10 de agosto de 2016

O reino deles por um Califado? O que move árabes, turcos e radicais (Por: José Couto Nogueira)


Sultões há muitos - são como reis. Mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidades sagradas de Meca e Medina. É este título que o ISIS reclama para si e que muitos vêem o presidente turco, Repec Tayyp Erdogan, ambicionar. Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa.

Durante treze séculos, desde a morte do profeta Maomé até à deposição de Abdülmecid II, em 1924, o Islão foi dirigido, pelo menos teoricamente, por um Califa. Agora, no ano muçulmano de 1437, há dois pretendentes ao título. Um deles, Abu Bakr al-Baghadadi, está em Acqua e declarou oficialmente a sua pretensão, alegando pertencer à tribo de Moamé, a única donde pode vir um Califa verdadeiro. O outro, Repec Tayyp Erdogan, está na cidade histórica do Califado Otomano, Istambul. Os turcos são muçulmanos, mas não são árabes, o que levou a que os árabes não aceitassem o Califado Otomano como legítimo.

O ano zero dos muçulmanos é o ano 622 da Era Cristã (calendário Gregoriano), determinado pela ida de Maomé de Meca para Medina. A Hégira - o ano muçulmano - começa e termina em Outubro, mas, fora isso,o ano nos dois calendários tem o mesmo número de dias.

Na Turquia usa-se um cálculo ligeiramente diferente, determinado pelo Presidência dos Assuntos Religiosos (Diyanet İşleri Başkanlığı), que os coloca no ano 1444. São sete anos de diferença para o calendário usado na Arábia Saudita, o Umm al-Qura e que é supostamente o utilizado pelas comunidades islâmicas do resto do mundo, inclusive Estados Unidos. Por este, os muçulmanos estão no ano 1437. 

Como seria de esperar, dado a divisão entre shiitas e sunitas e muitas outras quezílias entre sultões e chefes, esta unicidade de Califado nunca foi, nem é, reconhecida por todos os fiéis. O sultão é um rei e pode haver muitos no mesmo período, conforme os reinos, mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. O primeiro e o segundo califas, sogros de Moamé, foram aceites sem discussão, mas a partir do quarto as coisas complicaram-se. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidadãs sagradas de Meca e Medina. Essa linhagem termina em 1924, quando Kemal Ataturk institui a república laica da Turquia e acaba com todos os cargos e privilégios religiosos. As questões eclesiásticas passaram para um ministério próprio, a tal Presidência dos Assuntos Religiosos, com tutela limitada.

Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa, embora tenha motivos e meios para o fazer. Meca fica no seu território e dinheiro não lhe falta para possuir os atavios do título.

Quem se declarou Califa de pleno direito, em 2012, foi Abu Bakr Al-Baghdadi, o líder do chamado Daesh, ISIS (Islamic State of Iraq and Siria), ou ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), que não pode ser considerado um país completo e estabelecido. A partir da Raqqa controla estradas e cidades na Síria, Iraque e Curdistão, sem fronteiras fixas, no meio dum deserto onde é difícil de estabelecer bases estáveis.

Segundo a filosofia do Daesh, que segue a estirpe salafita wahhabista – o islão mais radical, também seguido pela Arábia Saudita – Al-Bagdadi pertence à tribo Quraysh, o que lhe confere um direito nato de ser Califa. Apenas os doze primeiros califas eram da tribo Quraysh, e os otomanos seriam, nesta versão da história, falsos.

A Al-Qaeda, que anteriormente era considerada a mais radical facção muçulmana, considera que a vitória final dos muçulmanos será num futuro imprevisível (Bin Laden achava que já não seria na vida dele), depois de uma prolongada guerra com os infiéis, sobretudo americanos. O Daesh tem outra filisofia inspirada na interpretação à letra do Corão: o Armagedão, a luta final entre os crentes e os pagãos, vai acontecer em breve, na planície de Raqqa “contra as forças de Roma e de Espanha”. (Como se baseia à letra em textos originais do século VII, a terminologia do Daesh tem este sabor medieval.) Os principais inimigos não são os cristãos ou outras religiões, que podem ser escravizadas, mas sim os shiitas, que devem ser todos massacrados.

É interessante que a Al-Qaeda, que utiliza uma terminologia mais contemporânea e uma praxis mais afinada com as realidades estratégicas do nosso tempo, tenha passado a ser uma organização de homens maduros, antiquada, se comparada com os jovens e os métodos "modernos" do Daesh – redes sociais, propaganda no Youtube –, embora sigam princípios ideológicos mais antiquados. O facto é que os militantes da Al-Qaeda, que pareciam implacáveis há dez anos, foram completamente ultrapassados pela brutalidade inenarrável do Daesh. Além disso a Al-Qaeda continua a recrutar nos países muçulmanos mais carentes, como o Paquistão ou as Filipinas, enquanto o Daesh recruta nos países ocidentais que quer destruir, o que o torna mais imprevisível e letal.

O Daesh seria então o primeiro Califado da era contemporânea e, segundo, eles, o único legítimo depois da linhagem dos treze califas que se extinguiu no século XII. Mas o Califado Otomano também parece prestes a voltar. A mudança da Turquia, de país da NATO, laico e ocidentalizado, para um estado islâmico alinhado com o grande adversário da NATO, a Rússia, está a ocorrer à nossa frente, em tempo real, à medida que Tayyp Erdogan vai modificando as instituições turcas laicas a ataturkianas em estruturas ditatoriais e alinhadas com a sharia. E a Europa, que não tem sabido lidar com a Turquia, mostra-se impotente para impedir esta mudança telúrica, com implicações imprevisíveis e, certamente, terríveis.

Erdogan, que começou a carreira como um politico pró-europeu e democrático, está a passar por um processo de islamização progressiva com a chamada a si de poderes próprios dum Califa, ao mesmo tempo que se aproxima da Federação Russa com uma rapidez inesperada. Conforme o resultado das suas conversações com o amigo Putin, marcadas para uma visita a Moscovo em 8 de Agosto, a Turquia poderá ficar numa situação incompatível com a NATO, ao mesmo tempo que assume a postura tradicional otomana de dirigir, dominar ou prevalecer nos países muçulmanos do Próximo Oriente.

Internamente, com a prisão de toda a oposição e a instituição da pena de morte, pouco distinguirá Erdogan dos sultões do passado. Terá que competir com o Daesh, telecomandado pela Arábia Saudita, pela predominância no mundo árabe e o direito de usar o título de Califa. Essa disputa talvez seja a salvação da Europa. Ou a perdição.

Não deixa de ser interessante, assistir ao vivo a uma grande transformação histórica. O que não é nada tranquilizador é ter novamente um Califa com poder de vida de aplicar a sharia às portas do Continente.

10 comentários:

  1. Uma bela crónica para a compreensao da história. Falta-lhe o papel que o Ocidente vem desempenhando há muito tempo. Quem é a Turquia e quem e Erdogan. Este joga uma grande cartada neste momento, a perfilar-se como candidato aos despojos da guerra. É curiosa a evolução dos acontecimentos na Siria, dos EUA, da Rússia e da Turquia. O DAESH não é mais do que o fantasma de Saddam, um fenómeno transitorio ao serviço da Turquia.
    (escrevi este comentario num sf munusculo e tera asneiras porque nao o revi.)
    Abraço.

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    1. Uma crônica óptima para agitar as águas, Agostinho.
      E as consciências ....
      Aquele abraço

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  2. Excelente texto e tanta História! Soube-me bem ler, aprender e recordar alg. factos importantes.

    Qto ao sultão, k escolham o mais autoritário, pke sempre deu jeito e sempre assim se fez ou quase.

    Em relação ao Armagedão, dia e hora, só Deus sabe, nem mesmo Seu filho, Jesus. Ano? Anda mta gente a fazer contas, mas saem sempre furadas, portanto, o melhor é nem pensar nisso.

    Sou a favor da pena de morte, em determinados casos, noutros, prisão perpétua, portanto, não comungo das preocupações do Prof. José Couto Nogueira.

    Dias felizes, Pedro!

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    1. A minha raiva em muitas situações leva-me a quase concordar com a pena de morte.
      A minha consciência fala mais alto e diz-me que a pena de morte é intolerável e que Portugal, percursor na sua abolição, merece todos os elogios que receba nesse particular.
      Dias felizes, CÉU

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    1. Faz sempre bem reflectir um bocado e questionar o que vamos vendo e ouvindo, Majo.
      Beijinhos

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  4. Tão interessante, quanto preocupante.
    Abraço

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    1. Aqui o outro lado da história, Gábi.
      O lado radical, fanático.

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