17 de março de 2015

Mala de cartão in reverse


Foi em 1984 que Linda de Suza deu voz a um certo tipo de emigração que Portugal conhecia há já muitos anos.
Uma emigração de gente com poucas qualificações profissionais, que estava disposta a arriscar tudo, incluindo a própria vida, para escapar das condições de miséria a que parecia irremediavelmente votada.
De lá para cá muito mudou dentro e fora das fronteiras portuguesas.
A emigração, sobretudo nos anos mais recentes, converteu-se numa fuga de quadros qualificados, nos quais o país investiu recursos imensos  para depois irresponsavelmente desperdiçar.
Ouvir o discurso do Presidente da República em França, juntamente com o discurso do Executivo, a par com as medidas de apoio ao regresso daqueles que refizeram as suas vidas longe de Portugal, faz-me pensar num movimento mala de cartão in reverse.
Um movimento que não sei se tem algum fundamento, se tem alguma base de sustentação (os dados económicos que se vão conhecendo parece indicarem o oposto...), ou se é (mais) uma pura manobra pré-eleitoral.
Se o for, sendo grave e irresponsável por parte de governantes que preferem vestir a pele de líderes partidários, será gravíssimo vindo da parte de um Presidente da República que ainda há dias afirmava que não se envolvia em lutas político-partidárias porque estava acima disso (Cavaco Silva esteve sempre, mesmo quando andava em campanha eleitoral, acima das lutas político partidárias).
Eu, emigrante, residente permanente de Macau, que aqui refiz a minha vida há já quase vinte anos, agradeço o optimismo e as mensagens de apelo ao regresso vindas dos governantes portugueses e do Presidente da República.
Mas fico-me pelos agradecimentos.
E por Macau que estou aqui muito bem, obrigado.

32 comentários:

  1. olá Pedro!
    a mala de cartão está um pouco velhota! com os low-costs, as malinhas de agora não se desgastam tanto, sendo que as viagens são mais rápidas do que os "saltos" do outro século,
    sobre as pessoas já não diria o mesmo, é um vai e vem frenético!! mas olha que tenho montes de estrangeiros a trabalhar comigo, na hierarquia de cima e na de baixo e por cá vão andando também com saudades da santa-terrinha deles, uns podem lá ir mais vezes porque ganham mais, outros menos e mais desconfortáveis porque ganham menos,
    não podemos pensar que somos os únicos a ir e vir,
    agora a nível de quem nos governa, temos de nos habituar a andar com pontos de interrogação na cabeça quando eles emitem discursos...
    feliz dia e felicidades também para a linda Macau
    Angela

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Angela,
      O que eu acho piada é que queiram agora atrair as pessoas que ainda muito recentemente foram aconselhadas a emigrar.
      Tenho bons amigos nessa situação, aqui e em Portugal.
      Que emigraram, que tiveram que ficar longe das famílias, para agora se poderem deixar encantar com o canto da sereia dos governantes portugueses que não lhes merecem credibilidade nenhuma.
      Votos de um dia feliz também (esta semana Macau está muito feia, cinzenta, muito húmida)

      Eliminar
  2. A crise dantesca de 80 a 86 provocou essa onda de emigração, A maioria não voltou. A actual...trezentos e tantos mil...seriam demasiado parvos se voltassem, porque os governantes portugueses e os seus possíveis sucessores, pelo menos para mim, não têm qualquer credibilidade.

    Outro fenómeno que ocorre em Portugal são os famosos "concursos" para continuarem um trabalho começado há décadas...quem entra? Os amigos dos amigos, os que têm cunha e sobretudo quem trabalhou 3/4 ou 5 anos lá fora.

    Há Institutos com "provas excelentes dadas, com reconhecimento internacional, com avanços na ciência e tecnologia" mas que se vêm "em papos de aranha" para pagarem a investigadores e não só e assim darem continuidade a um trabalho de excelência.

    No entanto a Fundação Mário Soares que nunca percebi bem o que produz, faz e dá...continua a receber um milhão de euros por ano (se não for mais) só porque sim!!!

    Tenho imensa pena de quem parte, mas actualmente ir apenas com "uma mala de cartão" pode ser grave para não dizer perigoso porque em crise "surgem tantos vendedores da banha da cobra e ou falsos profetas".

    Acredito num futuro melhor...mas jamais nestes moldes impostos freneticamente por uma UE em frangalhos.

    Beijocas e uma boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fui contactado por muita gente, conhecia e não (via Facebook e blogue) disposta a vir para Macau exactamente apenas com a mala de cartão e a família atrás.
      O todos disse que não o fizessem.
      Aventuras dessas, num sítio desconhecido, com um custo de vida elevado, podem revelar-se trágicas.
      Aqueles que aqui estão, que aqui já se instalaram há alguns anos, ainda que muito menos anos que eu, nem sequer lhes passa pela cabeça voltar para Portugal.
      Como dizia um amigo meu, "só me vou embora se baterem nos meus filhos"
      Beijocas, votos de boa semana

      Eliminar
  3. Parece-me que o PR não deseja o regresso dos emigrantes, Pedro, deseja, isso sim, que estes sejam os mensageiros das "boas notícias" em relação ao nosso País (pelo menos, foi assim que vi e ouvi as palavras do PR).

    Quanto ao mais, gosto de Portugal, uns dias mais que outros, porém, também, viveria noutro qualquer país civilizado, meu caro, pois considero-me um cidadão do Mundo.

    Aquele abraço, Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se é isso, Ricardo, o PR demonstra que conhece mal as comunidades de emigrantes portugueses.
      Muitas vezes até em acesas discussões são os portugueses que defendem o País.
      Mesmo nas situações mais complexas.
      Estamos fora mas amamos a Pátria.
      Já quem a tem (des) governado nos últimos anos........
      Aquele abraço

      Eliminar
  4. ~ Fico contente por estar feliz e realizado, bem longe da alçada destes grotescos e insanos teatros de fantoches em que se tornaram os palácios de S.Bento e Belém.

    ~ Os meus jovens familiares emigrados, dois engenheiros e uma gestora, também apenas voltarão para curtas férias.

    ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~
    ~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estou a caminho da minha reforma em Macau, Majo.
      Foi aqui que construí as bases da minha vida familiar, foi esta a terra que me recebeu e adoptou.
      E é aqui que vou continuar.
      Até porque, lamento afirmá-lo mas é o que sinto, saindo estes governantes (e vão sair), não vejo nada de novo e motivador a seguir.
      Oxalá esteja enganado.
      Pelo andar da carruagem também eu só aí vou em férias de dois em dois anos.
      Beijinhos

      Eliminar
  5. Um assunto demasiado sério para os ensaios destes políticos de meia tigela que
    nos (des)governam.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nem mais, Elvira Carvalho - a vida das pessoas é um assunto demasiado sério para ser objecto de jogadas políticas
      Um abraço

      Eliminar
  6. Aparte o "investimento em recursos (uma obrigação de qualquer Estado), que foram (?) desperdiçados" ... acho que o encorajamento para a emigração foi um "gesto" honesto e corajoso e de "visão", dos nossos governantes ! .... A realidade era só uma (sobejamente conhecida e reconhecida) e estava bem visível, fruto das políticas e esbanjamentos da última década e cujo ónus recai agora em "quem tem que fechar a porta" !

    É muito fácil criar uma ilusão de riqueza com o dinheiro dos outros e é muito constrangedor, fruto disso, ter que "apertar o cinto" e resolver o problema das dívidas criadas por outros ! Fatalmente que o resultado não poderia ter sido outro !
    Por outro lado, conheço muito poucos emigrantes que (novos e antigos) que queiram regressar, agora, ou mesmo mais tarde. Sentem-se bem e estão financeiramente bastante melhor que se tivessem cá permanecido ! Diria até, que essa decisão de emigrar foi uma das decisões mais acertadas das suas vidas !
    Claro que agora é demagógico o apelo ao regresso. Não faz qualquer sentido !
    ... O certo é, que a situação (real e previsível) de hoje, já não tem muito a ver com a de há 2 anos em que muitos diziam que não tínhamos qualquer saída !

    Ganhar eleições é a coisa mais fácil do mundo !!! ... Basta estar no "contra" e agrada-se a um país inteiro !... os problemas vêm depois ! ... e os exemplos vêem-se (não só cá, mas) por essa Europa fora !

    Abraço, Pedro ! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Rui,
      Só aqui em Macau há dezenas de profissionais altamente qualificados, e vão continuando a chegar, muito jovens, com uma vida profissional previsivelmente longa, que o País desperdiçou.
      E há muitos mais por outras paragens porque muitos até são meus amigos.
      Depois de essas pessoas terem sido empurradas para fora vem-se agora dizer que já podem voltar porque a tormenta abrandou e até há uns rebuçados para adoçar a boca?????
      Estamos a brincar com a vida das pessoas para obter ganhos políticos???
      Inqualificável!!
      Aquele abraço

      Eliminar
  7. Acho até de nau gosto esse reverse depois do governo ter incitado is jovens a emigrar. Mas então? Primeiro empurram depois puxam, quando a pessoa já tem vida organizada e família constituída? Manobras de um governo descrente nos jovens que não os apoia...
    Dá-me asco ...
    E se numa reviravolta voltarem os enfermeiros engebhwiira médicos e outros que partiram,? Portugal tem espaço para eles? Refiro-me a trabalho...
    E se....os governos dos países acolhedores "mandarem" de volta os estrangeiros? Portugal que se cuide e feche a boca a tamanhas barbaridades que diz. É brincar com as pessoas, é um governo governado por crianças que agora dão e depois tiram
    Kis:>}

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Essa é a questão essencial, AvoGi - se as pessoas regressarem o País oferece condições para as receber??
      Não creio.
      Então como é que se pode incentivar alguém a abandonar uma vida já estabilizada para voltar para o incerto??
      Não dá para entender, muito menos para aceitar.
      Beijinhos

      Eliminar
  8. E que incentivo apresentam para atrair os emigrantes? Não foi há muito tempo que li que o primeiro ministro sugeria a emigração para muitos. Situações/sugestões muito caricatas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há uns rebuçados, Catarina.
      Papas e bolos.
      Espero é que não haja tolos.

      Eliminar
  9. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Folgo saber que você se adaptou plenamente em Macau.
    Caloroso abraço! Saudações adaptadas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver sem véus!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O falecido escritor Henrique de Senna Fernandes resumiu o que eu sinto, Amigo João Paulo de Oliveira - Portugal é a minha Pátria; Macau a minha "Mátria"".
      Grande abraço

      Eliminar
  10. Infelizmente, este é mais um caso de pré-campanha, para não dizer de lirismo político para tentar "remediar" um erro crasso do passado - em que os jovens licenciados foram "empurrados" para a emigração.

    Certo é que perante a falta de perspectivas, de 2011 a 2014 emigraram cerca de 350 mil pessoas - nem todas licenciadas, evidentemente, mas longe da miséria que levava à emigração nos anos 60. Ou seja, se houve "medida" do governo que teve sucesso, esta foi uma delas.

    Agora, um daqueles assessores governamentais quase incógnitos, que esteve mudo e quedo nos últimos 2 anos, resolveu anunciar medidas governamentais para reverter a emigração,com grande pompa e circunstância: quem queira voltar a Portugal deve apresentar um projeto de empresa (ainda não se sabe bem a quem) e poderá ter um subsídio/empréstimo de 10/20 mil euros; como não há bela sem senão, isto é limitado a cerca de 30 ou 40 emigrantes que queiram regressar. Patético, é o mínimo que se me oferece dizer!

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A medida, o rebuçado, é de uma cretinice tal que nem merece comentários e perda de tempo, Teté.
      Dá vontade de dizer onde é que pode ser metida a benesse.
      Mas a boa educação impede-me de o fazer.
      Beijocas

      Eliminar
  11. Pedro, o reformado de Boliqueime está, ainda mais do que o bando Passos /Portas em delírio eleitoral e desde há muitos anos que tomou partido e nunca foi , desde sempre, imparcial.

    Veja-se o discurso aquando da tomada de posse do Governo de Sócrates e todas as manobras sujas que fez.

    Ouça-se o discurso de vitória na segunda vez que parte do "melhor povo do mundo " o colocou em Belém : uma torrente de ódio e fúria.

    Além disso, a criatura fala como os jogadores de futebol costumam falar, o que é uma vergonha vindo de quem vem.

    Primeiro insultam as pessoas e expulsam-nas do país e agora dão (poucas) papas ...tal como o Pedro, espero que não hajam tolos!

    Desculpe o tamanho, sim?

    Tudo de bom

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não peça desculpa, São.
      Comente à vontade.
      Eu é que agradeço a vossa contribuição, os vossos pontos de vista.
      Se for para fazer um monólogo é melhor fechar a loja.

      Dito isto, vamos primeiro ao PR.
      Começa a ser penoso vê-lo constantemente a fazer estas figuras tristes.
      Ensinem-lhe, pelo menos, que não é esperto quem quer.
      Se quer dar uma mãozinha ao partido de que é/não é militante, tem que saber ser esperto, subtil.
      Assim, à força, às claras, e usando os portugueses emigrados para isso, fica-lhe muito mal.

      A medida governamental vai ter o mesmo sucesso que teria a venda de chá quente nas pirâmides no Egipto!!

      Eliminar
  12. Amigo Pedro, este assunto toca-me particularmente pois tenho uma filha que emigrou. Aqui não lhe deram o reconhecimento que onde ela está lhe dão.
    Quando ela veio de férias, perguntei-lhe se tinha tido saudades de Portugal, ela só me disse que de Portugal só tinha tido saudades da família, nada mais..
    Estes incompetentes que nos (des)governam não merecem os jovens que têm e eu lamento não ser mais nova para sair também daqui.

    beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fê,
      Como eu compreendo a sua filha!
      Saudades da família, dos amigos, do sol e da luz em Portugal.
      O resto, sinceramente, nem um bocadinho.
      Pelo contrário, o que quero é distância.
      Beijinhos

      Eliminar
  13. Este programa VEM é de uma hipocrisia confrangedora!!! Ao contrário do amigo Rui lá em cima, achei de uma irresponsabilidade e de um mau gosto incríveis o senhor pm (pedro manuel) mandar o pessoal emigrar.Quando ao sr Cavaco, bom... nem há mais nada a dizer senão que se tem portado como o verdadeiro delegado desta espécie de governo - o que foi ao pote - levando-o ao colo por todo o lado e por todo o sempre. Muito lamentável.

    «É muito fácil criar uma ilusão de riqueza com o dinheiro dos outros» diz o Rui. Pois é, de facto. Mas foi o que o senhor Cavaco fez naqueles inefáveis 10 anos em que foi pm...

    Peço desculpa pelo comentário longo e algo duro - é que nós, aqui, estamos (quase) todos pelos cabelos....

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A Graça e a São a pedirem desculpa por comentarem.
      Eu é que vos agradeço a contribuição, a partilha de pontos de vista, a discussão saudável.

      Quando o PM disse às pessoas para emigrarem, baseado na minha experiência pessoal, afirmei que até poderia ser uma forma de darem um novo rumo às suas vidas e de ficarem com Mundo.
      Agora, que essas vidas estão estabilizadas, que as pessoas estão integradas, que não se vêm melhorias no País (o que me custa escrever isto, caramba!), dizer-lhes que regressem e oferecer-lhes umas migalhas é inqualificável.
      Não pode valer tudo para se conseguir ganhar votos, porra!
      Beijinhos

      Eliminar
  14. Ninguém tem dúvidas ( nem Marques Mendes, imagine-se) de que se trata de eleitoralismo bacoco, à custa dos emigrantes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Carlos,
      Quem quiser ser minimamente isento percebe que é eleitoralismo e do mais baixo e reles possível.
      Custa-me perceber esta gente, acredita?

      Eliminar
  15. Ninguém partiu porque isso lhe tenha sido sugerido nem volta por agora lhe ser pedido!
    Emigraram todos os que viram não ser reconhecido o seu valor e porque não havia lugar aqui para expandirem as suas qualidades profissionais.

    O tempo dos primeiros emigrantes indiferenciados aconteceu há mais de trinta ou quarenta anos. Muitos voltaram depois de se aposentarem e comer o pão que o diabo amassou.
    Esta nova leva de emigração foi/é diferente.
    É a mão de obra especializada que encontrou noutros países espaços para voar. Esses não irão voltar, para já, nem pensar!

    Beijinhos.



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Esses não irão voltar, para já, nem pensar!"

      E volto a citar o meu amigo, Janita - "só se baterem nas minhas filhas".
      Acho que esta frase diz tudo.

      Beijinhos

      Eliminar
  16. Esta nova "cruzada", a do regresso de emigrantes, é para consumo interno. Por razões meramente eleitorais. Os números que se tornaram públicos revelam que a peça que os agentes políticos estão a apresentar é uma farsa!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tragicomédia com a vida das pessoas, Agostinho.
      Inadmissível!!

      Eliminar