20 de abril de 2016

A Alegria do Amor. 1, crónica do Padre Anselmo Borges


1- Era um texto muito aguardado do Papa Francisco. Depois de dois Sínodos, em 2014 e 2015, sobre a família, antecedidos de algo inédito - Francisco quis saber, com consultas em todo o mundo, o que pensam os católicos sobre as problemáticas relacionadas com a família, desde a crise profunda que atravessa às uniões entre pessoas do mesmo sexo e à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados -, o Papa teria a última palavra, num documento seu, tendo em conta os resultados dos Sínodos. Acaba de ser publicado, com o belo título A Alegria do Amor. Uma Exortação Apostólica, com mais de 200 páginas e 325 pontos. O seu fio condutor é a misericórdia, ao encontro das pessoas em dificuldade. Não muda a doutrina, mas exige uma nova pastoral, de tal modo que o cardeal W. Kasper não se sentirá completamente defraudado ao ter previsto que "o documento assinalará o início da maior revolução na Igreja dos últimos 1500 anos".

O texto vai requerer hermenêutica adequada, tanto mais quanto se trata de uma Exortação aberta ao futuro e que teve em conta reacções acesas, com ameaça de cisma na Igreja. Francisco, sem se negar a si próprio, convoca para a urgência de seguir o Evangelho, mas sabe que o seu ministério é de unidade na Igreja e não de divisão e, por isso, apela à compreensão, considerando novos caminhos pastorais, as diferentes culturas e sensibilidades, em "precioso poliedro". Terão bispos e padres aquela atitude de pastores bons que anima Francisco, mais atento ao Evangelho e às pessoas do que ao Código de Direito Canónico e à rigidez da doutrina?

2- Para se perceber a delicadeza das questões com que Francisco se confronta é importante conhecer a entrevista, aliás inteligente, dada pelo cardeal Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ao director da Biblioteca de Autores Cristianos, de Madrid, com o título "Informe sobre la esperanza", publicada pouco antes da Exortação, tão extensa como ela e com a pretensão de lhe dar a interpretação oficial. Deixo aí teses centrais referentes a estes temas: "deriva-se da Sagrada Escritura a desordem intrínseca dos actos homossexuais, por não procederem de verdadeira complementaridade afectiva e sexual. Trata-se de uma questão muito complexa, pelas muitas implicações que emergiram com força nos últimos anos"; "a ideologia de género pretende inculcar a ideia de que não existe uma natureza da pessoa humana que a determine a ser varão ou mulher, pelo que a identidade sexual é uma opção sexual que depende do próprio desejo"; compreendemos que "a Igreja recuse os métodos anticonceptivos, porque impedem o dom de si dos esposos"; a Igreja Católica defende "a absoluta indissolubilidade do matrimónio rato e consumado", tornando impossível o acesso à Eucaristia aos recasados civilmente; "o sacerdócio está em íntima conexão com o celibato"; "é doutrina definitiva ensinada infalivelmente pelo magistério ordinário universal que a Igreja não tem autoridade para admitir as mulheres ao sacerdócio".

3- E Francisco na Exortação? Reafirma o ideal: "O matrimónio cristão realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até à morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como igreja doméstica e serem fermento de vida para a sociedade." E "não podemos renunciar a propor o matrimónio, para não contradizer a sensibilidade actual, para estar na moda, ou por sentimentos de inferioridade face ao descalabro moral e humano". Mas exige-se também autocrítica: por vezes "a forma como tratamos as pessoas ajudou a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos" ou "apresentámos um ideal teológico do matrimónio demasiado abstracto, construído quase artificialmente".

É preciso dar "espaço à consciência dos fiéis: somos chamados a formar consciências, não a pretender substituí-las". A Igreja não abandona pastoralmente "os fiéis que simplesmente vivem juntos, que contraíram matrimónio apenas civil ou são divorciados e voltaram a casar". É contra o machismo, exalta o prazer erótico, é a favor do feminismo, entende quem tem tendência homossexual e percebe que há situações em que "a separação é inevitável, podendo até chegar a ser moralmente necessária". "Não há receitas simples." "A Igreja não é uma alfândega", mas "um hospital de campanha", "a misericórdia é a trave-mestra que sustenta a sua vida." "Na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e de práxis, mas isso não impede que subsistam diferentes modos de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que derivam dela."

A chave da Exortação: "Acompanhar, discernir e integrar." Com esta chave, leremos, no próximo sábado, as problemáticas referentes aos anticonceptivos, ao feminismo, à homossexualidade, à comunhão para os recasados.

2 comentários:

  1. Cada dia que passa gosto mais do Papa Francisco.
    Obrigada pela partilha.
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Somos dois, Elvira Carvalho.
      Francisco é um Ser Humano extraordinário.
      Na próxima semana publicarei a segunda parte desta reflexão de Anselmo Borges.

      Eliminar