4 de dezembro de 2009

"Macau e Hong Kong não ganharam nada com a transição"


Quem profere esta afirmação é Martin Lee, conhecido activista dos direitos humanos de Hong Kong, em entrevista à Lusa (a Lusa anda realmente muito interveniente nos tempos mais recentes....).
Descontextualizada, é uma afirmação muito forte e polémica.
Cabe-nos então saber interpretar e integrar a mesma.
Martin Lee é um político muito hábil, ex-presidente do Partido Democrata de Hong Kong, considerado "o pai da democracia em Hong Kong", epíteto que rejeita em absoluto.
O seu activismo valeu-lhe alguma fama e reconhecimento além-fronteiras, atestados pelo facto de ter sido o primeiro não-europeu a receber a Medalha Schuman, em Janeiro de 2000.
A nível interno, está proibido de entrar no Continente desde os episódios de Tianamen em 1989, e teve recentemente a sua integridade física em perigo em virtude de ter sido alvo potencial de um atentado, orquestrado por tríades, ordenado e a soldo de um cidadão chinês a residir em Taiwan, frustrado em virtude de atempada intervenção policial.
Nesta dicotomia, um pouco a fazer lembrar a boa e a má moeda, reside a chave para decifrar as polémicas afirmações de Martin Lee.
Martin Lee defende, vigorosa e ferverosamente, a implementação do sufrágio directo e universal em Hong Kong.
O adiamento desta pretensão, juntamente com hipotéticas intromissões do Governo Central nos assuntos de Macau e Hong Kong, leva-o a afirmar publicamente a sua desilusão e a considerar que a China mentiu ao povo das duas Regiões Administrativas Especiais (RAES).
É compreensível, está a pugnar pela defesa da causa que abraçou há já muitos anos.
A evolução do sistema político, no sentido do aprofundamento do processo democrático, nomeadamente através da implementação do sufrágio directo e universal, é efectivamente uma promessa do governo Central.
Mas o adjectivo gradual, que aparece sistematicamente no discurso, não deve ser obliterado.
E vamos então tentar perceber qual é a percepção do Governo Central face às RAES, quais são as prioridades.
Claramente, o que as autoridades centrais colocam no centro das atenções, é o desenvolvimento económico.
É assim no interior da China, e é-o também nas duas RAES.
Mais, o desenvolvimento económico em clima de paz social, sem que haja grandes convulsões (o conceito de harmonia, tantas e tantas vezes repetido).
Para quem tinha esperanças que a transição de poderes trouxesse consigo um aprofundamento do sistema democrático, e a rápida implementação do sufrágio directo e universal, percebe-se que haja desilusão, ao ponto inclusivamente de achar que as RAES "não ganharam nada com a transição".
Não consigo perceber é onde Martin Lee foi buscar tanto optimismo.
É verdade que, em Hong Kong, a consciência cívica e o activismo político sempre foram mais sentidos que em Macau.
Também não era muito difícil!
Sentimentos que se foram aprofundando ao longo dos anos e que tiveram o seu ponto mais alto no consulado Patten.
Ainda assim, julgo que não andarei muito longe da verdade se disser que, mesmo em Hong Kong, a preocupação principal da maioria dos cidadãos se direcciona para a vertente económica.
Em Macau, essa realidade é ainda mais sentida.
E todos sabemos porquê.
As autoridades portuguesas nunca se preocuparam muito com a questão do regime político vigente em Macau, muito menos pensaram profundamente essa questão para o pós-1999.
A preocupação fundamental era assegurar uma transição de poderes sem sobressaltos, sempre com a sombra e os fantasmas da descolonização em África na memória.
E a população de Macau foi direccionando as suas precupações para o dia-a-dia, para a vertente económica, ficando num estado que se pode considerar "numb"  no que se refere às questões políticas.
Pequim, quando integrou Hong Kong e Macau no seu seio, preocupou-se, antes de tudo, em garantir segurança, paz social e prosperidade económica às duas RAES.
O Poder chinês ainda não aprendeu a lidar com agitação social (já tivemos alguns exemplos concretos de situações que atestam esse facto).
Como tal, reforça a segurança.
Simultaneamente, garante (é este o termo!) prosperidade económica às duas RAES.
Porque o Mundo está atento.
Especialmente Taiwan, como é óbvio.
Do ponto de vista de Martin Lee, as RAES não ganharam nada com a transição.
Tradução - Não há sufrágio directo e universal nem aprofundamento do regime democrático.
Do ponto de vista das autoridades centrais, as duas RAES ganharam muito.
Tradução - Há prosperidade económica, segurança, e os dois territórios não estão sob administração de outros países.
Outras questões serão tratadas a seu tempo.
Há interferência política das autoridades centrais nas duas RAES?
Claro que há!
Ninguém estava à espera de algo diferente e as duas Leis Básicas nunca deixaram lugar a dúvidas.
Algo grau de autonomia, é isso que está legalmente consagrado e tem sido cumprido.
Martin Lee está desiludido.

As autoridades centrais, mesmo com os episódios Tung Chee Hwa e Ao Man Long, estão bastante satisfeitas.
E as populações, à mistura com algum descontentamento, proveniente de um maior sentido de pertença (sobretudo em Macau), também não se mostram muito instisfeitas com o rumo das duas RAES.
Quando exibem insatisfação, há que o reconhecer, é mais por questões económicas que políticas.
Salvo raras e honrosas excepções.





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