5 de maio de 2015

"Não ao machismo", diz Francisco por ANSELMO BORGES DN 02MAIO2015


Celebra-se amanhã o Dia da Mãe. O que aí fica quereria ser uma homenagem às mulheres, mães ou não.
1 Discute-se sobre as razões do facto, mas o facto é que em quase toda a parte as mulheres foram inferiorizadas ao longo da história. Os homens ficaram hierarquicamente com o primeiro lugar.
As razões são muitas. Os homens dominaram por causa da força física, o que não significa que as mulheres não sejam mais resistentes. Por causa da maternidade e dos cuidados com as crianças, as mulheres ficaram mais dependentes. A menstruação e a impureza ritual acabaram por marginalizá-las. Paradoxalmente, a marginalização provinha também de algum ciúme da parte dos homens: afinal, da vida percebem elas, que a vivem no seu interior; como compensação, os homens foram para a exterioridade da guerra e dos grandes "feitos", de que fala a história, ignorando as mulheres. Até há línguas que subordinam as mulheres; no caso da língua portuguesa, o seu funcionamento sexista é claro: para acederem à sua identidade humana, as mulheres fazem-no pelo uso do genérico "homem"; a mulher é ser humano pela mediação do masculino. A socialização religiosa, com todas as suas consequências, faz-se no masculino: uma menina é baptizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e será confrontada com uma hierarquia masculina: o padre, o bispo, o cardeal, o papa. Também o desconhecimento científico contribuiu: a descoberta do óvulo feminino deu-se apenas em 1827, o que significou que a mulher era considerada passiva na geração, levando, por exemplo, São Tomás de Aquino a afirmar que a mulher não pode ter poder na Igreja nem pregar. Uma das razões da misogenia é, segundo F. Lenoir, o prazer feminino, "essa grande intriga para o homem": o homem tem "ciúme do gozo feminino, pois é infinito, enquanto que o do homem é finito. Há uma espécie de abismo do gozo sexual da mulher que mete medo ao homem e o contraria".
2 No século passado, deu-se uma revolução em ordem à emancipação e igualdade da mulher. Para isso, foram decisivas as duas guerras mundiais, pois fizeram que as mulheres ocupassem lugares profissionais até então reservados aos homens, que partiam para a guerra e, lentamente, conduziram ao acesso a todos os níveis de estudos e à autonomia económica. Igualmente importante foi a autonomia sexual proporcionada pelo que normalmente se chama "a pílula", um meio mais eficaz para a separação entre actividade sexual e gravidez. A emancipação feminina constituiu, no meu entender, uma das maiores transformações sociais dos finais do século passado, cujos efeitos nos vários domínios - compreensão da sexualidade, família, trabalho... - estão ainda em curso.
3 Foi neste contexto que começaram as justas reivindicações das mulheres também no domínio religioso, contra o modelo patriarcal discriminatório. A Igreja católica, contra a vontade de Jesus, não constituiu excepção e é actualmente uma das últimas grandes instituições machistas do Ocidente. Com o Papa Francisco, abrem-se algumas portas. Acaba de denunciar o machismo: "Pensemos nos excessos negativos da cultura patriarcal e nas múltiplas formas de machismo, onde a mulher é considerada de segunda classe." E: "Temos de fazer muito mais para que a voz da mulher tenha um peso real na sociedade e na Igreja." Tem-se desdobrado em discursos e actos a favor das mulheres, denunciando "a sua condição subalterna na Igreja". Com escândalo de muitos, lavou os pés a duas mulheres numa prisão, colocou uma mulher na presidência da Academia Pontifícia de Ciência Sociais, nomeou cinco para a Comissão Teológica Internacional, quer que se reflicta "sobre o possível papel da mulher nos lugares onde se tomam as decisões importantes", o que permite pensar na nomeação de mulheres para a presidência de alguns ministérios na Cúria Romana. Acaba de denunciar o "escândalo" de as mulheres ganharem menos: "Para trabalho igual salário igual."
Falta a abertura ao sacerdócio ordenado, a que nem a Bíblia nem o dogma se opõem. Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, escreveu: "A prática da Igreja católica de não ordenar mulheres para o sacerdócio não tem nenhum conteúdo teológico obrigatório. A prática actual não é um dogma." Foi seguido pelo cardeal Karl Lehmann, durante muito tempo presidente da Conferência Episcopal Alemã, e pelo cardeal José Policarpo, entre outros. O cardeal Carlo Martini visitou em 1990 o então arcebispo de Cantuária, George Carey, dizendo-lhe que a sua abertura ao sacerdócio feminino poderia ajudar os católicos a serem "mais justos com as mulheres"; por esse motivo e outros, "os homens da Igreja têm DE pedir perdão às mulheres". Uma questão de direitos humanos.

12 comentários:

  1. Um artigo interessante e gostei!

    Beijocas

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    1. Vindo de Anselmo Borges não é nada surpreendente, Fatyly.
      Beijocas

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  2. Enquanto o meu glorioso Benfica não tiver duas mães á defesa e três candidatas a mamã ao ataque todos estes argumentos, eclesiásticos ou outros, não deixam de valer mais que um traque, com que se premeiam as boas intenções deste reverendo.

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    1. aguerreiro,
      Procure no Youtube a intervenção de Emma Thompson na ONU.
      O tema é o feminismo (HeForShe).
      Vale a pena.

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  3. Anselmo Borges é um Homem e um Sacerdote que admiro e respeito , além de lhe estar grata pelas posições que toma.a favor da Mulher.

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    1. Sou um grande admirador de Anselmo Borges.
      que, como já aqui referi, espero conhecer pessoalmente, através do meu pai, numa próxima visita a Portugal.

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  4. ~~
    A crónica mais interessante que li nos últimos tempos!


    ~ Temos nuvens, novamente e ando adoentada...

    ~~~~~ Dias primaveris muito agradáveis. ~~~~~

    ~~~~~~~~ Beijinhos. ~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. As nuvens e esses problemas de saúde vão passar rapidinho, Majo.
      Pozinhos de perlimpimpim desde Macau.
      Beijinhos

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  5. Também li este texto no DN e achei o máximo!!
    Muito bem escrito - como é habitual no Pe Anselmo - e, desta vez, de mais fácil leitura já que não entra pela filosofia - disciplina que o autor versa com uma maestria que me deixa um bom bocado para trás...

    Beijinhos

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    1. Anselmo Borges foi mestre do meu pai na Faculdade em Coimbra (o mau pai é mais velho que ele).
      Uma pessoa extraordinária que espero realmente ter o prazer de conhecer pessoalmente numa próxima visita a Portugal.
      Beijinhos

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  6. Um homem sem teias de aranha. Escreve sempre com muita objectividade sobre temas que a Igreja tradicional gosta de ver bem fechados no baú da peste.

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    1. Anselmo Borges é uma voz desempoeirada, atenta, livre.
      Aquilo que quero ver na Igreja, Agostinho.

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