28 de fevereiro de 2013

Portugal - Artigo de Jacques Amaury


(Um artigo de Jacques Amaury, sociólogo e filósofo francês, professor na
Universidade de Estrasburgo)




Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história que terá 
que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões e 
consequentes convulsões sociais.



Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má 

aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e 
adaptação às exigências da união.

Foi o país onde mais a CE investiu "per capita" e o que menos proveito 
retirou. Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu na 
qualidade da educação, vendeu ou privatizou mesmo actividades 
primordiais e património que poderiam hoje ser um sustentáculo.

Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas, estádios de
futebol, constituição de centenas de instituições público-privadas,
fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros a 
empresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento a 
agricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderem 
as embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou a

próximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classes 
superiores da administração pública, o tácito desinteresse da Justiça 
frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças no 
que respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandes 
negócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmente 
persecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.

A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos 
penetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionam 
essencialmente como agências de emprego que admitem os mais 
corruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativas 
permaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário.

Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores, 
assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas 
dispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um factor de peso 
nos problemas do país.

Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica, 
entre o PS (Partido Socialista) e o PSD (Partido Social Democrata), de 
direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder, 
que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado.

Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mas 
com telhados de vidro e linguagem pública diametralmente oposta ao que os 
seus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade.

À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior, 
mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendações 
ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como a 
população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio. 



Mais à 
esquerda, o PC (Partido Comunista) menosprezado pela comunicação 
social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão 
inspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das 
realidades actuais.

Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a 
democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos.

Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação, 
ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse 
fulcral e determinante aspecto. 

Mal preparada nos bancos das escolas, no 
secundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não

ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação.

Ora e aqui está o 
grande problema deste pequeno país;

 as TVs as Rádios e os Jornais, são 
na sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, à 
indústria e comércio, à banca e com infiltrações accionistas de vários 
países.

Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar uma
alimentação saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda.

Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entre 
ricos e pobres.

A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominada 
por elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos 
sociais-democratas, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e 
calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. 

A selecção dos 
gestores, dos directores e dos principais jornalistas é feita 
exclusivamente por via partidária. Os jovens jornalistas, são 
condicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos a 
prazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamento 
dos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôr 
em prática, está a chegar ao fim. 

A deserção destes, foi notória.

Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por 
isso, "non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novas 
ideias e à realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfano 
que apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas 
recomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da prática 
da apregoada democracia.

Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, a 
fugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais 
célere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganhar 
consciência e lucidez sobre os seus desígnios.

4 comentários:

  1. Caro amigo Rui da Bica!
    Fiquei impressionado com a semelhança do distinto cidadão, que aparece na fotografia, com o apresentador brasileiro Amaury Junior, que apresentata um programa de futilidades alusivo a alta sociedade.
    Caloroso abraço! Saudações parecidas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

    PS - A seguir indico um endereço eletrônico para que possar comparar o sósia brasileiro:

    http://www.correiodeuberlandia.com.br/entretenimento/biografia-de-amaury-junior-deve-ser-lancada-neste-ano/

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    1. Não era sósia, caro Prof. João Paulo de Oliveira - era ele mesmo.
      A foto estava trocada.
      Já a removi.
      Que disparate!
      Acontece......
      Aquele abraço!

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  2. Meu amigo, a culpa de Portugal estar como está é do António de Oliveira Salazar. Não tivesse ele morrido!

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