31 de agosto de 2017

Pobre e mal agradecido


Confesso que uma das características do ser humano que mais irritação me provoca é a ingratidão.
Revela uma baixeza de espírito, uma falta de carácter, que em nada abona a favor da pessoa que assim age.
Vem este intróito a propósito da reacção de Au Kam San ao auxílio prestado pelos militares do Exército de Libertação Popular na limpeza da cidade após a devastação causada pelo tufão Hato.
O até agora deputado (vamos ver se é reeleito…) insurgiu-se com a saída à rua dos militares porque acha que os mesmos só deveriam ser convocados em situação de catástrofe.
O que aconteceu por estes dias em Macau não foi uma catástrofe??!!
Como muito boa gente antes dele, Au Kam San, da ala dita democrata e liberal, fica com urticária sempre que lhe falam da presença do Exército de Libertação Popular em Macau.
Quando a cidade agradece o trabalho extraordinário e incansável dos militares nas operações de limpeza, Au Kam San ergue a sua voz porque acha que o segundo sistema se encontra ameaçado com os militares na rua.
Conhecendo Au Kam San desde 1996/97, quando era membro da então Assembleia Municipal do Leal Senado, estas declarações não me surpreendem.
Seria muito fácil perguntar a Au Kam San se ajudou tanto nos esforços de limpeza da cidade quanto os membros do Exército de Libertação Popular que agora ataca.
Não vou por esse caminho.
Limito-me a perguntar a Au Kam San se conhece a expressão popular portuguesa “pobre e mal agradecido” ou se há alguma equivalente na língua chinesa.

Intemporais (84)

30 de agosto de 2017

Tensão insuportável


Já há algum tempo (cerca de um mês) o regime norte-coreano não brincava com os seus brinquedos de guerra.
Aborrecido, sem ter muito que fazer no reclusivo país, Kim Jong-un resolveu disparar mais uns mísseis.
Um dos quais terá sobrevoado o Japão caindo no norte do país junto a Hokkaido.
É o seguimento de mais um aviso desvairado do lunático norte-coreano ameaçando destruir os Estados Unidos se visse o seu regime em perigo.
Tanta ameaça, tantos testes, estão mesmo a pedir uma resposta em força dos Estados Unidos e seus aliados.
Uma resposta que estou convicto só ainda não existiu porque a China tem travado esses intentos.
Vai sendo mais que tempo de a China mostrar se é ou não capaz de fazer o mesmo com o regime norte-coreano.
A mesma China que, no quadro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, continua a apelar ao diálogo (qual diálogo e com quem confesso que não consigo perceber).
A cada teste, a cada ameaça, a cada míssil, a cada inconclusiva reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, sente-se que a paciência de um Donald Trump que ferve em pouca água e tem espírito de cowboy se está a esgotar.
Se e quando chegarmos ao ponto de não retorno, e sente-se que está cada vez mais próximo, é impossível prever o que efectivamente acontecerá.
Este Mundo está ficar cada vez mais perigoso, essa é para já a única certeza que podemos ter.
Essa e a que o soft power das Nações Unidas não ajuda nada a dissipar tantas dúvidas, tanta incerteza.

Planeta Terra























29 de agosto de 2017

Infelizes que se julgam mártires


O infeliz que conduzia a carrinha que causou a carnificina em Barcelona (recuso terminantemente mencionar o nome porque recuso terminantemente dar publicidade a esta escumalha) foi abatido pela polícia espanhola.
O mesmo infeliz, que se julga mártir mas que não passa de um pobre infeliz assassino em série, e que julga ir a caminho do paraíso e das prometidas 72 virgens.
O infeliz que era presumivelmente o último de uma célula terrorista ligada a essa entidade sinistra que se auto – denomina estado islâmico (também recuso terminantemente a utilização de maiúsculas para qualificar estes párias).
Uma célula terrorista supostamente coordenada por um Imã, baseada em Alcanar, a sul de Barcelona, que se preparava para levar a cabo atentados de grande impacto e devastação.
Uma célula terrorista tão bem preparada para espalhar o terror que acabou por fazer explodir a casa onde se encontrava a preparar uma vaga de atentados e que, no seu desvairado amadorismo, acabou a matar uma série de pessoas inocentes que passeavam na conhecida zona das Ramblas.
A intenção seria presumivelmente atacar a Sagrada Familia, o ícone de Barcelona, um local de permanente concentração de turistas, um símbolo do Cristianismo.
Um ataque que teria grande impacto, grande simbolismo, efeitos devastadores.
Mas que se viu frustrado ainda antes de acontecer. 
Desta cambada de infelizes, que preparava este e outros atentados, presume-se que estejam já todos mortos ou encarcerados.
Mas não tenhamos ilusões nem entremos em celebrações despropositadas.
Pura e simplesmente porque há muitos mais infelizes como estes.
Infelizes prontos a qualquer momento e em qualquer lugar para assassinarem inocentes só porque ingenuamente pensam que isso os fará passar à condição de mártires.
Infelizes com os quais não é possível dialogar, muito menos negociar.
Infelizes que têm que ser travados de todas as formas e sem qualquer contemplação.
Que fiquem mergulhados na sua infinita e infeliz estupidez e se julguem mártires é algo que não nos deverá minimamente preocupar.

Francisco aprofunda reformas; conservadores radicalizam dissidência (25 DE AGOSTO DE 2017 POR MAURO LOPES)


Grafite celebra visita do Papa à Colômbia, no início de setembro
O Papa Francisco surpreendeu mais uma vez ao proclamar que a reforma litúrgica estabelecida pelo Concílio Vaticano II “é irreversível” e que deve ser aprofundada. Foi num discurso feito na quinta (24) aos participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana. O Papa tocou num ponto sensível da Igreja, talvez o mais sensível: como os cristãos católicos celebram o mistério de Cristo na liturgia, especialmente a eucarística (a missa).
Há uma disputa brutal em torno da celebração eucarística que perpassa a Igreja, apesar dela acontecer sobretudo nos bastidores e textos teológicos. Os conservadores querem revogar a reforma litúrgica consagrada pelo Vaticano II (apesar de não expressarem isso explicitamente na maior parte das vezes). Um de seus líderes, o cardeal guineense Robert Sarah, ocupa o posto estratégico de  prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, onde vem colecionando atritos com o Papa e seu grupo. Tudo indica que depois dos cardeais conservadores George Pell (ex-presidente do estratégico Departamento de Economia do Vaticano) e Gerhard Müller (ex-prefeito da mais que estratégia Congregação Para a Doutrina da Fé), está chegando a hora de Sarah ser defenestrado. O discurso de Francisco parece indicar que a hora chegou.
Os conservadores sonham com o retorno da missa nos moldes do Concílio de Trento (por isso chamada de missa tridentina), rezada em latim, com o padre de costas para a assembleia. O cardeal Sarah tem explicitado sua adesão à ideia que vagou como fantasma pelos corredores do Vaticano até que em 2007 o Papa Bento XVI publicou a Summorum Pontificum, uma carta apostólica que restaurou a missa tridentina em “concorrência” com o rito do Concílio.
Para Francisco, a liturgia não é do clero, ao contrário do que apregoam os conservadores, pois ela “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato ‘popular’ e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”. A frase tem repercussões profundas. Lida ao lado de outra, com a qual o Papa anunciou que “hoje ainda há trabalho a ser feito”, pode indicar a retomada do caminho de criatividade litúrgica abruptamente interrompido por João Paulo II, que proibiu todas as iniciativas de inculturação, como as missas Criolla, Terra Sem Males e dos Quilombos.
Confrontando diretamente a concepção conservadora, Francisco anunciou “uma liturgia viva para uma Igreja viva”.
O aprofundamento da reforma litúrgica é mais uma das iniciativas da primavera franciscana.  Todas as outras são igualmente objetos da fúria da ala conservadora da Igreja, entre elas: a reforma da Cúria romana, os estudos para o diaconato feminino, o direito à comunhão de casais divorciados em segunda união, o acolhimento aos migrantes e refugiados, especialmente o apelo do Papa ao reconhecimento do jus soli (direito de solo, para que crianças de famílias migrantes tenham direito à nacionalidade nos países onde nascerem) e, finalmente, a retomada da trajetória da Igreja com os pobres de todo o mundo, na perspectiva da teologia latino-americana.
Dissidência e agressões ao Papa
Os conservadores não se cansam de elevar o tom contra o Papa, ora com exigências estapafúrdias, ora com ameaças cada vez mais explícitas de dissenção, enquanto agridem Francisco de maneiras cada dia mais explícitas de baixo nível.
Dois dos líderes do grupo de cardeais reacionários que se opõem ao Papa tentaram encurralar Francisco nas últimas semanas, mas foram ignorados e suas iniciativas até agora não prosperaram. Ambos são signatários das conhecidas “dúbia” (dúvida, em português), que nada têm de “dúvidas”, mas constituem um ataque à exortação Amoris Laetitia, que renova a posição da Igreja em relação à família, especialmente quanto ao direito á comunhão de casais divorciados em segundas núpcias.
Primeiro foi o mais agressivo e itinerante deles, o cardeal Raymond Burke, uma espécie de pop star ultraconservador. Numa entrevista ao arquiconservador jornal The Wanderer, dos EUA Burke descreveu como será o “ato formal de correção” contra o Papa, por conta da Amoris Laetitia. Ele declarou guerra total a Francisco, insinuou que o Papa é apóstata (um renegado da fé) e ameaçou com um cisma: “Pode haver apostasia dentro da Igreja e, de fato, é o que está havendo” (se quiser, leia a entrevista traduzida para o espanhol aqui).
Depois, o cardeal alemão Walter Brandmüller apareceu com uma ideia estapafúrdia de exigir que o Papa Francisco seja obrigado a retomar um costume obsoleto e em desuso há séculos, de recitar o Credo diante dos cardeais da Igreja em todo aniversário de sua eleição. Para o cardeal conservador, Francisco deveria adicionalmente fazer um pronunciamento de fidelidade à doutrina e ao que foi feito pelos papas anteriores. É uma tentativa que chega a ser pueril de enquadrar o Papa na camisa de força dos pontificados restauracionistas de João Paulo II e Bento XVI (leia aqui sobre o assunto).
Diariamente os meios de comunicação católicos de matiz conservadora atacam o Papa com violência. Em muitos deles, Francisco sequer é nominado como tal, mas como “papa Bergoglio”. Num desses sites, de um grupo conservador brasileiro, cujos fundadores apoiaram o regime militar e as torturas contra presos políticos, escreveu-se no início da semana: “O ‘evangelho’ pregado por Papa Bergoglio tem gosto de jornal, não da boa-nova de Jesus Cristo”.
Há um site em língua espanhola, aparentemente sediado no México e que se anuncia como elaborado por “sacerdotes diocesanos” todos incógnitos, dedicado exclusivamente a combater o Papa Francisco. Os títulos de alguns dos artigos mais recentes dispensam esclarecimentos adicionais: “De afirmações confusas a disparates exegéticos formais: para Francisco, Jesus foi manchado pelo pecado”; “E agora a virgindade… novas distorções bergoglianas”; “Francisco, tua paz não é a paz de Cristo”; “As desonestas citações de Francisco…”.
Nos Estados Unidos, onde há uma gama de publicações e sites católicos conservadores com recursos milionários que idolatram Trump e odeiam Francisco, clama-se abertamente pela morte do Papa. Num dos mais ricos e agressivos destes, o fundador e diretor-executivo comparou o Papa à lua passando em frente ao sol do cristianismo “puro”, no dia do eclipse no total visível em boa parte dos EUA. Usando da retórica bélica típica dos conservadores, o editor atacou: “Rezemos fervorosamente pela salvação da pobre alma do papa Francisco e, ao mesmo tempo, pelo milagre do próximo conclave nos dar um papa tradicional. Quanto mais escuro está ficando em Roma, o mais brilhante deve iluminar nossa fé e nosso amor por Jesus. É um desafio para a nossa fé. Deixe-nos estar com toda a humildade soldados e cavaleiros de Cristo.”
Os conservadores gritam, com estridência e agressividade cada vez maior. Mas a caravana conduzida por Francisco segue em frente.
[Mauro Lopes]

28 de agosto de 2017

It was the best of times, it was the worst of times


Charles Dickens escreveu, em A Tale of Two Cities, as palavras imortais em título - "It was the best of times, it was the worst of times".
Palavras que relembrei várias vezes nestes últimos dias em Macau.
Porque nestes dias, se não teremos visto the best of times, the worst of times, certamente vimos the best of people, the worst of people. 
A catástrofe que afectou Macau a meio da semana, logo seguida de outra de menor dimensão no final da semana, mostrou mesmo o melhor e o pior da cidade e das pessoas que a habitam. 
Bombeiros e polícias a trabalhar sem repouso, o Exército de Libertação Popular a auxiliar, milhares de voluntários a limpar as ruas, a distribuir água e alimentos (particulares e empresas), a prestar serviços essenciais aos mais necessitados sem por isso pedir qualquer retribuição (estou a pensar por exemplo nos taxistas que não são todos gente de coração empedernido), gente a reparar os milhares de casas que ficaram danificadas, profissionais de saúde, gente anónima, sem rosto, toda uma cidade, que continua a ser do Santo Nome de Deus, a ter um coração e uma alma enormes.
The best of times, the best of people.
Gente que não merecia a atitude de uma série de dejectos humanos capazes de aproveitar o trabalho de milhares para emporcalhar as ruas com as tralhas que tinham acumuladas em casa, para roubar os mais necessitados praticando assaltos à mão desarmada (hotéis, restaurantes, lojas, taxistas,...).
Escória humana que envergonha Macau.
A Macau, Cidade do Santo Nome de Deus, que mostrou uma vez mais que, no meio de muita confusão e muito amadorismo, citando o poeta, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena".

24 de agosto de 2017

Tufão Hato

Sem palavras porque as imagens dizem tudo



















(Imagens retiradas da internet)

22 de agosto de 2017

Mais manifestações em Hong Kong


Milhares de pessoas saíram à rua em Hong Kong para protestar contra a detenção de três dos principais rostos do Occupy Central.
Depois de terem sido condenados, em primeira instância, a cumprir penas de serviço cívico e de prisão (seis semanas, com pena suspensa para Nathan Law), os três activistas (Joshua Wong Chi-fung, Nathan Law Kwun-chung e Alex Chow Yong-kang) viram as suas penas agravadas em sede de recurso e vão agora cumprir penas de prisão entre seis e oito meses.
Numa sociedade fracturada, onde os movimentos pró - Pequim e pró - independentistas se digladiam quase diariamente, um acontecimento como estes assume proporções muito mais alarmantes que noutro  qualquer local.
De um lado os que defendem que os activistas agora detidos violaram a lei (e violaram, é inquestionável e eles próprios o admitem falando em desobediência civil) e devem por isso ser punidos; do outro os que acham que as penas aplicadas são excessivas e têm a impressão digital de Pequim (a desconfiança em relação a Pequim é constante e parece agravar-se a cada acontecimento semelhante ao que agora presenciámos).
Não vou aqui avaliar as penas aplicadas, a sua adequação à lei vigente em Hong Kong, pura e simplesmente porque não disponho de elementos que mo permitam fazer com o mínimo de rigor.
O que me interessa saber, e é isso que está verdadeiramente em causa, é se houve interferência do executivo no judicial ou não.
Se houve, e não quero acreditar que tenha havido, estamos perante um caso gravíssimo e a trilhar um caminho que não sabemos onde nos levará.
Se não houve, e repito que quero acreditar que não tenha havido, o que se pode discutir é a adequação das penas aplicadas aos factos, não o seu enquadramento político.
O ideal seria procurar-se fazer esta averiguação com calma, com ponderação, com isenção, com independência.
Algo que receio ser muito difícil, talvez virtualmente impossível, conseguir no meio de tanto ruído e tanto extremismo.

Jerry Lewis (16 de Março de 1926 - 20 de Agosto de 2017)

Jerry Lewis num dos seus (muitos) momentos brilhantes