19 de setembro de 2018

Hoje soube-me a pouco


Volto a Sérgio Godinho (nunca cansa!) para avaliar o outro Sérgio (Conceição) e a prestação do Futebol Clube do Porto (Porto) em Gelsenkirchen no primeiro jogo da equipa nesta edição da Liga dos Campeões  - não fiquei com um brilhozinho nos olhos, soube-me a pouco, mas ainda não estou a ficar louco.
Começar a Liga dos Campeões com um empate no campo do vice-campeão alemão, em teoria, até é um bom resultado.
Na prática, depois do jogo, fica-se pelo não é mau, sabe a pouco, não deixa um brilhozinho nos olhos.
O Porto foi em tudo superior, como afirmou Sérgio Conceição no final do jogo, menos no que era mais importante que fosse - o resultado final.
Ter mais posse de bola, mais remates, de pouco serve quando não se ganha.
Desperdiçar uma grande penalidade (o Porto tem que treinar mais estes lances porque já passou por alguns dissabores com desperdício de grandes penalidades), sofrer um golo de forma algo patética, inadmissível numa prova como a Liga dos Campeões, para acabar a empatar o jogo na conversão de nova grande penalidade, não é o suficiente para deixar o adepto louco, mas insisto que sabe a pouco e também não deixa o adepto com um brilhozinho nos olhos.
Com a vitória do Galatasaray no jogo com o Lokomotiv de Moscovo (3-0), reforça-se a ideia de um Grupo que, longe de ser dos teoricamente mais fortes, vai ser quase de certeza um dos mais equilibrados.
Mais uma razão para o empate do Porto saber a pouco, não deixar um brilhozinho nos olhos (a exibição do Porto também esteve longe de ser brilhante), mas ainda não deixar nenhum adepto quase a ficar louco.

Quantos Presidentes dura uma Rainha?

No dia em que o blogue ultrapassa os dois milhões de visualizações.
Muito obrigado a todos os que aqui passam todos os dias.

TRUMP

OBAMA

BUSH (filho)

CLINTON

BUSH (pai)

REAGAN

CARTER

FORD
NIXON

KENNEDY

EISENHOWER

TRUMAN

18 de setembro de 2018

No rescaldo do tufão Mangkhut


O tufão Mangkhut açoitou Macau com fúria, como já se antecipava há vários dias.
E esta foi a grande diferença para que não se repetisse o cenário de destruição visto há cerca de um ano com o tufão Hato.
O Mangkhut foi um super-tufão, que obrigou ao içar do sinal 10 (o máximo) de tempestade tropical durante nove longas horas (algo que não acontecia desde 1968, salvo erro), ao sinal negro (o máximo) de Storm Surge durante longas horas também.
Violento, assustador, mas a deixar sempre a sensação que estava tudo sob controlo por parte da Protecção Civil.
Protecção Civil cujo trabalho terá que ser enaltecido, desde a coordenação até aos incansáveis operacionais que arriscaram a própria vida para proteger outras vidas.
No rescaldo de mais um violento tufão ficam algumas notas a reter:
- Pela primeira vez em Macau os casinos fecharam procurando proteger a integridade física dos trabalhadores que correriam riscos desnecessários se se vissem obrigados a deslocar-se para o local de trabalho debaixo daquele temporal (chapelada para as operadoras de Jogo que já tinham disponibilizado milhares de lugares de estacionamento gratuito durante vários dias);
- A preparação antecipada do que se previa ser uma tempestade muito violenta permitiu reduzir os danos, humanos e materiais, a um mínimo possível;
- Os maiores danos para a cidade acabaram por ser as brutais inundações, um fenómeno que sempre acontece quando há tempestades ou alterações das marés, e que parece não ter fim nem solução à vista;
- Depois do elogio à Protecção Civil, o outro lado da moeda, as ovelhas negras que sempre aparecem nestas situações:
  • taxistas, sempre os taxistas (quando é que se começa a cancelar as licenças a estes bandidos??);
  • os loucos irresponsáveis que arriscam as suas vidas e obrigam a que outros arrisquem também as suas vidas para os socorrerem (os idiotas que resolveram passar a Ponte Nobre de Carvalho a pé com sinal 10 hasteado, as pessoas que num primeiro momento recusaram ser evacuadas para depois pedirem para ser socorridas);
  • os cretinos que se divertiram a publicar imagens e vídeos de outras tempestades sem qualquer critério e que apenas serviram para alarmar quem as via em Macau e sobretudo fora.
Comparar o que aconteceu com o Mangkhut com o que aconteceu com o Hato, comparação inevitável, conduz-nos inevitavelmente à impreparação absoluta no Hato e à prevenção e preparação atempadas no Mangkhut.
Que resultaram num balanço trágico e num trauma que nunca mais abandonará Macau no Hato e numa relativa acalmia no fortíssimo Manghkut.

Do livro da terceira classe do meu pai


Em tempo:
Fica o poema completo.
Que me foi enviado pela minha prima, que já aqui referi várias vezes, a minha irmã de coração, que me acolheu aqui em Macau e cujo aniversário deixei passar em claro este ano.

Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha
Os ternos pombos arrulham
Geme a rola inocentinha

Muge a vaca, berra o touro
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovellha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra em pobre rima
As vozes dos principais.

Fonte
In Elementos para um tratado de fonética portuguesa, de Rodrigo de Sá Nogueira (Imprensa Nacional de Lisboa, 1938).

13 de setembro de 2018

Formação no exterior – vantagem competitiva ou bajulação parola?



Confesso que começo a ficar cansado e farto de tanta bajulação dirigida a quem se apresenta em público com a hipotética certificação de qualidade “formação no exterior”.
Um conceito tão aberto e tão vago que nele cabe quase tudo sem que em concreto nada diga.
A vantagem de ter mundo no século XXI é indesmentível e diria até essencial em muitas profissões.
Mas ter mundo não é só sair das fronteiras do país, da região, em que se nasceu e cresceu.
Há quem saia muito mas não aprenda nada, não absorva nada, mantenha a mesma mentalidade tacanha de quem nunca saiu do seu cantinho de conforto.
Quando assim é, e é assim muita vez, estamos perante pura bajulação parola.
Dizer que a pessoa tem formação no exterior só porque obteve um qualquer diploma para além das fronteiras do local onde nasceu e cresceu é claramente uma falácia.
Pode ter o diploma, mas formação, pensamento abrangente, mundano, muitas vezes não tem nem um pouco.
Sobretudo quando essa designada formação se consegue em áreas que nada têm a ver com as funções profissionais que a pessoa exerce.
Convém ser mais concreto, mais específico, quando se apresenta a tal formação no exterior de alguém para justificar a sua capacidade profissional.
Formação em quê, obtida onde, no mínimo.
Porque há diplomas que certificam que a pessoa frequentou determinado estabelecimento de ensino e nada mais que isso.
Formação, capacitação, qualidade, são coisas bem diferentes.


Intemporais (132)

12 de setembro de 2018

Trauma de infância?



Os cinéfilos e os melómanos terão sempre na memória o filme Easy Rider e a banda sonora do mesmo.
Especialmente esse estrondoso sucesso, que se tornou hino de várias gerações, Born To Be Wild, originalmente interpretado por Steppenwolf, e que conheceu incontáveis versões desde o ano de 1969 quando foi originalmente lançado no mercado discográfico.
Quem parece não fazer ideia do que é born to be wild, nem nada que se assemelhe a isso, é o deputado Lam Lon Wai.
Lam Lon Wai, nascido poucos anos depois do lançamento do filme e da banda sonora, deve ter tido uma infância muito infeliz.
Porque só assim se poderá explicar que fique indignado por ver os jovens que se divertem, que correm atrás uns dos outros, berram, dizem palavrões, fumam, trocam carícias nos bancos de madeira (outro afectado pela troca de carícias entre jovens) na zona Norte da cidade.
Numa época em que os pais procuram cada vez mais que os seus filhos saiam de casa, façam amigos, socializem, tudo para não se tornarem couch potatoes viciados na tão célebre realidade virtual, Lam Lon Wai prefere ver os jovens trancados em casa, longe das tentações mundanas (olhe que as tentações na realidade virtual são muitas e muito perigosas, senhor deputado...).
E dá conta dessa sua preocupação junto do Parlamento local.
Como se tudo isto não fosse já suficientemente demente, as autoridades administrativas respondem à interpelação do deputado e afirmam que as polícias estão atentas e a acompanhar o caso.
As polícias?? A acompanhar o caso?? Qual caso??!!!
Esta gente ou ensandeceu ou sofreu traumas na infância dos quais não se consegue libertar.
Só assim se poderá explicar este comportamento.
Tarefa que deixo para profissionais devidamente habilitados a lidar com tais desvios comportamentais.
Porque eu sinceramente só me sinto muito desiludido e cansado com o rumo que Macau está a seguir.

FEIRA DA FODA


E PORQUÊ O NOME "FODA À MONÇÃO"? 

A CONFECÇÃO DO CORDEIRO À MONÇÃO EM ALGUIDAR LEVADO AO FORNO DE LENHA NÃO SÓ RECUPERA O SABER DOS NOSSOS ANTEPASSADOS COMO LHE ADICIONA UM POUCO DE ARTE, CARINHO E PROFISSIONALISMO DAS ACTUAIS COZINHEIRAS. 
O NOME ARTÍSTICO, DIGAMOS ASSIM, REFLECTE BEM O CARÁCTER AFÁVEL E BEM-DISPOSTO DOS MONÇANENSES.

REZA A HISTÓRIA QUE:

“OS HABITANTES DO BURGO, QUE NÃO POSSUÍAM REBANHOS, DIRIGIAM-SE ÀS FEIRAS PARA COMPRAR O REIXELO. 
E, COMO EM TODAS AS FEIRAS, HAVIA DE TUDO, BONS E MAUS. 
A VERDADE É QUE OS PRODUTORES DE GADO, QUANDO O  LEVAVAM PARA A FEIRA QUERIAM VENDÊ-LO PELO MELHOR PREÇO E, PARA QUE 
OS REIXELOS PARECESSEM GORDOS, PUNHAM-LHES SAL NA FORRAGEM, O QUE OS OBRIGAVA A BEBER MUITA ÁGUA.

 NA FEIRA, APARECIAM COM UMA BARRIGA CHEIA DE ÁGUA E PESADOS,  PARECENDO REALMENTE GORDOS. 
OS INCAUTOS QUE NÃO SABIAM DA MANHA  COMPRAVAM AQUELES AUTÊNTICOS “SACOS DE ÁGUA” E, QUANDO SE APERCEBIAM DO LOGRO, EXCLAMAVAM À BOA MANEIRA DO MINHO: 
QUE FODA!

O TERMO TANTO SE VULGARIZOU QUE O PRATO PASSOU A DESIGNAR-SE, LOCALMENTE, POR FODA. DE TAL MODO QUE é FREQUENTE, PELAS ALTURAS 
FESTIVAS (PÁSCOA, CORPO DE DEUS, SENHORA DAS DORES E NATAL OU FIM DE ANO) OUVIR AS MULHERES: 
"Ó MARIA, JÁ METESTE A FODA?"

11 de setembro de 2018

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Sérgio Godinho incluiu no vocabulário corrente português a expressão "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida" quando a cantou na balada "O Primeiro Dia".
O mesmo Sérgio Godinho que nos habituou a procurar encarar a vida "Com Um Brilhozinho Nos Olhos".
E foi com um brilhozinho nos olhos que a Selecção Nacional de futebol se estreou ontem na Liga das Nações, naquele que terá sido o primeiro dia do resto da sua vida.
Uma vida pós-Ronaldo, uma vida sem um verdadeiro fora-de-série, uma vida em que o conjunto tem que funcionar ainda melhor que até aqui, uma vida em que a grande referência dos últimos anos vai gradualmente desaparecendo.
Havia a expectativa para ver como funcionaria a equipa no primeiro jogo oficial sem Ronaldo, que coincidia com o primeiro jogo oficial após a medíocre prestação no Mundial.
Funcionou bem, longe de ser entusiasmante ou espectacular, mas suficientemente sólida para levar de vencida um seleccionado italiano ainda à procura da glória perdida.
Seleccionado italiano que tem vindo a perder referências, que tem vindo a perder qualidade, e que é neste momento uma equipa pouco mais que vulgar.
É neste contexto que se tem que analisar a vitória (1-0) de ontem.
Histórica?
Só se quisermos focar-nos apenas no facto de, nos encontros oficiais entre as duas selecções, Portugal não vencer a Itália há já sessenta anos.
Porque, em boa verdade, no restante, essa adjectivação faz pouco ou nenhum sentido.
A Liga das Nações é uma prova sem qualquer prestígio (alguma vez o terá??), a equipa nacional italiana uma espécie de fidalgo arruinado que vive de glórias passadas, uma quase Norma Desmond em Sunset Boulevard, deslumbrada com a admiração que os Alfred do mundo do futebol ainda lhe transmitem.
O golo de André Silva, que traduziu no resultado o que se passou em campo (os italianos foram virtualmente inofensivos e os portugueses até podiam ter marcado mais um ou dois golos), não nos deve fazer automaticamente pensar em amanhãs cantantes para esta nova versão da Selecção Nacional.
Se antes do jogo havia a expectativa para ver como funcionaria a Selecção sem Ronaldo, agora fica a dúvida como irá jogar, em que modelo, quando Ronaldo estiver presente.
Entrada com o pé direito na Liga das Nações, satisfação, sensação de dever cumprido, com um brilhozinho nos olhos, naquele que foi só o primeiro dia do resto da vida da Selecção Nacional.

Os inimigos do Papa Francisco (crónica do Padre Anselmo Borges)


1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas." Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: "Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar."

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem "a peste da Igreja", sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é "a lepra do papado". Neste contexto, Francisco associa "abusos sexuais, de poder e consciência". Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: "Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial."

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como "duras, corajosas, clarividentes", pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto "problema estrutural", portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: "concentração do poder nas mãos da clerezia", poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: "a obediência e/ou a hipocrisia"; "uma concepção e prática dualista e maniqueia" concretamente em relação à sexualidade; "sobrevalorização do celibatário", considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é "uma imposição legal" para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de "comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...".

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: "Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros." Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: "Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar."

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma Igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é "o lóbi gay", diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez. Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo - Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum -, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm que ver com o trans-humanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...
Padre e professor de Filosofia
in DN 08.09.2018

10 de setembro de 2018

Voltaire e os dois tipos de ladrões


 Na vida, existem 2 tipos de ladrões;

1-O ladrão comum: 
É aquele que rouba o seu dinheiro, sua carteira, relógio, telefone, etc.

2-O ladrão político: 
É aquele que rouba o seu futuro, seus sonhos, seu conhecimento, seu salário, sua educação, sua saúde, sua força, seu sorriso, etc.

Uma grande diferença entre estes dois tipos de ladrões, é que o ladrão comum escolhe-o para roubar os seus bens enquanto o ladrão político é você que o escolhe para ele o roubar. 

E a outra grande diferença, não menos importante, é que o ladrão comum é procurado pela polícia enquanto o ladrão político é geralmente protegido por um comboio policial. 

Pense bem antes de escolher o seu ladrão, da próxima vez ...

Para completar, o génio de George Carlin:


BOA SEMANA!

6 de setembro de 2018

Crença e ganância



Repetem-se incessantemente os casos conhecidos de burlas que aproveitam a crença e a ganância de pessoas ingénuas para conseguir que estas entreguem verdadeiras fortunas a esquemas sem o mínimo de credibilidade.
Há já alguns anos, um daqueles amigos para a vida, dotado de grande inteligência e de um sentido de humor apurado e verrinoso, ilustre advogado, respondia a um cliente prestes a ser preso por ter o “vício” de passar cheques sem cobertura, quando este lhe perguntou se conhecia algum negócio que pudesse garantir ganhos avultados em pouco espaço de tempo, que sim, que conhecia – traficar droga.
Consta que serão quatrocentos por cento de lucro liquido, acrescentou.
Mas com algumas desvantagens – forte possibilidade de ser preso, pouca ou nenhuma segurança no emprego (literalmente!!), uma dor de cabeça constante.
Dá vontade de explicar às vítimas dos esquemas que se vão conhecendo com uma cadência cada vez maior que, para ganhar muito dinheiro em muito pouco tempo, só mesmo a traficar droga ou com o Jogo.
Com a particularidade de o Jogo, com capital mundial em Macau, render muito dinheiro aos concessionários.
Aos jogadores parece que não é bem assim...
De uma vez por todas deixem de acreditar nos novos vendedores de banha de cobra, sigam a sabedoria popular e deixem de ir com muita sede ao pote para evitar serem os próximos a ficar engasgados. 

Intemporais (131)