a sua avaliação, sobre a educação, a justiça, a saúde, a segurança social. Numa hierarquia de valores, que anda muitas vezes, desgraçadamente, transtornada. Para evitar o sobressalto permanente. E com que geoestratégia?
in DN, 08.09.2019