27 de abril de 2016

Aumento de rendas tendo por referência a usura??


Como sempre faço, no final do mês de Março fui pagar a renda devida pelo lugar de estacionamento que ocupo no prédio onde trabalho.
Foi-me então entregue uma folha tamanho A4, com uma mensagem redigida em chinês, da qual só percebia os números 400 e 3500.
Com o auxílio de amigos confirmei as minhas suspeitas - a renda do lugar de estacionamento, actualmente 2400 patacas mensais, ia ser aumentada em 400 patacas no final do contrato (são sempre contratos anuais e com final em Julho).
E até estava cheio de sorte por "só" ir pagar 2800 patacas mensais de renda por um lugar de estacionamento. 
E isto porque, na zona da cidade onde trabalho e onde se situa o referido lugar de estacionamento, o valor médio da renda supostamente ronda as 3500 patacas mensais. 
Este episódio, nada inesperado confesso, só veio adensar as minhas dúvidas acerca do que era voz corrente em Macau - a possibilidade de se limitar legalmente o aumento de rendas para a habitação e comércio tendo por base a taxa de inflacção. 
Cheang Chi Keong, presidente da comissão que na Assembleia Legislativa analisa o Regime Jurídico do Arrendamento, pôs ontem um ponto final nas dúvidas que porventura ainda existissem. 
Aumentos de rendas indexados à taxa de inflacção (um pouco acima dos 4%)? 
Que disparate! 
Uma Assembleia Legislativa onde se sentam grandes proprietários imobiliários, pouca imaginativa na maior parte das questões que lhe são submetidas a análise, enche-se de criatividade quando a questão a tratar mexe no bolso dos deputados com interesses na matéria. 
Vamos esquecer a taxa de inflacção, vamos esquecer a contínua queda do valor do imobiliário, vamos esquecer as condições de vida dos arrendatários, aqueles que supostamente deveriam ser finalmente protegidos com a legislação a ser revista. 
Vamos antes dar asas à imaginação e satisfazer a incessante gula dos proprietários. 
Fiquemos nos limites da legalidade (muito duvidoso...) e vamos ter por referência a usura. 
Assim serão possíveis aumentos de rendas na ordem dos 30%, aumentos que até passarão a ter cobertura legal. 
Não é bem o que os proprietários que se sentam na Assembleia, e os que mexem os cordelinhos nos bastidores, queriam (o que queriam era ausência de limites, como todos sabemos), mas é melhor que esse disparate de indexação à taxa de inflacção. 
A ganância para esta gente não é nada de problemático e o respeito pelas condições de vida de terceiros é absolutamente irrelevante. 
Ontem, pela voz de Cheang Chi Keong, sem argumentos para defender a proposta apresentada, só tivemos a confirmação dessa realidade. 

27 comentários:

  1. Respostas
    1. Tive uma boa fonte de inspiração ontem à noite no Telejornal da TDM :)
      Grande abraço

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  2. Confirmar a realidade, muitas vezes, senão a maioria, revela-se uma frustração....

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    1. Vou ficar atento ao evoluir deste processo, Golimix.
      A conferência de imprensa do sujeito (Cheang Chi Keong) roçou o ridículo.
      E estou a ser simpático....

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  3. O que interessa a eles é os números$$$$$$ meu amigo se não percebeu texto não tem importância, mas realmente é escandaloso.
    Um abraço e boa Quarta-feira.

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    1. Sempre me pereceu muito complicado, para não dizer impossível, indexar os aumentos das rendas à taxa de inflacção, Francisco.
      Esta gente é demasiado gulosa para se contentar com tão pouco.
      Aquele abraço, uma óptima quarta-feira.

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  4. Usura, digo eu, Pedro e descarada.

    Aquele abraço.

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    1. Os números avançados batem mesmo nos limites da usura tendo por referência a taxa de juro legal.
      Mas é de um despudor incrível querer fazer incidir os aumentos das rendas (com impacto directo na vida de muitos milhares de pessoas) nos limites dos valores da usura e não nos valores da inflacção.
      Valores de inflacção, oficiais, que são invocados como referente para os aumentos de salários dos funcionários públicos, e, consequentemente, como tecto para os aumentos em todas as outras profissões.
      Sendo estes senhores, que agora discutem em petit commité estes valores de aumentos de rendas, grandes proprietários e grandes empresários.
      Quando falam em perder a face (conceito muito chinês) deviam era recorrer ao bem português de vergonha na tromba!
      Aquele abraço

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  5. Ui! Estou a ver que o estacionamento é uma questão complicada.

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    1. Os lugares de estacionamento, não são garagens, são lugares de estacionamento, custam uma fortuna, Chic'Ana

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  6. Será que o bom senso e a vergonha desapareceram de vez de todos os deputados a nível mundial?

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    1. E os que estão a propor este dislate estão a dar uma facada nas costas dos colegas, São.
      Não há vergonha :(

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    1. O que fazia sentido era indexar o aumento das rendas à taxa de inflacção, António.
      Não é isso que se faz com os restantes aumentos??

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  8. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Que descaramento.
    Caloroso abraço. Saudações descaradas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Sem vergonha, Amigo João Paulo de Oliveira.
      Cara de pau até mais não esta gente.
      Grande abraço

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    2. Já há algum tempo que tenho dificuldade de comentar no seu blogue, Amigo João Paulo de Oliveira.
      Hoje é impossível.
      Mais alguém se queixou deste problema???
      Aquele abraço

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  9. Amigo Pedro, querem sempre mais e mais.
    Nunca se preocupam com quem paga.
    Aí, aqui, em qualquer lado.
    Lamento por si e pelos que vão sofrer tais brutais
    aumentos.
    Um abraço
    Irene Alves

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    1. Irene Alves,
      Não posso ser mentiroso nem hipócrita - os aumentos só me afectam naquele lugar de estacionamento e até ao dia em que eu resolver largar aquela porcaria e procurar uma alternativa.
      Comprámos a nossa casa quando ainda era possível comprar, estamos tranquilos nesse aspecto.
      O que não me impede de olhar para a injustiça e a exploração que outros estão a sofrer.
      É um abuso, cometido com uma cara de pau que mete impressão.
      Um abraço

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  10. ~~~
    Política de inspiração comunista, mas a anos-luz
    da democracia.
    Em termos sociais, é o ''salve-se quem puder''...
    ~~~ Beijinhos. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Este lóbi do betão é insaciável, Majo.
      E capaz de tudo só para conseguir mais uns $$$
      Beijinhos

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  11. Em Portugal há uma inflacção das rendas para habitação, cujas causas ando há tempos para alinhavar num post. Ver se consigo fazê-lo na próxima semana.

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    1. Aqui não há motivos para aumentos de rendas, Carlos Pelo contrário.
      Durante anos os preços do imobiliário e das rendas aumentaram desmesuradamente (10 vezes ou mais).
      O tempo das vacas gordas já passou.
      E nos últimos três anos o preço do imobiliário tem vindo a depreciar-se.
      Os preços ainda são muito elevados mas não há qualquer motivo para que subam.
      Muito menos que subam 30%.
      Se a inflacção é pouco superior a 4% (números oficiais) e o valor do imobiliário estão em queda, as rendas sobem porquê???

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  12. Tenho pena de não me lembrar quem ! ... mas li recentemente declarações de um ex-político, confessando que os políticos fazem as leis, prioritariamente de acordo com os seus próprios interesses ! ... Lá está ! ...
    ... E o caso de Presidentes de Câmara que mandam abrir estradas nos limites de terrenos seus para os valorizar ?...
    ... E os que fecham os olhos para permitir a construção de mais um andar, recebendo o respectivo "prémio" do construtor ? ...

    ... E o que fazer Pedro, quando o que apetece é correr com todos eles dos seus cargos ?... É como é ? ...Onde está o Sistema Democrático ?... o que fazemos dele ? ...
    É revoltante e apetece ser anarquista !!!

    Abraço !

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    1. Pode ser que estes desenvergonhados vejam o tiro sair-lhe pela culatra, Rui.
      Porque estão a apresentar este projecto à revelia e contra o parecer dos restantes colegas na Assembleia.
      E, nas últimas horas, as notícias já dão conta de reacções muito fortes contra estes abusos.
      O que eu gostava de os ver bater com as trombas na parede, Rui!!
      Aquele abraço

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  13. Já vi que a "gula" dos que mandam é sempre na base de: venha a nós o vosso reino.

    Por cá e na governação de direita fizeram um belo trabalho sobre a Lei do arrendamento urbano de e até 1990. Se fosse apenas estacionamentos resolveria-se bem, o pior é tirarem o que todo o ser humano precisa sobretudo numa idade em que já "são totalmente descartáveis"...o seu "cantinho". Falam da esquerda, foi a direita que fez o que fez e que em nada beneficiou os senhorios e muito menos os inquilinos.
    Nesta lei incluíram o "uso obrigatório das garagens por parte de quem é proprietário" dando assim espaço aos que não têm...deixa-me rir Pedro, a fiscalização é ineficaz e até já há garagens que servem de casa.

    O mundo anda mesmo tresloucado.

    Beijos

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    1. Não me posso pronunciais acerca da legislação que regula o arrendamento em Portugal porque confesso que me passa totalmente ao lado, Fatyly.

      Aqui, e pese embora seja proprietário e não arrendatário, mete-me impressão que ainda exista esta mentalidade de tudo sugar ao seu semelhante, de ganhar MUITO e DEPRESSA.
      Toda a gente tem o direito de ganhar dinheiro com os seus investimentos.
      Não tem é o direito de, para isso, atropelar os mais básicos direitos de terceiros.
      E se isto é verdade para todos, é-o ainda muito mais para quem assume funções de especial responsabilidade dentro da comunidade.
      Como é o caso das luminárias que surgem com esta proposta de roubo institucional.

      Beijos

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