30 de Outubro de 2014

Subsidiar para arrendar


Consultando a lista de apoios concedidos pela Fundação Macau no terceiro trimestre deste ano vem à memória a salomónica profecia nothing new under the sun.
A Universidade de Ciência e Tecnologia (MUST, na sigla inglesa) continua a ocupar o topo do ranking das verbas recebidas.
Quase 90 milhões de patacas (são quase 9 milhões de euros) entre os quais 27, 3 milhões de "subsídio especial para o campo de futebol e o pavilhão desportivo"(sic).
Serão os mesmos que foram construídos em terrenos de valor incalculável cedidos pelo Governo, que foram construídos com dinheiros públicos, recebidos via Fundação Macau, e que são frequentemente arrendados a entidades da Administração para a realização de eventos desportivos?
Não devem ser.
Porque, se forem, só um adjectivo pode qualificar esta conduta - obscena! 

Funcionários Públicos

Ainda o FerreirAmigo ao ataque.
Desta vez para se meter com os funcionários públicos.
Eu, que até sou funcionário público, achei um piadão.

29 de Outubro de 2014

A voz dos peritos


Shin Young-Soo é o director regional do Pacífico Ocidental da Organização Mundial de Saúde.
De passagem por Macau, para participar numa conferência sobre os 10 anos de Macau enquanto cidade saudável, afirmou ter ficado impressionado com o que encontrou.
Quem aqui vive, e tem que se confrontar com os inúmeros problemas na área (falta de profissionais de saúde, sobretudo qualificados, falta de camas nos hospitais, hospitais que estão prometidos há anos mas não aparecem) fica desconfiado ao ouvir um presumível perito afirmar publicamente o oposto do que vê, ouve, vivencia todos os dias.
No entanto, rapidamente percebe como é que se chega a esta conclusão.
Basta que os ditos peritos se fechem em salas de conferência, falem apenas com responsáveis pelo sector, olhem de forma acrítica para dados estatísticos (esperança de vida e mortalidade infantil) sem nunca confrontarem os dados recolhidos empiricamente com a opinião do cidadão comum, com o estudo no terreno do sistema que se propõem avaliar. 
O meu cepticismo acerca das conclusões de estudos presumivelmente científicos, e da opinião de hipotéticos peritos e especialistas de passagem pelo local que avaliam, cresce à medida que vou tomando conhecimento dos mesmos.
Não é simpatia, e conclusões simpáticas, o que se deve buscar quando se apresentam publicamente, e de forma algo precipitada, estas opiniões.
A verdade, ainda que dura, é que deve ser o objectivo.
Shin Young-Soo, na sua passagem por Macau, optou pela simpatia em detrimento da verdade. 
Foi pena.

Barbeiro de Sevilha bem humorado

Mais uma prenda de um caramelo que consta anda a escrever um livro.
Os últimos dias, e os próximos, estão por conta dele.
Conhecem?


Se não conhecem, espreitem aqui

28 de Outubro de 2014

Trick or treat, mau gosto ou pura estupidez?


Se nunca fui grande fã do Carnaval, confesso que ainda menos percebo a celebração do Halloween.
Festa de origem pagã, com grande tradição nos países anglo-saxónicos, celebra-se a 31 de Outubro, a véspera do dia que o calendário cristão assinala como o Dia de Todos os Santos, o dia em que as famílias cristãs lembram e homenageiam os que já morreram.
Não sendo fã deste tipo de festas, nada me move contra a sua realização e quem as celebra.
No entanto, como em tudo na vida, há limites.
Limites que julgo poderem vir a ser ultrapassados pela discoteca Cubic, em Macau.
Já o foram no tema escolhido - "O Massacre na Escola"- acredito que o venham a ser na celebração do mesmo.
Ter como tema de uma festa o horror a que impotentes assistimos em escolas espalhadas um pouco por todo o Mundo não tem qualquer relação com o trick-or-treating típico da celebração do Halloween.
Só ainda não consegui decidir se é apenas uma questão de mau gosto ou se passa o mau gosto para se transformar em absoluta estupidez.

Ó Pedaço de Mim...


Texto bem humorado de um cronista judeu, Sammy Lachmann que consegue fazer piada na qual o personagem principal é ele mesmo.


Sempre que ouço aquela música do Chico, "ó pedaço de mim, ó pedaço arrancado de mim", me bate uma deprê braba. Lembro da minha infância e acabo voltando no tempo.

Estava eu deitado no meu bercinho, ainda com uma semana de vida, quando começou a chegar gente em casa. Era dia de festa. E festa de judeu lembra muito reunião do PSDB: só tem tucano. Cada nareba que não tem mais tamanho.

Mamãe convidou só 30 pessoas, mas como era boca livre, veio judeu de tudo quanto foi canto. Se mamãe cobrasse ingresso, corria o risco de nem o papai aparecer. Não precisa dizer que os presentes não trouxeram presentes. Metade esqueceu em casa e a outra metade disse que não tinha dado tempo de comprar. Coisas da religião.

Cada um que chegava, vinha até o meu bercinho. Quando se abaixavam para me ver mais de perto, virava um autêntico ataque do exército israelense. Contabilizei pelo menos umas 30 narigadas na barriga. Em vez de olharem para os próprios umbigos, vinham olhar pro meu. Acho que era por causa da "faixa de gaze". 
De repente, se fez o silêncio. Um ser estranho, trajando um terno preto pra lá de surrado, com barba até a cintura, chapéu e cabelo ponhonhóin dos lados adentrou a sala. Parecia o Capitão Caverna na versão judaica. Ele veio na minha direção. Tirou um bisturi reluzente. Ficamos frente a frente. Ele, o lobo mau, e eu, o Solidéu Vermelho.

Para que esse nariz tão grande, perguntei. Por uns segundos, cheguei a pensar que mamãe tinha resolvido fazer uma plástica no meu nariz que, com menos de uma semana de vida, já era avantajado. Mas o negócio era mais embaixo. Bem mais embaixo.

Ele tirou a minha fraldinha descartável, que mamãe tinha acabado de lavar, e eu gritei, abri o berreiro: Tira esse Michael Jackson ortodoxo daqui! Esse comunista judeu quer comer criancinha!!! E no rabino, não vai nada? Apesar de tanta tecnologia, buááááá não vem com legenda. Não sei por que ainda não inventaram uma tecla SAP para bebês.

Parti então para a minha última tentativa: um ataque com armas químicas. Soltei duas bombas de efeito moral. PUM! PUM! Mas o bigode do sujeito cobria o nariz como uma máscara antigases. Ataquei com meus jatos poderosos, mas o xixi não conseguiu furar o bloqueio da barba blindada do velho. Não teve jeito. O Jacozinho virou o Jacozinhozinho. Vai entender o que esse povo tem na cabeça, além desse chapeuzinho medonho?

Em vez de sacrificarem uma galinha como na velha e boa macumba, eles sacrificam o pinto. Cortaram o meu pausówsky, meu penisberg. Ficou só o "cara". O "lho" foi-se. Uma parte de mim estava agora que nem pinto no lixo, literalmente.

Depois de circuncidado, passei a entender o porquê daquele muro das lamentações. Eu, pelo menos, lamento até hoje.

Ó pedaço de mim...


Sammy Lachmann - Cronista

27 de Outubro de 2014

Sherlock Holmes e Watson vão acampar


Montam a tenda e, depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho, deitam-se para dormir.
Algumas horas depois, Holmes acorda e diz para o seu fiel amigo:
- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.
Watson responde:
- Vejo milhares e milhares de estrelas.
Holmes, então, pergunta:
- E o que isso significa?
Watson pondera durante um minuto, depois enumera:
1. Astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias e, potencialmente, biliões de planetas.
2. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte.
3. Temporalmente, deduzo que são aproximadamente 03 horas e 15 minutos pela altura em que se encontra a Estrela Polar.
4. Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e somos pequenos e insignificantes.
5. Meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia. Correcto?
Holmes fica um pouco em silêncio, perplexo, e depois diz:
- Dasse!... Watson, não vê que nos gamaram a p… da tenda??!!

Moral da história: A vida é simples, nós é que a complicamos.

(Todas as anedotas publicadas hoje vieram directamente do "cancioneiro" do FerreirAmigo)

BOA SEMANA!!

iPhone vs Tablet



A MULHER CHEGA AO PÉ DO MARIDO E DIZ-LHE:
- AMOR, PODES-ME COMPRAR UM iPHONE?
E O MARIDO DIZ-LHE:
- ENTÃO E O OUTRO?
ELA RESPONDE:
- O OUTRO COMPRA-ME UM TABLET.

Gripe das aves


24 de Outubro de 2014

Velhinha no Tribunal





Juiz: Qual sua idade? 
Velhinha: Tenho 82 anos. 
Juiz: A senhora pode dizer por suas próprias palavras, o que lhe aconteceu no dia 1 de Abril do ano passado? 
Velhinha: Claro, doutor. Eu estava sentada no baloiço da minha varanda, num calmo fim-de-tarde com cheiro de terra molhada e uma brisa suave de alguma ameaça a chuva, quando um jovem, muito sorrateiramente, se sentou ao meu lado no baloiço. 
Juiz: Você conhecia o jovem? 
Velhinha: Não, mas ele foi muito amigável comigo... 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Depois de uma conversa agradável, ele começou a acariciar deliciosamente as minhas coxas. 
Juiz: A senhora reagiu para o deter? 
Velhinha: Não. 
Juiz: Porque não? 
Velhinha: Foi maravilhoso. Nunca mais ninguém havia feito isso comigo, desde que o meu marido faleceu, há 40 anos. 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Acredito que, pelo facto de não me opor, ele começou a acariciar e a beijar os meus seios com muita ternura...
Juiz: A senhora não se manifestou zangada de forma a ele parar, com base na lei,... isso é Assédio! 
Velhinha: Mas claro que não, doutor... 
Juiz: Porque não? 
Velhinha: Porque, Meritíssimo, ele me fez sentir viva e excitada. Não me sentia assim há 40 anos! 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Ora Sr. Juiz..., o que poderia uma mulher de verdade, ardendo em chamas, já quase a anoitecer, diante de um jovem ávido por amor? Estávamos os dois sozinhos não havia ninguém em casa e, abrindo as pernas suavemente, eu disse-lhe: Come-me rapaz, come-me! 
Juiz: E ele possuiu-a? 
Velhinha: Não! Ele gritou: 1 de Abril! Dia das Mentiiiiraaaaas!! 
Foi aí que eu dei um tiro no Filho da Puta! 

BOM FIM-DE-SEMANA!!

POR AMIZADE, ESQUEÇO METADE DA DÍVIDA


Um tipo encontra um amigo que lhe devia uma certa importância em dinheiro e diz-lhe:
- Mais vale perder algum dinheiro, que perder um amigo. E, para que vejas como estou a ser sincero, eu esqueço metade da importância que me deves.
O outro:
- Obrigado! De facto, os verdadeiros amigos são mesmo assim! E eu, como não quero ficar atrás, também esqueço a outra metade.

O MARIDO, A MULHER E A MULA


De manhã à noite, ela estava sempre a reclamar por tudo e por nada, nunca satisfeita com a situação.
O único momento de alívio era quando ele estava a lavrar a terra com a sua velha mula, afastado da mulher.
Ele lavrava, semeava muito e adorava a sua mula.
Um dia, quando lavrava, a sua mulher trouxe-lhe o almoço ao campo.
Ele levou a velha mula para a sombra, sentou-se numa pedra, e começou a comer.
Imediatamente, a mulher começou a importuná-lo de novo, reclamando, reclamando de tudo, criticando sem parar.
De repente, a velha mula deu um coice na mulher, acertando-lhe na nuca. Morte instantânea!
No outro dia no funeral, o padre notou algo bastante estranho:
Quando uma mulher enlutada se aproximava do velho lavrador, ele ouvia uns minutos, em seguida acenava com a cabeça, concordando.
Entretanto, quando os homens se aproximavam dele, ele ouvia por uns minutos e, em seguida, balançava a cabeça negativamente.
Isto ocorreu várias vezes até que o padre se decidiu perguntar a razão de tal comportamento.
Assim, após o funeral, o padre perguntou ao velho lavrador:
- Por que é que você acenou com a cabeça e concordou com as mulheres, mas sempre negou com a cabeça e discordou de todos os homens.
O velho lavrador disse:
- "Bem, as mulheres vinham e diziam algo de bom sobre a falecida, gabavam os arranjos de flores,
confortavam-me, etc. E então eu acenava com a cabeça e concordava."
- "E os homens?" perguntou o padre.
- "Eles queriam saber se a mula estava à venda!"

23 de Outubro de 2014

Xenofobia no discurso de Lei Cheng I


Xenofobia, do grego xénos (estrangeiro) e phóbos (medo), é precisamente a aversão a pessoas ou culturas estrangeiras.
Não sei Lei Cheng I (Ella Lei) conhece o termo e o seu significado.
Sei apenas que, nas suas aparições públicas, ela que é deputada eleita directamente nas listas da Associação Geral dos Operários de Macau, as suas atitudes e o seu discurso são profunda e irritantemente xenófobos.
O último exemplo foi dado quando defendeu com a maior desfaçatez a tese peregrina que atribui os problemas de violência que envolvem motoristas de autocarros à presença massiva nos veículos de turistas e não-residentes.
Já nem vale a pena indagar se as raízes familiares da ilustre deputada se encontram em Macau porque francamente já nem isso interessa.
O que gostava que a deputada Lei Cheng I esclarecesse era os fundamentos que terá em seu poder para proferir este tipo de afirmações.
Porque, se não dispõe desses elementos, além de xenófoba é leviana.
Não sei se a deputada Lei Cheng I dispõe desses elementos de prova do bem fundado da sua tese, não sei se a deputada Lei Cheng I sabe o que é xenofobia.
O que sei é que Macau, ponto de encontro de muitas etnias e de muitas culturas,  merecia melhores representantes no hemiciclo da Praia Grande.
Isso sei com toda a certeza.

Frei Bento Domingues. “O sexo não é só procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos” Rosa Ramos, Jornal i, 18 de Outubro de 2014


O frade dominicano continua a ser uma voz incómoda na Igreja e não tem pudor em dizer que o sexo não serve só para procriar
Trouxe a Teologia para os jornais, há mais de 20 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação. Frei Bento Domingues fez 80 anos em Agosto e continua a ser uma voz incómoda no clero português. Defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e não tem pudor em afirmar que o ser humano é sexual. "Somos sexo em tudo", diz. Recentemente foi homenageado na Gulbenkian, lançou mais um livro com as crónicas que assina no "Público" desde 1992 e, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. A conversa com o i começou pelo sínodo que está a acontecer no Vaticano: bispos de todo o mundo debatem até dia 19 as novas formas de família e a sexualidade. O monge cronista não tem medo de afirmar que "o sexo não é só procriação" e, pelo meio, critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial: "Isto não é mundo que se apresente".
A Igreja está a debater a realidade das novas famílias. O que poderá sair, em concreto, deste sínodo?
Há um efeito muito concreto que já teve: dar a palavra.
Ouvir os católicos?
Sim. É evidente que o modelo é coxo, porque a reflexão está centrada só nos bispos e foram convidadas poucas famílias. Mas só o facto de existir receptividade para abrir a discussão já é positivo. Há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI. E que fazem com que os cristãos e a própria Igreja deixem de ter algo a dizer sobre um domínio essencial da vida humana que é a sexualidade. É preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade.
Concorda com a comunhão de divorciados?
Claro que sim. Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar - porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia - e não a deixasse comer. Isso não faz qualquer sentido.
Mas há a quebra de um compromisso que, segundo a Igreja, seria para toda a vida.
Muitos defendem que se rompeu uma aliança. Mas há situações irreversíveis, pessoas que já não voltam ao companheiro anterior porque não é possível e que entretanto refizeram as suas vidas. Essas pessoas, agora, não precisam de ser alimentadas? A fé e a caminhada delas não necessita de ser acompanhada?
No Evangelho de São Mateus lê-se que o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem.
Olhe lá uma coisa... a eucaristia, desde o começo, não é um pedido de perdão? A própria consagração não é pela remissão dos pecados? Chega-se ao pai nosso e não se pede perdão e as pessoas não se reconciliam? Qual é a palavra que, na Bíblia, é mais importante para Deus? É a misericórdia. Deus manifesta o seu poder pelo perdão e pela misericórdia. Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.
Relativamente aos homossexuais, a Igreja defende que devem ser acolhidos, desde que sejam celibatários e não pratiquem a homossexualidade. Esta concepção poderá mudar?
Tem-se dado alguns passos. Ainda me lembro, e não foi assim há tantos anos, de os homossexuais serem clandestinos. E não era só na Igreja, era na própria sociedade. Cheguei a atender pessoas, na confissão, angustiadíssimas. Julgo que também neste campo a Igreja precisa de dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas. Mas que não se faça da homossexualidade um cartão-de-visita. Disso eu não gosto. Essas coisas do orgulho gay e afins. O orgulho que deve existir é o de sermos humanos uns com os outros. Uma outra coisa que me parece importante é a questão das uniões de facto. Todos os padres que trabalham nas equipas de preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais já vive em união de facto antes do casamento.
Essas pessoas estão em pecado?
O casamento é uma realidade que vai sendo - o gerúndio é propositado - e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso. Estas questões são fenómenos das sociedades. E às vezes até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e a seguir ao casamento as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos - porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia - tem de debater estas novas realidades. Sem tabus. A Igreja não pode ser um conjunto de tabus. Muitas pessoas fazem determinadas coisas porque dizem que são um mandamento de Deus. Mas Tomás de Aquino disse: se eu faço uma coisa só porque ela foi mandada por Deus, talvez eu corra o risco de estar enganado. Talvez não seja Deus a mandar, talvez tenha sido eu a inventar. Eu só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má. Jesus resumiu, aliás, todos os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
O Papa Francisco escreveu também sobre a hierarquia das verdades.
Sim. É preciso compreender, mesmo nos nossos credos e catecismos, o que é principal e o que é secundário. Ora o que tem acontecido é que o secundário tem ocupado o espaço todo.
Quando falava, há pouco, da necessidade de a Igreja fazer uma redescoberta da sexualidade, queria dizer exactamente o quê?
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. O sexo não se trata só de procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos.
Então não há nada de errado com o prazer?
O prazer é essencial à vida humana. As pessoas cozinham bem porquê? Para terem prazer naquilo que comem. A questão do prazer é essencial à vida humana. Outra coisa completamente diferente é a anarquia dos sentidos.
Uma sexualidade desordenada.
Anárquica. Isto agora apetece-me, dá-me prazer e eu faço, mesmo que fazê-lo implique uma desgraça para a outra pessoa. Isso é egoísmo, não é prazer. E esse egoísmo pode existir na sexualidade: quero que o outro me dê prazer, mas não quero dar prazer ao outro. É dominação. O prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, mas a sensibilidade humana é também intelectual. Não é um afecto desligado. O ser humano é todo ele sexual. Somos sexo em tudo. As mulheres de uma maneira, os homens de outra e os dois para serem a alegria um do outro. Essa descoberta, redescoberta do valor da sexualidade, tem de ser feita. Não podemos andar a olhar para a relação sexual como um pecado. Nós não somos anjos. E o problema da sexualidade é um problema de antropologia. É o descobrir do ser humano nas suas múltiplas facetas. Não podemos pensar no prazer só em termos de pecado.
O que diz aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente activos apesar de não serem casados?
O que é que lhes hei-de dizer? Não vou dar lições. O problema não é esse. O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
A ideia de virgindade no casamento está, portanto, ultrapassada?
Não é só ultrapassada. O problema é que se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético. A moral não é um tratado de fisiologia ou biologia. Uma das coisas que eu acho que a Igreja tem de rever é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender uma coisa simples: tenho de ser responsável pela minha vida sexual. Faço sexo para dominar o outro ou para encontrar uma pessoa para fazer caminho com ela? Porque, às vezes, as pessoas tentam e não calha ficarem com essa pessoa. Mas ninguém deve sair magoado disso. O que eu julgo que é falta de ética são as conquistas apressadas e egoístas: acho gira aquela miúda ou aquele rapaz e vou passar uns tempos com ele ou com ela só para me divertir. Isto é que é necessário evangelizar.
Mas a questão da virgindade é importante para a Igreja. Jesus, diz-se na oração, foi concebido sem pecado.
Sim, mas repare que no Evangelho isso não é dito. O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que se este homem foi tão excepcional na sua vida adulta, essa excepcionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.
E que Maria é, também, fora de série.
Maria é descoberta depois. E tiveram de se encontrar narrativas. O pior que aconteceu aos evangelhos da infância foi transformá-los numa questão biológica. Quando o que queriam dizer é que Jesus não era mais um na série humana. Era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo. Mas as pessoas fizeram leituras hermenêuticas desses textos de tipo biológico. A linguagem toda dos evangelhos é uma linguagem simbólica, não é uma linguagem factual. Há factos, histórias e interpretações simbólicas.
Então Maria e José tiveram sexo?
Podem ter tido ou não. Para mim, se tiveram não há problema nenhum. Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. Nos evangelhos da infância não é assim... Maria vai-se habituando à loucura do seu filho. Esta é uma imagem que acontece também nos textos do novo testamento com as mulheres. As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos quando começaram a andar junto da cruz, foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.
Mas na Igreja o papel das mulheres é varrer e pôr flores.
É o grande problema. Porque é que as mulheres não podem ser padres e bispos? Como houve estas sociedades patriarcais ao longo dos séculos... A luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus. E não é nada! A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.
Nunca levou um puxão de orelhas da Igreja por pensar assim?
Nunca tive qualquer problema com o episcopado português. Só tive problemas com o cardeal Cerejeira, que não me deixava pregar. Mas depois do 25 de Abril nunca mais voltei a ter problemas.
Mas é um teólogo reconhecido e já escreveu muito. Não seria natural que, nesta altura da sua vida, tivesse um cargo de grande responsabilidade no episcopado português?
Não. E é uma coisa que nunca me passou sequer pela cabeça. Nunca gostei, quando tive responsabilidades académicas e a outros níveis. Aborrecia-me. Não tenho nada contra a responsabilidade, mas incomodava-me aquela ideia que as pessoas formam: aquele é superior, manda em nós. E há uma coisa que detesto: o carreirismo. Por vezes vejo clero mais jovem a fazer coisas para ver se trepa. Eu acho isso ridículo. Jesus já dizia que os que governam as nações oprimem-nas e ainda querem passar por benfeitores. Devemo-nos pôr ao serviço uns dos outros. Não tenho nada contra os bispos ou os cardeais, só quero que os seus cargos sejam para servir. E não sinto apetite, gosto ou competência por esses lugares.
Acha que nunca foi convidado por ter determinadas opiniões?
Eu sinto que por pensar assim há quem entenda que não posso pregar nesta paróquia ou não posso ir a este sítio. Mas isso não me causa problema nenhum. Se não querem, não querem. Deveras! Não passa mesmo por mim. Há tempos fizeram-me uma homenagem e eu fico sem saber lidar com essas coisas. Acho que a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada.
Apesar de escrever na imprensa há mais de 20 anos, diz que não gosta de escrever. Porquê?
É verdade, não gosto de escrever. Gosto é de ler e gosto de debater. Mas as crónicas foram uma grande aventura. Muitas pessoas interpretavam-nas como uma espécie de homilia de domingo.
Os pregadores dos tempos modernos precisam desta ligação aos media?
Quando comecei não havia muita coisa. O padre Rego tinha feito uma coisa pequena no "DN". E o padre Rui Osório, no Porto, que era jornalista, escrevia às vezes no "JN". Havia já muitas iniciativas em França, na Alemanha... uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé. Mas o problema é que ligada à pregação vem aquela ideia de que... aí vem o sermão. Uma espécie de arte da moraleja, estar sempre a insistir no que é proibido e no "deves fazer isto" e "não deves fazer aquilo". A pregação não é isso.
O que é então a pregação?
Não é isso nem é propaganda. É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projecto de Jesus. Dar sentido à vida através dele. O problema da pregação é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projecto de Jesus que, no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade.
Se Jesus vivesse no nosso tempo escreveria nos jornais?
Claro. Pregaria em todo o lado. Embora... repare... nós não temos nada escrito por Jesus. Temos escritos de representantes de comunidades. É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projecto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projecto.
A nossa sociedade precisa de um novo profeta?
Nós temos imensos profetas! A profecia de que precisamos, hoje, é a da dignidade humana.
Em que sentido?
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas.
Sem finança não há bem-estar.
Não. Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.
O que quer dizer é que existem recursos e que a crise que é de valores ?
Crise de valores e de juízo. As pessoas andam sempre a falar da austeridade e da falta de recursos, mas o problema, creio eu, ainda não é esse e nunca será. O problema é que os interesses financeiros vivem numa lógica que é: que lucro é que eu posso ter com isto? Em vez de se pensar no lucro que a comunidade pode alcançar. Em qualquer decisão económica, financeira ou política deve pensar-se primeiro na dignidade humana e no bem comum. E a política é o mais importante, porque é o que olha por todos. Ou deveria olhar.
A política de hoje só olha ao poder?
O que é o poder? O verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna. A democracia é para dar poder a todos. Mas é algo sempre imperfeito e que é preciso ir sendo corrigida segundo os resultados. A árvore aprecia-se pelos frutos e muitas decisões políticas que se tomam devem ser corrigidas consoante o fruto que deram às populações. Agora em Portugal... esta discussão sobre o SNS, o Estado Social... O que se deve discutir é soluções. Onde estão os recursos? Onde vamos investir? Na educação? Na investigação? Ou naquelas coisas fantasiosas que dão lucro só a determinadas empresas e o resto não conta? É necessário discernimento político. Saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios.
Há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais.
Então é preciso trabalhar no diálogo político. Há pouco falava da questão dos profetas dos nossos tempos. Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos é preciso parar e dizer: quais são as causas da actual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.
Quem faz esse papel profético em Portugal?
Actualmente há uma carência profética, em parte porque as igrejas se retraem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política. Quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança. Tem de servir de mediação, dar direcção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.
Como é que um frade olha para os casos de corrupção que vão sendo descobertos?
Há bocado falou do problema dos valores. Esse problema não é abstracto. Cada pessoa é educada para saber dizer o que mais conta na vida? Kant dizia que o ser humano não tem preço. Só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas é que têm de estar ao seu serviço. As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que fazendo este ou aquele golpe vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses. E nunca penso no importante, que é: como devo fazer para desenvolver as minhas capacidades intelectuais, afectivas, relacionais? Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.
Mas é mau ter desejos?
Não é mau ter desejos, desde que se deseje aquilo que vale a pena ser desejado. E a primeira coisa que vale a pena desejar é o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. Muita gente diz- -me que isso é conversa fiada. Mas... E assim como está o mundo... Está bem? Isto não é mundo que se apresente, e como dizia São Paulo, não nos devemos conformar como o mundo está.

22 de Outubro de 2014

Primeiro passo em Hong Kong


No mesmo dia em que se ficou a conhecer o conteúdo absolutamente deplorável de uma entrevista dada pelo Chefe do Executivo de Hong Kong a órgãos de comunicação social americanos, representantes da Federação de Estudantes de Hong Kong e do Executivo reuniam-se para discutir "questões de reforma constitucional"(sic).
Num frente a frente muito mediático, as duas partes em diálogo expuseram abertamente as suas pretensões e as suas limitações.
Os representantes do Executivo de Hong Kong deixaram bem claro que têm um espaço de manobra muito limitado (a decisão de Pequim não pode ser contrariada) mas demonstraram abertura para, sempre com o acordo das autoridades centrais, às quais vai ser entregue um relatório circunstanciado dos acontecimentos em Hong Kong e das reivindicações dos manifestantes, poder vir a ser implementada alguma alteração ao quadro eleitoral em vigor.
Reformas constitucionais mais profundas, mais uma vez com a necessária concordância de Pequim, só poderão vir a ser implementadas a partir de 2022.
Até lá o diálogo entre as duas partes vai continuar na busca de pontos de acordo.
Se é verdade que esta abertura dos representantes do Executivo fica aquém das reivindicações dos manifestantes, estes próprios já terão percebido que não podem conseguir imediatamente a utopia.
Mas conseguiram uma grande vitória - ver um conjunto de garotos com borbulhas na cara (David) fazer sentar à mesma mesa o Executivo de Hong Kong, apoiado por Pequim (Golias), para discutir aquilo que Pequim julgava indiscutível, é indubitavelmente um momento histórico na vida de Hong Kong e da própria China.
A sabedoria oriental ensina-nos que toda a grande caminhada começa com um pequeno passo.
Na grande caminhada para a reforma do sistema político chinês o primeiro pequeno passo pode muito bem ter sido dado ontem ao fim do dia em Hong Kong.