3 de março de 2015

Notícias do meu País


Quando Manuel Alegre escreveu a lindíssima "Trova do vento que passa" viviam-se tempos de obscurantismo, de grande convulsão, em Portugal.
Com o País vergado às mãos de uma ditadura implacável, de ditadores brutos e provincianos, Manuel Alegre soube exprimir nos seus versos, cantados divinamente por Adriano Correia de Oliveira, o sentir daqueles que ansiavam por um futuro melhor, liberto das grilhetas do regime fascista e dos seus protagonistas.
Muitas décadas passaram e a poesia de Manuel Alegre mantém uma actualidade perturbante.
Actualidade que se pode constatar no facto de um preso, acusado de delito comum, ser apelidado de preso político, em completo desrespeito por todos aqueles que foram realmente presos políticos, que sofreram todo o tipo de sevícias para que actualmente até o direito ao mais absoluto disparate seja livre.
Que se pode constatar no facto de um Primeiro-Ministro, de públicas virtudes e vícios privados, afirmar de forma absolutamente despudorada que não sabia que tinha, tal como qualquer outro cidadão, a obrigação de liquidar as contribuições devidas à Segurança Social.
Pergunto ao vento que passa, notícias do meu país, e o vento (agora não) cala a desgraça.
A desgraça de confundir um preso político com um político preso, a desgraça de um governante que não sabe admitir, nem tem quem lho explique, que há um momento em que não estão reunidas as condições mínimas para se manter no cargo.
E vejo-me forçado a duvidar da escrita de Manuel Alegre.
A duvidar que haja sempre uma candeia, dentro da própria desgraça.
Porque o que constato é que a noite cresce, dentro dos homens do meu país.
Porque vejo minha pátria parada, à beira de um rio triste, enquanto anseio pelo momento, que se me afigura cada vez mais longínquo,  de ver minha pátria florindo

31 comentários:

  1. ~ Observe bem e encontrará a candeia ... Há sempre uma. ~

    ~ ~ Beijinhos. ~ ~
    ~~~~

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    1. Eu não a vejo, Majo.
      Não é de certeza um actual autarca que, para além das chinesices, parece que também se esqueceu de pagar.......contribuição autárquica.
      Surreal!!
      Beijinhos

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Pedro,

    nem tudo é triste, nem tudo é fado. O nosso País tem as pessoas, na sua maioria, abnegadas, lutadoras, honestas e que fazem de Portugal um país, cada vez mais, bom para se viver, sem sobressaltos, sem atentados, nem guerras, com sol, boa disposição e, repito, com as melhores pessoas do mundo (com excepção dos políticos).

    Aquele abraço e, já agora, uma pergunta esse Manuel Alegre não foi aquele que queimou e pisou a bandeira nacional, símbolo maior de uma Nação, em Argel?

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    1. Ricardo,
      Não me interprete mal - aquilo que costumo conversar com um grande amigo é muito simples e diz tudo acerca do que penso do nosso País.
      Portugal é um país do caraças!
      Que tem tudo de bom.
      O que ainda me faz ficar mais furibundo com um bando de escroques que insiste em dar cabo da minha Pátria.

      Quanto a Manuel Alegre, gosto muito do poeta.
      O político tem muitos telhados de vidro.

      Aquele abraço

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  3. Pedro, para quem viveu a alegria gloriosa e única de ver cair a ditadura em 25 de Abril de 1974, a tristeza e a indignação de assistir impotente à degradação propositadamente levada a efeito por canalhas (peço desculpa, mas não há outro termo) do mais velho país europeu não tem como se exprimir nem tamanho.

    A única certeza que tenho é que mais tarde ou mais cedo , este sistema de capitalismo selvático e de pensamento único onde as pessoas cada vez valem menos e só os interesses de determinadas criaturas contam acabará!

    E acabará , porque o Feudalismo acabou e a escravatura também assim como todos os Impérios ruíram .

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    1. A palavra regeneração, cada vez mais ouvida, faz também cada vez mais sentido, São.
      Estou farto destes bandalhos que têm dado cabo do nosso País.
      E não estou a referir-me só aos que actualmente nos (des)governam.
      Têm sido muitos, e ao longo de muitos anos, que têm destruído Portugal.
      Sabe uma coisa?
      Sendo católico, não lhes consigo perdoar o mal que têm feito.
      O País é muito grande, tem muita História é muita riqueza.
      E vai erguer-se.
      Só não sei quando é com quem.
      Se calhar também eu estou à espera de algum D. Sebastião.......

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  4. O desconhecimento, assim como o esquecimento só são válidos para os políticos. Ainda ontem um vizinha aqui perto que há oito anos comprou a casa onde vive, cuja anterior dona tem uma divida às finanças recebeu uma carta a dizer que estiveram na sua casa para fazer uma penhora, e como não estava ninguém, vão voltar dia 12 e se ninguém lhes abrir a porta a arrombarão e procederão à penhora dos bens. Isto depois de 8 anos de diligências do senhor, que apenas comprou a casa e não tem nada a ver com a anterior dona, nem com as suas dívidas às finanças.
    Comungo do seu lamento.
    Um abraço

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    1. É esse uns e os outros que me tira do sério, Elvira Carvalho.
      Que moral, perante situações como a que descreve, tem um Estado cujos maiores representantes faltam às suas mais elementares obrigações para as exigir dos seus cidadãos??
      Haja vergonha e dignidade, caramba!
      Um abraço

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  5. Parabéns pelo excelente texto, Pedro, que exprime muito , se não tudo, igual ao meu pensar e sentir sobre o que se passa no nosso País.
    "Trova do Vento que Passa" é dos poemas que mais me fizeram e fazem arrepiar, pela emoção que me transmite.
    Já disse e escrevi, mais do que uma vez, que adoro o poeta Manuel Alegre, já o mesmo não posso dizer do político e do homem.
    Também acho uma 'desgraça' que se confunda e misture a prisão de um político, com o facto de se ser preso por motivos políticos!

    E, este nosso jardim à beira-mar plantado, vai caindo de murcho em vez de florir. Para todos os que vivem longe, como é o caso do Pedro, as notícias que vos chegam do nosso País são cada vez mais desanimadoras. O pior, é que já quase sem a esperança de que a candeia se acenda!

    Beijinhos.

    ( Vamos tentar manter a esperança, que alguma luz ilumine este longo e negro percurso)

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    1. Nem mais, Janita - para que vive longe do País, um país que ama, estas coisas doem, revoltam, desgastam, desanimam.
      Vou tentando manter a esperança.
      Mas confesso que se vai desvanecendo dia a dia com estes atentados a que todos assistimos.
      Portugal foi tomado de assalto por um bando de carreiristas, de politiqueiros, que não só não sabem fazer nada na vida como ainda por cima não são sérios nem sabem o que é sentido de responsabilidade.
      Deprime, sinceramente deprime.
      Beijinhos

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    2. Concordo em absoluto com as palavras da nossa amiga JANITA!!!

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    3. Como referi no comentário à Angela, quem vive fora do País sente estas coisas de uma forma muito particular, ematejoca.
      Nem mais, nem menos, que os outros.
      Diferente, será de uma forma diferente.

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  6. Meu caro amigo agradeço-lhe pelo texto que subscrevo na totalidade tal como faço meu o comentário da São. Em Portugal não há consequências de má governação, e quando são chamados a justificarem-se "a culpa" é sempre "do outro".
    Dizem que Mário Soares está chéché. Não sei se está ou não mas ele deveria ser dos primeiros a saber o que é um preso político e a diferença estre este e um preso de delito comum. Mas isto, meu caro, cada um vê o que quer ver né?
    Quero igualmente agradecer-lhe os "post's" anteriores (que só agora tive oportunidade de ver). Fizeram-me enorme bem pela oportunidade que me deu de rir a bom rir e, de algum modo, abstrair-me momentaneamente da realidade.
    1 enorme abraço, grande o necessário para chegar à Taipa!

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    1. Ora aí está um exemplo (há mais) de alguém que devia saber diferenciar um preso político de um político preso, Kok.
      Não sei se José Sócrates é inocente ou culpado.
      Essa é a função do sistema judicial.
      O que sei é que não é um preso político nem nada que se assemelhe a isso.
      Assim como sei que um PM, ainda mais um PM que tantos sacrifícios exigiu à população, não pode manter-se no cargo quando é descoberto um escândalo como aquele que agora conhecemos.

      Às segundas e sextas feiras esquecem-se as agruras e entra-se na palhaçada por estas bandas.
      Nos outros dias, sempre que há hipotese (amanhã há) também se procura a boa disposição.

      Grande abraço desde a Taipa/Macau

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  7. As notícias do nosso País são péssimas, mas ainda me ri, ao ler que o "chéché" considera o José Sócrates como um preso político.

    Abraço de Düsseldorf.

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    1. ematejoca,
      Tem sido uma autêntica peregrinação a Évora para confortar o "preso político".
      Para além de ridículo, é ofensivo para quem realmente foi preso político.
      E foram muitos.
      Incluindo Mário Soares.
      Abraço desde Macau

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  8. Pois é Pedro, para além de subscrever totalmente este teu sério desabafo, de tão real que é...sinto o mesmo em relação ao meu país, porque em Portugal cada vez mais sinto-me "emigrante".

    Nada de desânimos, mas temos comido a fava dura e todos eles o bolo rei...mas um dia a fava encravará e tudo será diferente.

    E são estes tipos que dizem mal dos gregos que estão contra eles? Pois é meu amigo e acredita que surgirá uma "lanterna".

    Beijos sinceros

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    1. Eu quero acreditar que sim Fatyly.
      Já passámos por períodos bem complicados e conseguimos sair de coluna direita.
      Mas, para que essa lanterna apareça, esta cambada de escroques tem que desaparecer de cena.
      Beijinhos

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  9. Assim são os povos sobrevivendo as mais dura provas, um dia alguém nascera para liderar uma nação com virtudes e decência.
    Tenha uma ótima semana.

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    1. É isso o mínimo que se pede, Anajá - decência.
      Que parece ser um conceito cada vez mais alheio a muito boa gente.
      Tenha uma óptima semana também

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  10. Olá Pedro, estamos em tempo de Quaresma?!!
    mas na Páscoa voltamos a cantar Aleluia, a vida é feita de ciclos
    então nós também temos de ver o que fazemos nós próprios,
    e não estar sempre a aguardar que sejam os outros a mudar o mundo,
    haverá sempre injustiças e exploração do homem pelo homem,
    também acreditava em certas utopias e foi o que viu, desde então prefiro olhar para quem faz coisas pelo bem comum por exemplo ou pela cultura,
    e prefiro não passar o tempo a apontar o dedo, pensando que percebo de justiça!! :)
    abraços
    Angela

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    1. A Angela já viveu fora de Portugal, não já?
      Então sabe como é que sentimos estas situações de uma maneira muito especial, como é que nos ofendem e magoam profundamente.
      Podia ficar mudo e quedo.
      Mas não me ia sentir bem, não ia ficar bem.
      Abraços

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  11. Muito oportuna esta evocação de Alegre, Pedro.
    Quano ao resto, como já escrevi, em qualquer país do mundo, democrático e civilizado, um membro do governo que tivesse sido apanhado em evasão contributiva, ter-se-ia demitido. Ou seria demitido.

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    1. A tal decência que já aqui evoquei devia obrigar Passos Coelho a voluntariamente demitir-se de um cargo cujo exercício não é compatível com estes "lapsos de memória" (não vale a pena pensar que vá ser demitido).
      Assim como devia obrigar José Sócrates, através do seu eloquente advogado por exemplo, a esclarecer que não preso político porra nenhuma.

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  12. Tudo isto existe tudo isto é triste tudo isto é fado
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    1. Eu até gosto de fado, Avogi (ouvir Adriano Correia de Oliveira ou Luís Marinho cantar Trova do vento que passa é emocionante).
      Desta música que nos dão é que não gosto nada.
      Beijinhos

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  13. Arrepiei! Estou emocionada com este texto, tal como me emociona o poema "Trova do Vento que Passa" .
    É triste ver o nosso país a degradar-se e ninguém faz nada, os políticos não passam de carreiristas, mentirosos, desonestos.
    Quando é que entendem de uma vez por todas que a maior riqueza de um país é o povo, aquele que estão a tratar como se fossemos ratos.
    É triste, muito.

    Beijinhos Pedro

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    1. Isso mesmo, Adélia - a maior riqueza de um país é o seu povo, aqueles que o amam.
      Não consigo ter o mínimo respeito por esta cambada a que muito bem chama carreiristas, estes politiqueiros (a política é uma actividade nobre, não é este atoleiro).
      Ofende-me que haja tanta gente a passar dificuldades e um chefe do governo tenha o desplante de afirmar que não sabia que tinha que cumprir as suas obrigações para com a Segurança Social.
      Ofende-me que um tipo que é acusado de delito comum (acusado, atenção, ainda não é culpado nem inocente) seja apresentado como preso político.
      Tem razão, Adélia, é mesmo muito triste.
      Beijinhos

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  14. Bravo, Pedro. Excelente maneira de dar notícias deste nosso país.
    Porque é que o "desconhecimento da lei ou a sua má interpretação não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas" e isto é só para alguns?.

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    1. Porque sendo todos iguais há alguns que são mais iguais que os outros, ana.
      George Orwell dixit.
      E não é só aos porcos que se aplica o que ele escreveu.....

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