28 de fevereiro de 2013

Bélgica - a vingança do anarquista (Rui Tavares)




Se as pessoas sentem que dão — trabalho, estudo, impostos — e não recebem nada em troca, o governo está a trabalhar para a sua deslegitimação.
Aqui há tempos havia um enigma. Como podiam os mercados deixar a Bélgica em paz quando este país tinha um défice considerável, uma dívida pública maior do que a portuguesa e, ainda por cima, estava sem governo? Entretanto os mercados abocanharam a Irlanda e Portugal, deixaram a Itália em apuros, ameaçaram a Espanha e mostram-se capazes de rebaixar a França. E continuaram a não incomodar a Bélgica. Porquê? Bem, — como explica John Lanchester num artigo da última London Review of Books — a economia belga é das que mais cresceu na zona euro nos últimos tempos, sete vezes mais do que a economia alemã. E isto apesar de estar há dezasseis meses sem governo.
Ou melhor, corrijam essa frase. Não é “apesar” de estar sem governo. É graças — note-se, graças — a estar sem governo. Sem governo, nos tempos que correm, significa sem austeridade. Não há ninguém para implementar cortes na Bélgica, pois o governo de gestão não o pode fazer. Logo, o orçamento de há dois anos continua a aplicar-se automaticamente, o que dá uma almofada de ar à economia belga. Sem o choque contracionário que tem atacado as nossas economias da austeridade, a economia belga cresce de forma mais saudável, e ajudará a diminuir o défice e a pagar a dívida.
A Bélgica tornou-se assim num inesperado caso de estudo para a teoria anarquista. Começou por provar que era possível um país desenvolvido sobreviver sem governo. Agora sugere que é possível viver melhor sem ele.
Isto é mais do que uma curiosidade.
Vejamos a coisa sob outro prisma. Há quanto tempo não se ouve um governo ocidental — europeu ou norte-americano — dar uma boa notícia? Se olharmos para os últimos dez anos, os governos têm servido essencialmente para duas coisas: dizer-nos que devemos ter medo do terrorismo, na primeira metade da década; e, na segunda, dizer-nos que vão cortar nos apoios sociais.
Isto não foi sempre assim. A seguir à IIa. Guerra Mundial o governo dos EUA abriu as portas da Universidade a centenas de milhares de soldados — além de ter feito o Plano Marshall na Europa onde, nos anos 60, os governos inventaram o modelo social europeu. Até os governos portugueses, a seguir ao 25 de abril, levaram a cabo um processo de expansão social e inclusão política inédita no país.
No nosso século XXI isto acabou. Enquanto o Brasil fez os programas “Bolsa-Família” e “Fome Zero”, e a China investe em ciência e nas universidades mais do que todo o orçamento da UE, os nossos governos competem para ver quem é mais austero, e nem sequer pensam em ter uma visão mobilizadora para oferecer às suas populações.
Ora, os governos não “oferecem” desenvolvimento às pessoas; os governos, no seu melhor, reorganizam e devolvem às pessoas a força que a sociedade já tem. Se as pessoas sentem que dão — trabalho, estudo, impostos — e não recebem nada em troca, o governo está a trabalhar para a sua deslegitimação.
No fim do século XIX, isto foi também assim. As pessoas viam que o governo só tinha para lhes dar repressão ou austeridade. E olhavam para a indústria, e viam que os seus patrões só tinham para lhes dar austeridade e repressão. Os patrões e o governo tinham para lhes dar a mesma coisa, pois eram basicamente as mesmas pessoas. Não por acaso, foi a época áurea do anarquismo, um movimento que era socialista (contra os patrões) e libertário (contra o governo).
Estamos hoje numa situação semelhante. Nenhum boa ideia sai dos nossos governos. E as pessoas começam a perguntar-se para que servem eles.

Rui Tavares (Consoante Muda)

8 comentários:

  1. Respostas
    1. Será que eu também estou a ficar com uma costela anarquista?
      Já começo a interrogar-me acerca disso.

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  2. Este tipo não é ou era do Bloco de Esquerda? Ou estarei a fazer confusão? :O

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  3. Uma crónica muito curiosa, que dá que pensar... ;)

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    1. Como é que a ausência de governo afinal não leva ao desgoverno, Teté?
      Curioso, no mínimo....

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  4. O governo central belga tem poucas competências. As três regiões e as três comunidades linguísticas têm governo. Além disso, a Bélgica é um país muito bem organizado que funciona quase em piloto automático há vários anos a nível do governo central. Os belgas pagam o condomínio e os impostos a tempo porque os incumprimentos resolvem-se em pouco tempo; raramente há uma prescrição. É um país em que as leis foram feitas para punir os aldrabões e os incompetentes e não para os proteger. Há direitos sociais porque os partidos do sistema têm gente civilizada (não são o PS, PSD e CDS) e partidos como o PCP ou Bloco de Esquerda não existem no Parlamento. O simples facto de os salários e pensões na Bélgica serem indexados à taxa de inflação é uma barreira natural contra a austeridade.

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    1. Anónimo,
      Nem eu nem o autor estamos a sugerir que Portugal caia na anarquia.
      Nem qualquer outro pais europeu.
      Trat-se apenas de um grito de revolta
      De estar farto de má governação
      A realidade belga, que parece conhecer bem, nao é adaptável a outros países da UE.
      Pena que assim seja, apetece dizer
      Cumprimentos

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