19 de maio de 2015

Poemas publicados no Facebook

Respondendo ao desafio de um amigo publiquei em quatro dias consecutivos quatro poemas no Facebook.
A Janita sugeriu que os reunisse e publicasse aqui.
Uma sugestão que tenho todo o gosto em satisfazer.
Ficam então aqui os quatro poemas por ordem de publicação.
Beijinhos, Janita.



À Virgem Santíssima
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N'um sonho todo feito de incerteza, 
De nocturna e indizível ansiedade, 
É que eu vi teu olhar de piedade 
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza, 
Nem o ardor banal da mocidade... 
Era outra luz, era outra suavidade, 
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura 
Feita só do perdão, só da ternura 
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa! 
Fita-me assim calada, assim chorosa... 
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental, in "Sonetos"



O ESPELHO
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto
No livro “Idades Cidades Divindades”


AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

27/11/1930


O DIA DA CRIAÇÃO
Rio de Janeiro , 1946
Macho e fêmea os criou. 
Bíblia: Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo 
A vida vem em ondas, como o mar 
Os bondes andam em cima dos trilhos 
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Não há nada como o tempo para passar 
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo 
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Amanhã não gosta de ver ninguém bem 
Hoje é que é o dia do presente 
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade 
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios 
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas 
Todos os maridos estão funcionando regularmente 
Todas as mulheres estão atentas 
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado. 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado. 
Há um espetáculo de gala 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado. 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado. 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado. 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande espírito de porco 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado. 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado. 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado. 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado. 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado. 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado. 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado. 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado. 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado. 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado. 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado. 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado. 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado.

Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado. 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado. 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado. 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado. 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado. 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado. 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado. 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado. 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado.

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. 
Na verdade, o homem não era necessário 
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. 
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias 
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos 
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. 
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes 
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia 
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo 
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia, 
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias 
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio 
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo 
E para não ficar com as vastas mãos abanando 
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança 
Possivelmente, isto é, muito provavelmente 
Porque era sábado.

Vinicius de Moraes


8 comentários:

  1. Adoro poesia e gostei muito de conhecer novos poetas.
    Tenha um ótimo dia.

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    1. Anajá,
      Conhecia o poema de Vinicius de Moraes?
      Foi o que publiquei no passado sábado.
      Tenha um óptimo dia também

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  2. Obrigada por ter aceite o meu pedido, Pedro!

    Eu que sou uma amante de poesia, devo dizer, com algum constrangimento, que destes quatro belíssimos poemas que o Pedro escolheu, apenas conhecia o de Fernando Pessoa e o de Mia Couto!

    Houve, por certo, alguma confusão, da minha parte, quando o Pedro fez referência ao primeiro poema e eu pensei, ou o Pedro se enganou, que o autor seria Eugénio de Andrade, lembra-se?

    De qualquer modo, isso é irrelevante, o que é importante é que soube fazer uma excelente selecção poética, homenageando grandes poetas clássicos e
    contemporâneos.
    Parabéns, Pedro!

    Uma vez mais o meu agradecimento sincero.

    Beijinhos.

    PS: Vou copiar esta publicação, que guardarei no meu arquivo, para memória futura! :)

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    1. Não sou grande conhecedor de poesia, Janita.
      Essa foi mais uma razão para aceitar o desafio - procurar poemas que me agradassem e se enquadrassem naqueles dias.
      Procurei, seleccionei, publiquei.
      E, agora, com todo o gosto, reuni-os aqui aceitando a sugestão que me endereçou.
      Beijinhos

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  3. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Apreciei os poemas que escolhestes.
    Caloroso abraço! Saudações poéticas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver sem véus e sem ranços.

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    1. Não sou um conhecedor nem um amante de poesia, Amigo João Paulo de Oliveira.
      O desafio que me foi lançado teve assim uma dupla vertente.
      E deu-me muito gozo responder afirmativamente.
      Grande abraço

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  4. Gostei muito de todos e só conhecia o início do de Fernando Pessoa.
    um beijinho

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    1. Se tivesse que escolher um hesitaria entre Fernando Pessoa e Mia Couto, Gábi.
      Beijinhos

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