14 de junho de 2017

Anda um pai a criar uma filha para isto... (Laurinda Alves)


Estes rapazes e raparigas terão os seus filhos e as filhas, e uma das grandes interrogações também passa por saber como agiriam se soubessem que as suas próprias filhas se vendem por um par de shots.

Indo directamente ao assunto e usando a terminologia dos próprios alunos universitários que montaram as barracas das Queimas das Fitas, este ano houve tendas particularmente más em alguns dos queimódromos: a “Tenda das Tetas”, onde bastava “mostrar as mamas” para ter bebidas à borla, e a barraca onde as raparigas também não pagavam se dessem beijos na boca umas das outras. Não estamos a falar de beijinhos infantis (que já seriam de mau gosto, até para raparigas que vivem a sua homossexualidade com autenticidade e sem exibicionismos), mas de beijos pornograficamente demorados, elaborados, incitados e aplaudidos pelos rapazes em volta. Beijos de bordel, dados em estado líquido, note-se, com níveis de alcoolémia de rebentar qualquer escala.

Não estive em nenhuma das Queimas, seja a do Porto, de Braga ou de Coimbra, mas bastaram-me três brevísssimos vídeos, destes que circulam nas redes sociais e no whatsapp (que um comité de ética me enviou por ser jornalista e cronista, para perceber a extensão do fenómeno, e para que não escrevesse sem saber exactamente sobre o que estava a escrever), dizia eu que me bastaram estes três fragmentos descarada e propositadamente gravados para circularem na net, para compreender que a realidade ultrapassa a ficção. Em todos podemos ver as caras e os corpos dos estudantes envolvidos, em todos se ouvem gargalhadas e frases obscenas em tudo iguais às que já vimos ou ouvimos no cinema, ou em documentários sobre assédio,bullying, estupro e outros abusos. Dá náuseas ver estes vídeos, confesso, mas são uma realidade real, nua e crua. Servem para perceber de que falamos, quando falamos de animação em certas festas estudantis.

Pergunto-me quem serão os pobres pais das raparigas e rapazes que confundem prostituição com diversão? Mas também me pergunto quem serão estas mulheres que não conhecem a história das mulheres, nem as suas lutas, provações, perseguições e privações ao longo dos séculos? Estas raparigas andam na universidade, mas não sabem básicos essenciais sobre a Humanidade. Não só aceitam as regras do jogo, como estimulam a perversidade dos homens, entregando-se a estas supostas brincadeiras com leviandade. Universitárias e universitários deste calibre são um verdadeiro retrocesso civilizacional. Não é preciso ser feminista para sofrer por ver uma rapariga vender-se por um copo ou dois de cerveja.

Nestas e noutras tendas parece que nunca faltou freguesia e o alcool jorrou até nascer o dia. Os rapazes e as raparigas beberam torrencialmente shots atrás de shots (tão baratos, afinal, pois bastava “mostrar as mamas” e deixar o soutien pendurado na tenda para ganharem mais bebidas de borla!), tudo à custa da exposição barata da intimidade do seu corpo. Ou à custa da exibição de beijos entre mulheres, escandalosos beijos pagos a dobrar, pois faziam-se rodas e as bebidas duplicavam se as raparigas beijassem à esquerda e depois à direita, trocando de pares para gáudio dos voyeurs.

Ver rapazes e raparigas embriagados, aos bordos, a dizerem e fazerem coisas estúpidas é degradante. Vê-los em multidão, a pedirem e a consentirem comportamentos bizarros, é alarmante. Sabemos que certas praxes académicas vão ainda mais longe e são muito mais humilhantes do que isto, por não deixarem margem ao livre consentimento e funcionarem em modo submissão, mas não deixa de ser chocante ver estudantes universitários divertirem-se comprando-se e vendendo-se uns aos outros de formas mais ou menos obscenas. E fazerem tudo isto de livre vontade, sem serem obrigados a nada. Só porque sim e porque assim não pagam bebidas.

O efeito manada é perverso e estupidificante. Aliás, só assim se compreende que apesar de individualmente alguns destes alunos de cursos superiores condenarem comportamentos abusivos e serem capazes de participar em manifestações pelos direitos humanos ou assinarem petições públicas contra violações colectivas na Índia, para dar um exemplo recente, possam em noites de muitos copos perder a cabeça e a noção dos limites.

Podem argumentar que a promiscuidade neste tipo de festas é um clássico universitário e só lá vai quem quer, ou quem não se importa de participar, mas não tenho a certeza de que lá estejam só rapazes e raparigas hiper conscientes da sua própria inclinação à devassa. Muito pelo contrário. Nestas Queimas há bilhetes para famílias e estudantes do secundário. Ou seja, podem lá ir pais com filhos e também podem ir adolescentes sozinhos, pois supostamente as Queimas são festas abertas às cidades onde decorrem. Há concertos e acontecimentos culturais, vêm músicos e artistas de outros pontos do país, e tudo isto revela que as Queimas não são festas só para adultos. Muito menos são consideradas festas pornográficas ou orgias colectivas, que também as há por aí, mas para gente que sabe exactamente ao que vai.

Durante e depois da semana da Queima houve queixas e levantaram-se processos. A Polícia Judiciária está a investigar o caso do alegado abuso sexual de uma jovem num autocarro, mais uma situação que envolveu vários estudantes e foi filmada com o mesmo propósito de divulgar nas redes sociais. Este caso já fez correr muita tinta nos jornais, mas ainda ninguém sabe como vai terminar. No meio de tudo isto, ficamos a saber muitas coisas sobre sites e grupos secretos que operam no facebook e foram criados para partilhar conteúdos sexualmente explícitos. As notícias são inquietantes, os vídeos tornam-se virais e todas as raparigas e rapazes que se vêem nos vídeos ficam para sempre reféns destas mesmas imagens. Não há volta a dar. Ninguém saberá nunca a que mãos é que estas imagens vão parar. Nem quando é que vão parar de circular.

Perante esta realidade é impossível não olhar com perplexidade para o cúmulo de excessos, mas também é impossível não nos interrogarmos. Algumas perguntas têm que ficar a fazer eco e a incomodar-nos. Questões sobre quem organiza tudo isto, naturalmente, mas também sobre as relações entre pais e filhos, alunos e professores, amigos e amigas. As famílias já não são o que eram e, por isso, ninguém sabe até que ponto uma rapariga ou um rapaz têm condições para entender o impacto daquilo que estão a viver. Muito menos para fazerem a sua catarse pós-ressaca, no caso de terem consciência do que viveram durante a bebedeira.

Estes rapazes e estas raparigas são jovens e têm um futuro pela frente. Muitos deles virão a ser pais, terão os seus filhos e as suas filhas, e uma das grandes interrogações também passa por saber como agiriam se soubessem que as suas próprias filhas se vendem por um par de shots ou de cervejas. Neste tempo, em que são filhos, entram no jogo e estabelecem os seus valores e preços, mas será que gostariam que a sua filha se prostituísse e fosse filmada enquanto se prostituia? E será que não se angustiariam com o facto de essas imagens ficarem para sempre na net?

24 comentários:

  1. Vivem numa realidade marginal de tudo o que é bom senso. A minha mãe diria: "que tristeza!"

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    1. Queima das fitas, boémia, não é isto, Catarina.
      Isto é pura perversão levada a cabo por jovens desequilibrados.
      Concordo cem por cento com a sua mãe - que tristeza! :(

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  2. E realmente triste ver como os jovens de hoje se comportam, nao tem respeito por si proprios!

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    1. Isto não é boémia, não é espírito académico, Sami.
      É puro deboche.

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  3. Uma triste realidade! Deixa-me com receio da educação, dos cuidados que conseguirei prestar à minha filhota... Espero que seja algo com que nunca me depare, mas... e o MAS é muito grande...
    Beijinhos

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    1. Sou pai de duas filhas que amo mais que a própria vida, Chic'Ana.
      E ainda quero acreditar que a educação, os valores, o exemplo, têm lugar neste Mundo.
      Beijinhos

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  4. Gosto imenso e leio sempre Laurinda Alves.

    Continuo a acreditar que com valores, exemplos, responsabilização, resmas de diálogos com televisões e telélés bem longe, passeios, diversões e sobretudo habituados à palavra NÃO... estão lançados os bons alicerces de uma boa educação.

    Beijocas

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    1. A Laurinda Alves foi colega de curso de uns amigos meus, Fatyly.
      E é uma mulher de armas e uma mulher de valores.

      Também acredito em tudo o que a Fatyly escreve.
      Só as minhas filhas podem dizer se está a ser assim com elas.
      Mas eu julgo sinceramente que sim.

      Beijocas

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  5. E aterrador, ver a que extremos a juventude pode chegar. E é claro que os pais nem imaginam. Eu sei que muitos pais, na ânsia de lhes darem o melhor materialmente esfalfam-se a trabalhar e quase não tem tempo para eles. Mas eles também começam de pequeninos a enganar os pais. Há tempos ia no autocarro e ouvi uma gaiata que não teria mais de 11/12 anos a falar ao telemóvel. Dizia ela a uma pessoa que suponho seria sua amiga.
    "Olha logo à noite a minha mãe vai telefonar para a tua casa. Faz com que a tua mãe não atenda a chamada. É que eu disse à minha que ia dormir a tua casa. Só tens que confirmar, e se a minha mãe pedir para falar comigo, inventa qualquer coisa. Que eu estou no banho, ou que estava com dor de cabeça e já fui dormir"
    Suponho que aquela mãe ficou descansada depois do telefonema.
    Um abraço

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  6. E aterrador, ver a que extremos a juventude pode chegar. E é claro que os pais nem imaginam. Eu sei que muitos pais, na ânsia de lhes darem o melhor materialmente esfalfam-se a trabalhar e quase não tem tempo para eles. Mas eles também começam de pequeninos a enganar os pais. Há tempos ia no autocarro e ouvi uma gaiata que não teria mais de 11/12 anos a falar ao telemóvel. Dizia ela a uma pessoa que suponho seria sua amiga.
    "Olha logo à noite a minha mãe vai telefonar para a tua casa. Faz com que a tua mãe não atenda a chamada. É que eu disse à minha que ia dormir a tua casa. Só tens que confirmar, e se a minha mãe pedir para falar comigo, inventa qualquer coisa. Que eu estou no banho, ou que estava com dor de cabeça e já fui dormir"
    Suponho que aquela mãe ficou descansada depois do telefonema.
    Um abraço

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    1. A minha filha mais nova, é uma das minhas sobrinhas, têm 13 anos, quase 14 (a minha sobrinha faz em Junho, a minha filha em Setembro).
      E ainda são duas garotinhas, duas crianças, que é aquilo que devem ser nesta idade.
      Estão claramente numa fase de transição, mas ainda são duas garotinhas.
      E nem lhes passa pela cabeça recorrer a esquemas desses.
      Até porque os pais, sem sufocar, estão sempre presentes.
      Um abraço

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  7. Lastimável o estado de degradação a que muita gente jovem chegou.

    Assustador o facto de o futuro do país e das gerações seguintes estar nas suas mãos .

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    1. Exactamente o que a Laurinda Alves escreve, São.
      Estes são os pais e as mães de um amanhã que chegará muito em breve.
      Que exemplo estão a dar aos filhos, que legitimidade têm para os repreender, para lhes chamar a atenção??

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  8. Custa-me a acreditar que o que li seja verdade.

    Dois rapazes da minha família no Porto, dizem para eu não acreditar o que os jornais escrevem sobre as praxes, porque não são tanto assim. Eles dizem mesmo, que as praxes são inofensivas. O mais velho estudou Jornalismo e Política.
    O mais novo estuda Matemática.

    Certo é, que no meu tempo não era assim 🤓

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    1. Mas é a mais pura verdade, Teresa.
      Não era assim quando eu estudava, os excessos nunca chegavam a estes extremos, mas infelizmente hoje em dia é mesmo assim.
      Triste, não é?

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  9. Já tinha escrito sobre isto no CR há umas semanas

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  10. Esqueci-me de deixar o link, Pedro
    http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2017/05/as-tuas-mamas-valem-um-shot.html

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    1. Tinha lido no Facebook do Carlos.
      Quando li a crónica da Laurinda Alves foi a primeira coisa que me ocorreu e que comentei com a minha mulher.
      Que tristeza!!

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  11. É uma realidade assustadora, é doloroso ver os jovens de hoje se comportarem dessa promíscua maneira, o amanhã da prole com certeza será ainda pior que o deles, já nascerão trazendo a sequela das drogas. Muito bom esse grito da Laurinda... Parabéns!
    Abraço

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    1. Meus Traços e Linhas,
      Quando estudava havia excessos, havia boémia, disparates.
      mas nunca tive conhecimento que se chegasse a estes pontos.
      Siga o link que o Carlos Barbosa de Oliveira nos deixa e vai ver até que ponto chegou a degradação.
      Abraço

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  12. É degradação juvenil. Mas se não entram na onda são postos de lado pelos seus pares.. Quanto mais obsceno melhor se sentem. Eduque um filho e uma filha tenho 3 netos espero nunca chegar a ver algo semelhante. A mai e ilha com onze espigados anos lá tenta me enganar... Mas a frase vem de sguida :quando tu ias eu já vinha...
    Ainda tenho força suficiente para lhe dar uns arregaços de beiços
    Kis :=)

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    1. Há momentos em que é muito bom ser posto de lado, Avogi.
      Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és, não é?

      Nunca soube o que era apanhar pancada do meu pai.
      A minha mãe algumas vezes enxotou-me as moscas.
      Mas a hipótese esteve sempre presente e eu sabia isso.
      É essa filosofia que sigo com as minhas filhas.

      Bjs

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  13. Dizer que vivemos a falência da família no que respeita à educação e ao respeito pelos outros e por si mesmo, é considerado, hoje por hoje, como algo ultrapassado.
    Parafraseando Daniel Sampaio: são precisos novos pais!, para que se criem novos filhos.
    Porque se nem tudo está perdido (nem todos o estão), há muito trabalho a fazer e de resultados imprevisíveis.
    Grande abraço pah!

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    1. Isto não é boémia, não é praxe, não é tradição.
      É puro deboche.
      E entristece.
      Aquele abraço

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