18 de setembro de 2012

Prepara-se um novo "centrão"?


A crise política está a chegar.
A contestação popular; o bombardeamento constante de opinion makers e do baronato dos dois maiores partidos portugueses ao actual governo; as dissenções dentro do PSD e dentro da coligação que apoia o governo; a estratégia de descolagem das medidas de austeridade levada a cabo pelo CDS; os ataques da oposição; a convocação do Conselho de Estado; são tudo sinais que apontam um cenário de pré-crise política.
Pegando nos versos de Ary dos Santos, e transformando-os em interrogação, cabe perguntar - "E depois do adeus? O ficarmos sós?"

Sós, não iremos certamente ficar.
Porque fazemos parte da União Europeia e porque estamos condicionados a cumprir a política que a troika nos impõe.
Talvez mais aliviada, com alguns paliativos, menos bruta, mas, não tenhamos ilusões, presente e actuante.

Falta responder à primeira parte da pergunta - e depois do adeus?
Os últimos números Eurosondagem podem ajudar a traçar cenários pós-crise.
E são os seguintes:

PS - 33.7%; PSD - 33.0%; CDS – 10.3%; CDU – 9.3%; BE  - 7%.

Num cenário de virtual empate técnico entre os dois maiores partidos, e não se prevendo, nem querendo, uma possível coligação PS/CDS, o "centrão" está de volta.
É neste cenário que os apparatchiks dos dois maiores partidos, com a benção do baronato de ambos, tem andado a trabalhar com destreza maquiavélica.
A "indignação" de alguns figurões, que diariamente invadem o espaço mediático, genuinamente indignados com o afastamento a que foram forçados e com a notícia de extinção de inúmeras fundações e parcerias público privadas, em torno das quais gravitam os seus poderosos interesses, nada tem a ver com a indignação da rua, com a genuína preocupação e as tremendas dificuldades que afectam muitas pessoas neste momento.
Explica-se antes pela vontade e necessidade de regresso à ribalta.
Sente-se o cheiro intenso a mofo, aquele odor bafiento que anuncia esse regresso.
O regresso de quem se viu, não sem alguma incredulidade,  temporariamente afastado dos centros de decisão e de poder.
Mas não se trata de um regresso de cara destapada, de uma reentrada com assento na primeira linha.
Quem irá desempenhar esse papel, quem irá dar a cara, nos dois partidos do "centrão" que se prepara, é a grande interrogação neste momento.
Pedro Passos Coelho cairá com o governo que agora lidera.
António José Seguro foi um líder de transição, de oposição, não será um líder de governação.
Quem prepara o baronato dos dois partidos para lançar na corrida ao poder?
Como irá o PS afastar António José Seguro da liderança (uma derrota em legislativas antecipadas dava jeito)?
Qual o partido que vai liderar o "centrão" que aí vem?
As perguntas do milhão de dólares.
Ou euros, conforme se prefira.

19 comentários:

  1. Estimado Amigo Pedro Coimbra,
    Como as coisas andam lá Portugal deixam o povo baralhado, já não entendo nada, tudo anda mal é uma verdade, mas a culpa é de todos, o que virá só Deus o saberá.
    Abraço amigo

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  2. Amigo Cambeta,
    Estas são as conclusões que tiro do que vou observando.
    E, se estou a analisar bem, trata-se de um processo que vem sendo preparado já há algum tempo.
    Para o qual, a falta de jeito e a teimosia de Passos Coelho, aliadas à extrema habilidade politiqueira de alguns "indignados", contribuiu grandemente.
    Se estiver correcto na minha análise não vamos ter que esperar muito tempo para ver este cenário concretizar-se.
    E para ver as caras.
    Estou curioso para ver as caras.
    Aquele abraço

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  3. Caro Pedro Coimbra
    Parece-me que há grandes incógnitas em relação ao futuro próximo e muita imcompetência à mistura.
    O PS que podia ter um papel importante não me parece ter liderança à altura.
    Uma coisa é verdade. O pessoal está farto de serem sempre os mesmos a pagar.
    Aguardam-se novos desenvolvimentos, quem sabe alguns inesperados.
    Abraço
    Rodrigo

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  4. Rodrigo,
    O meu receio é que tudo mude para que tudo fique na mesma.
    Para os mesmos.
    Mudam só as caras, que é o mesmo que dizer que mudam as moscas.
    E deixe-me que desabafe - já há caras ali no meio que me metem nojo!
    Estão-se nas tintas para o país, para a futuro do país, para os problemas que muita gente está a sentir.
    O que está a preocupar essa gentalha, repito o termo que aqui usei anteriormente, é a perda de protagonismo, de visibilidade, e a anunciada perda de prebendas e mordomias a que estão tão habituados.
    Aquele abraço

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  5. Eu questiono-me se não ganha mais a União Europeia por fazermos parte da mesma do que nós, mas é uma questão que já vem de há muito.

    Beijinho

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  6. Catarina,
    Sou um europeísta convicto.
    Mas não sou federalista, atenção.
    Com os seus defeitos, e tem muitos!, a União Europeia é um projecto fascinante.
    No qual acredito totalmente.
    Fiz o meu mestrado nessa área, é muito provável que faça o doutoramento também.
    E continuo a pensar que é um casamento muito bom.
    Como todos os bons casamentos, tem de ser bom para os dois.
    Já imaginou o que seria Portugal hoje fora da União Europeia?
    Deus nos livre!!
    Beijinho

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    1. A grande questão Pedro (e sabe bem que sou muito leiga nestes assuntos e confesso que o que tenho vindo a aprender é com vocês e através destas partilhas) é que um projecto desta dimensão tem de procurar homogenidade, não podemos estar numa Europa onde na Alemanha a comida e outros bens de primeira necessidade a comida custam tanto como em Portugal (há coisas que até são mais baratas como champõs, que me lembro bem de trazer de lá, que cá são considerados produtos de beleza, sim porque lavar o cabelo é uma questão de beleza, ou escovar os dentes) e os ordenados são tão discrepantes! Eu acho a União Europeia um projecto fantástico, mas não nestes contornos! Sabe que eu tenho-me contido em relação a Merkel, mas desde as declarações que ela fez ontem sobre Portugal que não páro de a chamar de nomes!

      Não sei se consigo expressar muito bem o meu ponto de vista sobre o assunto mas é mais ou menos isto.

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    2. Conseguiu expressar perfeitamente o que sente, Catarina.
      A senhora Merkel tem uma postura de oficial de antiga Alemanha de Leste.
      Se era irritante com o Muro, depois da queda do Muro deixa as pessoas furiosas.
      É normal.
      Um dos muitos problemas da UE está exactamente nas lideranças - a liderança da União é fraca, com gente sem o mínimo de chispa, a liderança alemã é bruta, a francesa está para se ver (até agora não faz prever nada de bom).
      Enquanto isto, os ingleses vão jogando aquele jogo muito deles de estar fora e dentro ao mesmo tempo.
      Mesmo assim, e com tantos problemas, a minha convicção europeísta mantém-se inalterada.

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  7. Pois, Pedro!

    Porém, ainda há tempo para emendar a mão!

    Um dia destes falarei sobre esta matéria, lá no meu confessionário! :DD

    Aquele abraço!

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  8. Excelente análise, Pedro.

    Deixo, apenas, a minha previsão.
    Não, não tenho bola de cristal. Mas penso.

    Então aqui vai: governo ao 'charco' é uma questão de tempo. Pouco.
    Coligação - ou outro nome qualquer - entre o CDS e o PS.

    Por enquanto ficamos assim. Mas que temos pano para mangas, temos.

    Um abraço

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  9. "Jasus"! Que cenário deprimente! e as sondagens deveriam ser proibidas! mas isso tem algum jeito?! Continuando com a manipulação, não é verdade?


    "Transcorridos 38 anos, frustradas as grandes esperanças da Revolução Democrática e Nacional, uma grande burguesia dependente, mais sofisticada do que a anterior, e mais intimamente ligada ao imperialismo, encontra-se novamente instalada no Poder.

    Sob alguns aspectos a luta contra o sistema é hoje mais difícil do que na época de Salazar e Caetano porque as condições subjectivas são menos favoráveis.

    As instituições existentes (deformadas por sucessivas reformas da Constituição) levam milhões de portugueses, a maioria da cidadania, a crer que o regime português é democrático.

    Ora, na prática vivemos sob uma ditadura da burguesia de fachada democrática. Mas somente uma pequena minoria de portugueses tem consciência dessa realidade.
    Fica tudo na mesma e Urbano Rodrigues explica porquê:

    Em Portugal, a resistência dos trabalhadores a políticas neoliberais de sucessivos governos do PSD e do PS tem sido uma constante. Sobretudo nos últimos anos. Expressou-se em gigantescas manifestações de protesto, em greves gerais e sectoriais realizadas com êxito, em lutas de numerosas categorias profissionais, com destaque para as dos professores.

    Mas o controle dos media pelo capital e a influência hegemónica do imperialismo na Internet dificultam extraordinariamente a compreensão pela maioria dos portugueses da complexidade da crise mundial e dos desafios que se colocam ao povo português. Os mecanismos da alienação são uma fonte de ilusões, favorecendo a direita (na qual incluo os dirigentes do PS)."

    Quanto às convulsões em relação às políticas do governo, faço também das palavras de um comentador do meu blogue as minhas:

    "Parece-me que muita gente não percebe que o campo do capitalismo não é monolítico, e que os interesses do capitalismo financeiro (CF) não coincidem exactamente com os do capitalismo industrial/serviços (CIS). Nas últimas décadas, o CF ganhou um poder desmesurado em relação ao CIS

    É por isso que uma parte do capitalismo (Belmiros, Amorins, Balsemãos, etc.) português já começa a estar contra o Passos Coelho. E esses capitalistas, embora não tenhma tanta influência no governo como os porcos da banca, têm, em contrapartida, o controle da comunicação social. E é por isso que os opinion makers por eles contratados começaram agora a cair em cima do Coelho, depois de terem andado anos a aplaudir a troika e a austeridade. O que é que mudou? O que mudou foi que os capitalistas industriais e de serviços perceberam que demasiada austeridade também não lhes serve, porque um empobrecimento excessivo da classe média vai fazer com que eles facturem menos. Eles já conseguiram o que queriam, que era desregular e precarizar o trabalho. Agora convém-lhes que as pessoas recuperem algum poder de compra."

    Abraço

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    1. Se me permite a ousadia, leia o artigo do Padre Anselmo Borges, O Golpe de Estado financeiro.
      Vale a pena.

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  10. o Pedro desculpe, mas parece-me que um cenário de Centrão é impossível nos próximos anos. Salvo se as coisas se deteriorarem de tal maneira, que não reste a Cavaco a opção por um governo de iniciativa presidencial até à realização de eleições.
    Quanto a PPC tenho poucas dúvidas que está muito próximo do fim e não chegará a 2015. Não tem credibilidade interna, nem externa, como se viu pela atitude de Monti ao fazer questão de confirmar que não o convidou para a reunião da sexta-feira. E não é difícil perceber porquê... Já todos perceberam que ele é, actualmente, o único aliado de Merkel na Europa querem é vê-lo longe.
    Já quanto a Seguro começo ( infelizmente...) a ter algumas dúvidas quanto à capacidade de o PS o desalojar. Comecei com essas dúvidas ontem à noite, depois de ver a entrevista que ele deu à RTP.
    De qualquer modo,as coisas estão a evoluir de forma muito acelerada e, se amanhã PPC responder a Paulo Portas à chapada,os cenários que hoje perspectivamos rapidamente se alterarão.
    Abraço

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  11. Ricardo,
    Fico à espera das suas confissões para depois lhe dar a devida "penitência" :))
    Aquele abraço


    Fada do Bosque,
    Depois do seu comentário, que mais posso acrescentar?
    Parece-me óbvio esse controlo a que se refere e parecem-me óbvias as intenções.
    Também acredito que muita dessa gente imaginou que seria fácil manobrar PPC.
    Quando descobriram que não era assim, resolveram atirá-lo borda fora.
    E sem boia de salvação.
    O Carlos fala em intervenção do PR.
    Tenho medo, muito medo, de governos de iniciativa presidencial.
    Da iniciativa deste Presidente, então......valha-nos Deus!!!


    Carlos,
    Esse centrão não partirá de Cavaco.
    O que julgo é que já anda há muito a ser preparado pelos figurões dos dois partidos.
    Obviamente que não terá nem PPC nem Seguro.
    Mas não faço ideia quem serão os fantoches que vão dar a cara pelas mesmas pessoas que há mais de 30 anos vêm distribuindo entre si os despojos do país.
    Foi isso que assustou essa malta, Carlos.
    Fim a uma data de fundações e um carradão de PPP's?
    Lembre-se do brasileiro, Carlos - tão mexendo no meu bolso.
    Que é terreno sagrado.
    Como é que se evita?
    Mudando tudo para ficar tudo como antes estava.
    Qual o grão de areia que pode encravar o mecanismo?
    A vontade e a força da senhora Merkel e da troika.

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  12. António,
    Não é preciso bola de cristal.
    Ao contrário do que muita desta malta pensa, nós não somos burros.
    E percebemos quem é quem e quem controla o quê.
    Coligação CDS/PS?
    Não creio, António.
    Portas não quer juntar-se ao PS depois do casamento falhado com o PSD e depois de uma anterior coligação entre os dois partidos.
    O próprio baronato do PS, ainda que sedento de poder, não quer misturar-se com o CDS para evitar uma maior erosão no partido, uma maior perda de votos para a esquerda.
    Não acredito nesse cenário.
    O que diz a Fada do bosque faz todo o sentido - acha que estas sondagens são inocentes?
    São uma boa maneira de mandar um recado aos dois partidos - Entendam-se!!!

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  13. O Pedro não é nada malandreco, o Pedro é um realista como eu.
    Muitíssimo obrigada por ter escrito um artigo sobre a situação do nosso país como eu gostaria de ter escrito, se fosse mais fluente na língua de Camões.

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  14. Fico todo orgulhoso com o seu comentário, ematejoca.
    Aquilo que escrevi e o que sinto, o que resulta do que observo.
    E que, tal como a si, me entristece profundamente.
    Gostaria muito de ter escrito outras coisas.
    Mas estaria a mentir.
    Inclusivamente a mim próprio.
    E esse caminho não quero percorrer.

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  15. Espero que se mude de burro e de cigano!

    Beijinho e uma flor

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  16. Não é nada disso que estou a ver, Adélia.
    Bem pelo contrário.
    Dá a (forte) impressão que apenas vão mudar as moscas.
    Beijinhos

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