29 de agosto de 2017

Francisco aprofunda reformas; conservadores radicalizam dissidência (25 DE AGOSTO DE 2017 POR MAURO LOPES)


Grafite celebra visita do Papa à Colômbia, no início de setembro
O Papa Francisco surpreendeu mais uma vez ao proclamar que a reforma litúrgica estabelecida pelo Concílio Vaticano II “é irreversível” e que deve ser aprofundada. Foi num discurso feito na quinta (24) aos participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana. O Papa tocou num ponto sensível da Igreja, talvez o mais sensível: como os cristãos católicos celebram o mistério de Cristo na liturgia, especialmente a eucarística (a missa).
Há uma disputa brutal em torno da celebração eucarística que perpassa a Igreja, apesar dela acontecer sobretudo nos bastidores e textos teológicos. Os conservadores querem revogar a reforma litúrgica consagrada pelo Vaticano II (apesar de não expressarem isso explicitamente na maior parte das vezes). Um de seus líderes, o cardeal guineense Robert Sarah, ocupa o posto estratégico de  prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, onde vem colecionando atritos com o Papa e seu grupo. Tudo indica que depois dos cardeais conservadores George Pell (ex-presidente do estratégico Departamento de Economia do Vaticano) e Gerhard Müller (ex-prefeito da mais que estratégia Congregação Para a Doutrina da Fé), está chegando a hora de Sarah ser defenestrado. O discurso de Francisco parece indicar que a hora chegou.
Os conservadores sonham com o retorno da missa nos moldes do Concílio de Trento (por isso chamada de missa tridentina), rezada em latim, com o padre de costas para a assembleia. O cardeal Sarah tem explicitado sua adesão à ideia que vagou como fantasma pelos corredores do Vaticano até que em 2007 o Papa Bento XVI publicou a Summorum Pontificum, uma carta apostólica que restaurou a missa tridentina em “concorrência” com o rito do Concílio.
Para Francisco, a liturgia não é do clero, ao contrário do que apregoam os conservadores, pois ela “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato ‘popular’ e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”. A frase tem repercussões profundas. Lida ao lado de outra, com a qual o Papa anunciou que “hoje ainda há trabalho a ser feito”, pode indicar a retomada do caminho de criatividade litúrgica abruptamente interrompido por João Paulo II, que proibiu todas as iniciativas de inculturação, como as missas Criolla, Terra Sem Males e dos Quilombos.
Confrontando diretamente a concepção conservadora, Francisco anunciou “uma liturgia viva para uma Igreja viva”.
O aprofundamento da reforma litúrgica é mais uma das iniciativas da primavera franciscana.  Todas as outras são igualmente objetos da fúria da ala conservadora da Igreja, entre elas: a reforma da Cúria romana, os estudos para o diaconato feminino, o direito à comunhão de casais divorciados em segunda união, o acolhimento aos migrantes e refugiados, especialmente o apelo do Papa ao reconhecimento do jus soli (direito de solo, para que crianças de famílias migrantes tenham direito à nacionalidade nos países onde nascerem) e, finalmente, a retomada da trajetória da Igreja com os pobres de todo o mundo, na perspectiva da teologia latino-americana.
Dissidência e agressões ao Papa
Os conservadores não se cansam de elevar o tom contra o Papa, ora com exigências estapafúrdias, ora com ameaças cada vez mais explícitas de dissenção, enquanto agridem Francisco de maneiras cada dia mais explícitas de baixo nível.
Dois dos líderes do grupo de cardeais reacionários que se opõem ao Papa tentaram encurralar Francisco nas últimas semanas, mas foram ignorados e suas iniciativas até agora não prosperaram. Ambos são signatários das conhecidas “dúbia” (dúvida, em português), que nada têm de “dúvidas”, mas constituem um ataque à exortação Amoris Laetitia, que renova a posição da Igreja em relação à família, especialmente quanto ao direito á comunhão de casais divorciados em segundas núpcias.
Primeiro foi o mais agressivo e itinerante deles, o cardeal Raymond Burke, uma espécie de pop star ultraconservador. Numa entrevista ao arquiconservador jornal The Wanderer, dos EUA Burke descreveu como será o “ato formal de correção” contra o Papa, por conta da Amoris Laetitia. Ele declarou guerra total a Francisco, insinuou que o Papa é apóstata (um renegado da fé) e ameaçou com um cisma: “Pode haver apostasia dentro da Igreja e, de fato, é o que está havendo” (se quiser, leia a entrevista traduzida para o espanhol aqui).
Depois, o cardeal alemão Walter Brandmüller apareceu com uma ideia estapafúrdia de exigir que o Papa Francisco seja obrigado a retomar um costume obsoleto e em desuso há séculos, de recitar o Credo diante dos cardeais da Igreja em todo aniversário de sua eleição. Para o cardeal conservador, Francisco deveria adicionalmente fazer um pronunciamento de fidelidade à doutrina e ao que foi feito pelos papas anteriores. É uma tentativa que chega a ser pueril de enquadrar o Papa na camisa de força dos pontificados restauracionistas de João Paulo II e Bento XVI (leia aqui sobre o assunto).
Diariamente os meios de comunicação católicos de matiz conservadora atacam o Papa com violência. Em muitos deles, Francisco sequer é nominado como tal, mas como “papa Bergoglio”. Num desses sites, de um grupo conservador brasileiro, cujos fundadores apoiaram o regime militar e as torturas contra presos políticos, escreveu-se no início da semana: “O ‘evangelho’ pregado por Papa Bergoglio tem gosto de jornal, não da boa-nova de Jesus Cristo”.
Há um site em língua espanhola, aparentemente sediado no México e que se anuncia como elaborado por “sacerdotes diocesanos” todos incógnitos, dedicado exclusivamente a combater o Papa Francisco. Os títulos de alguns dos artigos mais recentes dispensam esclarecimentos adicionais: “De afirmações confusas a disparates exegéticos formais: para Francisco, Jesus foi manchado pelo pecado”; “E agora a virgindade… novas distorções bergoglianas”; “Francisco, tua paz não é a paz de Cristo”; “As desonestas citações de Francisco…”.
Nos Estados Unidos, onde há uma gama de publicações e sites católicos conservadores com recursos milionários que idolatram Trump e odeiam Francisco, clama-se abertamente pela morte do Papa. Num dos mais ricos e agressivos destes, o fundador e diretor-executivo comparou o Papa à lua passando em frente ao sol do cristianismo “puro”, no dia do eclipse no total visível em boa parte dos EUA. Usando da retórica bélica típica dos conservadores, o editor atacou: “Rezemos fervorosamente pela salvação da pobre alma do papa Francisco e, ao mesmo tempo, pelo milagre do próximo conclave nos dar um papa tradicional. Quanto mais escuro está ficando em Roma, o mais brilhante deve iluminar nossa fé e nosso amor por Jesus. É um desafio para a nossa fé. Deixe-nos estar com toda a humildade soldados e cavaleiros de Cristo.”
Os conservadores gritam, com estridência e agressividade cada vez maior. Mas a caravana conduzida por Francisco segue em frente.
[Mauro Lopes]

8 comentários:

  1. bom dia
    esse tema é demasiado complexo para mim e para os meus conhecimentos , o que não me deixa pensar que vamos ter algumas guerras entre os poderosos da igreja católica, mas espero sinceramente que as ideias deste Papa continuem a ser bem vistas pela maioria , já que também é verdade que tem de haver muita coisa que tem de ser mudada .
    JAFR

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    1. Francisco enfrenta uma oposição como não há memória na história recente da Igreja Católica, Joaquim Rosa.
      Está a mexer em muitos dogmas, em muitos interesses, tudo ao mesmo tempo.
      E isso cria muitos inimigos.
      Que Deus lhe dê força, coragem e vida.
      Aquele abraço

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    2. esperemos que sim pois a igreja precisa de homens como ele.
      Joaquim Rosário


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    3. Joaquim Rosário (o apelido da minha mulher e família, curiosamente),
      Francisco é o ser humano vivo que mais admiro.
      E é a pessoa que a Igreja e o Mundo precisavam neste momento.
      Infelizmente enfrenta tantos obstáculos que tenho receio não possa concluir a sua obra.
      E tenho muito receio do que acontecerá com quem lhe suceder.

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  2. Iremos passar por um novo Cisma?
    Ele que disse que o seu pontificado não será longo.
    Quando se acredita que este homem pode mudar a Igreja e o coração dos homens, verifica-se que nos bastidores as ideias e mudanças, danças, para pior, julgo eu, estão a acontecer mundo fora.
    É de temer.

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    1. Francisco enfrenta uma resistência como não há memória nos tempos mais recentes na Igreja Católica.
      Ele é um homem corajoso, determinado, mas o caminho que percorre está mesmo muito minado.
      Receio por ele e por quem lhe suceder.

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  3. Albino Luciani foi assassinado pela Cúria porque como Papa João Paulo I começou a revolucionar o Vaticano .

    Francisco provavelmente sofrerá um atentado certeiro ou, em desespero de causa, um ataque de coração.

    Deus o proteja e ilumine quem lhe deseja a morte !

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    1. Quando Francisco diz que julga que tem pouco tempo de vida também não estará a referir-se a isso, São?
      Um ser humano extraordinário que, como todos os seres humanos extraordinários, vive sob constante pressão.

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