27 de dezembro de 2017

O Menino Jesus de Fernando Pessoa (Padre Anselmo Borges)



1 - Ainda era Outubro e já havia anúncios comerciais lembrando o Natal. Já se esqueceu que o Natal de Jesus é o Natal do Emanuel, o Deus connosco, e, consequentemente, o Natal da dignidade divina da pessoa humana, da liberdade, da fraternidade, dos direitos humanos, da igualdade radical de todas as pessoas. Isso foi lembrado pelos grandes: Hegel, Ernst Bloch, Jürgen Habermas, entre outros. Esquecendo o essencial, fica-se afundado na correria das compras e na concorrência opressiva das prendas, dentro da sofreguidão consumista insaciável, lembrando o velho mito do tonel das Danaides. E será o inessencial e o cansaço.

2 - Fernando Pessoa, o génio da melhor literatura mundial de sempre, também confessou o seu cansaço. Mas, ele, ele era por causa do mais profundo e essencial: o pensar: "O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,/Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo." "O que há em mim é sobretudo cansaço/ (...)/ Um supremíssimo cansaço/íssimo, íssimo, íssimo,/Cansaço..." Por isso, suspirava por voltar à inocência dos tempos de criança. O Menino Jesus seria o reencontro da inocência perdida: "Num meio-dia de fim de Primavera/Tive um sonho como uma fotografia./Vi Jesus Cristo descer à terra./Veio pela encosta de um monte/Tornado outra vez menino,/A correr e a rolar-se pela erva/E a arrancar flores para as deitar fora/E a rir de modo a ouvir-se de longe./Tinha fugido do céu. Era nosso de mais para fingir/De segunda pessoa da Trindade./(...)/ No céu tinha de estar sempre sério/(...)./Um dia que Deus estava a dormir/E o Espírito Santo andava a voar,/Ele foi à caixa dos milagres e roubou três./Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido./Com o segundo criou--se eternamente humano e menino./Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz/E deixou-o pregado na cruz que há no céu/E serve de modelo às outras./Depois fugiu para o Sol/E desceu pelo primeiro raio que apanhou./Hoje vive na minha aldeia comigo/É uma criança bonita de riso e natural./(...)/A mim ensinou-me tudo./(...)/Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro./Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava./Ele é o humano que é natural,/Ele é o divino que sorri e que brinca./E por isso é que eu sei com toda a certeza/Que ele é o Menino Jesus verdadeiro./ (...)/A Criança Eterna acompanha-me sempre./A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando./O meu ouvido atento alegremente a todos os sons/São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas./Damo-nos tão bem um com o outro/Na companhia de tudo/Que nunca pensamos um no outro,/Mas vivemos juntos e dois/Com um acordo íntimo,/Como a mão direita e a esquerda./Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas/(...)/Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens/E ele sorri, porque tudo é incrível./Ri dos reis e dos que não são reis,/E tem pena de ouvir falar das guerras,/E dos comércios, e dos navios/Que ficam fumo no ar dos altos mares./Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade/Que uma flor tem ao florescer/E que anda com a luz do Sol/A variar os montes e os vales/E a fazer doer aos olhos os muros caiados./Depois ele adormece e eu deito-o./Levo-o ao colo para dentro de casa/E deito-o, despindo-o lentamente/E como seguindo um ritual muito limpo/E todo materno até ele estar nu./Ele dorme dentro da minha alma/E às vezes acorda de noite/E brinca com os meus sonhos./Vira uns de pernas para o ar,/Põe uns em cima dos outros/E bate as palmas sozinho/Sorrindo para o meu sono./... Quando eu morrer, filhinho,/Seja eu a criança, o mais pequeno./Pega-me tu ao colo/E leva-me para dentro da tua casa./Despe o meu ser cansado e humano/E deita-me na tua cama./E conta-me histórias, caso eu acorde,/Para eu tornar a adormecer./E dá-me sonhos teus para eu brincar/Até que nasça qualquer dia/Que tu sabes qual é./... Esta é a história do meu Menino Jesus./Por que razão que se perceba/Não há-de ser ela mais verdadeira/Que tudo quanto os filósofos pensam/E tudo quanto as religiões ensinam?"

Em apontamentos soltos, o próprio Fernando Pessoa reconheceu que escreveu "com sobressalto e repugnância o poema oitavo de O Guardador de Rebanhos com a sua blasfémia infantil e o seu antiespiritualismo absoluto", dizendo ao mesmo tempo: "Na minha pessoa própria, nem uso da blasfémia nem sou antiespiritualista." O seu Menino Jesus representa a procura terna e eterna da paz e da reconciliação, na simplicidade daquele Menino eternamente criança e humano.

Fernando Pessoa "ele mesmo" - ele era muitos, como cada um de nós é muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender-nos uns aos outros e a nós próprios? - também escreveu: "Grande é a poesia, a bondade e as danças.../Mas o melhor do mundo são as crianças,/Flores, música, o luar e o sol, que peca/Só quando em vez de criar, seca./O mais que isto/É Jesus Cristo,/Que não sabia nada de finanças/Nem consta que tivesse biblioteca..." E assim chega mesmo a caminhar de mãos dadas com Deus: "Por isso, a cada passo/Que meu ser triste e lasso/Sente sair do bem/Que a alma, se é própria, tem,/Minha mão de criança/Sem medo nem esperança/Para aquele que sou/Dou na de Deus e vou."

3 - Fica aqui o meu mais vivo desejo de Boas Festas para todos, lembrando que o essencial do Natal é Jesus, como disse o Papa Francisco no passado dia 17, quando fez 81 anos: "Se retirarmos Jesus, o que é o Natal? Uma festa vazia."

in DN 22.12.2017

29 comentários:

  1. bom dia
    realmente não faz sentido o Natal sem Jesus.
    e que o espirito de Natal prevaleça até ao próximo dezembro !!!
    JAFR

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  2. Um excelente artigo do Padre Anselmo e aproveito para desejar ao meu amigo umas Boas Festas e um excelente 2018.
    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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    1. Retribuo em dobro, Francisco.
      Para si e família.
      Caloroso abraço!

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  3. Magnífico texto e uma seleção de bom gosto.
    Que o Espírito de Natal continue a brilhar como a Etrela-guia.
    Beijinhos, Pedro.
    ~~~~~

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    1. Vindo do Padre Anselmo Borges não é de esperar outra coisa, Majo.
      Beijinhos

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  4. Passando, lendo, e deixando a minha mensagem de Ano Novo
    .
    Tema: -- FELIZ ANO NOVO DE 2018 --
    .
    Abraço

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  5. Mais um excelente artigo mas cada vez mais me questiono: todos os entendidos o fazem, os tais filósofos - o que respeito - mas a maioria não saí da sua "zona de conforto" como faz o Papa Francisco. Fico por aqui para não dizer mais coisas:)

    Beijos

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    1. Pode dizer, Fatyly.
      O Papa Francisco, ameaçado dentro da própria Igreja, é um ser humano único.
      Cuja postura muito influencia Anselmo Borges e Frei Bento.
      Beijos

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  6. Boa tarde. Adorei o texto e a mensagem final. Grande verdade.

    Hoje:-"Chuva, onde desejo tréguas."

    Bjos
    Resto de uma feliz tarde.

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    1. Bjs, Larissa Santos.
      Está aqui resumido o que deve ser o Natal.

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  7. Se 'Natal' significa natalidade e celebra o nascimento de Jesus, é Jesus o centro desta Festa cristã. Sem Ele, não haveria Natal. Comungo inteiramente com Francisco. o Papa de coração puro.
    Continuação de Boas Festas, Pedro.

    Beijinhos.

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    1. Devia ser evidente, não devia, Janita?
      Infelizmente não é.
      Continuação de Boas Festas também.
      Beijinhos

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  8. Tinha-me escapado este seu IMPORTANTE post, Pedro Coimbra.
    Felizmente, hoje, apanhei-o !
    E, obviamente, fiquei MARAVILHADO com tudo.

    Um abraço muito grato.

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    1. Anselmo Borges é senhor de uma inteligência e de uma cultura invulgares, João Menéres.
      Aquele abraço!

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  9. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Boas Festas e um ano novo repleto de acontecimentos auspiciosos.
    Caloroso abraço. Saudações renomadas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Aquele abraço, que 2018 seja Fenomenal, Amigo João Paulo de Oliveira.

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  10. Padre, eu não estou de
    passagem, vim para dar
    um abraço no meu amigo
    Pedro pela passagem de
    ano.
    Um abraço para vocês
    dois e um bom ano novo.

    silvioafonso



    .

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  11. Vi no DN e quero muito ler, mas ainda não deu tempo. Lá chegarei.

    Bom restinho de 2017, Pedro e família!

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    1. Bom restinho de 2017, melhor 2018, Graça.
      Para a Graça e família.
      Beijinhos

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  12. É bom lembrar isso mesmo, que Natal é celebrar o Menino.
    Espero que o Pedro tenha tido um Santo Natal e que o ano novo que se avizinha lhe traga tudo de bom. :)

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    1. Natal passado em família que é como eu gosto, luisa.
      Um 2018 que espero seja melhor que 2017.
      Um ano que, pessoalmente, nem correu mal.
      Mas que teve momentos muito maus por esse Mundo fora.

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  13. Com Pessoa se fez o Sermão. Inteligente e com razão, o padre Anselmo Borges.
    Boas festas e um bom ano 2018.

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    1. Anselmo Borges é inteligente e culto, Agostinho.
      Duas qualidades que não é fácil encontrar reunidas na mesma pessoa.
      Boas Festas

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  14. Tao bonito.
    Desconhecia essa história de fp.
    Não fui, afinal, a primeira pessoa a achar que DEUS está em todos nós no melhor que há dentro do nosso coração. Essa bondade e genuinidade que existe em todos, e que se esconde ou se elimina por quase todos mais tarde, contudo está totalmente exposta quando se é criança!

    Por isso é que as crianças são especiais.

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  15. O natal é outra das festividades que o tempo vai tornar sobre uma coisa, sendo que originalmente, é "outra". COMO TUDO NA HISTóRIA DA HUMANIDADE!!!

    Acho que é incontornável.

    Ainda que o afastamento de Jesus seja quase 100% na maioria da "propaganda", festejos, iluminações etc... (já escasseiam os presépios, dão lugar a pais natais e a pinheiros) o que me agrada no Natal é o ESPÍRITO. Esse, pode vir acompanhado de decorações de natal para pendurar na árvore em forma de pais natais, sinos, bolas ou agora bolachas e chocolates com o logotipo da marca que as vende... Pode não ter uma qualquer referência a cristo. Mas REUNIR A FAMILIA, mesmo que só para trocar presentes (sinal de consumismo) ainda mantém o ESPIRITO do Natal. Do convívio. Ainda se sabe que não se podem inventar desculpas para faltar a esse compromisso. Ele é «sagrado».

    Enquanto assim for, o espírito do Natal vive. Mesmo com todas as distracções em massa do consumismo simbolizado pelo Pai Natal.

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    1. Refere aqui o que para mim é o essencial do Natal, Portuguesinha - a reunião da família.

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