24 de Outubro de 2014

Velhinha no Tribunal





Juiz: Qual sua idade? 
Velhinha: Tenho 82 anos. 
Juiz: A senhora pode dizer por suas próprias palavras, o que lhe aconteceu no dia 1 de Abril do ano passado? 
Velhinha: Claro, doutor. Eu estava sentada no baloiço da minha varanda, num calmo fim-de-tarde com cheiro de terra molhada e uma brisa suave de alguma ameaça a chuva, quando um jovem, muito sorrateiramente, se sentou ao meu lado no baloiço. 
Juiz: Você conhecia o jovem? 
Velhinha: Não, mas ele foi muito amigável comigo... 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Depois de uma conversa agradável, ele começou a acariciar deliciosamente as minhas coxas. 
Juiz: A senhora reagiu para o deter? 
Velhinha: Não. 
Juiz: Porque não? 
Velhinha: Foi maravilhoso. Nunca mais ninguém havia feito isso comigo, desde que o meu marido faleceu, há 40 anos. 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Acredito que, pelo facto de não me opor, ele começou a acariciar e a beijar os meus seios com muita ternura...
Juiz: A senhora não se manifestou zangada de forma a ele parar, com base na lei,... isso é Assédio! 
Velhinha: Mas claro que não, doutor... 
Juiz: Porque não? 
Velhinha: Porque, Meritíssimo, ele me fez sentir viva e excitada. Não me sentia assim há 40 anos! 
Juiz: O que aconteceu depois? 
Velhinha: Ora Sr. Juiz..., o que poderia uma mulher de verdade, ardendo em chamas, já quase a anoitecer, diante de um jovem ávido por amor? Estávamos os dois sozinhos não havia ninguém em casa e, abrindo as pernas suavemente, eu disse-lhe: Come-me rapaz, come-me! 
Juiz: E ele possuiu-a? 
Velhinha: Não! Ele gritou: 1 de Abril! Dia das Mentiiiiraaaaas!! 
Foi aí que eu dei um tiro no Filho da Puta! 

BOM FIM-DE-SEMANA!!

POR AMIZADE, ESQUEÇO METADE DA DÍVIDA


Um tipo encontra um amigo que lhe devia uma certa importância em dinheiro e diz-lhe:
- Mais vale perder algum dinheiro, que perder um amigo. E, para que vejas como estou a ser sincero, eu esqueço metade da importância que me deves.
O outro:
- Obrigado! De facto, os verdadeiros amigos são mesmo assim! E eu, como não quero ficar atrás, também esqueço a outra metade.

O MARIDO, A MULHER E A MULA


De manhã à noite, ela estava sempre a reclamar por tudo e por nada, nunca satisfeita com a situação.
O único momento de alívio era quando ele estava a lavrar a terra com a sua velha mula, afastado da mulher.
Ele lavrava, semeava muito e adorava a sua mula.
Um dia, quando lavrava, a sua mulher trouxe-lhe o almoço ao campo.
Ele levou a velha mula para a sombra, sentou-se numa pedra, e começou a comer.
Imediatamente, a mulher começou a importuná-lo de novo, reclamando, reclamando de tudo, criticando sem parar.
De repente, a velha mula deu um coice na mulher, acertando-lhe na nuca. Morte instantânea!
No outro dia no funeral, o padre notou algo bastante estranho:
Quando uma mulher enlutada se aproximava do velho lavrador, ele ouvia uns minutos, em seguida acenava com a cabeça, concordando.
Entretanto, quando os homens se aproximavam dele, ele ouvia por uns minutos e, em seguida, balançava a cabeça negativamente.
Isto ocorreu várias vezes até que o padre se decidiu perguntar a razão de tal comportamento.
Assim, após o funeral, o padre perguntou ao velho lavrador:
- Por que é que você acenou com a cabeça e concordou com as mulheres, mas sempre negou com a cabeça e discordou de todos os homens.
O velho lavrador disse:
- "Bem, as mulheres vinham e diziam algo de bom sobre a falecida, gabavam os arranjos de flores,
confortavam-me, etc. E então eu acenava com a cabeça e concordava."
- "E os homens?" perguntou o padre.
- "Eles queriam saber se a mula estava à venda!"

23 de Outubro de 2014

Xenofobia no discurso de Lei Cheng I


Xenofobia, do grego xénos (estrangeiro) e phóbos (medo), é precisamente a aversão a pessoas ou culturas estrangeiras.
Não sei Lei Cheng I (Ella Lei) conhece o termo e o seu significado.
Sei apenas que, nas suas aparições públicas, ela que é deputada eleita directamente nas listas da Associação Geral dos Operários de Macau, as suas atitudes e o seu discurso são profunda e irritantemente xenófobos.
O último exemplo foi dado quando defendeu com a maior desfaçatez a tese peregrina que atribui os problemas de violência que envolvem motoristas de autocarros à presença massiva nos veículos de turistas e não-residentes.
Já nem vale a pena indagar se as raízes familiares da ilustre deputada se encontram em Macau porque francamente já nem isso interessa.
O que gostava que a deputada Lei Cheng I esclarecesse era os fundamentos que terá em seu poder para proferir este tipo de afirmações.
Porque, se não dispõe desses elementos, além de xenófoba é leviana.
Não sei se a deputada Lei Cheng I dispõe desses elementos de prova do bem fundado da sua tese, não sei se a deputada Lei Cheng I sabe o que é xenofobia.
O que sei é que Macau, ponto de encontro de muitas etnias e de muitas culturas,  merecia melhores representantes no hemiciclo da Praia Grande.
Isso sei com toda a certeza.

Frei Bento Domingues. “O sexo não é só procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos” Rosa Ramos, Jornal i, 18 de Outubro de 2014


O frade dominicano continua a ser uma voz incómoda na Igreja e não tem pudor em dizer que o sexo não serve só para procriar
Trouxe a Teologia para os jornais, há mais de 20 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação. Frei Bento Domingues fez 80 anos em Agosto e continua a ser uma voz incómoda no clero português. Defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e não tem pudor em afirmar que o ser humano é sexual. "Somos sexo em tudo", diz. Recentemente foi homenageado na Gulbenkian, lançou mais um livro com as crónicas que assina no "Público" desde 1992 e, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. A conversa com o i começou pelo sínodo que está a acontecer no Vaticano: bispos de todo o mundo debatem até dia 19 as novas formas de família e a sexualidade. O monge cronista não tem medo de afirmar que "o sexo não é só procriação" e, pelo meio, critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial: "Isto não é mundo que se apresente".
A Igreja está a debater a realidade das novas famílias. O que poderá sair, em concreto, deste sínodo?
Há um efeito muito concreto que já teve: dar a palavra.
Ouvir os católicos?
Sim. É evidente que o modelo é coxo, porque a reflexão está centrada só nos bispos e foram convidadas poucas famílias. Mas só o facto de existir receptividade para abrir a discussão já é positivo. Há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI. E que fazem com que os cristãos e a própria Igreja deixem de ter algo a dizer sobre um domínio essencial da vida humana que é a sexualidade. É preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade.
Concorda com a comunhão de divorciados?
Claro que sim. Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar - porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia - e não a deixasse comer. Isso não faz qualquer sentido.
Mas há a quebra de um compromisso que, segundo a Igreja, seria para toda a vida.
Muitos defendem que se rompeu uma aliança. Mas há situações irreversíveis, pessoas que já não voltam ao companheiro anterior porque não é possível e que entretanto refizeram as suas vidas. Essas pessoas, agora, não precisam de ser alimentadas? A fé e a caminhada delas não necessita de ser acompanhada?
No Evangelho de São Mateus lê-se que o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem.
Olhe lá uma coisa... a eucaristia, desde o começo, não é um pedido de perdão? A própria consagração não é pela remissão dos pecados? Chega-se ao pai nosso e não se pede perdão e as pessoas não se reconciliam? Qual é a palavra que, na Bíblia, é mais importante para Deus? É a misericórdia. Deus manifesta o seu poder pelo perdão e pela misericórdia. Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.
Relativamente aos homossexuais, a Igreja defende que devem ser acolhidos, desde que sejam celibatários e não pratiquem a homossexualidade. Esta concepção poderá mudar?
Tem-se dado alguns passos. Ainda me lembro, e não foi assim há tantos anos, de os homossexuais serem clandestinos. E não era só na Igreja, era na própria sociedade. Cheguei a atender pessoas, na confissão, angustiadíssimas. Julgo que também neste campo a Igreja precisa de dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas. Mas que não se faça da homossexualidade um cartão-de-visita. Disso eu não gosto. Essas coisas do orgulho gay e afins. O orgulho que deve existir é o de sermos humanos uns com os outros. Uma outra coisa que me parece importante é a questão das uniões de facto. Todos os padres que trabalham nas equipas de preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais já vive em união de facto antes do casamento.
Essas pessoas estão em pecado?
O casamento é uma realidade que vai sendo - o gerúndio é propositado - e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso. Estas questões são fenómenos das sociedades. E às vezes até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e a seguir ao casamento as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos - porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia - tem de debater estas novas realidades. Sem tabus. A Igreja não pode ser um conjunto de tabus. Muitas pessoas fazem determinadas coisas porque dizem que são um mandamento de Deus. Mas Tomás de Aquino disse: se eu faço uma coisa só porque ela foi mandada por Deus, talvez eu corra o risco de estar enganado. Talvez não seja Deus a mandar, talvez tenha sido eu a inventar. Eu só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má. Jesus resumiu, aliás, todos os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
O Papa Francisco escreveu também sobre a hierarquia das verdades.
Sim. É preciso compreender, mesmo nos nossos credos e catecismos, o que é principal e o que é secundário. Ora o que tem acontecido é que o secundário tem ocupado o espaço todo.
Quando falava, há pouco, da necessidade de a Igreja fazer uma redescoberta da sexualidade, queria dizer exactamente o quê?
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. O sexo não se trata só de procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos.
Então não há nada de errado com o prazer?
O prazer é essencial à vida humana. As pessoas cozinham bem porquê? Para terem prazer naquilo que comem. A questão do prazer é essencial à vida humana. Outra coisa completamente diferente é a anarquia dos sentidos.
Uma sexualidade desordenada.
Anárquica. Isto agora apetece-me, dá-me prazer e eu faço, mesmo que fazê-lo implique uma desgraça para a outra pessoa. Isso é egoísmo, não é prazer. E esse egoísmo pode existir na sexualidade: quero que o outro me dê prazer, mas não quero dar prazer ao outro. É dominação. O prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, mas a sensibilidade humana é também intelectual. Não é um afecto desligado. O ser humano é todo ele sexual. Somos sexo em tudo. As mulheres de uma maneira, os homens de outra e os dois para serem a alegria um do outro. Essa descoberta, redescoberta do valor da sexualidade, tem de ser feita. Não podemos andar a olhar para a relação sexual como um pecado. Nós não somos anjos. E o problema da sexualidade é um problema de antropologia. É o descobrir do ser humano nas suas múltiplas facetas. Não podemos pensar no prazer só em termos de pecado.
O que diz aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente activos apesar de não serem casados?
O que é que lhes hei-de dizer? Não vou dar lições. O problema não é esse. O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
A ideia de virgindade no casamento está, portanto, ultrapassada?
Não é só ultrapassada. O problema é que se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético. A moral não é um tratado de fisiologia ou biologia. Uma das coisas que eu acho que a Igreja tem de rever é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender uma coisa simples: tenho de ser responsável pela minha vida sexual. Faço sexo para dominar o outro ou para encontrar uma pessoa para fazer caminho com ela? Porque, às vezes, as pessoas tentam e não calha ficarem com essa pessoa. Mas ninguém deve sair magoado disso. O que eu julgo que é falta de ética são as conquistas apressadas e egoístas: acho gira aquela miúda ou aquele rapaz e vou passar uns tempos com ele ou com ela só para me divertir. Isto é que é necessário evangelizar.
Mas a questão da virgindade é importante para a Igreja. Jesus, diz-se na oração, foi concebido sem pecado.
Sim, mas repare que no Evangelho isso não é dito. O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que se este homem foi tão excepcional na sua vida adulta, essa excepcionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.
E que Maria é, também, fora de série.
Maria é descoberta depois. E tiveram de se encontrar narrativas. O pior que aconteceu aos evangelhos da infância foi transformá-los numa questão biológica. Quando o que queriam dizer é que Jesus não era mais um na série humana. Era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo. Mas as pessoas fizeram leituras hermenêuticas desses textos de tipo biológico. A linguagem toda dos evangelhos é uma linguagem simbólica, não é uma linguagem factual. Há factos, histórias e interpretações simbólicas.
Então Maria e José tiveram sexo?
Podem ter tido ou não. Para mim, se tiveram não há problema nenhum. Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. Nos evangelhos da infância não é assim... Maria vai-se habituando à loucura do seu filho. Esta é uma imagem que acontece também nos textos do novo testamento com as mulheres. As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos quando começaram a andar junto da cruz, foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.
Mas na Igreja o papel das mulheres é varrer e pôr flores.
É o grande problema. Porque é que as mulheres não podem ser padres e bispos? Como houve estas sociedades patriarcais ao longo dos séculos... A luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus. E não é nada! A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.
Nunca levou um puxão de orelhas da Igreja por pensar assim?
Nunca tive qualquer problema com o episcopado português. Só tive problemas com o cardeal Cerejeira, que não me deixava pregar. Mas depois do 25 de Abril nunca mais voltei a ter problemas.
Mas é um teólogo reconhecido e já escreveu muito. Não seria natural que, nesta altura da sua vida, tivesse um cargo de grande responsabilidade no episcopado português?
Não. E é uma coisa que nunca me passou sequer pela cabeça. Nunca gostei, quando tive responsabilidades académicas e a outros níveis. Aborrecia-me. Não tenho nada contra a responsabilidade, mas incomodava-me aquela ideia que as pessoas formam: aquele é superior, manda em nós. E há uma coisa que detesto: o carreirismo. Por vezes vejo clero mais jovem a fazer coisas para ver se trepa. Eu acho isso ridículo. Jesus já dizia que os que governam as nações oprimem-nas e ainda querem passar por benfeitores. Devemo-nos pôr ao serviço uns dos outros. Não tenho nada contra os bispos ou os cardeais, só quero que os seus cargos sejam para servir. E não sinto apetite, gosto ou competência por esses lugares.
Acha que nunca foi convidado por ter determinadas opiniões?
Eu sinto que por pensar assim há quem entenda que não posso pregar nesta paróquia ou não posso ir a este sítio. Mas isso não me causa problema nenhum. Se não querem, não querem. Deveras! Não passa mesmo por mim. Há tempos fizeram-me uma homenagem e eu fico sem saber lidar com essas coisas. Acho que a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada.
Apesar de escrever na imprensa há mais de 20 anos, diz que não gosta de escrever. Porquê?
É verdade, não gosto de escrever. Gosto é de ler e gosto de debater. Mas as crónicas foram uma grande aventura. Muitas pessoas interpretavam-nas como uma espécie de homilia de domingo.
Os pregadores dos tempos modernos precisam desta ligação aos media?
Quando comecei não havia muita coisa. O padre Rego tinha feito uma coisa pequena no "DN". E o padre Rui Osório, no Porto, que era jornalista, escrevia às vezes no "JN". Havia já muitas iniciativas em França, na Alemanha... uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé. Mas o problema é que ligada à pregação vem aquela ideia de que... aí vem o sermão. Uma espécie de arte da moraleja, estar sempre a insistir no que é proibido e no "deves fazer isto" e "não deves fazer aquilo". A pregação não é isso.
O que é então a pregação?
Não é isso nem é propaganda. É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projecto de Jesus. Dar sentido à vida através dele. O problema da pregação é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projecto de Jesus que, no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade.
Se Jesus vivesse no nosso tempo escreveria nos jornais?
Claro. Pregaria em todo o lado. Embora... repare... nós não temos nada escrito por Jesus. Temos escritos de representantes de comunidades. É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projecto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projecto.
A nossa sociedade precisa de um novo profeta?
Nós temos imensos profetas! A profecia de que precisamos, hoje, é a da dignidade humana.
Em que sentido?
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas.
Sem finança não há bem-estar.
Não. Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.
O que quer dizer é que existem recursos e que a crise que é de valores ?
Crise de valores e de juízo. As pessoas andam sempre a falar da austeridade e da falta de recursos, mas o problema, creio eu, ainda não é esse e nunca será. O problema é que os interesses financeiros vivem numa lógica que é: que lucro é que eu posso ter com isto? Em vez de se pensar no lucro que a comunidade pode alcançar. Em qualquer decisão económica, financeira ou política deve pensar-se primeiro na dignidade humana e no bem comum. E a política é o mais importante, porque é o que olha por todos. Ou deveria olhar.
A política de hoje só olha ao poder?
O que é o poder? O verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna. A democracia é para dar poder a todos. Mas é algo sempre imperfeito e que é preciso ir sendo corrigida segundo os resultados. A árvore aprecia-se pelos frutos e muitas decisões políticas que se tomam devem ser corrigidas consoante o fruto que deram às populações. Agora em Portugal... esta discussão sobre o SNS, o Estado Social... O que se deve discutir é soluções. Onde estão os recursos? Onde vamos investir? Na educação? Na investigação? Ou naquelas coisas fantasiosas que dão lucro só a determinadas empresas e o resto não conta? É necessário discernimento político. Saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios.
Há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais.
Então é preciso trabalhar no diálogo político. Há pouco falava da questão dos profetas dos nossos tempos. Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos é preciso parar e dizer: quais são as causas da actual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.
Quem faz esse papel profético em Portugal?
Actualmente há uma carência profética, em parte porque as igrejas se retraem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política. Quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança. Tem de servir de mediação, dar direcção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.
Como é que um frade olha para os casos de corrupção que vão sendo descobertos?
Há bocado falou do problema dos valores. Esse problema não é abstracto. Cada pessoa é educada para saber dizer o que mais conta na vida? Kant dizia que o ser humano não tem preço. Só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas é que têm de estar ao seu serviço. As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que fazendo este ou aquele golpe vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses. E nunca penso no importante, que é: como devo fazer para desenvolver as minhas capacidades intelectuais, afectivas, relacionais? Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.
Mas é mau ter desejos?
Não é mau ter desejos, desde que se deseje aquilo que vale a pena ser desejado. E a primeira coisa que vale a pena desejar é o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. Muita gente diz- -me que isso é conversa fiada. Mas... E assim como está o mundo... Está bem? Isto não é mundo que se apresente, e como dizia São Paulo, não nos devemos conformar como o mundo está.

22 de Outubro de 2014

Primeiro passo em Hong Kong


No mesmo dia em que se ficou a conhecer o conteúdo absolutamente deplorável de uma entrevista dada pelo Chefe do Executivo de Hong Kong a órgãos de comunicação social americanos, representantes da Federação de Estudantes de Hong Kong e do Executivo reuniam-se para discutir "questões de reforma constitucional"(sic).
Num frente a frente muito mediático, as duas partes em diálogo expuseram abertamente as suas pretensões e as suas limitações.
Os representantes do Executivo de Hong Kong deixaram bem claro que têm um espaço de manobra muito limitado (a decisão de Pequim não pode ser contrariada) mas demonstraram abertura para, sempre com o acordo das autoridades centrais, às quais vai ser entregue um relatório circunstanciado dos acontecimentos em Hong Kong e das reivindicações dos manifestantes, poder vir a ser implementada alguma alteração ao quadro eleitoral em vigor.
Reformas constitucionais mais profundas, mais uma vez com a necessária concordância de Pequim, só poderão vir a ser implementadas a partir de 2022.
Até lá o diálogo entre as duas partes vai continuar na busca de pontos de acordo.
Se é verdade que esta abertura dos representantes do Executivo fica aquém das reivindicações dos manifestantes, estes próprios já terão percebido que não podem conseguir imediatamente a utopia.
Mas conseguiram uma grande vitória - ver um conjunto de garotos com borbulhas na cara (David) fazer sentar à mesma mesa o Executivo de Hong Kong, apoiado por Pequim (Golias), para discutir aquilo que Pequim julgava indiscutível, é indubitavelmente um momento histórico na vida de Hong Kong e da própria China.
A sabedoria oriental ensina-nos que toda a grande caminhada começa com um pequeno passo.
Na grande caminhada para a reforma do sistema político chinês o primeiro pequeno passo pode muito bem ter sido dado ontem ao fim do dia em Hong Kong.

A culpa é de Cristo? FREI BENTO DOMINGUES O.P. - Público, 19/10/2014


Será que ainda existem católicos que acham que Deus se enganou ao dizer que o ser humano é homem e mulher?
1. Encontrei, na escadaria da Igreja de Santo Ildefonso (Porto), um senhor que, de costas para o templo, aproveitou para descarregar sobre mim não só o habitual anticlericalismo nortenho, mas também o seu desprezo agressivo pelas religiões, frutos do medo, da ignorância e da sacralização da maldade humana.
O Islão é um ninho de criminosos, o Judaísmo, uma rede dos bancos norte americanos, o Cristianismo, um mundo caótico de divisões em cascata, piorando sempre a configuração anterior. O papa Francisco chegou demasiado tarde para salvar a face de um catolicismo que a própria Europa já rejeitou. Etc.! Se as instituições e os serviços sociais da Igreja ajudam muita gente a aguentar a pobreza e a miséria, não revelam nem combatem as suas causas reais. Pelo contrário, ajudam-nas a sobreviver.
Estranhei que não terminasse a sua diatribe com a fórmula habitual, em circunstâncias análogas: Cristo, sim; Igreja, não! No caso referido, foi Cristo que pagou todas as despesas à base de especulações teológicas e cristológicas.
Este senhor mostrou detestar as narrativas do Novo Testamento (NT). Aquelas propostas, parábolas, controvérsias, milagres e discursos são delírios absolutamente inaplicáveis. Se Jesus Cristo fosse, de facto, um enviado de Deus vinha com ideias claras e distintas acerca do passado, do presente e do futuro, da natureza e da história. Substituiria a Bíblia por um tratado divino e infalível de ciência, de sabedoria e de ética, com manual de correcta utilização para todas as circunstâncias.
2. Aquilo que Jesus introduziu de mais perturbador no mundo religioso, económico, social e político do seu tempo, foi a insegurança: não oferecer respostas pré-fixadas para todas as situações e interrogações da vida. Pelo contrário, semeou dúvidas, inquietações e possíveis alternativas a um universo bem organizado e com respostas para sempre, “em nome de Deus”. As tentativas de reduzir os Evangelhos a dogmas e a tratados teológicos bem articulados, sem falhas, nunca poderão funcionar bem enquanto houver possibilidade de confrontar essas certezas com as narrativas da liberdade de Deus e da liberdade humana. A tentação que não nos abandona é a de procurar rapidamente a lição, moral ou dogmática, que encerram. O resto parece acidental. O inconveniente desse método é de perder precisamente o essencial. Dispor de uma resposta para uma pergunta que não se conhece, e sem olhar para o contexto de onde nasceu, é o caminho mais rápido para o dogmatismo insensato. É assim porque é assim e sempre assim foi, pelos séculos dos séculos, de outro modo, como iriamos saber que é a vontade de Deus?
O estilo de Jesus, pelo que podemos conhecer nos Evangelhos, não é o de um professor que ganhou uma cátedra, num concurso universitário, apresentado, para as suas intervenções, como Senhor Professor Doutor Jesus de Nazaré.
O Nazareno é constantemente surpreendido por interrogações e problemáticas de escribas e fariseus, com o propósito de o deixarem embaraçado perante os ouvintes e de recolherem argumentos para o liquidar. Acontece que Jesus não se atrapalha e, vendo as suas intenções perversas, manda-os bugiar.
Neste Domingo, temos os fariseus e herodianos a cogitar a forma de o tramarem numa questão melindrosa: é lícito ou não pagar o tributo a César?Conhecendo Jesus a malícia da pergunta, respondeu: porque me tentais, hipócritas? Devolveu-lhes a questão: de quem é esta imagem e inscrição? De César, responderam: então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
Os judeus não podiam cunhar imagens. A única imagem de Deus é o ser humano.
3. Segundo os meios de comunicação, o porta-voz da Conferência Episcopal afirmou que os bispos portugueses estão em sintonia com a linha "inclusiva e de acolhimento" dos homossexuais e recasados, mas admite que o tema não é consensual.
Consensos absolutos não são de esperar em assunto nenhum e ainda bem. A clonagem dos cristãos não é aconselhável. O importante é que a assembleia cristã seja uma família de muitas famílias que respeite a diversidade, não como um favor, mas como um direito de todos e um dever de diálogo permanente. Não é a mesma coisa contentar-se com dizer: cada um que se arranje. Seria a negação da Igreja.
Finalmente, começam a cair alguns tabus. Muita água ainda vai passar debaixo das pontes até que o horizonte da Igreja esteja mais desanuviado. Cada grupo continuará a defender os seus pontos de vista. No entanto, a interrogação que todos se devem fazer, talvez se possa formular assim: para quê continuar com o sofrimento inútil dos casais cristãos? O que será preciso alterar nas mentalidades católicas para que a educação sexual se torne uma exigência inerente ao desenvolvimento da vida humana nas múltiplas dimensões do amor? Será que ainda existem católicos que acham que Deus se enganou ao dizer que o ser humano é homem e mulher? Homem e mulher será o pecado de Deus?
No NT não há nenhuma preocupação em mostrar se Jesus constituiu ou não uma família. Os textos insistem em algo mais abrangente: o seu projecto era congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).
Seria excessivo pedir-lhe um manual de moral sexual.

21 de Outubro de 2014

A revolução tranquila do Papa Francisco


Anselmo Borges faz referência a uma vitória subtil, eu prefiro a expressão revolução tranquila.
O que aconteceu no Sínodo Extraordinário, independentemente do que venham a ser os desenvolvimentos do processo no futuro, marcará um período revolucionário na vida da Igreja.
Como todas as revoluções no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, uma revolução tranquila, gradual, que levará muito tempo até que  possa chegar a resultados tangíveis.
Num Sínodo que terminou propositada e simbolicamente com a beatificação de Paulo VI, o Papa que fica para sempre ligado à abertura da Igreja ao mundo, Francisco desafiou a Cúria a discutir o que parecia indiscutível, deu início a um processo de diálogo aberto e amplo, sem retorno, que parecia impossível há bem pouco tempo. 
Dogmas e tabus têm que ser questionados, têm que ser discutidos e colocados face a face com o desenvolvimento científico e a evolução das mentalidades.
O casamento, a noção de família, a sexualidade, a procriação, deixaram de ser dogmas intocáveis, imutáveis e indiscutíveis a partir da publicação do Instrumentum Laboris e do Sínodo Extraordinário que se lhe seguiu.
Até Outubro de 2015, quando se realizar novo Sínodo, a Igreja no seu todo, e não só a Cúria, num processo que se quer aberto e participado, vai debater a ciência teológica e a sua relação com outras ciências num processo de revolução tranquila que Francisco agora iniciou e que não se pode saber como e quando irá terminar.
Ao Sínodo Extraordinário, ao debate na Cúria, deve seguir-se o debate universal na Igreja e mesmo o debate da Igreja, do que será a Igreja no novo século.

A vitória subtil de Francisco por ANSELMO BORGES, Diário de Notícias, 18 de Outubro de 2014


Na sua loucura lúcida, Nietzsche escreveu que cristão só houve um, Jesus, mas morreu na cruz, e o Evangelho tornou-se um Disangelho. Evangelho é palavra grega que quer dizer notícia boa, feliz e felicitante. Essa foi a mensagem de Jesus, que arrastou multidões em busca de saúde, libertação, vida expandida, salvação. Depois, tornou-se, tantas vezes e para muitos, uma má notícia, uma notícia de desgraça, um Disangelho. Só quem anda distraído ou não pode ou não quer saber é que não sabe disso.
O Papa Francisco pugna pelo regresso ao Evangelho do Jesus da vida, como notícia felicitante, por palavras e obras. Também na família. Ele sabe que, no meio das transformações culturais profundas, a sociedade e a Igreja continuam a precisar de "famílias felizes". E o contributo da Igreja é fundamental.
Assim, quis que, no Sínodo, com bispos de todo o mundo, casais, peritos e observadores, se falasse com liberdade e sem tabus. No relatório-síntese da primeira semana, é já possível antever o essencial dos novos caminhos, que, apesar das oposições, estão na linha pastoral de Francisco, que é a do Evangelho da alegria, antepondo a pessoa e a misericórdia ao dogma e à lei.
Claro que o ideal de família enquanto "escola de humanidade" continua a ser a união de amor fiel entre um homem e uma mulher por toda a vida e aberta à procriação. Mas a vida é o que é. E a Igreja reconhece a "urgência de novas opções pastorais" para as "famílias feridas". Haverá, pois, uma nova atitude face aos divorciados que voltaram a casar-se civilmente. O cardeal W. Kasper acaba aliás de declarar que uma "maioria crescente" do Sínodo é favorável à sua proposta de poderem aceder à comunhão. Por outro lado, entre as consequências da separação e do divórcio, sublinha-se, com razão, a necessidade de pensar nos filhos, que devem crescer do modo mais humano possível, não podendo, portanto, ser transformados num "objeto de contenda".
Há a valorização do casamento civil e da coabitação: "Uma nova dimensão da pastoral familiar atual consiste em captar a realidade dos casamentos civis e, com as devidas diferenças, também da coabitação ou uniões de facto. Na realidade, quando a união alcança uma notável estabilidade através de um vínculo público, está marcada por um afeto profundo, pela responsabilidade em relação aos filhos, com a capacidade de resistir às provas, podem ser vistos como um gérmen para acompanhar o desenvolvimento para o sacramento do matrimónio." Aliás, numa das intervenções, o geral dos jesuítas, Adolfo Nicolás, afirmou que "pode haver mais amor cristão numa união canonicamente irregular do que num casal casado pela Igreja"; assim, "a nossa tarefa é aproximar as pessoas da graça e não rejeitá-las com preceitos". Já antes, o Papa Francisco, constatando que "a juventude não se casa; é uma cultura da época; muitíssimos jovens preferem coabitar sem se casar", tinha perguntado: "Que deve a Igreja fazer? Expulsá-los do seu seio?"
Põe-se, inevitavelmente, a questão da contraceção dita artificial. Afinal, o que é natural e o que é artificial? Não pode o ser humano intervir racional e razoavelmente na natureza, que não é estática nem fixa?
Também a linguagem em relação à homossexualidade muda. "As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã. Estamos em condições de receber estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade nas nossas comunidades?" E continua o documento: "A questão homossexual interpela-nos para uma reflexão séria sobre como elaborar caminhos realistas de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica integrando a dimensão sexual: portanto, apresenta-se como um importante desafio educativo." Mas, por outro lado, "a Igreja afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimónio entre um homem e uma mulher". Faço notar que, na terminologia eclesiástica, não se fala em casamento, que vem de casa, mas matrimónio, cujo étimo é matris, que é o genitivo de mater, mãe, o que quer dizer que, para a Igreja, o casamento está intimamente vinculado à possibilidade da procriação. No entanto, o texto refere que "a Igreja tem atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reiterando que se deve pôr sempre em primeiro lugar as exigências e direitos dos mais pequenos".
Há ainda um longo caminho até à Exortação do Papa, com as decisões finais, em princípios de 2016. Entretanto, hoje ser-lhe-á entregue um relatório de trabalho desta assembleia, para o debate que continuará nas dioceses do mundo inteiro - outra vez W. Kasper: "Vivemos num mundo globalizado e não se pode governar tudo a partir da Cúria" -, até à nova assembleia sinodal, de 4 a 25 de outubro de 2015.

17 de Outubro de 2014

Pensamento do Dia


“A vida cor de rosa” ou como dizem os franceses,  “La vie en rose”, começa a partir dos cinquenta:

Cirrose
Osteoporose
Artrose
Nevrose
Arteriosclerose
Fibrose
etc

BOM FIM-DE-SEMANA!!
(para mim é prolongado porque na segunda-feira estou de férias)

Romantismo no século XXI



Humor negro

A senhora ficou muito chateada só porque eu lhe disse que tinha TRÊS filhas muito bonitas. Achava eu....

Qualquer pessoa pode ter um engano, não?!?



16 de Outubro de 2014

Rocha Vieira e Joseph Zen

Curiosas as entrevistas dadas por Rocha Vieira e Joseph Zen a duas agências noticiosas acerca da situação que se vive em Hong Kong.
Não porque encerrem em si alguma novidade, mas precisamente pelo contrário.
Rocha Vieira, o general, o militar de carreira, o homem que Soares enviou para Macau para tirar Macau das páginas dos jornais depois do caso Melancia (acerca de Macau só poderiam ver-se escritos os habituais chavões da tolerância mútua, da amizade secular e do encontro de culturas), apresenta a visão que todos esperariam que apresentasse (questão bem diferente é saber se a deveria ter apresentado).
A Xinhua, quando procurou Rocha Vieira, sabia perfeitamente que o último governador português de Macau iria defender a posição que defendeu, condenar a revolta estudantil em Hong Kong, a ocupação de espaços públicos, o caos e a desordem, o perigo para a tão propalada harmonia social e económica.
E foi isso mesmo que conseguiu.
O mesmo se pode dizer da Lusa quando procura o cardeal chinês Joseph Zen, conhecido pelas suas posições de constante desafio ao poder político de Hong Kong e da República Popular da China.
Joseph Zen, que desfilou ao lado dos manifestantes de Hong Kong, sem se esquecer de condenar a inflexibilidade da posição dos estudantes, atacou abertamente a forma como os governantes da Região Administrativa Especial têm lidado com os protestos, acusou-os de tacanhez e até de estupidez, declarou que tem receio que se assista a um banho de sangue em Hong Kong semelhante ao que aconteceu em Tiananmen.
Li as duas entrevistas e fiquei a pensar com os meus botões - qual a intenção de ouvir Rocha Vieira e Joseph Zen quando à partida se conhecem as respectivas posições?!

Baralhar e dar de novo (Teresa de Sousa)



« (…) Na sexta-feira, a ortodoxa Finlândia (o país que mais deu dores de cabeça a Bruxelas em matéria de contribuição para os resgates) viu o seu “triplo A” ser reduzido para um “duplo A” pela Standard & Poor’s. Já só restam a Alemanha e o Luxemburgo. Vale a pena lembrar o que disse em 2011 o actual primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, agora às voltas com uma inevitável recessão, citado pela Reuters: “Os princípios darwinistas devem aplicar-se à zona euro e as economias mais fortes devem ter a decisão final sobre a maneira de dirigi-la”. Agora lembra que a crise na Ucrânia e o abrandamento da economia russa trocaram as voltas à economia finlandesa. (…)

2. Vale, aliás, a pena começar pela Alemanha, que esta semana andou nas bocas do mundo por duas razões mais ou menos inesperadas. A primeira, quase hilariante pelos seus contornos, foi o estado das suas Forças Armadas. A questão foi debatida no Bundestag a partir de um relatório a que os jornais tiveram acesso, que as descreve como um desastre. Meia dúzia de exemplos: só um dos seus quatro submarinos funciona; só 70 dos seus 180 tanques Boxer estão em condições operacionais; apenas sete da sua frota de 43 helicópteros da Marinha podem voar, etc. É irresistível reproduzir um título de um jornal alemão, citado pela Reuters: “Se os tanques Boxers se mantêm de pé é graças à laca da ministra da Defesa”. Úrsula von der Leyen é criticada por gostar mais de se deixar fotografar do que de tratar da Bundeswehr. Médica e mãe de sete filhos, quer ser a sucessora de Angela Merkel na CDU. Judy Dempsey, do Carnegie Europe, recordava há dias que a Alemanha está a ter dificuldades para trazer os seis soldados no Afeganistão de volta a casa porque os aviões estão avariados. Dos 56 há apenas 24 operacionais. A analista também lembra que a Alemanha viu-se obrigada informar a NATO de que não consegue arranjar os aviões pedidos para patrulhar a fronteira dos Bálticos. Os exemplos são infindáveis. Para um país a quem toda a gente pede que assuma maiores responsabilidades internacionais, não é o que se estava à espera. A redução do orçamento da Defesa para 1,3 % do PIB pode ser uma explicação. A falta de prioridades é outra. Talvez valesse a pena explicar aos alemães que as despesas com a defesa têm de aumentar num mundo cada vez mais caótico, incluindo à volta das fronteiras da Europa.

A segunda questão que irrompeu no debate alemão tem a ver com a economia. Marcel Fratzscher, director do DIW (Instituto Alemão para a Investigação Económica), conselheiro habitual do Governo, acaba de publicar um livro sobre “A Ilusão Alemã”, que aponta para as fragilidades de uma economia que se apresenta como o modelo a seguir. As infra-estruturas de transportes estão envelhecidas e ninguém as repara. O desemprego baixo deve-se aos “mini-jobs” mal pagos e em part-time. O investimento caiu para 17 por cento e cada vez mais as grandes empresas preferem investir fora da Alemanha, por exemplo nos EUA. A produtividade cresceu muito pouco nos últimos anos (entre 2007 e 2002, 0,3%, para 0,5 na Dinamarca, 0,7 na Áustria, 0,9 no Japão ou 1,5 nos EUA e 3,2 na Coreia). Os salários continuam a perder valor real. Só exportar, exportar, exportar torna a economia alemã particularmente vulnerável a cada desaceleração da economia europeia e mundial. O director do DIW lembra que a Alemanha está em condições de se financiar a custos baixíssimos e era o que devia fazer para estimular a economia. O último sinal de alarme foi a queda inesperada das encomendas à indústria de 5,7% no segundo trimestre. Como escreve o Telegraph, “a Alemanha apenas parece saudável porque as outras economias europeias estão moribundas.” 

15 de Outubro de 2014

Até ao lavar dos cestos...


Até ao lavar dos cestos é vindima, ensina o conhecido ditado popular.
E deve ter sido este o motto da Selecção Nacional ontem à noite na Dinamarca.
Colheita tardia, resultante de uma mistura de castas que nem sempre resultou bem, o produto final é saboroso mas necessita ainda de ser depurado de algumas impurezas.
Sabe-se que há ali uva de qualidade, uva já conhecida, alguma recuperada, à mistura com outras qualidades de fruto que estão agora a ser testadas.
O produto final agrada mais pelo sabor que fica depois de consumido do que pela experiência de degustação.
Alguns taninos doces e redondos num néctar que deixa um perfume e um sabor agradáveis mas a necessitar ainda de algum estágio em madeira para apurar a qualidade e o sabor.
A prova ficou completa com um produto dinamarquês muito encorpado mas que deixa na boca a sensação de fraca qualidade do fruto e do produto final dele resultante.
Taninos adstringentes que deixam na boca uma impressão de secura e aspereza.
Prova a confirmar, para ambos os néctares, lá mais para a frente.
Para já, fica a nota de um boa estreia do novo sommelier português.


Néctar de grande qualidade, com taninos doces e redondos, num produto novo mas muito bem estruturado, é o que foi ontem servido em Paços de Ferreira.
Irrequieto, electrizante, frenético, grande chocolate, com castas de grande qualidade e futuro prometedor, é um produto que ainda não conheceu a desilusão ao fim de 14 provas.
O sabor que fica é prolongado, alegre, típico de um produto jovem mas de grande qualidade e cheio de ilusões e potencial.
Com algum estágio em madeira de qualidade, servido no tempo e na temperatura certas, tratado por um sommelier de créditos firmados (o actual está a deixar a impressão que sabe da poda) pode ser um caso sério a muito breve trecho.
Por agora segue para a prova final, uma fase à qual já não chegava nas últimas três edições.
Brindemos às duas equipas representantes do futebol português ontem em acção.
Saúde!